Introdução
Ao longo
da história, alguns personagens se destacam por conseguirem unir, com
equilíbrio e discernimento, o pensamento espírita com a atuação social e
política. José Freitas Nobre (1921–1990) é um desses exemplos notáveis.
Advogado, jornalista, professor universitário e parlamentar, ele marcou sua
trajetória pela defesa intransigente da liberdade, pela ética no serviço
público e pela divulgação responsável da Doutrina Espírita.
A vida de
Freitas Nobre permite compreender como a visão espiritual do ser humano —
quando bem compreendida e fiel à Codificação — pode orientar escolhas que
transcendem interesses imediatos, alcançando a esfera coletiva. Em um tempo de
autoritarismo e censura, sua postura firme e ao mesmo tempo prudente guarda
afinidade com os princípios morais enunciados pelos Espíritos superiores,
especialmente no que diz respeito à Lei de Liberdade, à Lei de Justiça, Amor e
Caridade e ao papel social do pensamento.
1. Formação e Trajetória
Acadêmica: A Razão como Ferramenta de Serviço
Nascido
em Fortaleza, Ceará, Freitas Nobre mudou-se ainda adolescente para São Paulo,
onde construiu sua sólida formação intelectual. Graduou-se em Direito pela
Universidade de São Paulo em 1948 e posteriormente doutorou-se em Direito e
Economia da Informação na Universidade de Paris — conquistas que evidenciam sua
vocação para o estudo e para o serviço ao conhecimento.
Como
professor, lecionou jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, na PUC-SP e integrou
o corpo docente fundador da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde foi o
idealizador da Agência Universitária de Notícias (AUN), ainda hoje um
instrumento pedagógico e social relevante. Sua atuação acadêmica revela o valor
que atribuía à instrução — ponto reafirmado pelo Espiritismo como condição
indispensável ao progresso moral (LE, q. 780).
2. Jornalismo e
Responsabilidade Social: A Palavra como Instrumento de Luz
Freitas
Nobre foi também um protagonista do jornalismo brasileiro. Presidiu o Sindicato
dos Jornalistas Profissionais de São Paulo, a Federação Nacional dos
Jornalistas e atuou como editor da Folha Espírita, periódico que se
tornaria um marco na divulgação doutrinária contemporânea.
Num
contexto de regime militar, seu compromisso com a verdade e com a liberdade de
consciência ecoa a advertência da Revista Espírita de que o pensamento é
livre por natureza e não se dobra à força. Sua prática profissional reafirmava
o dever moral de empregar a palavra para esclarecer, elevar e instruir, jamais
para dividir ou manipular.
No campo
espírita, sua participação editorial contribuiu para estabelecer um jornalismo
comprometido com o método, o bom senso e a fidelidade doutrinária.
3. Atuação Política: A
Defesa da Liberdade como Imperativo Moral
Eleito
vereador, vice-prefeito e posteriormente deputado federal pelo MDB — partido
que simbolizava a resistência democrática — Freitas Nobre exerceu mandatos
entre 1971 e 1979, período crítico da ditadura brasileira. Como parlamentar,
destacou-se na luta pela anistia política, pela retomada das eleições diretas e
pela convocação da Assembleia Constituinte.
Sua
atuação pública reconhece um princípio essencial da Doutrina Espírita: o
progresso moral das sociedades exige instituições justas, liberdade de
pensamento e responsabilidade cidadã. A luta pela dignidade humana encontra
ressonância direta nos ensinamentos espirituais, que afirmam que a verdadeira
liberdade consiste em poder seguir as inspirações do bem sem opressão externa
(LE, q. 825–826).
Foi por
essa trajetória que, em 2017, o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, passou a
carregar também seu nome: Aeroporto Deputado Freitas Nobre.
