Introdução
Se o perispírito estabelece a ligação entre o Espírito e o corpo, uma
consequência importante dessa função é sua participação nos processos de
comunicação entre o mundo espiritual e o mundo material.
Mas o que significa, exatamente, afirmar que o perispírito é princípio
das comunicações?
A expressão não deve ser entendida como se o perispírito fosse a origem
da inteligência, do pensamento ou da vontade. Essas faculdades pertencem ao
Espírito. O perispírito é o envoltório semimaterial que permite a transmissão e
a manifestação dessas faculdades nas relações do Espírito com a matéria.
A Doutrina Espírita apresenta o Espírito como um ser inteligente, cuja
natureza não é diretamente acessível aos nossos sentidos corporais. Para
relacionar-se com a matéria, necessita de um intermediário. Esse intermediário
é o perispírito.
Em A Gênese, ao explicar a ação do Espírito sobre o corpo, a
Codificação esclarece que o Espírito, por sua natureza espiritual, não pode
agir diretamente sobre a matéria. Necessita de um envoltório fluídico que
estabeleça essa relação. O perispírito constitui, assim, o traço de união entre
o Espírito e o corpo.
Essa função ajuda a compreender tanto fenômenos da vida encarnada quanto
as manifestações dos Espíritos desencarnados.
Nas comunicações mediúnicas, por exemplo, o pensamento do Espírito
precisa encontrar meios de transmissão e manifestação. O perispírito participa
desse processo, funcionando como veículo ou intermediário entre a
individualidade espiritual e os recursos materiais colocados à sua disposição.
Estudar essa função é, portanto, aprofundar uma das relações
fundamentais da Doutrina Espírita: a relação entre Espírito, perispírito e
matéria.
PARTE I
— O INTERMEDIÁRIO ENTRE O ESPÍRITO E A MATÉRIA
1. O Espírito e a matéria: duas realidades
distintas
A Doutrina Espírita estabelece uma distinção fundamental entre Espírito
e matéria.
Em O Livro dos Espíritos, aprendemos que Espírito e matéria podem
ser concebidos separadamente. O espírito é o princípio inteligente; a matéria
constitui um dos elementos fundamentais da criação.
Essa distinção não significa, entretanto, que ambos permaneçam isolados.
A própria existência corporal demonstra o contrário.
O Espírito encarnado encontra-se ligado ao corpo por intermédio do
perispírito. A existência humana, nesse sentido, constitui uma condição
particular em que o princípio inteligente se manifesta por meio de um organismo
material.
O problema que surge é compreender como uma realidade de natureza
espiritual pode relacionar-se com uma realidade material.
É precisamente nesse ponto que o perispírito assume importância.
Ele não elimina a diferença entre Espírito e matéria. Ao contrário,
estabelece uma ligação funcional entre realidades diferentes.
Por isso, falar do perispírito como princípio das comunicações é, antes
de tudo, reconhecer sua função intermediária.
2. O perispírito como intermediário
Em A Gênese, capítulo XI, item 17, encontramos uma explicação
fundamental para essa relação.
O Espírito, considerado em sua essência, é apresentado como um ser
indefinido e abstrato para os nossos sentidos. Para poder agir sobre a matéria,
necessita de um intermediário: seu envoltório fluídico, o perispírito.
Essa afirmação oferece uma chave para compreender diversos fenômenos.
O perispírito torna possível a relação entre o Espírito e o organismo
durante a encarnação e, depois da desencarnação, continua sendo o envoltório
por meio do qual o Espírito conserva sua individualidade e pode atuar sobre a
matéria em determinadas circunstâncias.
Não se trata, portanto, de um simples revestimento sem função.
O perispírito participa ativamente da relação entre os dois planos de
existência considerados pela Doutrina Espírita.
É por meio dele que o pensamento pode ser transmitido ao organismo, que
a vontade pode produzir movimentos corporais e que as impressões recebidas pelo
corpo podem alcançar o Espírito.
Podemos representar essa relação de maneira simplificada:
Espírito → perispírito → corpo
e, no sentido inverso:
corpo → perispírito → Espírito.
Essa representação não pretende descrever um mecanismo físico já
conhecido pela ciência contemporânea. Ela apenas expressa, de maneira
esquemática, a relação apresentada pela Codificação.
3. O perispírito é veículo, não fonte do
pensamento
Uma distinção merece atenção especial.
O perispírito participa da transmissão do pensamento, mas não é o
pensamento.
Em A Gênese, capítulo II, item 23, o fluido perispirítico é
apresentado como matéria e, portanto, não inteligente em si mesmo. Entretanto,
serve de veículo ao pensamento, às sensações e às percepções do Espírito.
Essa distinção impede uma interpretação equivocada.
