Do
perispírito à pureza espiritual — do átomo ao arcanjo
Introdução
Entre os antigos ensinamentos sobre a vida após a morte, alguns chamam
particularmente a atenção quando examinados à luz da Doutrina Espírita. Entre
eles estão as palavras de Paulo sobre a ressurreição e sua distinção entre o corpo
natural e o corpo espiritual.
Na Primeira Epístola aos Coríntios, Paulo pergunta como ressuscitarão os
mortos e com que corpo retornarão. Em seguida, utilizando a comparação com a
semente, estabelece uma distinção entre aquilo que é semeado e aquilo que
ressuscita: “semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual”. E
acrescenta: “há corpo natural, e há também corpo espiritual” (1 Coríntios
15:35-44).
Essa concepção ganha especial significado quando relacionada ao que a
Doutrina Espírita posteriormente esclareceu sobre o perispírito.
Em A Gênese, capítulo I, item 39, encontra-se uma afirmação
particularmente expressiva: o Espiritismo demonstrou a existência do
perispírito, “designado por São Paulo sob o nome de corpo espiritual”, isto é,
“corpo fluídico da alma”, depois da destruição do corpo tangível.
Assim, podemos estabelecer uma relação segura: Paulo falou em corpo
espiritual; a Doutrina Espírita identificou esse corpo espiritual com o
perispírito.
Mas o assunto não termina aí.
Se o corpo espiritual acompanha o ser após a morte do corpo material,
precisamos perguntar: quem é esse ser que continua a existir? Qual é a
função do perispírito? E para onde conduz essa continuidade da existência?
Ao acompanharmos as respostas oferecidas pela Doutrina Espírita,
encontramos uma trajetória muito mais ampla: a individualização do princípio
inteligente, a existência espiritual, a experiência corporal, o desenvolvimento
da inteligência, a aquisição da consciência e do livre-arbítrio, a vida social,
a solidariedade, a caridade e, finalmente, o aperfeiçoamento espiritual.
É nesse sentido que a expressão de O Livro dos Espíritos — “desde
o átomo primitivo até o arcanjo” — adquire extraordinária amplitude.
1. O corpo natural e o corpo espiritual
Paulo não apresenta a ressurreição como simples recuperação do mesmo
corpo material. Sua comparação com a semente mostra que aquilo que é colocado
na terra não é idêntico àquilo que dela surge.
Ele fala em corrupção e incorruptibilidade, fraqueza e vigor, corpo
natural e corpo espiritual. E conclui: “há corpo natural, e há também corpo
espiritual”.
Em outro momento, Paulo utiliza uma imagem semelhante. Em sua Segunda
Epístola aos Coríntios, compara o corpo terrestre a uma “casa” ou “tenda”
passageira e fala de uma habitação permanente, desejando não ficar “despido”,
mas “revestido” (2 Coríntios 5:1-4).
Essas imagens apresentam uma ideia comum: a morte do corpo material
não representa o desaparecimento do ser.
Na linguagem de Paulo, essa continuidade aparece associada ao corpo
espiritual e à ressurreição. À luz da Doutrina Espírita, podemos compreender
racionalmente essa concepção por meio do perispírito.
Não se trata de afirmar que Paulo utilizava a terminologia espírita ou
que possuía a formulação desenvolvida posteriormente pelo Espiritismo. Trata-se
de reconhecer que ele expressava, segundo os conhecimentos de sua época, uma
realidade que a Doutrina Espírita posteriormente estudaria e explicaria de
maneira mais definida.
E Kardec foi explícito ao relacionar as duas concepções.
Na Revista Espírita de dezembro de 1863, ao comentar a passagem
de Paulo, encontra-se a pergunta sobre o que poderia ser esse “corpo
espiritual”, diferente do corpo animal, senão o corpo fluídico demonstrado pelo
Espiritismo, o perispírito. O texto acrescenta que, com a morte do corpo, o
Espírito renasce para a vida inteligente e “ressuscita com o seu corpo
espiritual”.
Temos, portanto, um importante ponto de convergência entre a linguagem
bíblica e a explicação espírita.
2. O Espírito não é uma abstração
Para compreender o significado do corpo espiritual, precisamos saber
quem é o ser que o possui.
