Introdução
Desde
a publicação de O Livro dos Espíritos (1857), a Doutrina Espírita vem
oferecendo uma explicação racional e coerente sobre a vida, os fluidos
espirituais e os fenômenos de cura. Entre esses fenômenos, o passe ocupa lugar
central na prática assistencial dos centros espíritas.
Mais
que um simples gesto com as mãos, o passe representa a interação entre
encarnados e desencarnados, sustentado pela ação do fluido universal, pelo
princípio vital e pela comunhão de pensamentos descrita por Allan Kardec. Ao
mesmo tempo, pesquisas contemporâneas têm buscado compreender, com metodologia
científica, o impacto de práticas espirituais na saúde emocional e física,
aproximando ciência e espiritualidade sob novas bases.
Este
artigo integra esses dois campos: apresenta o passe à luz da Doutrina Espírita
codificada por Allan Kardec e dialoga com estudos acadêmicos atuais, mantendo
fidelidade ao método espírita e à linguagem clara e racional que caracteriza a
Revista Espírita (1858–1869).
1. O Passe na Perspectiva Doutrinária: Ação
Fluídica e Auxílio Espiritual
O passe
constitui um momento de assistência, no qual a casa espírita se transforma em
ambiente de cooperação entre encarnados e Espíritos benevolentes. Kardec
explica, em A Gênese, que os fluidos espirituais se encontram em
constante movimento, podendo ser modificados pela vontade, pelo pensamento e
pela moralidade dos seres que os manipulam.
Durante
o passe:
- a equipe espiritual
identifica desarmonias no perispírito;
- impressões de
desgaste emocional, ansiedade e tensões são suavizadas;
- recursos fluídicos
são reorganizados em favor do equilíbrio geral.
O
passista oferece boa vontade, disciplina mental e serenidade moral; mas a
direção do trabalho pertence aos benfeitores espirituais. O beneficiário, por
sua vez, recebe conforme sua receptividade interior, experimentando, não raro,
alivio emocional, serenidade ou sensação de vitalidade renovada.
O
passe não cria milagres. Ele favorece condições para que cada pessoa
retome a harmonia interior e prossiga no esforço de transformação íntima —
princípio essencial da Doutrina Espírita.
2. O Fluido Universal e o Princípio Vital: Bases da
Vida e da Cura
Nas
questões 26 a 70 de O Livro dos Espíritos, Kardec estabelece a estrutura
fundamental do Universo: Deus, espírito e matéria, unidos pelo fluido universal
— substância primordial que origina tanto a matéria quanto o perispírito.
Segundo a Doutrina Espírita:
- o espírito é o princípio
inteligente;
- a matéria é o princípio
material;
- o fluido universal é o agente
intermediário que permite a interação entre ambos.
A
partir desse fluido, surge o princípio vital, responsável por animar a
matéria orgânica. Ele é:
- força motriz da
vida;
- elo funcional entre
espírito e corpo;
- elemento cuja
quantidade e qualidade variam entre indivíduos e espécies.
A vida
orgânica resulta da união entre:
Matéria
+ Princípio Vital + Espírito
Essa
concepção explica por que:
- a matéria pode
existir sem vida;
- o princípio vital
não tem existência independente da matéria;
- a vitalidade pode
ser transmitida ou diminuída;
- fenômenos de cura
são possíveis pela reorganização fluídica.
A
Revista Espírita oferece numerosos estudos sobre magnetismo espiritual e
humano, reforçando que a ação fluídica é natural, submetida a leis universais.
3. O Passe como Aplicação Prática dessas Leis
Kardec
descreve três modalidades de magnetismo:
- Humano – ação fluídica do
encarnado;
- Espiritual – ação fluídica
dos Espíritos;
- Misto – cooperação entre
ambos.
O
passe, tal como praticado nos centros espíritas, geralmente pertence a esta
última categoria.
