Introdução
A fé, frequentemente
compreendida apenas em seu aspecto religioso ou confessional, assume na
Doutrina Espírita uma dimensão mais ampla, racional e profundamente prática.
Longe de se restringir à crença passiva ou à espera de intervenções
extraordinárias, a fé é apresentada como força ativa da alma, capaz de
mobilizar a vontade, orientar decisões e produzir efeitos concretos na vida
moral e material do ser humano.
Partindo do ensinamento
de O Evangelho Segundo o Espiritismo sobre a fé humana e a fé divina,
este artigo propõe uma reflexão sobre a eficiência da fé, em oposição à
sua ineficiência, ilustrando o tema com a narrativa “Um Herói”, de Malba
Tahan. À luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e dos
ensinamentos constantes da Revista Espírita (1858–1869), analisaremos
como a fé se revela não no discurso, mas na ação lúcida, perseverante e
responsável.
A fé
humana e a fé divina: fundamentos doutrinários
Em O Evangelho
Segundo o Espiritismo, capítulo XIX, item 12, um Espírito Protetor define a
fé como sentimento inato do homem quanto aos seus destinos futuros, associado à
consciência das faculdades imensas que traz em estado latente. Essas
faculdades, segundo o ensino espírita, devem ser desenvolvidas pela ação da
vontade.
A fé, assim
compreendida, pode assumir dois direcionamentos complementares:
- Fé humana, quando o homem aplica suas forças
interiores à satisfação das necessidades terrenas, ao trabalho, à
superação de dificuldades e à realização de empreendimentos úteis;
- Fé divina, quando essas mesmas faculdades são
orientadas para as aspirações espirituais, para o bem moral, para a
caridade e para a construção do futuro espiritual.
Em ambos os casos, a fé
não é passividade, mas certeza íntima aliada à decisão firme de agir. Por isso,
Kardec observa que os chamados “milagres” realizados por Jesus e pelos
apóstolos não eram suspensões das Leis Naturais, mas efeitos de causas ainda desconhecidas
à época, hoje progressivamente compreendidas pelo estudo do Espiritismo e do
Magnetismo. A fé, posta em ação, revela-se como força natural do Espírito.
Ineficiência
da fé: quando a crença não se traduz em ação
A ineficiência da fé
manifesta-se quando o indivíduo crê, mas não age; quando espera soluções
externas sem mobilizar os próprios recursos; quando se entrega ao desânimo, ao
desespero ou à queixa contínua. Essa forma de fé, embora sincera em intenção,
torna-se estéril por não se converter em esforço consciente.
A Doutrina Espírita é
clara ao afirmar que lamentação não corrige erros, aflição inútil não restaura
a saúde, e pessimismo não resolve dificuldades. A fé ineficiente é aquela que
não enfrenta os problemas com equilíbrio, que não busca o reajuste íntimo, que
transfere a responsabilidade pessoal para fatores externos, esquecendo que
ninguém caminha com os pés de outrem.
A Revista Espírita
registra repetidamente que o progresso do Espírito depende do uso correto do
livre-arbítrio. Crer sem agir equivale a paralisar as próprias forças. Por
isso, a fé que não se traduz em trabalho, paciência e perseverança não produz
resultados duradouros.
Eficiência
da fé: vontade, discernimento e ação no tempo certo
A fé eficiente, ao
contrário, é aquela que se expressa em atitudes objetivas, prudentes e
oportunas. Ela se revela no equilíbrio diante das provas, na confiança ativa em
Deus e no uso responsável das próprias faculdades. Essa fé sustenta o esforço,
disciplina a vontade e transforma dificuldades em oportunidades de aprendizado.
O ensinamento espírita
destaca que, diante de problemas materiais, cabe ao homem ajustar seus meios,
trabalhar mais e administrar melhor. Diante da doença, deve recorrer aos
recursos disponíveis, evitando o abatimento moral. Frente às ofensas, é chamado
ao perdão; diante dos conflitos, à paciência e à oração; perante os erros, à
reflexão e ao reajuste.
Essa fé não elimina as
lutas, mas oferece os meios morais para enfrentá-las com serenidade. É ela que
impulsiona o Espírito a seguir adiante, mesmo entre lágrimas, compreendendo que
a vitória espiritual é construção diária, resultado de esforço contínuo.
“Um
Herói”: a fé eficiente ilustrada na ação simples
A narrativa “Um Herói”,
de Malba Tahan, ilustra com clareza essa concepção. Diante do incêndio que
destrói a aldeia, enquanto o pai se desespera, o menino age. Sem discursos, sem
dramatizações, identifica o que precisa ser feito e o faz no momento oportuno:
reúne as vacas e as conduz ao campo, salvando-as do perigo.
Questionado, não se vê
como herói. Apenas fez “a única coisa acertada”. Essa resposta sintetiza o
conceito de eficiência moral: agir corretamente, no tempo certo, com
simplicidade e lucidez. O verdadeiro heroísmo, como conclui o pai, está
justamente nisso — na ação justa, sem alarde, sustentada pelo discernimento.
Essa lição harmoniza-se
plenamente com a Doutrina Espírita. A fé eficiente não busca reconhecimento;
ela se expressa no dever cumprido. Não se manifesta em gestos espetaculares,
mas na fidelidade às responsabilidades que a consciência impõe.
Espiritismo
como renovação do “eu” e campo de esforço próprio
A Doutrina Espírita não
se apresenta apenas como consolo coletivo ou mensagem genérica de esperança.
Ela é, sobretudo, instrumento de renovação individual. Não ilumina apenas as
massas; acende luz no íntimo do homem. Não promete soluções fáceis, mas oferece
critérios seguros para a solução exata dos problemas de cada um.
Por isso, o Espiritismo
não se reduz a princípios sublimes contemplados à distância, mas constitui casa
de trabalho regenerador para o cotidiano. Ele ensina que a elevação pessoal
depende do esforço próprio, da disciplina moral e da vivência constante do bem.
A fé, nesse contexto, é motor da transformação íntima, jamais substituto da
responsabilidade.
Considerações
finais
A fé humana, quando
compreendida e aplicada segundo os princípios da Doutrina Espírita, revela-se
força poderosa de eficiência moral. Ela não se limita à crença, mas se traduz
em ação consciente, perseverante e ajustada às Leis Divinas. A oposição entre ineficiência
e eficiência da fé está, portanto, na passagem do sentimento à prática, da
esperança passiva ao trabalho ativo.
Crer é importante; agir
corretamente é indispensável. A fé que santifica o homem é aquela que o
impulsiona a servir, a perseverar, a amar e a construir, dia após dia, sua
própria libertação espiritual.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 12.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- XAVIER, Francisco Cândido. Espírito Emmanuel. Vencerás.
- XAVIER, Francisco Cândido. Espírito André Luiz. Espiritismo.
- TAHAN, Malba. Lendas do Céu e da Terra. “Um Herói”.
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