Uma reflexão espírita sobre a construção moral do Espírito
Introdução
Falar em
santidade costuma evocar imagens de seres excepcionais, afastados do mundo,
realizando feitos extraordinários. Contudo, à luz da Doutrina Espírita
codificada por Allan Kardec, a santidade não é um estado miraculoso alcançado
por poucos, mas a culminância natural do progresso moral de todos os Espíritos.
Ela é simples, prática e silenciosa; nasce do viver diário e se expressa no
modo como tratamos o semelhante, como educamos sentimentos, como erguemos o
caráter em meio às imperfeições que ainda trazemos.
O poema “Santidade”,
de Elio Mollo, oferece um retrato poético dessa virtude realista e acessível,
muito próxima do ideal de “homem de bem” delineado por Kardec. Tomando essa
inspiração, o presente artigo aprofunda o tema sob a ótica espírita, dialogando
com obras fundamentais da Codificação, com a Revista Espírita e com
contribuições posteriores que se harmonizam com o método doutrinário.
1. Santidade como Evolução Moral
O poema
inicia afirmando que:
“a
verdadeira santidade é trabalhada no dia a dia…”
Essa
perspectiva coincide plenamente com o ensino fundamental de O Livro dos
Espíritos: o Espírito é criado simples e ignorante, e progride pela
experiência, pelo esforço próprio e pelo exercício das virtudes (q. 115). Não
existe santidade súbita, nem privilégio espiritual. A perfeição é conquista
natural da evolução, realizada gradualmente por meio das escolhas repetidas,
das quedas e recomeços, e da educação da vontade.
No mundo
contemporâneo, marcado por pressa, exigências de performance e exaltação de
aparências, essa visão adquire especial relevância. A santidade não é
espetáculo, mas perseverança: é o cultivo diário da paciência no trânsito, da
escuta atenta no lar, da honestidade no trabalho, da benevolência nas
interações sociais — inclusive nas redes digitais, onde tantas vezes nossa
sombra se expõe sem filtros.
O
Espiritismo, fiel ao método racional de Kardec, desloca a santidade do campo do
místico para o terreno da responsabilidade moral.
2. Virtude Sem Ostentação: A Marca do Homem de Bem
O poema
lembra que as virtudes não são exibidas, mas vividas:
“toda
criatura que possui virtudes não as ostenta (…) serve com dedicação e desinteresse”.
Em O
Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, Kardec resume:
“O homem
de bem é aquele que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade na sua maior
pureza.”
A virtude
autêntica é natural, sincera, espontânea. Ela dispensa publicidade, pois não se
apoia em louros humanos. Na Revista Espírita, várias comunicações
espirituais descrevem Espíritos superiores cuja humildade é tão profunda que
desconhecem o valor próprio, atribuindo tudo a Deus e nunca a si mesmos.
O poema
reforça essa verdade doutrinária:
“O homem
virtuoso caminha pela Terra sem jamais dar-se conta de que pratica o bem.”
Essa é a
humildade verdadeira — a que se vive sem necessidade de proclamá-la. É o bem
incorporado ao caráter, como segunda natureza. André Luiz, por meio de Chico
Xavier, descreve inúmeros servidores espirituais assim: discretos, devotados,
alegres por ajudar, sem qualquer traço de vaidade moral.
3. A Santidade Cotidiana: Laboratório da Alma
Ao
contrário de concepções religiosas que associam santidade ao isolamento, a
Doutrina Espírita ensina que o progresso nasce no convívio, nunca na
fuga do mundo.
Cada
relação humana é um campo de prova. A família é, muitas vezes, o mais vigoroso
exercício de paciência e perdão. O ambiente profissional é escola de
responsabilidade e honestidade. A convivência social nos desafia à tolerância,
à fraternidade e à compreensão das diferenças — especialmente em um Brasil
diverso e socialmente tensionado, onde a prática do diálogo e da empatia é mais
necessária do que nunca.
O poema
sintetiza essa pedagogia moral ao afirmar que a santidade é “burilada no trato
com o semelhante”.
Emmanuel,
em Pão Nosso, lembra que a verdadeira elevação “se revela no espírito que serve, ama e compreende, sem exigir recompensa”.
É nesse servir diário, às vezes anônimo e cansativo, que se molda a alma para
estágios superiores.
4. A Serenidade Como Fruto da Consciência Tranquila
O poema
conclui com a imagem do homem virtuoso que vive sereno, porque:
“não lhe
advém a consciência da sua própria santidade”.
Essa
serenidade é o reflexo da consciência em paz, mencionada por Kardec como fonte
da verdadeira felicidade dos bons Espíritos. A paz interior não nasce da
ausência de problemas, mas da certeza íntima de estar fazendo o melhor que se
pode, com sinceridade e boa vontade.
Vivemos
em um tempo em que ansiedade, medo e insegurança se tornaram comuns. O
Espiritismo oferece uma resposta lúcida: a serenidade é fruto da vida moral, da
confiança em Deus e do compromisso com o bem. Trata-se de uma santidade
possível, humana, acessível — ao alcance de todos os que desejem crescer.
Conclusão
A
santidade, segundo o Espiritismo, não é um estado reservado a seres
excepcionais. É o destino natural de todos os Espíritos, conquistado pelo
esforço paciente e constante na prática do bem. É vida, ação, serviço,
humildade — não ornamento, isolamento ou glória humana.
O poema
“Santidade” recorda-nos que se santifica aquele que se esforça diariamente por
ser útil, justo e bondoso; aquele que educa emoções; aquele que vence a si
mesmo; aquele que serve sem alarde. É nessa simplicidade que se encontra a
grandeza moral que aproxima o Espírito da perfeição.
Que cada
um de nós, na oficina diária da vida, possa exercitar essa santidade possível,
concreta e transformadora — aquela que nasce do amor vivido passo a passo.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- KARDEC, Allan. O Céu e o
Inferno.
- XAVIER, Francisco Cândido
(pelo Espírito André Luiz). Série “Nosso Lar”.
- XAVIER, Francisco Cândido
(pelo Espírito Emmanuel). Pão Nosso.
- MOLLO, Elio. Santidade
(2008). http://planetaelios.blogspot.com/2012/11/santidade.html
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