Introdução
Durante
séculos, antes de redes sociais, aplicativos de mensagens e comunicação
instantânea, as notícias chegavam à população por meios simples, porém
profundos em significado. Nas pequenas cidades, conversas em praças, bilhetes e
encontros cotidianos constituíam o tecido vivo da comunicação humana. Entre
esses meios, um gesto simbólico permanecia inconfundível: o dobrar dos sinos.
Esse
som grave e lento, ainda presente em comunidades menores, anunciava que alguém
acabara de deixar a Terra para retornar à verdadeira pátria espiritual.
Inspirando-se
nessa antiga prática e dialogando com a Doutrina Espírita codificada por Allan
Kardec, este artigo busca refletir sobre o sentido da partida, da continuidade
da vida e da responsabilidade mútua que nos une como Humanidade, em consonância
com os ensinamentos contidos na Revista Espírita e nas obras
fundamentais do Espiritismo.
1. A Comunicação Antes da Era Digital e o Símbolo
do Sino
A
pergunta curiosa de uma criança — “Vovó,
como era antes do celular e da internet?” — revela o abismo entre a
velocidade atual da informação e a serenidade comunicacional de décadas
passadas.
Antes
das telas luminosas e das mensagens instantâneas, as notícias corriam pela
oralidade e pela convivência: era preciso encontrar, ouvir e falar. A vida
social se fazia no espaço público.
Quando
alguém desencarnava, não havia anúncios virtuais. Havia o sino que dobrava.
Seu
som compassado, profundo, espalhava-se como um convite ao recolhimento. Cada
badalada dizia à comunidade: “Alguém
regressou à Casa do Pai”.
Não
era apenas a divulgação de um fato. Era um sinal coletivo, capaz de suspender a
rotina e despertar respeito.
2. Os Sinos e a Consciência da Interconexão Humana
“Nenhum
homem é uma ilha”, escreveu John Donne, lembrando que toda perda humana
repercute para além da família. A Doutrina Espírita reforça essa verdade: todos
pertencemos à grande família universal.
As desencarnações,
portanto, não são eventos isolados, pois estamos interligados espiritualmente.
Quando
os sinos dobram, recordam a fragilidade da existência corporal e a unidade do
gênero humano.
Assim
como ensina O Livro dos Espíritos, a morte não interrompe a vida; apenas
devolve o Espírito ao estado de liberdade relativa no plano espiritual, de onde
veio e para onde voltará tantas vezes quanto forem necessárias ao seu
progresso.
3. A Desencarnação como Passagem: Uma Visão
Doutrinária
Do
ponto de vista espiritual, o som do sino não anuncia um fim absoluto, mas uma
transição.
Em A
Gênese, ao tratar da sobrevivência da alma e da continuidade da vida,
Kardec destaca que a morte física representa sobretudo uma mudança de estado,
comparável ao desabrochar de um ser libertado da matéria.
Aqueles
que se vão não desaparecem.
Atravessam
uma porta que todos um dia atravessaremos, como ensinou Jesus: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”.
O
Espiritismo amplia essa compreensão ao mostrar que a vida espiritual é a vida
verdadeira, e que a estadia terrena é apenas uma etapa necessária ao
aperfeiçoamento moral e intelectual.
4. A Saudade, a Oração e o Amor que Permanece
Quando
os sinos dobram, convidam-nos também a olhar para dentro.
Para
os que choram a ausência, a Doutrina Espírita esclarece que o amor não morre.
Em
muitas comunicações registradas na Revista Espírita, Espíritos que
recentemente desencarnaram revelam que continuam ligados às afeições que
deixaram, sentindo o pensamento e a vibração dos que os amam.
Assim,
transformar saudade em oração é um ato de fraternidade.
Pensamentos
de paz chegam aos que partiram como bálsamo, ajudando-os na adaptação ao novo
estado.
Por
isso, o Espiritismo recomenda: “Orai
pelos que já não estão mais neste mundo”, pois a prece estabelece um elo
luminoso entre os dois planos da vida.
5. A Responsabilidade do Presente e o Chamado dos
Sinos
Os
sinos que dobram por alguém também dobram por nós — não por anunciar nossa
partida, mas por lembrar que o tempo presente é a oportunidade maior para
construir o que realmente importa.
Posições
sociais, conquistas materiais e títulos não acompanharão o Espírito na vida
futura.
O que
seguirá adiante será o bem praticado, a bondade multiplicada, a esperança
semeada.
Como
afirma O Evangelho Segundo o Espiritismo, é pela transformação íntima e
pelos atos de amor que o Espírito progride.
Cada
dia é chance de servir, perdoar, compreender e recomeçar.
Conclusão
Se
hoje os sinos dobram e evocam a memória de alguém que partiu, permitamos que
esse som desperte em nós consciência, fraternidade e serenidade.
Guardemos
as lembranças felizes, enviemos pensamentos de paz e recordemos que a vida é
maior do que a morte.
Os
vínculos do coração são eternos, porque o amor é a linguagem permanente do
Espírito.
E um
dia — quando for nossa hora de seguir adiante — que os sinos dobrem anunciando
não apenas uma despedida, mas também a certeza da continuidade da vida e da
alegria do reencontro.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho Segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A
Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- XAVIER, Francisco
Cândido (por Emmanuel). A Caminho da Luz.
- MOMENTO ESPÍRITA. Quando
os sinos dobram. Disponível em:
momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=7561&stat=0.
- MENEZES, Adolfo
Bezerra de. Obras diversas.
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