quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O SER QUE PERMANECE E O PARECER QUE PASSA
UM ENSAIO ESPÍRITA SOBRE IDENTIDADE, MORAL E PROPÓSITO
- A Era do Espírito -

Introdução

O século XXI inaugurou uma era marcada pela exaltação da visibilidade. Redes sociais, publicidade e cultura digital transformaram a imagem em parâmetro de valor, elevando o brilho instantâneo acima da construção moral. Likes (curtidas) tornaram-se aplausos modernos, e o olhar externo parece pesar mais que o olhar íntimo. Contudo, ao lado dessa maré luminosa e ligeira, a Doutrina Espírita ergue um convite firme à interiorização: lembrar que o ser vale mais do que o parecer.

Allan Kardec, ao codificar o ensinamento dos Espíritos, apresentou à humanidade uma ciência moral destinada a esclarecer, consolar e orientar. E é à luz de suas obras — especialmente O Livro dos Espíritos, A Gênese e os estudos constantes da Revista Espírita (1858–1869) — que refletimos sobre o desafio contemporâneo de construir uma identidade autêntica num mundo seduzido pela aparência.

O brilho externo e o obscurecimento da consciência

A sociedade contemporânea vive sob o impulso do imediato. Estímulos visuais intensos competem por atenção, enquanto indivíduos são incentivados a moldar a própria imagem para serem vistos, reconhecidos e validados. Perfis digitais tornam-se vitrines polidas, mas frequentemente silenciam conflitos íntimos.

O Espiritismo, entretanto, convida ao discernimento. Ensina que o corpo é instrumento passageiro, a personalidade é recurso transitório, mas o Espírito — ser pensante, responsável e eterno — é destino e continuidade. Aparência seduz; essência sustenta. A moral não se fotografa.

Perispírito: espelho sutil da vida interior

Segundo a Codificação, o Espírito se liga ao corpo por meio do perispírito, envoltório semifísico que o acompanha além da morte. Ele reflete estados íntimos, tendências, vícios e virtudes, registrando na própria substância o que alimentamos em pensamento.

A Revista Espírita relata que Espíritos elevados resplandecem não por ornamento estético, mas porque a luz moral lhes transborda naturalmente. O brilho verdadeiro nasce da harmonia entre sentimento, razão e conduta — nunca de retoques superficiais.

Assim, aquilo que buscamos ocultar sob filtros ou aparências retorna, cedo ou tarde, à superfície da consciência, exigindo reparação, aprendizado e mudança.

Quando a forma não suporta o conteúdo

Estruturas sociais fundadas na vaidade e no interesse imediato são frágeis. Sistemas políticos sem ética, modelos econômicos sem solidariedade e afetos guiados pelo egoísmo cedem às provas inevitáveis da vida. Onde falta virtude, o ornamento se desfaz.

Em A Gênese, encontramos o princípio moral que sustenta a regeneração: a transformação da humanidade começa no indivíduo. Não há sociedade renovada sem renovação íntima; não há progresso coletivo sem progresso moral.

O Espiritismo não conclama ao ascetismo visual, mas à lucidez: a beleza sensível tem valor, mas não substitui caráter.

O chamado à autenticidade moral

Escolher ser ao invés de apenas parecer é tarefa disciplinar. No campo da consciência, significa:

  • optar pela honestidade em vez da exibição;
  • reconhecer as próprias sombras, buscando iluminá-las pelo esforço constante;
  • agir com retidão mesmo quando ninguém vê;
  • compreender a existência como jornada de aprimoramento contínuo.

A transformação íntima não se resume ao refazer de hábitos externos; é reconstrução de valores, sentimentos e escolhas. A reforma superficial polida não edifica. A evolução profunda exige renúncia, persistência e espírito de serviço.

O Evangelho Segundo o Espiritismo ensina que o amor resume a lei. Então, amar é mais do que demonstrar simpatia: é viver o bem, servir no silêncio, crescer sem vanglória.

Conclusão

O tempo dissolve tudo o que não tem raiz: imagens, máscaras, aplausos. A aparência é fruto de um instante; o caráter é patrimônio de muitas vidas. Quando cultivamos virtudes, fortalecemos a verdadeira beleza — aquela que nasce do Espírito, floresce na consciência e se reconhece na paz íntima.

O brilho passageiro se apaga. A luz interior permanece.

E é essa luz que conduz o Espírito à ascensão.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Federação Espírita Brasileira (FEB).
  • KARDEC, Allan. A Gênese. FEB.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. FEB.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).

 

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