Se o perispírito transmite o pensamento, isso não significa que ele
pense.
Se transmite a vontade, isso não significa que possua vontade própria.
Se participa das sensações, isso não significa que seja o ser
consciente.
A inteligência permanece no Espírito.
O perispírito exerce uma função intermediária.
Essa diferença é essencial porque, caso contrário, poderíamos substituir
simplesmente o materialismo por outro equívoco: atribuir ao perispírito aquilo
que a Doutrina atribui ao Espírito.
O modelo espírita é mais complexo.
O Espírito é o ser inteligente. O perispírito é seu envoltório
semimaterial e veículo de relação. O corpo é o instrumento material da
manifestação durante a encarnação.
4. A comunicação começa antes da mediunidade
Quando se fala em “comunicação espírita”, é comum pensar imediatamente
nas reuniões mediúnicas.
Entretanto, a função do perispírito como intermediário é mais ampla.
Durante a vida corporal, o próprio funcionamento do organismo envolve
uma relação contínua entre Espírito, perispírito e corpo.
O pensamento determina a vontade; a vontade movimenta o organismo; os
sentidos recebem impressões do mundo exterior; essas impressões alcançam o
Espírito por intermédio do perispírito.
Nesse sentido, existe uma comunicação permanente entre o ser espiritual
e o organismo.
A comunicação mediúnica representa uma situação particular dessa
capacidade de relação.
O Espírito desencarnado, não dispondo de um organismo físico próprio,
necessita de condições que permitam exteriorizar seu pensamento no mundo
material. É nesse contexto que o perispírito e os fluidos assumem papel
essencial.
A mediunidade não cria a função do perispírito.
Ela utiliza, em determinadas circunstâncias, propriedades que fazem
parte de sua função de intermediário.
Essa distinção ajuda a compreender por que o estudo do perispírito não
pode ser reduzido ao estudo dos médiuns.
5. O princípio das comunicações mediúnicas
O Livro dos Médiuns desenvolve extensamente os mecanismos das
manifestações espíritas.
A obra mostra que a comunicação não deve ser entendida como uma
transmissão puramente mecânica de palavras de um Espírito para uma pessoa.
Há uma relação entre os fluidos do Espírito e os do médium, além da
participação das faculdades, disposições e condições do próprio médium.
A manifestação pode ocorrer de diferentes maneiras.
O Espírito pode influenciar o pensamento do médium, utilizar sua mão na
escrita, produzir efeitos sobre os órgãos da fala ou, em determinadas
circunstâncias, atuar sobre objetos materiais.
Em todos esses casos, a questão central é a relação entre uma
individualidade espiritual e os meios materiais disponíveis para sua
manifestação.
É justamente essa relação que torna o perispírito tão importante.
Ele constitui o elemento intermediário pelo qual o Espírito pode
estabelecer determinadas relações com o médium e com a matéria.
Por isso, a compreensão dos fenômenos mediúnicos exige o estudo conjunto
de Espírito, perispírito, fluidos, médium e condições do fenômeno.
Isolar apenas um desses elementos tende a produzir explicações
incompletas.
PARTE II
— O PERISPÍRITO NAS DIFERENTES FORMAS DE COMUNICAÇÃO
6. O pensamento como elemento fundamental
Toda comunicação pressupõe algo a ser comunicado.
No caso dos Espíritos, esse elemento fundamental é o pensamento.
A Doutrina Espírita apresenta o pensamento como uma força de ação
espiritual que pode ser transmitida e percebida por diferentes meios.
O perispírito participa dessa transmissão porque funciona como veículo
do pensamento.
Essa característica ajuda a compreender fenômenos nos quais não existe
necessariamente uma palavra pronunciada.
Uma ideia pode ser transmitida.
Uma impressão pode ser percebida.
Uma vontade pode produzir determinado efeito.
Em certos fenômenos mediúnicos, o médium recebe a influência do Espírito
antes mesmo de conseguir traduzi-la em palavras.
A comunicação, portanto, não começa necessariamente pela linguagem.
A linguagem é uma forma de exteriorização do pensamento.
O pensamento é anterior.
E o perispírito participa justamente dessa passagem entre a
individualidade espiritual e os meios pelos quais o pensamento pode ser
manifestado.
7. Comunicação por influência sobre o
pensamento
Nem toda comunicação espírita precisa resultar em escrita, fala ou
fenômeno ostensivo.
O Livro dos Médiuns mostra que existem formas de influência nas
quais o Espírito atua sobre o pensamento do médium.
Essa modalidade exige cuidado na análise porque o pensamento do próprio
médium também participa do processo.
É justamente por isso que a comunicação mediúnica não deve ser
confundida automaticamente com uma reprodução literal do pensamento de um
Espírito.
