quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O PASSE ESPÍRITA, O PRINCÍPIO VITAL
E A COMUNHÃO DE PENSAMENTOS
UM ESTUDO DOUTRINÁRIO À LUZ DA CODIFICAÇÃO
E DA CIÊNCIA CONTEMPORÂNEA
- A Era do Espírito -

Introdução

Desde a publicação de O Livro dos Espíritos (1857), a Doutrina Espírita vem oferecendo uma explicação racional e coerente sobre a vida, os fluidos espirituais e os fenômenos de cura. Entre esses fenômenos, o passe ocupa lugar central na prática assistencial dos centros espíritas.

Mais que um simples gesto com as mãos, o passe representa a interação entre encarnados e desencarnados, sustentado pela ação do fluido universal, pelo princípio vital e pela comunhão de pensamentos descrita por Allan Kardec. Ao mesmo tempo, pesquisas contemporâneas têm buscado compreender, com metodologia científica, o impacto de práticas espirituais na saúde emocional e física, aproximando ciência e espiritualidade sob novas bases.

Este artigo integra esses dois campos: apresenta o passe à luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e dialoga com estudos acadêmicos atuais, mantendo fidelidade ao método espírita e à linguagem clara e racional que caracteriza a Revista Espírita (1858–1869).

1. O Passe na Perspectiva Doutrinária: Ação Fluídica e Auxílio Espiritual

O passe constitui um momento de assistência, no qual a casa espírita se transforma em ambiente de cooperação entre encarnados e Espíritos benevolentes. Kardec explica, em A Gênese, que os fluidos espirituais se encontram em constante movimento, podendo ser modificados pela vontade, pelo pensamento e pela moralidade dos seres que os manipulam.

Durante o passe:

  • a equipe espiritual identifica desarmonias no perispírito;
  • impressões de desgaste emocional, ansiedade e tensões são suavizadas;
  • recursos fluídicos são reorganizados em favor do equilíbrio geral.

O passista oferece boa vontade, disciplina mental e serenidade moral; mas a direção do trabalho pertence aos benfeitores espirituais. O beneficiário, por sua vez, recebe conforme sua receptividade interior, experimentando, não raro, alivio emocional, serenidade ou sensação de vitalidade renovada.

O passe não cria milagres. Ele favorece condições para que cada pessoa retome a harmonia interior e prossiga no esforço de transformação íntima — princípio essencial da Doutrina Espírita.

2. O Fluido Universal e o Princípio Vital: Bases da Vida e da Cura

Nas questões 26 a 70 de O Livro dos Espíritos, Kardec estabelece a estrutura fundamental do Universo: Deus, espírito e matéria, unidos pelo fluido universal — substância primordial que origina tanto a matéria quanto o perispírito.

Segundo a Doutrina Espírita:

  • o espírito é o princípio inteligente;
  • a matéria é o princípio material;
  • o fluido universal é o agente intermediário que permite a interação entre ambos.

A partir desse fluido, surge o princípio vital, responsável por animar a matéria orgânica. Ele é:

  • força motriz da vida;
  • elo funcional entre espírito e corpo;
  • elemento cuja quantidade e qualidade variam entre indivíduos e espécies.

A vida orgânica resulta da união entre:

Matéria + Princípio Vital + Espírito

Essa concepção explica por que:

  • a matéria pode existir sem vida;
  • o princípio vital não tem existência independente da matéria;
  • a vitalidade pode ser transmitida ou diminuída;
  • fenômenos de cura são possíveis pela reorganização fluídica.

A Revista Espírita oferece numerosos estudos sobre magnetismo espiritual e humano, reforçando que a ação fluídica é natural, submetida a leis universais.

3. O Passe como Aplicação Prática dessas Leis

Kardec descreve três modalidades de magnetismo:

  • Humano – ação fluídica do encarnado;
  • Espiritual – ação fluídica dos Espíritos;
  • Misto – cooperação entre ambos.

O passe, tal como praticado nos centros espíritas, geralmente pertence a esta última categoria.

