segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

SANTIDADE A VIRTUDE QUE NASCE DO COTIDIANO
- A Era do Espírito –

Uma reflexão espírita sobre a construção moral do Espírito

Introdução

Falar em santidade costuma evocar imagens de seres excepcionais, afastados do mundo, realizando feitos extraordinários. Contudo, à luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, a santidade não é um estado miraculoso alcançado por poucos, mas a culminância natural do progresso moral de todos os Espíritos. Ela é simples, prática e silenciosa; nasce do viver diário e se expressa no modo como tratamos o semelhante, como educamos sentimentos, como erguemos o caráter em meio às imperfeições que ainda trazemos.

O poema “Santidade”, de Elio Mollo, oferece um retrato poético dessa virtude realista e acessível, muito próxima do ideal de “homem de bem” delineado por Kardec. Tomando essa inspiração, o presente artigo aprofunda o tema sob a ótica espírita, dialogando com obras fundamentais da Codificação, com a Revista Espírita e com contribuições posteriores que se harmonizam com o método doutrinário.

1. Santidade como Evolução Moral

O poema inicia afirmando que:

“a verdadeira santidade é trabalhada no dia a dia…”

Essa perspectiva coincide plenamente com o ensino fundamental de O Livro dos Espíritos: o Espírito é criado simples e ignorante, e progride pela experiência, pelo esforço próprio e pelo exercício das virtudes (q. 115). Não existe santidade súbita, nem privilégio espiritual. A perfeição é conquista natural da evolução, realizada gradualmente por meio das escolhas repetidas, das quedas e recomeços, e da educação da vontade.

No mundo contemporâneo, marcado por pressa, exigências de performance e exaltação de aparências, essa visão adquire especial relevância. A santidade não é espetáculo, mas perseverança: é o cultivo diário da paciência no trânsito, da escuta atenta no lar, da honestidade no trabalho, da benevolência nas interações sociais — inclusive nas redes digitais, onde tantas vezes nossa sombra se expõe sem filtros.

O Espiritismo, fiel ao método racional de Kardec, desloca a santidade do campo do místico para o terreno da responsabilidade moral.

2. Virtude Sem Ostentação: A Marca do Homem de Bem

O poema lembra que as virtudes não são exibidas, mas vividas:

“toda criatura que possui virtudes não as ostenta (…) serve com dedicação e desinteresse”.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, Kardec resume:

“O homem de bem é aquele que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade na sua maior pureza.”

A virtude autêntica é natural, sincera, espontânea. Ela dispensa publicidade, pois não se apoia em louros humanos. Na Revista Espírita, várias comunicações espirituais descrevem Espíritos superiores cuja humildade é tão profunda que desconhecem o valor próprio, atribuindo tudo a Deus e nunca a si mesmos.

O poema reforça essa verdade doutrinária:

“O homem virtuoso caminha pela Terra sem jamais dar-se conta de que pratica o bem.”

Essa é a humildade verdadeira — a que se vive sem necessidade de proclamá-la. É o bem incorporado ao caráter, como segunda natureza. André Luiz, por meio de Chico Xavier, descreve inúmeros servidores espirituais assim: discretos, devotados, alegres por ajudar, sem qualquer traço de vaidade moral.

3. A Santidade Cotidiana: Laboratório da Alma

Ao contrário de concepções religiosas que associam santidade ao isolamento, a Doutrina Espírita ensina que o progresso nasce no convívio, nunca na fuga do mundo.

Cada relação humana é um campo de prova. A família é, muitas vezes, o mais vigoroso exercício de paciência e perdão. O ambiente profissional é escola de responsabilidade e honestidade. A convivência social nos desafia à tolerância, à fraternidade e à compreensão das diferenças — especialmente em um Brasil diverso e socialmente tensionado, onde a prática do diálogo e da empatia é mais necessária do que nunca.

O poema sintetiza essa pedagogia moral ao afirmar que a santidade é “burilada no trato com o semelhante”.

Emmanuel, em Pão Nosso, lembra que a verdadeira elevação “se revela no espírito que serve, ama e compreende, sem exigir recompensa”. É nesse servir diário, às vezes anônimo e cansativo, que se molda a alma para estágios superiores.

4. A Serenidade Como Fruto da Consciência Tranquila

O poema conclui com a imagem do homem virtuoso que vive sereno, porque:

“não lhe advém a consciência da sua própria santidade”.

Essa serenidade é o reflexo da consciência em paz, mencionada por Kardec como fonte da verdadeira felicidade dos bons Espíritos. A paz interior não nasce da ausência de problemas, mas da certeza íntima de estar fazendo o melhor que se pode, com sinceridade e boa vontade.

Vivemos em um tempo em que ansiedade, medo e insegurança se tornaram comuns. O Espiritismo oferece uma resposta lúcida: a serenidade é fruto da vida moral, da confiança em Deus e do compromisso com o bem. Trata-se de uma santidade possível, humana, acessível — ao alcance de todos os que desejem crescer.

Conclusão

A santidade, segundo o Espiritismo, não é um estado reservado a seres excepcionais. É o destino natural de todos os Espíritos, conquistado pelo esforço paciente e constante na prática do bem. É vida, ação, serviço, humildade — não ornamento, isolamento ou glória humana.

O poema “Santidade” recorda-nos que se santifica aquele que se esforça diariamente por ser útil, justo e bondoso; aquele que educa emoções; aquele que vence a si mesmo; aquele que serve sem alarde. É nessa simplicidade que se encontra a grandeza moral que aproxima o Espírito da perfeição.

Que cada um de nós, na oficina diária da vida, possa exercitar essa santidade possível, concreta e transformadora — aquela que nasce do amor vivido passo a passo.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno.
  • XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito André Luiz). Série “Nosso Lar”.
  • XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito Emmanuel). Pão Nosso.
  • MOLLO, Elio. Santidade (2008). http://planetaelios.blogspot.com/2012/11/santidade.html
SANTIDADE
Elio Mollo
27 de agosto de 2008

Em termos de evolução,
a verdadeira santidade
é trabalhada no dia a dia,
no trato com o semelhante,
burilando o coração.

As melhores escolas espiritualistas
nos informam, através dos seus ensinos,
que ser bom, caritativo,
modesto e laborioso
são as qualidades
do homem virtuoso;
e que toda criatura
que possui virtudes
não as ostenta,
mas as orienta no sentido
de servir com dedicação
e com boa cota de disposição
a todos que lhes sejam irmãos,
cujo desinteresse
lhe segue com naturalidade
em toda e qualquer ação.

A virtude, no mais alto grau,
é o conjunto de todas as qualidades essenciais
que constituem um homem de bem,
que não perde ocasião de ser útil a outrem.

O homem virtuoso caminha pela Terra,
sem jamais dar-se conta de que pratica o bem.
Dessa forma, vive sereno em qualquer idade,
situação ou lugar, porque...
em sua realidade, não lhe advém
a consciência da sua própria santidade.

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