O médium possui sua própria individualidade, seus conhecimentos, sua
linguagem e suas características psicológicas.
A manifestação passa, portanto, por um instrumento humano.
Essa constatação não invalida a comunicação.
Apenas mostra que ela precisa ser examinada com critério.
O próprio desenvolvimento do Espiritismo exigiu que os fenômenos fossem
estudados por meio da observação, comparação e análise, em vez de serem aceitos
indiscriminadamente.
Assim, o perispírito explica a possibilidade da relação, mas não
garante, sozinho, a autenticidade de toda mensagem atribuída a um Espírito.
Essa diferença é fundamental.
8. A comunicação pela escrita e pela palavra
Na psicografia, o pensamento do Espírito encontra na mão, no braço e no
organismo do médium instrumentos para sua manifestação.
Na psicofonia, a palavra e os órgãos vocais fornecem outro meio de
exteriorização.
Em ambos os casos, o princípio geral permanece: o Espírito comunica o
pensamento; o perispírito participa da transmissão; o organismo do médium
fornece os instrumentos materiais da manifestação.
O fenômeno pode assumir diferentes características conforme a modalidade
mediúnica e as condições do médium.
Em alguns casos, a influência parece mais direta.
Em outros, existe maior participação consciente ou semiconsciente do
médium.
Por isso, a classificação das manifestações não deve ser transformada em
uma fórmula rígida para todos os fenômenos.
O estudo espírita procura justamente observar as diferenças.
9. O perispírito e os efeitos sobre a matéria
A função intermediária do perispírito torna-se ainda mais evidente nos
chamados fenômenos de efeitos físicos.
A Doutrina Espírita sustenta que Espíritos podem produzir determinados
efeitos materiais mediante a ação sobre os fluidos e por intermédio do
perispírito.
Em O Livro dos Médiuns, capítulo IV, item 74, por exemplo,
encontramos a descrição de respostas relacionadas à ação dos Espíritos sobre a
matéria.
Em outros capítulos da obra, especialmente ao tratar das manifestações
físicas e da mediunidade, são examinadas situações nas quais objetos podem ser
movimentados, ruídos produzidos e outros efeitos observados.
Não devemos, entretanto, transportar essas descrições diretamente para
uma linguagem da física contemporânea.
Os conceitos de “fluido”, “matéria sutil” e “perispírito” pertencem ao
quadro conceitual em que a Doutrina Espírita desenvolveu sua investigação no
século XIX. Eles não devem ser automaticamente identificados com campos,
partículas ou entidades descritas pela física atual.
A aproximação pode ser objeto de estudo.
A identificação, porém, exigiria demonstração.
Essa distinção preserva tanto o rigor doutrinário quanto o rigor
científico.
10. O médium como instrumento da comunicação
Se o perispírito é o intermediário espiritual, o médium é, em
determinados fenômenos, o instrumento humano por meio do qual a comunicação se
manifesta.
O Livro dos Médiuns mostra que a faculdade mediúnica apresenta
diferentes formas e graus de desenvolvimento.
Não existe, portanto, um único modelo de comunicação.
Há médiuns escreventes, falantes, videntes, audientes e aqueles
destinados a diferentes modalidades de manifestação.
O perispírito participa dessas relações, mas a forma concreta da
comunicação depende também das características do médium e das condições do
fenômeno.
Isso explica por que duas comunicações atribuídas ao mesmo Espírito
podem apresentar diferenças de linguagem, intensidade ou forma.
A manifestação passa por um intermediário humano.
Esse fato exige discernimento.
A mensagem não deve ser aceita apenas porque foi recebida
mediunicamente.
Seu conteúdo deve ser analisado.
A própria metodologia espírita recomenda comparação e exame racional.
A origem atribuída a uma comunicação não dispensa a análise de seu
conteúdo.
11. O perispírito como elo entre dois mundos
Podemos agora compreender melhor por que a Doutrina Espírita atribui ao
perispírito uma posição tão importante.
Ele acompanha o Espírito.
É formado a partir do Fluido Cósmico Universal, segundo as condições
próprias de cada mundo.
Liga o Espírito ao corpo durante a encarnação.
Serve de veículo ao pensamento.
Transmite ao organismo a ação da vontade.
Recebe e transmite as impressões corporais.
E, nas manifestações espirituais, participa da relação do Espírito
desencarnado com os seres encarnados e com a matéria.
Por isso, o perispírito pode ser considerado um elo entre o mundo
espiritual e o mundo material.
Mas é importante compreender o sentido dessa expressão.
Não se trata necessariamente de dois universos absolutamente separados
por uma barreira.