4. Compromisso Espírita: Fé
Raciocinada e Ação no Mundo
A
presença de Freitas Nobre no movimento espírita foi ampla e coerente. Tornou-se
amigo próximo de Chico Xavier, cuja psicografia — especialmente mensagens
atribuídas a Bezerra de Menezes — oferecia-lhe orientação moral em momentos
difíceis da vida política. Em meio à repressão, buscava discernimento, jamais
privilégio.
Também
participou ativamente de instituições como a FEESP, USE, O Clarim, Rádio
Boa Nova e AMESP, revelando que entendia o Espiritismo como força de integração
e serviço, não como instrumento de separação ou disputa.
Como
escritor, produziu obras que dialogam com temas centrais da Doutrina Espírita,
entre elas A
Alma da Matéria, O Dom da Mediunidade e O
Passe como Cura Magnética. Nessas publicações, evidencia-se o
esforço de integrar pesquisa, ciência e ética — uma postura coerente com o
método de observação, comparação e análise criteriosa estabelecido pelos
Espíritos e sistematizado por Allan Kardec.
5. Política e Espiritismo:
A Convergência da Ética e da Consciência
Freitas
Nobre rejeitou a postura de neutralidade absoluta que parte do movimento
espírita adotou no século XX, interpretando de forma equivocada o princípio de
que o Espiritismo não deve se associar a ideologias. Ele compreendia que não
cabia vincular a Doutrina a partidos ou interesses particulares, mas também
sabia que a consciência moral espírita não é indiferente à injustiça, à
violência ou à supressão de direitos.
A Revista
Espírita (1865, 1868 e outros anos) demonstra que os Espíritos superiores
não são alheios aos debates sociais, orientando sempre o progresso humano.
Assim, sua atuação política era extensão natural de suas convicções
espirituais: servir à verdade, defender a liberdade e promover a dignidade
humana.
6. Legado e Atualidade: A
Inspiração de uma Consciência Ativa
O legado
de Freitas Nobre permanece atual. Em um Brasil que ainda enfrenta desafios como
polarização, desinformação, desigualdade e fragilidade institucional, sua
postura ética e equilibrada oferece exemplo valioso: agir no mundo com
consciência espiritual, sem sectarismo, sem autoritarismo e sem fanatismo.
Sua
esposa, a Dra. Marlene Rossi Severino Nobre, ampliou esse legado ao liderar a Folha
Espírita, apoiar pesquisas médico-espíritas e fortalecer instituições
voltadas à promoção da saúde integral, contribuindo para a construção de um
ambiente doutrinário mais sério, racional e voltado ao bem.
Conclusão
A vida de
José Freitas Nobre mostra que a fé raciocinada não pede isolamento, mas
responsabilidade. Ele integrou, de modo exemplar, pensamento, sentimento e
ação, demonstrando que o Espiritismo — quando vivido em sua pureza moral — é
capaz de iluminar a vida pública sem se confundir com ela.
Sua
biografia ensina que não há contradição entre espiritualidade e engajamento
social. A verdadeira neutralidade reside em não se vincular a ideologias, mas
jamais em permanecer indiferente ao sofrimento humano ou à luta pela liberdade.
É na conjugação entre consciência moral e compromisso social que se manifesta o
ideal de progresso, tão claramente anunciado pelos Espíritos superiores.
Referências
- ALLAN KARDEC. O Livro dos
Espíritos.
- ALLAN KARDEC. O Evangelho
segundo o Espiritismo.
- ALLAN KARDEC. Revista
Espírita (1858–1869).
- ALLAN KARDEC. A Gênese.
- Arquivos da Câmara dos
Deputados – perfis parlamentares.
- Folha Espírita – acervo
histórico e biográfico.
- IPHAN e ANAC – notas sobre o
Aeroporto Deputado Freitas Nobre (2017).
- Obras de José Freitas Nobre:
A Alma da Matéria, O Dom da Mediunidade, O Passe como
Cura Magnética.
- Estudos biográficos sobre
Marlene Rossi Severino Nobre e instituições espíritas contemporâneas.
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