Introdução
Ao
afirmar diante de Pilatos que “o meu reino não é deste mundo” (João
18:36), Jesus não se esquivava de uma acusação política, mas revelava um
princípio essencial de sua mensagem: a centralidade da vida futura. Essa
afirmação, longe de afastar o ser humano de suas responsabilidades terrestres,
oferece o ponto de vista necessário para compreendê-las em sua justa proporção.
A
Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec e amplamente desenvolvida na
coleção da Revista Espírita (1858–1869), retoma esse ensinamento de
Jesus, não como dogma imposto, mas como consequência lógica da observação, da
razão e dos fatos. A vida futura deixa de ser uma abstração vaga para tornar-se
realidade moral e espiritual, capaz de iluminar o presente, consolar as dores
humanas e fundamentar a justiça divina.
O Reino que Não É Deste
Mundo
Nos
capítulos iniciais de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec
demonstra que toda a moral de Jesus se apoia na certeza da continuidade da
vida. Sem a vida futura, seus ensinamentos perderiam coerência e finalidade. O
sacrifício, a renúncia, o perdão e a caridade pareceriam desprovidos de sentido
se tudo se encerrasse no túmulo.
Jesus
adaptou seu ensino ao grau de compreensão dos homens de sua época, apresentando
a vida futura como uma lei natural, inevitável, mas sem lhe detalhar todos os
aspectos. Caberia ao progresso intelectual e moral da humanidade, em tempo
oportuno, compreender mais amplamente essa realidade. É nesse contexto que a
Doutrina Espírita surge, não para substituir o Evangelho, mas para explicá-lo,
completando o ensino moral de Jesus à luz de fatos observáveis e de uma lógica
acessível.
A Vida Futura como
Realidade Moral
Segundo
O Livro dos Espíritos, o homem repele instintivamente a ideia do nada,
pois o nada não existe (questão 958). O sentimento da vida futura é inato,
precede a encarnação e se manifesta como intuição profunda da continuidade do
ser. A consciência, longe de ser apenas produto da educação ou da cultura, é a
voz dessa experiência espiritual anterior.
A
responsabilidade moral encontra, assim, seu fundamento racional. A justiça
divina não se concilia com uma existência única, onde destinos tão desiguais se
encerrariam sem reparação. A pluralidade das existências explica as aparentes
injustiças da vida terrestre e mostra que cada prova tem finalidade educativa e
reparadora.
Na
vida espiritual, o Espírito revê seu passado, compreende as causas de seus
sofrimentos e escolhe, com o auxílio de Espíritos mais elevados, novas
oportunidades de progresso. O esquecimento temporário do passado não é punição,
mas condição necessária para o mérito e o esforço consciente no presente.
A Mudança de Ponto de
Vista
A
certeza da vida futura transforma profundamente a maneira de encarar a existência
atual. Como ensina O Evangelho Segundo o Espiritismo e reforça a Revista
Espírita, tudo depende do ponto de vista. Visto apenas do ângulo terrestre,
o sofrimento se agiganta, as ambições se tornam desmedidas e as decepções
parecem insuportáveis. Sob o prisma da vida espiritual, a existência corporal é
uma etapa breve, uma estação de aprendizado.
Essa
mudança de perspectiva não conduz à passividade nem ao abandono das
responsabilidades humanas. Ao contrário, dá sentido ao trabalho, ao esforço e à
solidariedade. O Espírito compreende que o progresso intelectual e moral se
constrói na ação, no serviço ao próximo e no uso consciente das oportunidades
oferecidas pela vida material.
Deus
não condena os gozos terrenos, mas o abuso que compromete os interesses da
alma. A fé esclarecida na vida futura confere equilíbrio: ensina a usufruir sem
apego e a sofrer sem desespero.
Caridade: Condição da
Felicidade Futura
Jesus
foi claro ao resumir sua moral na caridade e na humildade, virtudes opostas ao
orgulho e ao egoísmo. No chamado “julgamento final”, apresentado em linguagem
simbólica, o critério decisivo não é a crença exterior nem a observância de
formalidades, mas a prática do bem.
A
Doutrina Espírita evidencia que a caridade não é apenas uma virtude entre
outras, mas a síntese de todas elas. É pela caridade que o Espírito se
harmoniza com a lei divina e prepara sua felicidade futura. A vida além-túmulo
não recompensa títulos, palavras ou aparências, mas o esforço sincero de
transformação moral e o bem efetivamente realizado.
Consolação e
Responsabilidade no Mundo Atual
Em um
mundo marcado por crises sociais, incertezas econômicas e sofrimentos
emocionais crescentes, a compreensão racional da vida futura oferece uma
resposta atual e necessária. Dados contemporâneos sobre saúde mental, por
exemplo, indicam aumento significativo de ansiedade e desesperança em diversas
faixas etárias. A visão materialista da existência, limitada ao imediato, contribui
para esse vazio de sentido.
A
perspectiva espírita não promete fuga do mundo, mas oferece consolação ativa:
ensina a enfrentar as provas com coragem, a relativizar perdas e a compreender
que nenhuma dor é inútil quando integrada ao processo de crescimento do
Espírito. As perseguições, as incompreensões e os fracassos tornam-se ocasiões
de aprendizado e fortalecimento moral.
Conclusão
Considerar
a vida à luz da imortalidade da alma não é ilusão, mas aproximação da
realidade. A verdadeira vida é a espiritual, porque é durável; a vida corporal
é transitória, porém necessária. Quando o homem compreende essa relação, suas
prioridades se ajustam, suas ambições se depuram e sua existência ganha sentido
mais elevado.
O
ensinamento de Jesus, esclarecido pela Doutrina Espírita, convida-nos a viver
no mundo sem nos prendermos a ele, trabalhando pelo progresso comum e
preparando, desde agora, a vida futura que nos aguarda. Assim, o presente deixa
de ser fonte de angústia para tornar-se campo fecundo de semeadura moral.
Referências
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Capítulos II, XV, XXIII e XXIV.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Livro IV,
Capítulo II.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita. Julho de 1862.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Primeira Parte –
A Vida Futura.
- Bíblia. Evangelho de João, capítulo 18,
versículos 33–37.
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