A Doutrina Espírita apresenta os dois mundos como realidades distintas,
porém relacionadas.
A interação ocorre continuamente.
A encarnação é uma das formas mais evidentes dessa relação.
A mediunidade constitui outra.
Os fenômenos de efeitos físicos constituem outra possibilidade estudada
pelo Espiritismo.
O perispírito participa dessas relações justamente por ocupar uma
posição intermediária.
12. O que a Doutrina afirma e o que permanece
em investigação
O estudo das comunicações também mostra os limites atuais do
conhecimento.
A Doutrina Espírita identifica o papel do perispírito, descreve
propriedades dos fluidos e estabelece relações entre pensamento, perispírito,
médium e matéria.
Entretanto, isso não significa que conheçamos todos os mecanismos
envolvidos.
Como ocorre exatamente a transmissão de um pensamento?
De que maneira os fluidos perispiríticos interagem?
Como uma influência espiritual se transforma em movimento muscular?
Como determinados efeitos materiais são produzidos?
Qual é a natureza íntima do perispírito?
Essas questões não podem ser preenchidas simplesmente com palavras.
Dizer “é o fluido” não explica o mecanismo.
Dizer “é o perispírito” também não explica como o fenômeno ocorre.
Uma explicação doutrinária pode identificar o elemento intermediário
sem, necessariamente, descrever todos os processos pelos quais ele exerce sua
função.
Essa diferença é essencial para uma investigação responsável.
O método espírita não exige que tudo seja explicado imediatamente. Exige
observação, comparação, análise e raciocínio.
Quando uma explicação permanece incompleta, isso não significa que o
fenômeno seja inexistente.
Significa que existe uma distância entre constatar uma relação e compreender
integralmente seu mecanismo.
É justamente nessa distância que a investigação pode continuar.
REFLEXÃO FINAL
O perispírito, considerado como princípio das comunicações, permite
compreender uma das ideias centrais da Doutrina Espírita: o Espírito não
atua diretamente sobre a matéria grosseira; necessita de um intermediário que
estabeleça essa relação.
Esse intermediário é o perispírito.
Ele não pensa, mas transmite o pensamento.
Não possui vontade própria, mas participa da manifestação da vontade.
Não é a consciência, mas participa da transmissão das sensações e
percepções.
Não é o corpo, mas estabelece com ele uma relação indispensável durante
a encarnação.
E não é o médium, mas participa dos processos pelos quais um Espírito
desencarnado pode manifestar-se através de um médium.
Essa posição intermediária explica sua importância.
Nas comunicações mediúnicas, o Espírito comunicante transmite seu
pensamento por irradiação; os perispíritos do Espírito e do médium participam
do processo por meio da ação recíproca dos fluidos, enquanto o médium, conforme
a natureza da faculdade, oferece seus recursos orgânicos e psíquicos à
manifestação.
Por isso, uma comunicação mediúnica não deve ser avaliada apenas pela
sua origem atribuída.
Seu conteúdo também precisa ser examinado.
A Doutrina Espírita não propõe que a mediunidade substitua a razão. Ao
contrário, o próprio método pelo qual os fenômenos foram estudados exige
observação, comparação e análise.
O estudo do perispírito conduz, assim, a uma conclusão que ultrapassa a
simples explicação dos fenômenos mediúnicos.
Ele nos apresenta uma concepção na qual o mundo espiritual e o mundo
material não estão isolados, mas relacionados por processos que ainda não
compreendemos integralmente.
Conhecer o intermediário é um passo importante.
Compreender completamente como ele exerce suas funções é outro.
E entre uma coisa e outra permanece o espaço legítimo da investigação.
É nesse espaço que a Doutrina Espírita conserva seu caráter de estudo:
não como um sistema que pretende ter encerrado todas as questões, mas como um
conhecimento que procura compreender os fenômenos espirituais pela observação,
pela comparação, pelo raciocínio e pela experiência.
O perispírito, nesse contexto, não é apenas um conceito destinado a
explicar a mediunidade.
É uma peça fundamental para compreender como o Espírito se relaciona
com a matéria, como o pensamento pode manifestar-se e como a comunicação entre
diferentes condições de existência pode tornar-se possível.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- O Livro dos Espíritos — Introdução; questões 93 e 94; 249 e 249-a; questão 257, “Ensaio teórico sobre a sensação nos Espíritos”.
- O Livro dos Médiuns — Segunda Parte, capítulo I, itens 54 e 58; capítulo IV, item 74; capítulo VI, item 100; capítulo VI, item 109; capítulo XVII, itens 203, 209 e 220; capítulo XXII, item 236, § 5º.
- A Gênese — capítulo II, item 23; capítulo XI, item 17; capítulo XIV, item 7.
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