Introdução
O século
XXI inaugurou uma era marcada pela exaltação da visibilidade. Redes sociais,
publicidade e cultura digital transformaram a imagem em parâmetro de valor,
elevando o brilho instantâneo acima da construção moral. Likes (curtidas) tornaram-se
aplausos modernos, e o olhar externo parece pesar mais que o olhar íntimo.
Contudo, ao lado dessa maré luminosa e ligeira, a Doutrina Espírita ergue um
convite firme à interiorização: lembrar que o ser vale mais do que o parecer.
Allan
Kardec, ao codificar o ensinamento dos Espíritos, apresentou à humanidade uma
ciência moral destinada a esclarecer, consolar e orientar. E é à luz de suas
obras — especialmente O Livro dos Espíritos, A Gênese e os
estudos constantes da Revista Espírita (1858–1869) — que refletimos
sobre o desafio contemporâneo de construir uma identidade autêntica num mundo
seduzido pela aparência.
O brilho externo e o obscurecimento da consciência
A
sociedade contemporânea vive sob o impulso do imediato. Estímulos visuais
intensos competem por atenção, enquanto indivíduos são incentivados a moldar a
própria imagem para serem vistos, reconhecidos e validados. Perfis digitais
tornam-se vitrines polidas, mas frequentemente silenciam conflitos íntimos.
O
Espiritismo, entretanto, convida ao discernimento. Ensina que o corpo é
instrumento passageiro, a personalidade é recurso transitório, mas o Espírito —
ser pensante, responsável e eterno — é destino e continuidade. Aparência seduz;
essência sustenta. A moral não se fotografa.
Perispírito: espelho sutil da vida interior
Segundo a
Codificação, o Espírito se liga ao corpo por meio do perispírito, envoltório
semifísico que o acompanha além da morte. Ele reflete estados íntimos,
tendências, vícios e virtudes, registrando na própria substância o que
alimentamos em pensamento.
A Revista
Espírita relata que Espíritos elevados resplandecem não por ornamento
estético, mas porque a luz moral lhes transborda naturalmente. O brilho
verdadeiro nasce da harmonia entre sentimento, razão e conduta — nunca de
retoques superficiais.
Assim,
aquilo que buscamos ocultar sob filtros ou aparências retorna, cedo ou tarde, à
superfície da consciência, exigindo reparação, aprendizado e mudança.
Quando a forma não suporta o conteúdo
Estruturas
sociais fundadas na vaidade e no interesse imediato são frágeis. Sistemas
políticos sem ética, modelos econômicos sem solidariedade e afetos guiados pelo
egoísmo cedem às provas inevitáveis da vida. Onde falta virtude, o ornamento se
desfaz.
Em A
Gênese, encontramos o princípio moral que sustenta a regeneração: a
transformação da humanidade começa no indivíduo. Não há sociedade renovada sem
renovação íntima; não há progresso coletivo sem progresso moral.
O
Espiritismo não conclama ao ascetismo visual, mas à lucidez: a beleza sensível
tem valor, mas não substitui caráter.
O chamado à autenticidade moral
Escolher
ser ao invés de apenas parecer é tarefa disciplinar. No campo da consciência,
significa:
- optar pela honestidade em
vez da exibição;
- reconhecer as próprias
sombras, buscando iluminá-las pelo esforço constante;
- agir com retidão mesmo
quando ninguém vê;
- compreender a existência
como jornada de aprimoramento contínuo.
A
transformação íntima não se resume ao refazer de hábitos externos; é
reconstrução de valores, sentimentos e escolhas. A reforma superficial polida
não edifica. A evolução profunda exige renúncia, persistência e espírito de
serviço.
O
Evangelho Segundo o Espiritismo ensina que o amor resume a lei. Então, amar é
mais do que demonstrar simpatia: é viver o bem, servir no silêncio, crescer sem
vanglória.
Conclusão
O tempo
dissolve tudo o que não tem raiz: imagens, máscaras, aplausos. A aparência é
fruto de um instante; o caráter é patrimônio de muitas vidas. Quando cultivamos
virtudes, fortalecemos a verdadeira beleza — aquela que nasce do Espírito,
floresce na consciência e se reconhece na paz íntima.
O brilho
passageiro se apaga. A luz interior permanece.
E é essa
luz que conduz o Espírito à ascensão.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Federação Espírita Brasileira (FEB).
- KARDEC, Allan. A Gênese. FEB.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho Segundo o Espiritismo. FEB.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
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