Introdução
Tornou-se
comum, no meio espírita contemporâneo, a afirmação de que “o telefone só toca
de lá para cá”, sugerindo que apenas os Espíritos tomam a iniciativa das
comunicações. Contudo, a análise atenta das obras que compõem a Codificação
Espírita, bem como dos numerosos estudos registrados na Revista Espírita
entre 1858 e 1869, revela uma compreensão mais ampla e equilibrada do fenômeno.
Desde
seus primórdios, a Doutrina Espírita reconhece que a comunicação entre
encarnados e desencarnados pode ocorrer tanto de forma espontânea quanto por
evocação deliberada, desde que respeitadas as leis que regem o mundo
espiritual. Longe de práticas místicas ou mágicas, a evocação é apresentada
como um fenômeno natural, regido pela afinidade moral, pela sintonia do pensamento
e pelo livre-arbítrio dos Espíritos.
Este
artigo examina, de forma organizada e fundamentada, como as evocações são
vistas nas obras de Allan Kardec, dialogando com reflexões atuais sobre
consciência, pensamento e interação não local, sem perder o eixo moral e
racional que caracteriza o Espiritismo.
1. O Pensamento como Instrumento da Evocação
Segundo
o ensino espírita, o verdadeiro agente da evocação é o pensamento. Não são as
palavras, os gestos ou as fórmulas que estabelecem o contato, mas a emissão mental
dirigida, acompanhada de intenção clara e sentimento correspondente.
Kardec
esclarece, em O Livro dos Médiuns, que qualquer pessoa pode evocar um
Espírito pelo pensamento, ainda que não possua mediunidade ostensiva. A
manifestação inteligível, contudo, depende da presença de médiuns aptos a
servir de intermediários entre os dois planos da vida.
Essa
concepção antecipa, de modo notável, estudos contemporâneos sobre a natureza
não local da consciência, segundo os quais o pensamento não se limita ao
cérebro físico, mas atua como campo de informação e interação.
2. A Liberdade do Espírito Evocado
A
evocação não implica submissão. Nenhum Espírito é obrigado a atender a um
chamado, por mais respeitosa que seja a intenção do evocador. A resposta
depende de múltiplos fatores: o grau evolutivo do Espírito, suas ocupações no
mundo espiritual, seu estado de perturbação após o desencarne e, sobretudo, a
afinidade moral com quem o evoca.
Kardec
insiste que o silêncio, em muitos casos, é tão instrutivo quanto a resposta.
Pode representar uma prova para o evocador ou uma restrição temporária ao
Espírito, quando sua comunicação não lhe seria útil ou permitida.
Essa
visão afasta definitivamente qualquer ideia de constrangimento espiritual,
incompatível com a lei de liberdade que rege os Espíritos.
3. Evocação e Sintonia Vibratória
A
Doutrina Espírita ensina que a distância não constitui obstáculo à evocação. O
pensamento se propaga de forma instantânea, estabelecendo uma ligação direta
entre evocador e evocado, sem necessidade de deslocamento no espaço.
Kardec
já afirmava que os Espíritos percebem o pensamento como uma irradiação viva,
mais rápida que qualquer meio material. Hoje, essa noção dialoga com pesquisas
em parapsicologia e com teorias físicas que discutem a não-localidade e a
interconexão dos sistemas conscientes.
Entretanto,
a prontidão da resposta espiritual não depende da técnica, mas da qualidade da
sintonia estabelecida.
4. Limites e Riscos das Evocações
Kardec
adverte com clareza sobre os riscos das evocações levianas. Evocar Espíritos
inferiores, por curiosidade ou divertimento, pode atrair influências
perturbadoras e favorecer mistificações.
Sem
preparo moral, discernimento e estudo, o evocador corre o risco de submeter-se
à influência de Espíritos enganadores, que se aproveitam da vaidade, da
credulidade ou do desejo de fenômenos extraordinários.
Por
essa razão, a evocação é apresentada como prática que exige responsabilidade,
vigilância e finalidade útil, jamais como entretenimento.
