Introdução
Em um
mundo marcado pelo individualismo e pela cultura do medo, gestos de coragem
altruísta têm um impacto moral profundo. A história de Neerja Bhanot,
comissária de bordo indiana que sacrificou a própria vida em 1986 para salvar
centenas de pessoas durante o sequestro do voo Pan Am 73, continua a ecoar como
testemunho de amor ao próximo — valor universal defendido pelo Espiritismo.
Na
Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, o heroísmo moral não se define
por violência ou orgulho, mas pela capacidade de colocar o bem coletivo
acima dos interesses pessoais, mesmo quando a própria vida está em risco.
Kardec afirma em O Livro dos Espíritos que a verdadeira grandeza do
Espírito se revela pela abnegação e pelo sacrifício consciente em benefício de
outrem (questões 886 e 918). É nesse horizonte que analisamos a atitude de
Neerja: não apenas como um ato humano, mas como expressão de maturidade
espiritual.
Neerja Bhanot: quando o amor vence o medo
Em 5
de setembro de 1986, o voo Pan Am 73, estacionado em Karachi (Paquistão),
foi invadido por quatro terroristas. No interior do avião estavam 380
passageiros e 13 tripulantes. Neerja, então com apenas 22 anos e chefe de
cabine, tomou decisões que salvaram 359 vidas.
Seus
principais atos de heroísmo foram:
- Alertou os pilotos
imediatamente,
permitindo que escapassem pela escotilha superior.
Sem o comando técnico da aeronave, os sequestradores perderam o controle estratégico da situação. - Escondeu passaportes de
cidadãos norte-americanos, impedindo que fossem identificados como
alvos prioritários.
- Organizou e guiou a
evacuação,
abrindo portas de emergência sob fogo cruzado.
- Seu sacrifício final: foi mortalmente atingida
protegendo três crianças durante o tiroteio final.
Sua
atitude demonstra o que o Espiritismo chama de instinto de solidariedade,
a expressão mais elevada do sentimento de amor universal.
“Reconhece-se o verdadeiro
espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega em domar
suas más inclinações.” — O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 4
Neerja
não era espírita — mas sua conduta revela virtudes universais.
O heroísmo segundo o Espiritismo
A
Doutrina Espírita não enxerga a vida apenas como existência biológica. A vida é
caminho de progresso espiritual, e cada ação moralmente elevada contribui para
o crescimento da alma. Em O Livro dos Espíritos, os Espíritos superiores
esclarecem:
- A verdadeira caridade é
benevolência e sacrifício (questões 886 e 888).
- O valor moral se prova nas
ações, não nas palavras (questão 919).
Neerja
teve segundos para decidir, e escolheu o bem.
Abriu mão
da própria segurança para salvar desconhecidos — o que Kardec qualifica como abnegação
sublime.
O
Espírito de Verdade — guia moral da Codificação — afirma:
“Amai-vos
e instruí-vos.” — O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VI
Neerja
amou.
Quando o sacrifício não é perda, mas ganho
espiritual
Segundo o
Espiritismo, a vida corpórea é apenas um capítulo da existência. A alma leva
consigo:
- as virtudes,
- o amor que ofereceu,
- o bem que realizou.
Kardec
explica que o sacrifício voluntário pelo bem é mérito que fortalece o Espírito
em suas futuras existências. (Revista Espírita, janeiro de 1862). Assim,
o ato de Neerja não termina no instante de sua morte. Ele se projeta na
eternidade.
A
sociedade reconheceu seu valor ao conceder-lhe o Ashoka Chakra, a mais
alta condecoração civil de bravura da Índia. Mas, do ponto de vista espiritual,
sua maior recompensa é íntima e eterna: o avanço moral do Espírito.
Seus atos
são a concretização da frase de Jesus:
“Ninguém tem maior amor do que
aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.” (João 15:13)
Neerja
deu a vida até pelos que não conhecia.
O Espiritismo e o heroísmo cotidiano
Embora
não sejamos chamados a enfrentar terroristas, o Espiritismo nos lembra que:
- heroísmo também está em
perdoar,
- em ajudar alguém em
silêncio,
- em agir com ética no
trabalho,
- em servir sem esperar
reconhecimento.
Há
heroísmo espiritual em cada atitude em que prevalece o amor.
A coragem
que transforma o mundo nem sempre aparece nos noticiários,
mas sempre transforma consciências.
Conclusão
Neerja
Bhanot nos convida a refletir sobre o valor da vida, da solidariedade e do
amor. Sua atitude confirma que a verdadeira grandeza moral é silenciosa,
imediata e instintivamente voltada ao bem.
Para o
Espiritismo, gestos como o de Neerja são marcos evolutivos da humanidade,
sinais de que estamos avançando na direção do “Reino de Deus” — que começa
dentro de nós.
Sua
história nos lembra:
A coragem
é uma força espiritual.
O amor é
a sua melhor expressão.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. 1857.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. 1864.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (coleção completa 1858–1869).
- Obras complementares da
Codificação Espírita.
- Biografia e registros
históricos sobre Neerja Bhanot (Pan Am 73, 1986).
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