terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A VIDA COMO LIVRO EM CONSTRUÇÃO
ESPERANÇAR E A RESPONSABILIDADE DO ESPÍRITO
- A Era do Espírito -

Introdução

A metáfora da vida como um livro oferece rica possibilidade de reflexão à luz da Doutrina Espírita. Cada existência corpórea pode ser compreendida como um capítulo de uma obra maior, escrita pelo próprio Espírito ao longo de suas experiências sucessivas. Somos, simultaneamente, protagonistas e autores da narrativa que construímos, não por predestinação cega, mas pelo exercício contínuo do livre-arbítrio, conforme ensinam os Espíritos superiores na codificação organizada por Allan Kardec.

Sob essa perspectiva, refletir sobre o encerramento de um ciclo — como o término de um ano — e o início de outro torna-se ocasião legítima de exame de consciência, planejamento moral e renovação de propósitos, em consonância com a lei de progresso.

O livro da existência e a lei de causa e efeito

A Doutrina Espírita esclarece que cada ação, pensamento e sentimento deixa registros na consciência do Espírito. Esses registros não são meramente simbólicos: constituem efeitos reais da lei de causa e efeito, amplamente tratada em O Livro dos Espíritos e desenvolvida ao longo da Revista Espírita (1858–1869).

Assim, ao longo da vida, vamos escrevendo páginas diversas:

  • conquistas alcançadas pelo esforço honesto;
  • relações afetivas que nos enriquecem moralmente;
  • experiências profissionais que nos educam na responsabilidade;
  • e também falhas, equívocos e escolhas infelizes, frutos da imperfeição ainda presente.

Essas páginas não têm valor isolado. O conjunto da obra é que revela o grau de aprendizado do Espírito. As páginas difíceis não são condenações definitivas, mas instrumentos pedagógicos da lei divina, cuja finalidade é sempre educativa.

Releitura, arrependimento e reescrita moral

A cada novo período da vida, especialmente nos marcos simbólicos como o início de um ano, somos convidados à releitura do que escrevemos. Esse movimento corresponde, em termos doutrinários, ao arrependimento consciente — primeiro passo para a reparação e o progresso.

Kardec esclarece que o arrependimento sincero não se limita ao remorso estéril, mas conduz à mudança efetiva de conduta. É nesse sentido que a ideia de “reescrever” a própria história encontra pleno respaldo espírita: não apagamos o passado, mas transformamos o presente, alterando as consequências futuras.

Essa reescrita se dá por meio da transformação íntima — processo gradual de renovação dos sentimentos, ideias e atitudes, substituindo hábitos egoístas por valores mais elevados, como a humildade, a solidariedade e a caridade.

Esperançar: ação consciente e perseverante

Nesse contexto, o verbo esperançar adquire profundo significado moral. Não se trata de esperar passivamente que as circunstâncias externas se modifiquem, mas de agir com confiança ativa na lei de progresso.

Esperançar é:

  • levantar-se após a queda, compreendendo o erro como lição;
  • perseverar no bem, mesmo quando os resultados parecem tardios;
  • trabalhar pelo próprio aperfeiçoamento e pelo bem coletivo;
  • unir esforços com outros Espíritos encarnados, construindo soluções mais justas e solidárias.

A Revista Espírita registra inúmeras comunicações que enfatizam a perseverança como virtude essencial do Espírito em aprendizado. Desistir, acomodar-se ou resignar-se de forma passiva não corresponde à compreensão espírita da vida. Como bem observa o pensamento filosófico contemporâneo, resignação que se transforma em inércia pode tornar-se cumplicidade com o erro — ideia que dialoga com a ética espírita da responsabilidade individual.

O novo ano como campo de trabalho espiritual

O início de um novo ano apresenta-se como símbolo de renovação, oferecendo, metaforicamente, trezentas e sessenta e cinco páginas em branco. Cada dia é uma oportunidade concreta de escrever novas linhas, não apenas em termos materiais, mas sobretudo morais.

Escrever belas páginas, à luz da Doutrina Espírita, significa:

  • cultivar relações mais fraternas no lar, no trabalho e na sociedade;
  • exercer a gentileza como expressão de maturidade espiritual;
  • praticar a gratidão como reconhecimento da justiça divina;
  • transformar dificuldades em instrumentos de crescimento.

O passado, com suas páginas mal escritas, não deve ser fonte de culpa paralisante, mas de aprendizado lúcido. O futuro não é promessa automática de felicidade, mas campo de ação responsável. O presente é o ponto exato onde o Espírito pode, de fato, escrever algo novo.

Considerações finais

A vida, compreendida como livro em permanente construção, revela a grandeza da proposta espírita: somos herdeiros de nós mesmos e artífices do próprio destino. Esperançar, desde agora, é assumir conscientemente essa autoria, confiando na justiça e na bondade divinas, sem abrir mão do esforço pessoal.

Enquanto houver páginas em branco, haverá sempre a possibilidade de escrever melhor — com mais consciência, mais amor e mais fidelidade às leis que regem a evolução do Espírito.

Referências

  • ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos. Diversas edições.
  • ALLAN KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • ALLAN KARDEC. A Gênese.
  • REVISTA ESPÍRITA (1858–1869). Coleção completa.
  • MOMENTO ESPÍRITA. Esperançar no Ano Novo. Disponível em: momento.com.br
  • CORTELLA, Mário Sérgio. A resignação como cumplicidade. Jornal Folha de São Paulo, 08 nov. 2001.

 

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