A eficácia depende de:

  • afinidade fluídica;
  • pureza moral;
  • intenção elevada;
  • equilíbrio mental;
  • comunhão de pensamentos entre os presentes.

Jesus é apresentado por Kardec como o modelo supremo de ação fluídica: sua pureza moral permitia-lhe realizar curas com eficácia máxima, sem espetáculo, sem misticismo e movido unicamente pela compaixão.

4. Estudos Científicos Recentes e Convergências com a Doutrina Espírita

A ciência contemporânea, ainda que com linguagem própria, começa a examinar efeitos de práticas espirituais sobre o bem-estar e a saúde.

UNESP – Faculdade de Medicina de Botucatu

  • Estudo controlado demonstrou que o grupo que recebeu passe apresentou redução significativamente maior da ansiedade, comparado ao grupo placebo (imposição de mãos neutra).

UFTM – Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Em recém-nascidos hospitalizados, o passe produziu:
    • melhora em parâmetros respiratórios,
    • alterações hematológicas favoráveis,
    • maior tranquilidade fisiológica.

Esses achados, embora não expliquem o fenômeno espiritual, são compatíveis com a ação fluídica descrita por Kardec. A medicina moderna também reconhece os benefícios psicofisiológicos de práticas como oração, meditação e imposição de mãos.

A convergência reside no reconhecimento de que fatores emocionais, espirituais e relacionais influenciam o equilíbrio físico e mental.

5. Comunhão de Pensamentos: A Base Fluídica das Reuniões Espíritas

O termo egrégora não pertence ao vocabulário da Codificação. Porém, o conceito moderno de “campo energético coletivo” se aproxima, em parte, da comunhão de pensamentos — expressão detalhada por Kardec em seu discurso de 2 de novembro de 1864, publicado na Revista Espírita.

Kardec explica:

  • o pensamento é força real, que movimenta o fluido espiritual;
  • a vontade é o pensamento em ação;
  • pensamentos coletivos geram correntes harmônicas ou perturbadoras;
  • reuniões fraternas criam ambiente favorável à ação dos bons Espíritos.

Assim, aquilo que hoje se chama egrégora corresponde, quando compreendido sem misticismos, ao fenômeno racional da sintonia mental coletiva — mecanismo essencial para o êxito dos passes e reuniões de assistência.

6. A Cura Segundo o Espiritismo: Além do Alívio Imediato

A Doutrina Espírita distingue:

  • cura física, sempre temporária,
  • cura moral, profunda e duradoura.

O passe é auxílio, não solução definitiva. Ele oferece:

  • reequilíbrio,
  • serenidade,
  • condições para retomada do esforço moral.

A verdadeira transformação depende da renovação interior — pensamentos, sentimentos, hábitos e atitudes. É pela transformação íntima que o Espírito progride, sustenta as conquistas e se liberta das causas profundas do sofrimento.

Conclusão

O passe espírita, compreendido à luz da Doutrina codificada por Allan Kardec, é fenômeno natural, sustentado pelas leis que regem o fluido universal, o princípio vital e a ação do pensamento. Suas bases são racionais, suas consequências são morais e seus efeitos se estendem da serenidade emocional ao reequilíbrio fluídico.

A ciência contemporânea, mesmo sem adentrar a dimensão espiritual, confirma benefícios psicofisiológicos que dialogam com os princípios espíritas.

Entretanto, como ensina Kardec, a cura mais profunda não está no passe, mas no esforço moral, na bondade praticada, no pensamento elevado e na transformação íntima — caminho seguro para a paz e o progresso espiritual.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1857.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. 1868.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • UNESP – Faculdade de Medicina de Botucatu. Estudos sobre efeitos do passe na ansiedade.
  • UFTM – Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Pesquisas sobre imposição de mãos e parâmetros fisiológicos em recém-nascidos.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

AMOR FRATERNO ESCOLA DA ALMA E LEI DE SOLIDARIEDADE - A Era do Espírito - Introdução Entre as narrativas antigas que atravessam os séculos...