Introdução
Muitas
palavras atravessam séculos e culturas, modificando-se ao sabor das disputas
ideológicas, dos usos sociais e das transformações históricas. Termos como radical,
fundamental, ortodoxo e dogma — outrora construtivos e
ligados à ideia de base, correção e princípio — passaram, em grande parte do
discurso contemporâneo, a carregar conotações negativas. Fala-se em radicalismo
como fanatismo, em fundamentalismo como extremismo, em ortodoxia como rigidez e
em dogma como imposição cega.
A
Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec sob um método rigoroso de
observação e comparação, oferece ferramentas preciosas para compreender o
sentido legítimo desses vocábulos. Na Revista Espírita (1858–1869) e nas
obras da Codificação, Kardec demonstra que o Espiritismo é uma doutrina de
bases sólidas, progressiva, racional e aberta ao aperfeiçoamento do
conhecimento. Assim, ao retomarmos a origem dessas palavras, podemos
ressignificá-las e recolocá-las no horizonte equilibrado que o ensino dos
Espíritos propõe.
Este
artigo examina a etimologia e o verdadeiro significado de cada termo,
articulando-os com o pensamento espírita e com os desafios atuais de um mundo
marcado por polarizações, simplificações e discursos apressados.
1. Radical: voltar às raízes para compreender a
vida
A
palavra radical vem do latim radix, “raiz”. Significa aquilo que
toca o essencial, que investiga profundamente as causas de um fenômeno. Nas
ciências, fala-se em mudanças radicais para designar transformações estruturais
e necessárias. Um radical matemático é, literalmente, a raiz de uma operação.
A
linguagem cotidiana, porém, distorceu o termo, aproximando-o de extremismos
ideológicos.
A
Doutrina Espírita oferece um contraponto lúcido. Em A Gênese (cap. I,
item 55), Kardec explica que o Espiritismo é radical não por rigidez, mas
porque examina as causas fundamentais da vida espiritual e da vida
material.
Ser
radical, nesse sentido legítimo, significa voltar às raízes da existência — às
leis morais universais, às origens do Espírito, à função educativa das
encarnações.
Num
contexto contemporâneo de crises éticas, sociais e ambientais, o sentido
etimológico de radical torna-se essencial: não se trata de agir por impulso,
mas de buscar soluções profundas, coerentes com a lei de progresso que rege a
Humanidade.
2. Fundamental: o alicerce necessário ao pensamento
e à moral
Do
latim fundamentum, “base”, fundamental designa aquilo que
sustenta uma construção intelectual, moral ou científica.
O
problema surge quando o termo se confunde com fundamentalismo, associado
a posturas rígidas e autoritárias.
Kardec
sempre rejeitou essa interpretação. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo
(cap. XIX, item 7), ele afirma que “a fé
verdadeira só é inabalável quando pode encarar a razão, face a face”.
O
fundamental, portanto, não é o que se impõe pela força, mas o que resiste ao
exame da razão e da experiência.
O
Espiritismo repousa sobre princípios fundamentais — imortalidade da alma,
comunicabilidade dos Espíritos, pluralidade das existências e das moradas — não
como dogmas rígidos, mas como resultados de observações metódicas.
São
fundamentos que se confirmam pela concordância dos ensinos dos Espíritos e pela
análise racional do conjunto.
Em
tempos de saturação informacional, de opiniões superficiais e polarizações
rápidas, a noção de fundamento oferece segurança intelectual e moral: aquilo
que se apoia na razão, na observação e na moral evangélica tende a permanecer.
3. Ortodoxo: a retidão de opinião que acompanha o
progresso
Ortodoxo deriva de orthos
(reto) e doxa (opinião). Significava, originalmente, ter a “opinião
correta”, isto é, coerente com um corpo de ensinamentos. Com o passar dos
séculos, a palavra foi associada a rigidez excessiva e à recusa do novo.
Contudo,
para Kardec, a retidão de opinião nunca significou imobilidade.
Na Revista
Espírita (fev. 1868), ele afirma que o Espiritismo “marcha com a ciência” e
deve acompanhar o progresso do conhecimento. A opinião correta é aquela que se
ajusta às novas luzes, sem abandonar seus princípios essenciais.
Assim,
a “ortodoxia espírita” não é um conjunto de verdades fossilizadas, mas a
fidelidade ao método da Codificação:
- comparar os
ensinos,
- analisar com
prudência,
- submeter tudo ao
crivo da razão,
- verificar a
concordância universal dos Espíritos.
Trata-se
de integridade, não de inflexibilidade.
4. Dogma: entre princípio estabelecido e imposição
cega
O
termo dogma, do grego dógma, significava “opinião estabelecida”,
resultado de reflexão amadurecida. Foi apenas no âmbito religioso posterior que
adquiriu o sentido de verdade absoluta e intocável.
Kardec
criticava energicamente esse uso.
Na Revista
Espírita (jan. 1861), observa que doutrinas apoiadas em dogmas
ininteligíveis se tornam frágeis diante dos avanços da ciência. Para ele, nada
deve escapar ao exame racional.
Entretanto,
existe um sentido positivo do termo: princípios que orientam a conduta moral
podem ser considerados dogmas saudáveis — não no sentido de imposição, mas como
diretrizes estáveis que inspiram a prática do bem.
A lei
de justiça, amor e caridade, ensinada pelos Espíritos superiores, funciona como
um “princípio estabelecido” que guia a evolução humana.
O
Espiritismo, portanto, não possui dogmas absolutos, mas princípios morais que
se confirmam pela razão, pelo sentimento e pela experiência coletiva.
Conclusão
As
palavras têm história, e recuperar seu significado original nos faz compreender
melhor o mundo e a nós mesmos.
·
Radical refere-se à raiz;
·
Fundamental à base;
·
Ortodoxo à retidão;
·
Dogma ao princípio estabelecido.
A
Doutrina Espírita, ao mesmo tempo fiel às suas raízes e aberta ao progresso,
ajuda-nos a ressignificar esses termos e a colocá-los em sua justa harmonia.
Assim aprendemos a:
- ser radicais no
sentido de buscar as raízes espirituais da vida;
- reconhecer
fundamentos sólidos que sustentam o progresso moral;
- cultivar uma
ortodoxia dinâmica, fiel ao método e ao espírito de progresso;
- distinguir
princípios libertadores de dogmas que aprisionam.
Esse
equilíbrio entre firmeza e renovação, razão e moral, raízes e crescimento
expressa o ideal espírita de evolução contínua — uma construção pautada pela
lucidez, pelo discernimento e pela confiança na marcha ascendente do Espírito.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho Segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A
Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- Obras
complementares do movimento espírita clássico.
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