O Livro dos Espíritos estabelece uma distinção fundamental. Na
questão 76, os Espíritos são definidos como “os seres inteligentes da criação”,
e Kardec esclarece que, nesse sentido, a palavra Espírito designa as
individualidades dos seres extracorpóreos, não mais o elemento inteligente
universal. Na questão 79, encontramos a afirmação de que os Espíritos são a individualização
do princípio inteligente.
Assim, podemos compreender que o Espírito não é uma abstração.
É uma individualidade real.
E essa individualidade não se encontra desprovida de envoltório. As
questões 93 a 95 de O Livro dos Espíritos ensinam que o Espírito é
revestido de uma substância semimaterial, denominada, por comparação, perispírito;
esse envoltório é extraído do fluido universal de cada mundo e pode apresentar
forma visível e até palpável em determinadas circunstâncias.
Desse modo, podemos formular uma síntese: o princípio inteligente
individualizado constitui o Espírito; o Espírito possui um envoltório
semimaterial, o perispírito.
Por isso, o perispírito não é o próprio Espírito, nem possui
inteligência independente. É seu envoltório e instrumento.
Essa distinção é fundamental para compreendermos também a continuidade
da existência.
3. O corpo carnal morre; o ser espiritual
continua
Durante a existência terrestre, o princípio inteligente, em sua condição
de Homem, encontra-se ligado ao corpo material por intermédio do perispírito.
Quando o organismo deixa de funcionar, a morte corporal não destrói a
individualidade.
Podemos, então, deduzir racionalmente, a partir do conjunto dos
ensinamentos espíritas: morre na Terra o corpo carnal utilizado pelo
princípio inteligente em sua condição de Homem; o ser espiritual prossegue sua
existência no mundo espiritual, revestido de seu perispírito, para continuar
sua trajetória evolutiva.
Essa formulação não pretende ser uma citação literal de Kardec. É uma síntese
dedutiva fundada nos princípios da Doutrina Espírita.
É também nesse sentido que podemos compreender a ideia de ressurreição
apresentada por Paulo.
Para sua época, ele falava em ressurreição e corpo espiritual. À
luz do conhecimento espírita, podemos compreender que a morte do corpo material
é seguida pela continuidade da existência do ser espiritual revestido de seu
corpo fluídico.
Assim, a ressurreição pode ser entendida não como a simples reanimação
do cadáver, mas como a continuidade da vida do ser além da existência corporal.
4. O corpo glorioso e a depuração do
perispírito
Paulo apresenta ainda outra expressão de grande interesse.
Aos Filipenses, afirma que Cristo transformará “o corpo de nossa
humilhação” para torná-lo conforme ao “corpo da sua glória” (Filipenses
3:20-21).
Podemos compreender essa linguagem dentro da concepção de sua época: uma
transformação da condição corporal e espiritual, em direção a uma condição
superior.
A Doutrina Espírita oferece elementos para aprofundar racionalmente essa
compreensão.
Em A Gênese, capítulo XIV, item 9, Kardec afirma que a natureza
do envoltório fluídico está relacionada ao grau de adiantamento moral do
Espírito. O envoltório dos Espíritos inferiores é mais pesado em relação ao
mundo espiritual, enquanto os Espíritos superiores possuem condições
perispirituais compatíveis com seu maior adiantamento.
Há ainda uma passagem particularmente expressiva em O Livro dos
Espíritos, questão 196. Ao comparar o processo de aperfeiçoamento com
sucessivas depurações, a resposta afirma que o perispírito também se depura à
medida que o Espírito se aproxima da perfeição.
Dessa maneira, podemos estabelecer uma aproximação racional entre duas
linguagens:
“corpo glorioso”, na linguagem de Paulo;
“perispírito progressivamente depurado”, na
linguagem espírita.
Não se trata de afirmar que Paulo empregava o conceito espírita de
perispírito. Trata-se de reconhecer que uma realidade espiritual pode ser
expressa de maneiras diferentes conforme o estágio de conhecimento de cada
época.
O que Paulo chamou de “corpo glorioso” pode, à luz da Doutrina Espírita,
ser compreendido como expressão de uma condição espiritual superior,
acompanhada da depuração do envoltório perispirítico.
