Introdução
A ideia de santidade, ao
longo da história religiosa da Humanidade, foi frequentemente associada a
figuras excepcionais, afastadas do convívio social, envoltas em feitos
extraordinários ou reconhecidas por títulos e honrarias espirituais. No
entanto, a Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, propõe uma
compreensão profundamente distinta e racional desse tema. A santidade deixa de
ser um privilégio concedido a poucos e passa a ser entendida como resultado
natural do progresso moral do Espírito, acessível a todos, construída no
silêncio das ações diárias e no esforço constante de transformação íntima.
Inspirado por uma
narrativa simbólica — na qual um homem pratica o bem sem jamais perceber os
efeitos benéficos que sua própria presença produz —, este artigo analisa a
santidade sob a ótica espírita, articulando humildade, caridade, desapego e
consciência moral, conforme os ensinamentos da Codificação, da Revista
Espírita (1858–1869) e de obras complementares que se harmonizam com o
método doutrinário.
O bem
praticado sem consciência de si
Na narrativa
apresentada, o homem virtuoso rejeita dons extraordinários e qualquer forma de
reconhecimento. Seu único desejo é que o bem se realize por seu intermédio sem
que ele próprio o perceba, para não cair na vaidade. O símbolo é claro: o
verdadeiro bem é aquele que não se anuncia, não se contabiliza e não se
apropria de si mesmo.
Essa ideia encontra
pleno respaldo na Doutrina Espírita. Fazer o bem esperando reconhecimento ou
retribuição ainda revela apego e interesse pessoal. A caridade genuína,
conforme ensinada pelo Cristo e reafirmada pela Doutrina Espírita codificada
por Allan Kardec, é desinteressada, silenciosa e motivada unicamente pelo amor
ao próximo e pela fidelidade às Leis Divinas. O bem, quando verdadeiro,
integra-se ao caráter do indivíduo e passa a fluir naturalmente, como expressão
de sua maturidade espiritual.
Humildade:
o solo fértil das virtudes
A humildade ocupa lugar
central nesse processo. Longe de significar submissão ou negação de valor
pessoal, ela é definida como o reconhecimento lúcido da própria imperfeição e
da condição de aprendiz eterno. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a
humildade é apresentada como o contraponto necessário ao orgulho, considerado a
maior barreira ao progresso moral.
A Doutrina Espírita
ensina que todos os Espíritos são criados simples e ignorantes e avançam pela
experiência, pelo esforço próprio e pela prática do bem. Não há privilégios
espirituais nem santidade súbita. A humildade nivela todos como irmãos diante
de Deus, independentemente de posições sociais, títulos ou recursos materiais,
favorecendo a fraternidade e a justiça.
O
“homem de bem” como ideal moral acessível
No capítulo XVII de O
Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec descreve a figura do “homem de
bem”, que sintetiza o ideal moral proposto pela Doutrina Espírita. Trata-se
daquele que pratica a Lei de Justiça, Amor e Caridade; que se esforça por
vencer suas más inclinações; que é benevolente para com todos, sem distinções;
e que coloca os bens espirituais acima dos temporais.
Esse ideal não exige
perfeição absoluta, mas esforço sincero e perseverante. O verdadeiro sinal de
progresso não é a ausência de falhas, mas a disposição constante de
corrigir-se, de aprender com os próprios erros e de colocar o bem coletivo
acima dos interesses pessoais.
Santidade
como sintonia com a Lei de Deus
Diferentemente de
concepções baseadas em milagres ou canonizações, a santidade, à luz da Doutrina
Espírita, é compreendida como um estado avançado de pureza moral, caracterizado
pela conformidade habitual com a Lei de Deus. Espíritos que atingem esse grau
não se distinguem por ostentação, mas por profunda humildade e dedicação
integral ao bem comum.
A Revista Espírita
registra diversas comunicações de Espíritos superiores que demonstram essa
característica: quanto mais elevados moralmente, menos conscientes se mostram
de seus próprios méritos, atribuindo tudo a Deus. A santidade, assim, não se
expressa em espetáculos exteriores, mas na coerência íntima entre pensamento,
sentimento e ação.
A
santidade no cotidiano contemporâneo
Em um mundo marcado pela
pressa, pela valorização das aparências e pela busca incessante de
reconhecimento, a visão espírita da santidade assume especial atualidade. Ela
desloca o ideal moral do campo do extraordinário para o terreno da vida comum:
a paciência no trânsito, a honestidade no trabalho, a tolerância nas relações
familiares, a responsabilidade nas interações sociais e digitais.
A Doutrina Espírita
ensina que o progresso não nasce do isolamento, mas do convívio. Cada relação
humana é campo de prova e aprendizado. A família, o ambiente profissional e a
sociedade constituem verdadeiras oficinas de aperfeiçoamento moral, onde se exercitam
o perdão, a compreensão e a caridade.
Serenidade
e consciência em paz
O homem da narrativa
vive e morre sem consciência de sua própria santidade. Essa imagem simboliza a
serenidade daquele cuja consciência está em paz. Kardec ensina que a verdadeira
felicidade dos bons Espíritos decorre justamente dessa harmonia interior, fruto
do cumprimento do dever e da fidelidade ao bem.
Em tempos de ansiedade,
medo e insegurança, a Doutrina Espírita oferece uma resposta clara e racional:
a paz interior não resulta da ausência de problemas, mas da certeza íntima de
estar agindo conforme a própria consciência e as Leis Divinas. Trata-se de uma
santidade possível, humana e acessível a todos os que desejam crescer
moralmente.
Considerações
finais
A santidade, segundo a
Doutrina Espírita, não é um estado reservado a seres excepcionais, mas o
destino natural de todos os Espíritos, alcançado pelo esforço paciente e
constante na prática do bem. Ela se constrói no serviço diário, na humildade
silenciosa, no desapego ao reconhecimento e na fidelidade aos ensinamentos do
Cristo.
Santifica-se aquele que
se esforça por ser útil, justo e bondoso; que educa sentimentos; que vence a si
mesmo; que serve sem alarde. É nessa simplicidade que reside a verdadeira
grandeza moral, capaz de aproximar o Espírito da perfeição.
Que cada um de nós, na
oficina diária da vida, possa exercitar essa santidade possível, concreta e
transformadora — aquela que nasce do amor vivido passo a passo.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- EMMANUEL. Pão Nosso. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
- MOLLO, Elio. Santidade (2008). Disponível em: http://planetaelios.blogspot.com/2012/11/santidade.html
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