sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A SANTIDADE SILENCIOSA
HUMILDADE, SERVIÇO E PROGRESSO MORAL
- A Era do Espírito -

Introdução

A ideia de santidade, ao longo da história religiosa da Humanidade, foi frequentemente associada a figuras excepcionais, afastadas do convívio social, envoltas em feitos extraordinários ou reconhecidas por títulos e honrarias espirituais. No entanto, a Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, propõe uma compreensão profundamente distinta e racional desse tema. A santidade deixa de ser um privilégio concedido a poucos e passa a ser entendida como resultado natural do progresso moral do Espírito, acessível a todos, construída no silêncio das ações diárias e no esforço constante de transformação íntima.

Inspirado por uma narrativa simbólica — na qual um homem pratica o bem sem jamais perceber os efeitos benéficos que sua própria presença produz —, este artigo analisa a santidade sob a ótica espírita, articulando humildade, caridade, desapego e consciência moral, conforme os ensinamentos da Codificação, da Revista Espírita (1858–1869) e de obras complementares que se harmonizam com o método doutrinário.

O bem praticado sem consciência de si

Na narrativa apresentada, o homem virtuoso rejeita dons extraordinários e qualquer forma de reconhecimento. Seu único desejo é que o bem se realize por seu intermédio sem que ele próprio o perceba, para não cair na vaidade. O símbolo é claro: o verdadeiro bem é aquele que não se anuncia, não se contabiliza e não se apropria de si mesmo.

Essa ideia encontra pleno respaldo na Doutrina Espírita. Fazer o bem esperando reconhecimento ou retribuição ainda revela apego e interesse pessoal. A caridade genuína, conforme ensinada pelo Cristo e reafirmada pela Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, é desinteressada, silenciosa e motivada unicamente pelo amor ao próximo e pela fidelidade às Leis Divinas. O bem, quando verdadeiro, integra-se ao caráter do indivíduo e passa a fluir naturalmente, como expressão de sua maturidade espiritual.

Humildade: o solo fértil das virtudes

A humildade ocupa lugar central nesse processo. Longe de significar submissão ou negação de valor pessoal, ela é definida como o reconhecimento lúcido da própria imperfeição e da condição de aprendiz eterno. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a humildade é apresentada como o contraponto necessário ao orgulho, considerado a maior barreira ao progresso moral.

A Doutrina Espírita ensina que todos os Espíritos são criados simples e ignorantes e avançam pela experiência, pelo esforço próprio e pela prática do bem. Não há privilégios espirituais nem santidade súbita. A humildade nivela todos como irmãos diante de Deus, independentemente de posições sociais, títulos ou recursos materiais, favorecendo a fraternidade e a justiça.

O “homem de bem” como ideal moral acessível

No capítulo XVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec descreve a figura do “homem de bem”, que sintetiza o ideal moral proposto pela Doutrina Espírita. Trata-se daquele que pratica a Lei de Justiça, Amor e Caridade; que se esforça por vencer suas más inclinações; que é benevolente para com todos, sem distinções; e que coloca os bens espirituais acima dos temporais.

Esse ideal não exige perfeição absoluta, mas esforço sincero e perseverante. O verdadeiro sinal de progresso não é a ausência de falhas, mas a disposição constante de corrigir-se, de aprender com os próprios erros e de colocar o bem coletivo acima dos interesses pessoais.

Santidade como sintonia com a Lei de Deus

Diferentemente de concepções baseadas em milagres ou canonizações, a santidade, à luz da Doutrina Espírita, é compreendida como um estado avançado de pureza moral, caracterizado pela conformidade habitual com a Lei de Deus. Espíritos que atingem esse grau não se distinguem por ostentação, mas por profunda humildade e dedicação integral ao bem comum.

A Revista Espírita registra diversas comunicações de Espíritos superiores que demonstram essa característica: quanto mais elevados moralmente, menos conscientes se mostram de seus próprios méritos, atribuindo tudo a Deus. A santidade, assim, não se expressa em espetáculos exteriores, mas na coerência íntima entre pensamento, sentimento e ação.

A santidade no cotidiano contemporâneo

Em um mundo marcado pela pressa, pela valorização das aparências e pela busca incessante de reconhecimento, a visão espírita da santidade assume especial atualidade. Ela desloca o ideal moral do campo do extraordinário para o terreno da vida comum: a paciência no trânsito, a honestidade no trabalho, a tolerância nas relações familiares, a responsabilidade nas interações sociais e digitais.

A Doutrina Espírita ensina que o progresso não nasce do isolamento, mas do convívio. Cada relação humana é campo de prova e aprendizado. A família, o ambiente profissional e a sociedade constituem verdadeiras oficinas de aperfeiçoamento moral, onde se exercitam o perdão, a compreensão e a caridade.

Serenidade e consciência em paz

O homem da narrativa vive e morre sem consciência de sua própria santidade. Essa imagem simboliza a serenidade daquele cuja consciência está em paz. Kardec ensina que a verdadeira felicidade dos bons Espíritos decorre justamente dessa harmonia interior, fruto do cumprimento do dever e da fidelidade ao bem.

Em tempos de ansiedade, medo e insegurança, a Doutrina Espírita oferece uma resposta clara e racional: a paz interior não resulta da ausência de problemas, mas da certeza íntima de estar agindo conforme a própria consciência e as Leis Divinas. Trata-se de uma santidade possível, humana e acessível a todos os que desejam crescer moralmente.

Considerações finais

A santidade, segundo a Doutrina Espírita, não é um estado reservado a seres excepcionais, mas o destino natural de todos os Espíritos, alcançado pelo esforço paciente e constante na prática do bem. Ela se constrói no serviço diário, na humildade silenciosa, no desapego ao reconhecimento e na fidelidade aos ensinamentos do Cristo.

Santifica-se aquele que se esforça por ser útil, justo e bondoso; que educa sentimentos; que vence a si mesmo; que serve sem alarde. É nessa simplicidade que reside a verdadeira grandeza moral, capaz de aproximar o Espírito da perfeição.

Que cada um de nós, na oficina diária da vida, possa exercitar essa santidade possível, concreta e transformadora — aquela que nasce do amor vivido passo a passo.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • EMMANUEL. Pão Nosso. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
  • MOLLO, Elio. Santidade (2008). Disponível em: http://planetaelios.blogspot.com/2012/11/santidade.html

 

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