5. Condições Morais Favoráveis à Evocação
O
fator decisivo para a qualidade das comunicações não é o local, o horário ou
qualquer objeto exterior, mas o estado moral e mental dos participantes.
Reuniões sérias, marcadas pela comunhão de pensamentos elevados, criam ambiente
propício à aproximação de Espíritos esclarecidos.
Kardec
rejeita explicitamente a crença em talismãs, fórmulas fixas, dias ou lugares
“privilegiados”, classificando tais práticas como resquícios de superstições
antigas. O elemento essencial é a intenção sincera aliada ao esforço de
elevação moral.
6. Identidade dos Espíritos Evocados
Nem
sempre o Espírito que se manifesta corresponde ao nome chamado. Espíritos
mistificadores podem assumir identidades falsas, sobretudo quando encontram
evocadores pouco atentos ou excessivamente crédulos.
O
critério de identificação, segundo Kardec, não reside no nome, mas no conteúdo
moral e lógico da comunicação. A elevação das ideias, a coerência do discurso e
a ausência de contradições são sinais mais seguros do que qualquer declaração
nominal.
7. Evocação de Encarnados e de Animais
A
evocação de Espíritos encarnados é admitida pela Doutrina Espírita,
especialmente durante o sono, quando o Espírito se encontra parcialmente
desprendido do corpo. Contudo, Kardec considera essa prática delicada e, em
geral, inconveniente, pois pode causar fadiga, confusão ou perturbação ao
encarnado.
Quanto
aos animais, a Codificação ensina que eles não possuem Espírito individualizado
após a morte, mas princípio inteligente em processo de evolução. Comunicações
atribuídas a animais são, em regra, manifestações de Espíritos brincalhões ou
interpretações equivocadas.
8. Ubiquidade Aparente e Tempo Pós-Desencarne
Um
mesmo Espírito pode responder a diversas evocações simultaneamente, sem que
isso implique divisão de sua individualidade. Kardec denomina esse fenômeno de
“ubiquidade aparente”, possível em razão da natureza espiritual, não sujeita às
limitações da matéria.
Quanto
ao tempo necessário após o desencarne, não há regra fixa. Alguns Espíritos
comunicam-se rapidamente; outros necessitam de período mais longo de adaptação.
A prudência recomenda evitar evocações imediatas, que podem ser penosas ao
Espírito recém-desencarnado.
9. Evocação e Responsabilidade Moral
A
evocação, segundo a Doutrina Espírita, não deve ter por base a curiosidade, mas
objetivos elevados: esclarecimento, consolação, auxílio moral e progresso
espiritual.
Kardec
ensina que “a melhor evocação é a prece
sincera”, pois ela estabelece laços fraternos entre encarnados e desencarnados,
independentemente de manifestações ostensivas. Os bons Espíritos atendem de bom
grado quando percebem intenções retas, mas se afastam diante da leviandade.
Conclusão
O
estudo das evocações evidencia o caráter profundamente racional, moral e responsável
da Doutrina Espírita. Não se trata de prática mágica ou ritualística, mas de
interação espiritual fundada na sintonia do pensamento, no respeito ao
livre-arbítrio e na elevação das intenções.
Embora
a ciência contemporânea ofereça novas linguagens para discutir a consciência e
a não-localidade do pensamento, a lição central permanece a mesma: a qualidade
das relações espirituais reflete a qualidade moral de quem as estabelece.
Assim,
mais do que um procedimento técnico, a evocação é um exercício de
responsabilidade espiritual, no qual a ética precede o fenômeno e a
transformação íntima se impõe como condição essencial.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Médiuns.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos (1858–1869).
- MOREIRA, Hermínio
C. Diálogo com as Sombras. São Paulo: Lake, 1981.
- NOURY, Bertrand. La
télépathie revisitée. Paris: CNRS Éditions, 2019.
- RADIN, Dean. Entangled
Minds: Extrasensory Experiences in a Quantum Reality. New York:
Paraview, 2006.
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