O essencial, porém, permanece: não é o perispírito que evolui como
ser inteligente; é o ser que progride, e seu envoltório se relaciona com esse
progresso.
5. A evolução do ser espiritual
A Doutrina Espírita não apresenta os Espíritos como seres
definitivamente prontos.
A questão 114 de O Livro dos Espíritos ensina que são os mesmos
Espíritos que se melhoram, passando de uma ordem inferior para outra mais
elevada. A questão 115 esclarece que Deus os criou simples e ignorantes, com o
objetivo de fazê-los chegar progressivamente à perfeição.
A questão 116 completa essa concepção: todos chegarão à perfeição.
Portanto, a trajetória espiritual não é uma transformação instantânea. É
um processo.
E a questão 540 oferece uma imagem extraordinariamente ampla dessa
progressão.
Ao tratar da ação dos Espíritos nos fenômenos da Natureza, a resposta
explica que os mais atrasados, antes de terem plena consciência de seus atos e
livre-arbítrio, atuam inconscientemente em determinados fenômenos.
Primeiramente executam; depois, com o desenvolvimento da inteligência, passam a
ordenar e dirigir coisas do mundo material; mais tarde, podem dirigir as do
mundo moral. Em seguida vem a afirmação:
“É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na natureza, desde o átomo
primitivo até o arcanjo, que também começou pelo átomo.”
Essa passagem permite perceber que a evolução não deve ser compreendida
apenas como aquisição de conhecimentos intelectuais.
Existe uma trajetória de desenvolvimento que conduz da inconsciência à
consciência, do automatismo à compreensão, da execução à direção e, finalmente,
à participação consciente na ordem moral.
É a longa caminhada do princípio inteligente.
6. A evolução não acontece no isolamento
Quando o ser alcança a condição humana, surge uma dimensão indispensável
ao seu desenvolvimento: a vida social.
As questões 766 a 768 de O Livro dos Espíritos são muito claras.
A vida social está na natureza; o isolamento absoluto é contrário à lei
natural; e o homem precisa do contato com seus semelhantes para progredir,
porque não dispõe, isoladamente, de todas as faculdades necessárias ao seu
desenvolvimento.
Isso significa que a evolução não é uma conquista puramente individual.
O semelhante participa dela.
É na convivência que aprendemos a cooperar, respeitar, compreender,
perdoar, auxiliar e corrigir nossas próprias imperfeições.
Por isso, a vida social não é apenas uma necessidade material. É também um
instrumento de desenvolvimento moral.
A evolução do ser espiritual passa necessariamente pela relação com
outros seres espirituais.
7. Da vida social à solidariedade e à caridade
A vida em sociedade conduz a uma consequência natural: percebemos que
nossas ações interferem na vida dos outros.
Daí nasce a necessidade da solidariedade.
E a solidariedade encontra sua expressão mais elevada na caridade.
Na questão 888-a, São Vicente de Paulo ensina que todo Espírito,
qualquer que seja seu grau de adiantamento e sua situação — encarnado ou na
erraticidade — encontra-se entre um superior, que o guia e aperfeiçoa, e um
inferior, para com o qual possui deveres. Recomenda, por isso, a caridade, a
indulgência, a benevolência e o auxílio aos que se encontram em condição
inferior.
Aqui se completa uma importante passagem de nosso raciocínio: a
inteligência se desenvolve; a consciência se amplia; o livre-arbítrio se
fortalece; a vida social proporciona experiências; a solidariedade se
desenvolve; e a caridade transforma essas relações em instrumento de
aperfeiçoamento moral.
Por isso, a evolução espiritual não pode ser reduzida à conquista de
conhecimentos sobre o mundo espiritual.
Conhecer é importante.
Mas tornar-se melhor é indispensável.
8. Do corpo espiritual à pureza espiritual
Agora podemos retornar ao ponto inicial.
Paulo fala do corpo espiritual.
A Doutrina Espírita explica o perispírito.
A morte corporal não destrói o ser.
O ser espiritual continua sua trajetória.
E essa trajetória não é estática: ele progride, adquire conhecimento,
desenvolve consciência, exerce o livre-arbítrio, reencarna, convive
socialmente, aprende a solidariedade e desenvolve a caridade.
