Introdução
No estudo anterior desta série examinamos a definição, a origem, a
natureza e algumas das propriedades do perispírito. Vimos que, segundo a
Doutrina Espírita, ele é o envoltório semimaterial do Espírito, formado a
partir do Fluido Cósmico Universal e destinado a estabelecer a ligação entre o
princípio inteligente e o corpo.
Neste terceiro estudo, voltamos nossa atenção para suas funções.
O perispírito não é apresentado pela Doutrina Espírita como um simples
revestimento que acompanha o Espírito. Ele desempenha funções fundamentais
tanto durante a encarnação quanto depois da morte do corpo físico. Está
relacionado à individualidade do Espírito, à sua aparência, à sua ação sobre a
matéria, à transmissão das sensações e à manifestação de sua vontade.
Essa posição intermediária explica sua importância.
O Espírito, considerado em sua essência, não é diretamente apreensível
pelos nossos sentidos. O corpo físico, por sua vez, pertence ao mundo material.
Entre ambos encontra-se o perispírito, que participa da relação do ser
espiritual com o organismo e, em determinadas circunstâncias, da relação do
Espírito desencarnado com o mundo corporal.
Estudar suas funções, portanto, é aprofundar a compreensão da própria
relação entre Espírito e matéria.
PARTE I
- INDIVIDUALIDADE, APARÊNCIA E RELAÇÃO COM O CORPO
1. O perispírito e a individualidade do
Espírito
Uma das funções atribuídas ao perispírito é tornar identificável o
Espírito.
A Doutrina Espírita ensina que a alma conserva sua individualidade
depois da morte. A questão 150 de O Livro dos Espíritos pergunta
expressamente se a alma conserva essa individualidade, e a resposta é
categórica: “Sim; jamais a perde.”
Surge então uma questão natural: se o corpo material desaparece com a
morte, de que maneira a individualidade continua sendo reconhecida?
A resposta apresentada pela Doutrina relaciona essa individualidade ao
perispírito. A alma continua a possuir um fluido que lhe é próprio, haurido na
atmosfera do planeta em que se encontra, e que conserva a aparência de sua
última encarnação.
O perispírito, portanto, não constitui a essência da alma, mas participa
da maneira pela qual o Espírito individualizado se apresenta.
Essa função torna-se ainda mais clara na questão 284 de O Livro dos
Espíritos. Perguntados sobre como os Espíritos, não tendo corpo material,
podem comprovar suas individualidades e distinguir-se uns dos outros, os
Espíritos respondem que o fazem pelo perispírito, que os torna distinguíveis
como o corpo distingue os homens.
Temos, assim, uma primeira função fundamental: o perispírito
contribui para a individualização e identificação do Espírito.
Isso também ajuda a compreender por que a morte do corpo físico não
representa o desaparecimento da personalidade espiritual.
O corpo se desfaz, mas o Espírito continua sendo ele mesmo.
2. O perispírito como elemento de definição do
Espírito
A individualidade espiritual não deve ser confundida com a aparência
perispiritual.
O Espírito é o princípio inteligente individualizado; o perispírito é
seu envoltório fluídico.
Em O que é o Espiritismo, ao estabelecer a distinção entre alma,
Espírito e Homem, a Codificação apresenta a alma como princípio inteligente, o
Espírito como o ser formado por esse princípio e seu envoltório fluídico, e o
Homem como resultado da união da alma, do perispírito e do corpo material.
Essa distinção é importante porque impede que atribuamos ao perispírito
aquilo que pertence à inteligência.
O perispírito não pensa por si mesmo.
Ele não é a consciência moral, não é a vontade e não é o princípio
inteligente. Sua função é instrumental e intermediária.
Por meio dele, entretanto, o Espírito deixa de ser, para nós, um ser
puramente abstrato e passa a apresentar-se de maneira definida e apreensível
pelo pensamento.
É nesse sentido que A Gênese afirma que o envoltório fluídico
torna o Espírito um ser concreto, definido e apreensível pelo pensamento.
O perispírito, portanto, não cria a individualidade espiritual, mas
fornece ao Espírito um envoltório que expressa e torna perceptível sua
individualidade.
3. A aparência do Espírito
Outra função importante do perispírito está relacionada à aparência.
Depois da morte, o Espírito não permanece como uma inteligência sem
forma. Conserva seu envoltório perispiritual, que normalmente apresenta forma
humana e pode reproduzir aspectos relacionados à sua existência corporal.
A Revista Espírita de janeiro de 1859, ao tratar das aparições e
dos retratos dos Espíritos, destaca a natureza essencialmente flexível do
perispírito. Essa flexibilidade permite modificações determinadas pelo próprio
Espírito.
A aparência perispiritual, portanto, não deve ser entendida como uma
reprodução absolutamente rígida do corpo que ficou na Terra.
Nos primeiros momentos depois da morte, quando ainda existe maior
ligação entre a existência que terminou e a nova condição espiritual, a
semelhança com o corpo pode ser mais acentuada. À medida que o desprendimento
se completa, essa similitude pode diminuir.
