sexta-feira, 31 de outubro de 2025

CORAGEM ALÉM DA MATÉRIA
A ABNEGAÇÃO DE NEERJA BHANOT
- A Era do Espírito -

Introdução

Em um mundo marcado pelo individualismo e pela cultura do medo, gestos de coragem altruísta têm um impacto moral profundo. A história de Neerja Bhanot, comissária de bordo indiana que sacrificou a própria vida em 1986 para salvar centenas de pessoas durante o sequestro do voo Pan Am 73, continua a ecoar como testemunho de amor ao próximo — valor universal defendido pelo Espiritismo.

Na Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, o heroísmo moral não se define por violência ou orgulho, mas pela capacidade de colocar o bem coletivo acima dos interesses pessoais, mesmo quando a própria vida está em risco. Kardec afirma em O Livro dos Espíritos que a verdadeira grandeza do Espírito se revela pela abnegação e pelo sacrifício consciente em benefício de outrem (questões 886 e 918). É nesse horizonte que analisamos a atitude de Neerja: não apenas como um ato humano, mas como expressão de maturidade espiritual.

Neerja Bhanot: quando o amor vence o medo

Em 5 de setembro de 1986, o voo Pan Am 73, estacionado em Karachi (Paquistão), foi invadido por quatro terroristas. No interior do avião estavam 380 passageiros e 13 tripulantes. Neerja, então com apenas 22 anos e chefe de cabine, tomou decisões que salvaram 359 vidas.

Seus principais atos de heroísmo foram:

  1. Alertou os pilotos imediatamente, permitindo que escapassem pela escotilha superior.
    Sem o comando técnico da aeronave, os sequestradores perderam o controle estratégico da situação.
  2. Escondeu passaportes de cidadãos norte-americanos, impedindo que fossem identificados como alvos prioritários.
  3. Organizou e guiou a evacuação, abrindo portas de emergência sob fogo cruzado.
  4. Seu sacrifício final: foi mortalmente atingida protegendo três crianças durante o tiroteio final.

Sua atitude demonstra o que o Espiritismo chama de instinto de solidariedade, a expressão mais elevada do sentimento de amor universal.

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega em domar suas más inclinações.”O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 4

Neerja não era espírita — mas sua conduta revela virtudes universais.

O heroísmo segundo o Espiritismo

A Doutrina Espírita não enxerga a vida apenas como existência biológica. A vida é caminho de progresso espiritual, e cada ação moralmente elevada contribui para o crescimento da alma. Em O Livro dos Espíritos, os Espíritos superiores esclarecem:

  • A verdadeira caridade é benevolência e sacrifício (questões 886 e 888).
  • O valor moral se prova nas ações, não nas palavras (questão 919).

Neerja teve segundos para decidir, e escolheu o bem.

Abriu mão da própria segurança para salvar desconhecidos — o que Kardec qualifica como abnegação sublime.

O Espírito de Verdade — guia moral da Codificação — afirma:

“Amai-vos e instruí-vos.” — O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VI

Neerja amou.

Quando o sacrifício não é perda, mas ganho espiritual

Segundo o Espiritismo, a vida corpórea é apenas um capítulo da existência. A alma leva consigo:

  • as virtudes,
  • o amor que ofereceu,
  • o bem que realizou.

Kardec explica que o sacrifício voluntário pelo bem é mérito que fortalece o Espírito em suas futuras existências. (Revista Espírita, janeiro de 1862). Assim, o ato de Neerja não termina no instante de sua morte. Ele se projeta na eternidade.

A sociedade reconheceu seu valor ao conceder-lhe o Ashoka Chakra, a mais alta condecoração civil de bravura da Índia. Mas, do ponto de vista espiritual, sua maior recompensa é íntima e eterna: o avanço moral do Espírito.

Seus atos são a concretização da frase de Jesus:

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.” (João 15:13)

Neerja deu a vida até pelos que não conhecia.

O Espiritismo e o heroísmo cotidiano

Embora não sejamos chamados a enfrentar terroristas, o Espiritismo nos lembra que:

  • heroísmo também está em perdoar,
  • em ajudar alguém em silêncio,
  • em agir com ética no trabalho,
  • em servir sem esperar reconhecimento.

Há heroísmo espiritual em cada atitude em que prevalece o amor.

A coragem que transforma o mundo nem sempre aparece nos noticiários,
mas sempre transforma consciências.

Conclusão

Neerja Bhanot nos convida a refletir sobre o valor da vida, da solidariedade e do amor. Sua atitude confirma que a verdadeira grandeza moral é silenciosa, imediata e instintivamente voltada ao bem.

Para o Espiritismo, gestos como o de Neerja são marcos evolutivos da humanidade, sinais de que estamos avançando na direção do “Reino de Deus” — que começa dentro de nós.

Sua história nos lembra:

A coragem é uma força espiritual.

O amor é a sua melhor expressão.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1857.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1864.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (coleção completa 1858–1869).
  • Obras complementares da Codificação Espírita.
  • Biografia e registros históricos sobre Neerja Bhanot (Pan Am 73, 1986).

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

AMOR FRATERNO ESCOLA DA ALMA E LEI DE SOLIDARIEDADE - A Era do Espírito - Introdução Entre as narrativas antigas que atravessam os séculos...