Ao mesmo tempo, seu perispírito acompanha sua condição espiritual e se
depura à medida que ele se aproxima da perfeição.
Assim, o chamado “corpo glorioso” pode ser compreendido, à luz do
Espiritismo, não como uma transformação milagrosa e isolada, mas como expressão
de uma condição espiritual superior, alcançada progressivamente.
O objetivo final, porém, não é possuir um perispírito mais sutil.
O objetivo é a perfeição espiritual.
O perispírito acompanha a trajetória; não constitui a finalidade da
trajetória.
REFLEXÃO
FINAL
Quando Paulo escreveu sobre o corpo natural e o corpo espiritual,
utilizou os conhecimentos e a linguagem de seu tempo para expressar uma
realidade que, séculos depois, seria examinada sob nova perspectiva.
A Doutrina Espírita permite compreender racionalmente essa passagem: o
corpo carnal é temporário; o ser espiritual permanece; o perispírito é seu
envoltório e instrumento; e a existência prossegue além da morte corporal.
Mas a mensagem se torna ainda mais ampla quando relacionada à evolução.
O ser não permanece eternamente como é.
Ele progride.
Começa sua longa trajetória em condições de ignorância e inconsciência;
desenvolve gradualmente a inteligência, adquire consciência de si, conquista o
livre-arbítrio e aprende, por meio das experiências sucessivas, a distinguir o
bem do mal.
Depois descobre que não pode progredir sozinho.
Encontra no semelhante uma oportunidade permanente de aprendizado.
A vida social transforma-se em campo de experiência; a solidariedade, em
necessidade; a caridade, em lei de relacionamento; e o aperfeiçoamento moral,
em finalidade da existência.
Por isso, a frase de O Livro dos Espíritos ganha, neste estudo,
um significado especial: “desde o átomo primitivo até o arcanjo.”
Entre esses dois extremos está uma longa trajetória de desenvolvimento.
O ser espiritual que um dia ainda atuava sem plena consciência chega,
depois de incontáveis experiências, à condição de Espírito puro.
É uma caminhada que envolve inteligência, consciência, liberdade,
responsabilidade, convivência, solidariedade e amor.
E talvez seja justamente aí que o corpo espiritual de Paulo
encontre sua mais profunda relação com o ensinamento espírita: ele não
representa apenas aquilo que permanece depois da morte do corpo. Representa
também a continuidade de uma existência destinada a prosseguir,
transformar-se e elevar-se.
A morte, portanto, não encerra a trajetória.
É apenas a passagem de uma condição de existência para outra.
O corpo carnal fica na Terra.
O ser espiritual continua.
Revestido de seu perispírito, prossegue sua caminhada.
E, de etapa em etapa, de experiência em experiência, de aprendizado em
aprendizado, segue em direção à pureza espiritual.
Do átomo ao arcanjo.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. - Questões 23, 76, 79, 93 a 95, 114 a 118, 128-129, 196, 540, 766 a 768 e 888-a.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. - Capítulo I — Há Espíritos?
- KARDEC, Allan. A Gênese — Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. - Capítulo I, item 39; capítulo XIV, itens 8 e 9.
2. Obras complementares de Allan Kardec
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. - Capítulo II,
especialmente o item 14, sobre as relações entre alma, perispírito, corpo e
Espírito.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. -Dezembro de 1863 — “São Paulo, precursor do Espiritismo”.
4. Passagens bíblicas
- 1 Coríntios 15:35-50 — corpo natural e corpo espiritual.
- 2 Coríntios 5:1-5 — a habitação terrestre e o revestimento espiritual.
- Filipenses 3:20-21 — transformação do corpo de humilhação em corpo conforme à glória.
- 1 João 3:2 — transformação e semelhança com o Cristo.
- Daniel 12:2-3 — ressurreição e vida futura.
- Jó 19:25-27 — esperança de continuidade da existência.
6. Fontes Externas
- Textos bíblicos consultados para conferência das passagens citadas.
As relações estabelecidas entre determinadas expressões bíblicas e conceitos espíritas, quando não constituem afirmações literais das fontes, são apresentadas no artigo como deduções e interpretações racionais fundamentadas nos princípios da Doutrina Espírita.
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