Isso permite compreender também por que manifestações espirituais podem
apresentar características diferentes da aparência física que o Espírito
possuía durante a última encarnação.
O perispírito conserva a individualidade, mas sua natureza fluídica lhe
confere possibilidades que o corpo material não possui.
4. O perispírito como intermediário entre
Espírito e corpo
Durante a encarnação, uma de suas funções essenciais é estabelecer a
ligação entre o Espírito e o organismo.
A Gênese, no capítulo XI, explica que, pela sua
essência espiritual, o Espírito não pode atuar diretamente sobre a matéria.
Necessita de um intermediário: o envoltório fluídico denominado perispírito.
O perispírito constitui, assim, o traço de união entre o Espírito e a
matéria.
Enquanto o Espírito está unido ao corpo, o perispírito serve de veículo
ao pensamento. Por seu intermédio, a vontade pode transmitir movimento às
diferentes partes do organismo, enquanto as sensações produzidas pelos agentes
exteriores repercutem no Espírito.
Podemos representar essa relação de maneira simples:
Espírito → perispírito → organismo
e, no sentido inverso:
organismo → perispírito → Espírito.
Essa dupla função é fundamental para compreender a unidade entre a vida
espiritual e a vida corporal.
O corpo não pensa por si mesmo segundo a concepção espírita, assim como
o perispírito não pensa. O princípio inteligente é o Espírito. O organismo e o
perispírito participam, cada qual segundo sua natureza e função, da
manifestação desse princípio durante a encarnação.
PARTE II
- TRANSMISSÃO, PERCEPÇÃO E MANIFESTAÇÃO
5. O perispírito como veículo do pensamento
A função intermediária do perispírito está diretamente relacionada à
manifestação do pensamento.
Segundo O Livro dos Médiuns, o pensamento é atributo do Espírito.
Sua ação sobre a matéria, entretanto, exige condições intermediárias que
permitam essa ação.
Durante a encarnação, o perispírito participa dessa transmissão.
Quando o Espírito quer movimentar o corpo, a vontade produz uma ação que
chega aos órgãos por intermédio do envoltório perispiritual. Da mesma maneira,
quando o organismo recebe uma impressão exterior, essa impressão é transmitida
ao Espírito por intermédio do mesmo envoltório.
O perispírito funciona, portanto, em duas direções.
Ele participa da exteriorização da vontade e da interiorização das
sensações.
Essa função ajuda a compreender por que a Doutrina Espírita não
considera o Espírito e o corpo como elementos isolados. Existe entre eles um
mecanismo intermediário que permite a interação.
6. O perispírito e as sensações
As sensações também estão entre as funções que permitem compreender a
importância do perispírito.
O corpo físico entra em contato com o mundo material por meio dos órgãos
dos sentidos. Mas a sensação, enquanto experiência do ser espiritual, não
pertence simplesmente ao órgão material.
O organismo recebe a impressão; o perispírito participa da transmissão;
e o Espírito experimenta a sensação.
Essa concepção torna mais compreensível a continuidade da capacidade de
percepção depois da morte.
Se o corpo fosse a própria sede da sensibilidade espiritual, a morte
física significaria necessariamente o fim de toda percepção. Entretanto,
segundo a Doutrina Espírita, o Espírito conserva seu perispírito e, por meio
dele, continua capaz de perceber.
Isso não significa que as sensações do Espírito desencarnado sejam
necessariamente idênticas às experimentadas pelo Homem encarnado. A própria
Codificação distingue as condições da existência espiritual das condições da
vida corporal.
O ponto essencial é outro: a capacidade de sentir não desaparece com
o corpo porque não depende exclusivamente dele.
7. O perispírito nas manifestações espirituais
A existência do perispírito também fornece uma base para compreender as
manifestações dos Espíritos.
Nas manifestações, não é a alma desprovida de envoltório que se
apresenta aos nossos sentidos. É o Espírito revestido de seu corpo fluídico.
A Revista Espírita de dezembro de 1862 explica que o perispírito
é o intermediário necessário por meio do qual a alma atua sobre a matéria
compacta. Nas aparições, portanto, aquilo que pode ser visto não é o pensamento
ou a inteligência em si, mas o ser espiritual revestido de seu envoltório.
Essa distinção é fundamental.
Quando vemos um homem, não vemos diretamente seu pensamento, sua vontade
ou o princípio inteligente que o faz agir. Vemos seu corpo.
De maneira análoga, nas manifestações espirituais, quando o Espírito se
torna perceptível, aquilo que se apresenta é seu perispírito.
Isso também explica por que determinadas manifestações podem conservar a
aparência humana.
O perispírito desempenha, nesse caso, uma função de exteriorização da
individualidade espiritual.
8. O perispírito e a conservação da forma
A forma perispiritual também explica fenômenos que não poderiam ser
compreendidos apenas pela aparência do corpo físico.
Na Revista Espírita de janeiro de 1866, um relato envolvendo a
percepção do envoltório fluídico mostra que determinadas faculdades podem
permitir a percepção do perispírito independentemente das modificações sofridas
pelo corpo.
