terça-feira, 2 de dezembro de 2025

JOSÉ FREITAS NOBRE: UM INTELECTUAL ESPÍRITA
ENTRE A POLÍTICA, O JORNALISMO
E A ÉTICA DO PROGRESSO MORAL
- A Era do Espírito -

Introdução

Ao longo da história, alguns personagens se destacam por conseguirem unir, com equilíbrio e discernimento, o pensamento espírita com a atuação social e política. José Freitas Nobre (1921–1990) é um desses exemplos notáveis. Advogado, jornalista, professor universitário e parlamentar, ele marcou sua trajetória pela defesa intransigente da liberdade, pela ética no serviço público e pela divulgação responsável da Doutrina Espírita.

A vida de Freitas Nobre permite compreender como a visão espiritual do ser humano — quando bem compreendida e fiel à Codificação — pode orientar escolhas que transcendem interesses imediatos, alcançando a esfera coletiva. Em um tempo de autoritarismo e censura, sua postura firme e ao mesmo tempo prudente guarda afinidade com os princípios morais enunciados pelos Espíritos superiores, especialmente no que diz respeito à Lei de Liberdade, à Lei de Justiça, Amor e Caridade e ao papel social do pensamento.

1. Formação e Trajetória Acadêmica: A Razão como Ferramenta de Serviço

Nascido em Fortaleza, Ceará, Freitas Nobre mudou-se ainda adolescente para São Paulo, onde construiu sua sólida formação intelectual. Graduou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1948 e posteriormente doutorou-se em Direito e Economia da Informação na Universidade de Paris — conquistas que evidenciam sua vocação para o estudo e para o serviço ao conhecimento.

Como professor, lecionou jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, na PUC-SP e integrou o corpo docente fundador da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde foi o idealizador da Agência Universitária de Notícias (AUN), ainda hoje um instrumento pedagógico e social relevante. Sua atuação acadêmica revela o valor que atribuía à instrução — ponto reafirmado pelo Espiritismo como condição indispensável ao progresso moral (LE, q. 780).

2. Jornalismo e Responsabilidade Social: A Palavra como Instrumento de Luz

Freitas Nobre foi também um protagonista do jornalismo brasileiro. Presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo, a Federação Nacional dos Jornalistas e atuou como editor da Folha Espírita, periódico que se tornaria um marco na divulgação doutrinária contemporânea.

Num contexto de regime militar, seu compromisso com a verdade e com a liberdade de consciência ecoa a advertência da Revista Espírita de que o pensamento é livre por natureza e não se dobra à força. Sua prática profissional reafirmava o dever moral de empregar a palavra para esclarecer, elevar e instruir, jamais para dividir ou manipular.

No campo espírita, sua participação editorial contribuiu para estabelecer um jornalismo comprometido com o método, o bom senso e a fidelidade doutrinária.

3. Atuação Política: A Defesa da Liberdade como Imperativo Moral

Eleito vereador, vice-prefeito e posteriormente deputado federal pelo MDB — partido que simbolizava a resistência democrática — Freitas Nobre exerceu mandatos entre 1971 e 1979, período crítico da ditadura brasileira. Como parlamentar, destacou-se na luta pela anistia política, pela retomada das eleições diretas e pela convocação da Assembleia Constituinte.

Sua atuação pública reconhece um princípio essencial da Doutrina Espírita: o progresso moral das sociedades exige instituições justas, liberdade de pensamento e responsabilidade cidadã. A luta pela dignidade humana encontra ressonância direta nos ensinamentos espirituais, que afirmam que a verdadeira liberdade consiste em poder seguir as inspirações do bem sem opressão externa (LE, q. 825–826).

Foi por essa trajetória que, em 2017, o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, passou a carregar também seu nome: Aeroporto Deputado Freitas Nobre.

4. Compromisso Espírita: Fé Raciocinada e Ação no Mundo

A presença de Freitas Nobre no movimento espírita foi ampla e coerente. Tornou-se amigo próximo de Chico Xavier, cuja psicografia — especialmente mensagens atribuídas a Bezerra de Menezes — oferecia-lhe orientação moral em momentos difíceis da vida política. Em meio à repressão, buscava discernimento, jamais privilégio.

Também participou ativamente de instituições como a FEESP, USE, O Clarim, Rádio Boa Nova e AMESP, revelando que entendia o Espiritismo como força de integração e serviço, não como instrumento de separação ou disputa.

Como escritor, produziu obras que dialogam com temas centrais da Doutrina Espírita, entre elas A Alma da Matéria, O Dom da Mediunidade e O Passe como Cura Magnética. Nessas publicações, evidencia-se o esforço de integrar pesquisa, ciência e ética — uma postura coerente com o método de observação, comparação e análise criteriosa estabelecido pelos Espíritos e sistematizado por Allan Kardec.

5. Política e Espiritismo: A Convergência da Ética e da Consciência

Freitas Nobre rejeitou a postura de neutralidade absoluta que parte do movimento espírita adotou no século XX, interpretando de forma equivocada o princípio de que o Espiritismo não deve se associar a ideologias. Ele compreendia que não cabia vincular a Doutrina a partidos ou interesses particulares, mas também sabia que a consciência moral espírita não é indiferente à injustiça, à violência ou à supressão de direitos.

A Revista Espírita (1865, 1868 e outros anos) demonstra que os Espíritos superiores não são alheios aos debates sociais, orientando sempre o progresso humano. Assim, sua atuação política era extensão natural de suas convicções espirituais: servir à verdade, defender a liberdade e promover a dignidade humana.

6. Legado e Atualidade: A Inspiração de uma Consciência Ativa

O legado de Freitas Nobre permanece atual. Em um Brasil que ainda enfrenta desafios como polarização, desinformação, desigualdade e fragilidade institucional, sua postura ética e equilibrada oferece exemplo valioso: agir no mundo com consciência espiritual, sem sectarismo, sem autoritarismo e sem fanatismo.

Sua esposa, a Dra. Marlene Rossi Severino Nobre, ampliou esse legado ao liderar a Folha Espírita, apoiar pesquisas médico-espíritas e fortalecer instituições voltadas à promoção da saúde integral, contribuindo para a construção de um ambiente doutrinário mais sério, racional e voltado ao bem.

Conclusão

A vida de José Freitas Nobre mostra que a fé raciocinada não pede isolamento, mas responsabilidade. Ele integrou, de modo exemplar, pensamento, sentimento e ação, demonstrando que o Espiritismo — quando vivido em sua pureza moral — é capaz de iluminar a vida pública sem se confundir com ela.

Sua biografia ensina que não há contradição entre espiritualidade e engajamento social. A verdadeira neutralidade reside em não se vincular a ideologias, mas jamais em permanecer indiferente ao sofrimento humano ou à luta pela liberdade. É na conjugação entre consciência moral e compromisso social que se manifesta o ideal de progresso, tão claramente anunciado pelos Espíritos superiores.

Referências

  • ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos.
  • ALLAN KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • ALLAN KARDEC. Revista Espírita (1858–1869).
  • ALLAN KARDEC. A Gênese.
  • Arquivos da Câmara dos Deputados – perfis parlamentares.
  • Folha Espírita – acervo histórico e biográfico.
  • IPHAN e ANAC – notas sobre o Aeroporto Deputado Freitas Nobre (2017).
  • Obras de José Freitas Nobre: A Alma da Matéria, O Dom da Mediunidade, O Passe como Cura Magnética.
  • Estudos biográficos sobre Marlene Rossi Severino Nobre e instituições espíritas contemporâneas.

 

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