segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

RAÍZES, FUNDAMENTOS E PRINCÍPIOS
O SENTIDO ORIGINAL DAS PALAVRAS E SUA RELEITURA
À LUZ DA DOUTRINA ESPÍRITA
- A Era do Espírito -

Introdução

Muitas palavras atravessam séculos e culturas, modificando-se ao sabor das disputas ideológicas, dos usos sociais e das transformações históricas. Termos como radical, fundamental, ortodoxo e dogma — outrora construtivos e ligados à ideia de base, correção e princípio — passaram, em grande parte do discurso contemporâneo, a carregar conotações negativas. Fala-se em radicalismo como fanatismo, em fundamentalismo como extremismo, em ortodoxia como rigidez e em dogma como imposição cega.

A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec sob um método rigoroso de observação e comparação, oferece ferramentas preciosas para compreender o sentido legítimo desses vocábulos. Na Revista Espírita (1858–1869) e nas obras da Codificação, Kardec demonstra que o Espiritismo é uma doutrina de bases sólidas, progressiva, racional e aberta ao aperfeiçoamento do conhecimento. Assim, ao retomarmos a origem dessas palavras, podemos ressignificá-las e recolocá-las no horizonte equilibrado que o ensino dos Espíritos propõe.

Este artigo examina a etimologia e o verdadeiro significado de cada termo, articulando-os com o pensamento espírita e com os desafios atuais de um mundo marcado por polarizações, simplificações e discursos apressados.

1. Radical: voltar às raízes para compreender a vida

A palavra radical vem do latim radix, “raiz”. Significa aquilo que toca o essencial, que investiga profundamente as causas de um fenômeno. Nas ciências, fala-se em mudanças radicais para designar transformações estruturais e necessárias. Um radical matemático é, literalmente, a raiz de uma operação.

A linguagem cotidiana, porém, distorceu o termo, aproximando-o de extremismos ideológicos.

A Doutrina Espírita oferece um contraponto lúcido. Em A Gênese (cap. I, item 55), Kardec explica que o Espiritismo é radical não por rigidez, mas porque examina as causas fundamentais da vida espiritual e da vida material.

Ser radical, nesse sentido legítimo, significa voltar às raízes da existência — às leis morais universais, às origens do Espírito, à função educativa das encarnações.

Num contexto contemporâneo de crises éticas, sociais e ambientais, o sentido etimológico de radical torna-se essencial: não se trata de agir por impulso, mas de buscar soluções profundas, coerentes com a lei de progresso que rege a Humanidade.

2. Fundamental: o alicerce necessário ao pensamento e à moral

Do latim fundamentum, “base”, fundamental designa aquilo que sustenta uma construção intelectual, moral ou científica.

O problema surge quando o termo se confunde com fundamentalismo, associado a posturas rígidas e autoritárias.

Kardec sempre rejeitou essa interpretação. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XIX, item 7), ele afirma que “a fé verdadeira só é inabalável quando pode encarar a razão, face a face”.

O fundamental, portanto, não é o que se impõe pela força, mas o que resiste ao exame da razão e da experiência.

O Espiritismo repousa sobre princípios fundamentais — imortalidade da alma, comunicabilidade dos Espíritos, pluralidade das existências e das moradas — não como dogmas rígidos, mas como resultados de observações metódicas.

São fundamentos que se confirmam pela concordância dos ensinos dos Espíritos e pela análise racional do conjunto.

Em tempos de saturação informacional, de opiniões superficiais e polarizações rápidas, a noção de fundamento oferece segurança intelectual e moral: aquilo que se apoia na razão, na observação e na moral evangélica tende a permanecer.

3. Ortodoxo: a retidão de opinião que acompanha o progresso

Ortodoxo deriva de orthos (reto) e doxa (opinião). Significava, originalmente, ter a “opinião correta”, isto é, coerente com um corpo de ensinamentos. Com o passar dos séculos, a palavra foi associada a rigidez excessiva e à recusa do novo.

Contudo, para Kardec, a retidão de opinião nunca significou imobilidade.

Na Revista Espírita (fev. 1868), ele afirma que o Espiritismo “marcha com a ciência” e deve acompanhar o progresso do conhecimento. A opinião correta é aquela que se ajusta às novas luzes, sem abandonar seus princípios essenciais.

Assim, a “ortodoxia espírita” não é um conjunto de verdades fossilizadas, mas a fidelidade ao método da Codificação:

  • comparar os ensinos,
  • analisar com prudência,
  • submeter tudo ao crivo da razão,
  • verificar a concordância universal dos Espíritos.

Trata-se de integridade, não de inflexibilidade.

4. Dogma: entre princípio estabelecido e imposição cega

O termo dogma, do grego dógma, significava “opinião estabelecida”, resultado de reflexão amadurecida. Foi apenas no âmbito religioso posterior que adquiriu o sentido de verdade absoluta e intocável.

Kardec criticava energicamente esse uso.

Na Revista Espírita (jan. 1861), observa que doutrinas apoiadas em dogmas ininteligíveis se tornam frágeis diante dos avanços da ciência. Para ele, nada deve escapar ao exame racional.

Entretanto, existe um sentido positivo do termo: princípios que orientam a conduta moral podem ser considerados dogmas saudáveis — não no sentido de imposição, mas como diretrizes estáveis que inspiram a prática do bem.

A lei de justiça, amor e caridade, ensinada pelos Espíritos superiores, funciona como um “princípio estabelecido” que guia a evolução humana.

O Espiritismo, portanto, não possui dogmas absolutos, mas princípios morais que se confirmam pela razão, pelo sentimento e pela experiência coletiva.

Conclusão

As palavras têm história, e recuperar seu significado original nos faz compreender melhor o mundo e a nós mesmos.

·         Radical refere-se à raiz;

·         Fundamental à base;

·         Ortodoxo à retidão;

·         Dogma ao princípio estabelecido.

A Doutrina Espírita, ao mesmo tempo fiel às suas raízes e aberta ao progresso, ajuda-nos a ressignificar esses termos e a colocá-los em sua justa harmonia. Assim aprendemos a:

  • ser radicais no sentido de buscar as raízes espirituais da vida;
  • reconhecer fundamentos sólidos que sustentam o progresso moral;
  • cultivar uma ortodoxia dinâmica, fiel ao método e ao espírito de progresso;
  • distinguir princípios libertadores de dogmas que aprisionam.

Esse equilíbrio entre firmeza e renovação, razão e moral, raízes e crescimento expressa o ideal espírita de evolução contínua — uma construção pautada pela lucidez, pelo discernimento e pela confiança na marcha ascendente do Espírito.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • Obras complementares do movimento espírita clássico.

 

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