A
eficácia depende de:
- afinidade fluídica;
- pureza moral;
- intenção elevada;
- equilíbrio mental;
- comunhão de
pensamentos entre os presentes.
Jesus
é apresentado por Kardec como o modelo supremo de ação fluídica: sua pureza
moral permitia-lhe realizar curas com eficácia máxima, sem espetáculo, sem
misticismo e movido unicamente pela compaixão.
4. Estudos Científicos Recentes e Convergências com
a Doutrina Espírita
A
ciência contemporânea, ainda que com linguagem própria, começa a examinar
efeitos de práticas espirituais sobre o bem-estar e a saúde.
UNESP – Faculdade de Medicina de Botucatu
- Estudo controlado
demonstrou que o grupo que recebeu passe apresentou redução
significativamente maior da ansiedade, comparado ao grupo placebo
(imposição de mãos neutra).
UFTM – Universidade Federal do Triângulo Mineiro
- melhora em
parâmetros respiratórios,
- alterações
hematológicas favoráveis,
- maior
tranquilidade fisiológica.
Esses
achados, embora não expliquem o fenômeno espiritual, são compatíveis com a ação
fluídica descrita por Kardec. A medicina moderna também reconhece os benefícios
psicofisiológicos de práticas como oração, meditação e imposição de mãos.
A
convergência reside no reconhecimento de que fatores emocionais, espirituais e
relacionais influenciam o equilíbrio físico e mental.
5. Comunhão de Pensamentos: A Base Fluídica das
Reuniões Espíritas
O
termo egrégora não pertence ao vocabulário da Codificação. Porém, o conceito
moderno de “campo energético coletivo” se aproxima, em parte, da comunhão de
pensamentos — expressão detalhada por Kardec em seu discurso de 2 de
novembro de 1864, publicado na Revista Espírita.
Kardec
explica:
- o pensamento é
força real, que movimenta o fluido espiritual;
- a vontade é o
pensamento em ação;
- pensamentos
coletivos geram correntes harmônicas ou perturbadoras;
- reuniões fraternas
criam ambiente favorável à ação dos bons Espíritos.
Assim,
aquilo que hoje se chama egrégora corresponde, quando compreendido sem
misticismos, ao fenômeno racional da sintonia mental coletiva — mecanismo
essencial para o êxito dos passes e reuniões de assistência.
6. A Cura Segundo o Espiritismo: Além do Alívio
Imediato
A
Doutrina Espírita distingue:
- cura física, sempre
temporária,
- cura moral, profunda e
duradoura.
O
passe é auxílio, não solução definitiva. Ele oferece:
- reequilíbrio,
- serenidade,
- condições para
retomada do esforço moral.
A
verdadeira transformação depende da renovação interior — pensamentos, sentimentos,
hábitos e atitudes. É pela transformação íntima que o Espírito progride,
sustenta as conquistas e se liberta das causas profundas do sofrimento.
Conclusão
O
passe espírita, compreendido à luz da Doutrina codificada por Allan Kardec, é
fenômeno natural, sustentado pelas leis que regem o fluido universal, o
princípio vital e a ação do pensamento. Suas bases são racionais, suas
consequências são morais e seus efeitos se estendem da serenidade emocional ao
reequilíbrio fluídico.
A
ciência contemporânea, mesmo sem adentrar a dimensão espiritual, confirma
benefícios psicofisiológicos que dialogam com os princípios espíritas.
Entretanto,
como ensina Kardec, a cura mais profunda não está no passe, mas no esforço
moral, na bondade praticada, no pensamento elevado e na transformação
íntima — caminho seguro para a paz e o progresso espiritual.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos. 1857.
- KARDEC, Allan. A
Gênese. 1868.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- UNESP – Faculdade
de Medicina de Botucatu. Estudos sobre efeitos do passe na ansiedade.
- UFTM – Universidade
Federal do Triângulo Mineiro. Pesquisas sobre imposição de mãos e
parâmetros fisiológicos em recém-nascidos.
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