Introdução
Há momentos da existência em que a sucessão de
perdas parece retirar o chão sob os pés. A perda do emprego, seguida do
fracasso de um projeto no qual se depositaram recursos materiais e expectativas
legítimas, pode gerar abatimento profundo, desânimo e sensação de inutilidade.
No mundo atual — marcado por instabilidade econômica, competitividade intensa e
insegurança profissional — essas experiências tornaram-se mais frequentes e
atingem pessoas de todas as idades, inclusive aquelas que possuem formação
moral e espiritual consistente.
À luz da Doutrina Espírita, porém, nenhuma dor é
inútil, nenhuma queda é definitiva e nenhuma noite é eterna. Este texto propõe
uma palavra de ânimo e consolo, convidando à retomada da coragem, do
discernimento e da confiança ativa na vida.
O
abatimento moral e a fuga pela inconsciência
Quando a dor moral se torna intensa, é comum surgir
o desejo de fugir da realidade. Alguns procuram o isolamento, outros se
entregam à apatia; há quem busque, ainda que inconscientemente, o
entorpecimento da mente para não pensar, não sentir, não lembrar. Esse
mecanismo de fuga, embora compreensível do ponto de vista humano, não resolve o
problema essencial e pode agravar o estado psíquico e espiritual.
A Doutrina Espírita ensina que o Espírito não se
liberta das provas evitando-as, mas enfrentando-as com lucidez e
responsabilidade. O alívio artificial, quando buscado como forma de evasão
sistemática da realidade, interrompe temporariamente a dor, mas não promove a
superação moral nem a reorganização interior necessária para a reconstrução da
vida.
Na Revista Espírita, em diversas ocasiões,
os Espíritos alertam que o sofrimento moral, quando mal compreendido, pode levar
ao desalento; mas, quando iluminado pela razão e pela fé raciocinada,
converte-se em instrumento de fortalecimento da alma.
Prova
não é condenação: é etapa educativa
O fracasso de um empreendimento, por mais doloroso
que seja, não define o valor do Espírito. As provas relacionadas ao trabalho, à
subsistência e ao uso dos recursos materiais fazem parte do aprendizado
terreno. Em O Livro dos Espíritos, somos esclarecidos de que as
dificuldades econômicas e profissionais muitas vezes têm por objetivo
desenvolver a perseverança, a humildade, a criatividade e a confiança em si
mesmo e em Deus.
Não raro, o desânimo nasce da comparação: “outros
passam por situações semelhantes e conseguem reagir”. Essa observação, longe de
servir como motivo de culpa, deve ser vista como sinal de que a reação é
possível, ainda que em ritmos diferentes. Cada Espírito possui sua história,
suas fragilidades e seu tempo de amadurecimento.
Há os que lutam imediatamente para reverter a
situação; outros se recompõem lentamente; alguns, por instantes, sentem-se
vencidos. A pedagogia divina, porém, não abandona ninguém no ponto da queda.
Conhecimento
espiritual não dispensa vigilância emocional
Possuir conhecimento espírita não significa estar
imune ao sofrimento, ao erro ou ao abatimento. O próprio Allan Kardec esclarece
que o progresso moral não ocorre de maneira automática pelo simples fato de
conhecer a verdade. O conhecimento amplia a responsabilidade, mas não elimina
as lutas íntimas.
É precisamente nesses momentos que se torna
essencial retomar os princípios estudados: a imortalidade do Espírito, a lei de
causa e efeito, a pluralidade das existências e a justiça divina. Essas
verdades não são abstrações consoladoras, mas fundamentos racionais que
devolvem sentido à dor e perspectiva ao futuro.
A resignação ensinada pela Doutrina Espírita não é
passividade nem conformismo estéril. Trata-se de uma atitude ativa de aceitação
lúcida da prova, aliada ao esforço constante para melhorar, recomeçar e
aprender com a experiência.
Reagir
é possível — e necessário
A vida convida sempre à reação construtiva. Mesmo
quando tudo parece perdido, algo permanece intacto: a capacidade de pensar, de
escolher e de recomeçar. Reagir não significa negar a dor, mas decidir não
permanecer prisioneiro dela.
Pequenos passos são suficientes para iniciar a
retomada:
- organizar a mente
antes de reorganizar a vida material;
- buscar apoio moral
em pessoas de confiança;
- retomar hábitos
simples que favoreçam o equilíbrio;
- manter a prece como
diálogo lúcido e consciente com Deus;
- lembrar que nenhuma
situação material define o destino eterno do Espírito.
Como ensinam os Espíritos na Revista Espírita,
a coragem moral não consiste em nunca cair, mas em levantar-se com mais clareza
e humildade após a queda.
Conclusão:
a noite não invalida o amanhecer
A dor atual não anula o futuro. A perda não elimina
as possibilidades. O erro não cancela a dignidade do Espírito. A Doutrina
Espírita nos convida a olhar além do instante difícil e a compreender que a
existência corporal é capítulo, não livro inteiro.
Dormir para esquecer não cura; despertar para
compreender liberta. A luta pode ser retomada com novos recursos: mais
experiência, mais prudência, mais sensibilidade humana. Deus não exige do
Espírito o sucesso imediato, mas o esforço sincero de prosseguir.
Se hoje tudo parece escuro, lembremos: a noite não
invalida o amanhecer — apenas o prepara.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. O
Céu e o Inferno.
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Médiuns.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- DENIS, Léon. Depois
da Morte.
- DELANNE, Gabriel. A
Evolução Anímica.
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