A observação mencionada é particularmente significativa: quando um corpo
apresenta mutilações ou os efeitos naturais do tempo, a percepção do envoltório
fluídico pode conservar a integridade da forma.
Isso não significa que devamos transformar uma observação mediúnica em
uma teoria anatômica completa do perispírito.
O que podemos afirmar, dentro dos limites da fonte, é que a Doutrina
Espírita atribui ao perispírito uma forma própria e reconhece nele propriedades
que não dependem integralmente das condições atuais do corpo físico.
É justamente aqui que a distinção entre constatação e interpretação
se torna importante.
O fenômeno pode indicar uma propriedade; sua explicação completa exige
investigação.
9. O perispírito depois da morte
Uma das funções mais importantes do perispírito é assegurar a
continuidade da individualidade espiritual após a morte do corpo.
Com a desencarnação, o corpo material deixa de exercer sua função, mas o
Espírito conserva seu envoltório fluídico.
Isso permite compreender por que o ser espiritual continua sendo
identificável, conserva sua forma e pode relacionar-se com outros Espíritos.
O perispírito passa, então, a exercer funções que durante a encarnação
estavam relacionadas principalmente à ligação com o organismo.
Na existência espiritual, continua sendo o envoltório do Espírito e o
instrumento por meio do qual ele se manifesta.
Desse modo, o perispírito não é apenas um elemento necessário à
encarnação. Ele acompanha o Espírito em sua existência espiritual, embora suas
relações com a matéria se modifiquem conforme a condição em que o Espírito se
encontra.
10. Uma função que reúne as demais
Consideradas em conjunto, as funções estudadas revelam uma
característica fundamental do perispírito: sua posição intermediária.
Ele participa da individualização sem ser a inteligência.
Relaciona-se com a aparência sem ser o Espírito.
Liga o Espírito ao corpo sem ser o organismo.
Transmite a vontade sem ser a vontade.
Recebe e conduz as sensações sem ser a consciência que as experimenta.
Participa das manifestações materiais sem constituir a essência
espiritual.
É justamente essa posição intermediária que permite compreender sua
importância.
Por isso, reduzir o perispírito a uma espécie de “corpo espiritual” sem
investigar suas funções seria insuficiente. A expressão pode ajudar a
visualizar sua condição de envoltório, mas não explica toda a complexidade das
relações que a Codificação estabelece entre Espírito, perispírito e corpo.
Ao mesmo tempo, não devemos preencher aquilo que permanece desconhecido
com explicações que as fontes não oferecem.
A Doutrina Espírita permite conhecer diversas funções do perispírito,
mas não significa que todos os mecanismos pelos quais essas funções se realizam
estejam completamente explicados.
Essa distinção é essencial para que o estudo permaneça racional.
REFLEXÃO
FINAL
O estudo das funções do perispírito mostra que sua importância vai muito
além da ideia de um simples envoltório.
É por meio dele que o Espírito individualizado conserva uma forma que
permite reconhecê-lo.
É por meio dele que, durante a encarnação, se estabelece a ligação entre
o princípio inteligente e o organismo.
É por meio dele que a vontade participa da movimentação do corpo e que
as impressões recebidas pelo organismo podem repercutir no Espírito.
É também por meio dele que o Espírito pode manifestar-se aos encarnados
em determinadas circunstâncias.
Assim, o perispírito ocupa uma posição singular entre a espiritualidade
e a matéria.
Ele não é o Espírito, mas está ligado ao Espírito.
Não é o corpo, mas está ligado ao corpo.
Não é a inteligência, mas participa da manifestação da inteligência.
Não é a consciência, mas participa da transmissão das experiências que
chegam à consciência.
Essa condição intermediária ajuda a compreender uma das ideias centrais
da Doutrina Espírita: o ser humano não se reduz ao corpo físico.
Ao mesmo tempo, o estudo do perispírito ensina uma lição de método.
Conhecer algumas de suas funções não significa conhecer integralmente
sua natureza íntima. Podemos estabelecer relações, observar efeitos,
identificar propriedades e compreender determinadas funções sem, por isso,
considerar encerrada a investigação.
O conhecimento espírita, quando fiel ao seu método, não precisa escolher
entre afirmar tudo ou nada afirmar.
Pode reconhecer aquilo que as observações e os ensinamentos permitem
estabelecer e, diante do que permanece desconhecido, continuar investigando.
No estudo do perispírito, essa atitude é particularmente necessária.
Quanto mais conhecemos suas funções, mais percebemos a importância desse
envoltório na relação entre Espírito e matéria — e também mais claramente
podemos reconhecer quanto ainda existe para ser estudado.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 150, 150-a, 150-b e 284.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Primeira Parte, capítulo II. Segunda Parte, capítulos I e VI.
- KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo XI, item 17.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Capítulo II, itens 9, 10 e 14.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Ano II, janeiro de 1859.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Ano V, dezembro de 1862.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Ano VII, maio de 1864.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Ano IX, janeiro de 1866.
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