Introdução
A
metáfora da vida como um livro oferece rica possibilidade de reflexão à luz da
Doutrina Espírita. Cada existência corpórea pode ser compreendida como um
capítulo de uma obra maior, escrita pelo próprio Espírito ao longo de suas
experiências sucessivas. Somos, simultaneamente, protagonistas e autores da
narrativa que construímos, não por predestinação cega, mas pelo exercício
contínuo do livre-arbítrio, conforme ensinam os Espíritos superiores na
codificação organizada por Allan Kardec.
Sob
essa perspectiva, refletir sobre o encerramento de um ciclo — como o término de
um ano — e o início de outro torna-se ocasião legítima de exame de consciência,
planejamento moral e renovação de propósitos, em consonância com a lei de
progresso.
O livro da existência e a lei de causa e efeito
A
Doutrina Espírita esclarece que cada ação, pensamento e sentimento deixa
registros na consciência do Espírito. Esses registros não são meramente
simbólicos: constituem efeitos reais da lei de causa e efeito, amplamente
tratada em O Livro dos Espíritos e desenvolvida ao longo da Revista
Espírita (1858–1869).
Assim,
ao longo da vida, vamos escrevendo páginas diversas:
- conquistas
alcançadas pelo esforço honesto;
- relações afetivas
que nos enriquecem moralmente;
- experiências
profissionais que nos educam na responsabilidade;
- e também falhas,
equívocos e escolhas infelizes, frutos da imperfeição ainda presente.
Essas
páginas não têm valor isolado. O conjunto da obra é que revela o grau de
aprendizado do Espírito. As páginas difíceis não são condenações definitivas,
mas instrumentos pedagógicos da lei divina, cuja finalidade é sempre educativa.
Releitura, arrependimento e reescrita moral
A cada
novo período da vida, especialmente nos marcos simbólicos como o início de um
ano, somos convidados à releitura do que escrevemos. Esse movimento
corresponde, em termos doutrinários, ao arrependimento consciente — primeiro
passo para a reparação e o progresso.
Kardec
esclarece que o arrependimento sincero não se limita ao remorso estéril, mas
conduz à mudança efetiva de conduta. É nesse sentido que a ideia de
“reescrever” a própria história encontra pleno respaldo espírita: não apagamos
o passado, mas transformamos o presente, alterando as consequências futuras.
Essa
reescrita se dá por meio da transformação íntima — processo gradual de
renovação dos sentimentos, ideias e atitudes, substituindo hábitos egoístas por
valores mais elevados, como a humildade, a solidariedade e a caridade.
Esperançar: ação consciente e perseverante
Nesse
contexto, o verbo esperançar adquire profundo significado moral. Não se
trata de esperar passivamente que as circunstâncias externas se modifiquem, mas
de agir com confiança ativa na lei de progresso.
Esperançar
é:
- levantar-se após a
queda, compreendendo o erro como lição;
- perseverar no bem,
mesmo quando os resultados parecem tardios;
- trabalhar pelo
próprio aperfeiçoamento e pelo bem coletivo;
- unir esforços com
outros Espíritos encarnados, construindo soluções mais justas e
solidárias.
A Revista
Espírita registra inúmeras comunicações que enfatizam a perseverança como
virtude essencial do Espírito em aprendizado. Desistir, acomodar-se ou
resignar-se de forma passiva não corresponde à compreensão espírita da vida.
Como bem observa o pensamento filosófico contemporâneo, resignação que se
transforma em inércia pode tornar-se cumplicidade com o erro — ideia que
dialoga com a ética espírita da responsabilidade individual.
O novo ano como campo de trabalho espiritual
O
início de um novo ano apresenta-se como símbolo de renovação, oferecendo,
metaforicamente, trezentas e sessenta e cinco páginas em branco. Cada dia é uma
oportunidade concreta de escrever novas linhas, não apenas em termos materiais,
mas sobretudo morais.
Escrever
belas páginas, à luz da Doutrina Espírita, significa:
- cultivar relações
mais fraternas no lar, no trabalho e na sociedade;
- exercer a gentileza
como expressão de maturidade espiritual;
- praticar a gratidão
como reconhecimento da justiça divina;
- transformar
dificuldades em instrumentos de crescimento.
O
passado, com suas páginas mal escritas, não deve ser fonte de culpa
paralisante, mas de aprendizado lúcido. O futuro não é promessa automática de
felicidade, mas campo de ação responsável. O presente é o ponto exato onde o
Espírito pode, de fato, escrever algo novo.
Considerações finais
A
vida, compreendida como livro em permanente construção, revela a grandeza da
proposta espírita: somos herdeiros de nós mesmos e artífices do próprio
destino. Esperançar, desde agora, é assumir conscientemente essa autoria,
confiando na justiça e na bondade divinas, sem abrir mão do esforço pessoal.
Enquanto
houver páginas em branco, haverá sempre a possibilidade de escrever melhor —
com mais consciência, mais amor e mais fidelidade às leis que regem a evolução
do Espírito.
Referências
- ALLAN KARDEC. O Livro dos
Espíritos. Diversas edições.
- ALLAN KARDEC. O Evangelho
segundo o Espiritismo.
- ALLAN KARDEC. A Gênese.
- REVISTA ESPÍRITA (1858–1869).
Coleção completa.
- MOMENTO ESPÍRITA. Esperançar no
Ano Novo. Disponível em: momento.com.br
- CORTELLA, Mário
Sérgio.
A resignação como cumplicidade. Jornal Folha de São Paulo,
08 nov. 2001.
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