Introdução
Vivemos em uma época
marcada pela aceleração. Notícias chegam em tempo real, crises se sucedem,
compromissos se acumulam. Segundo relatórios recentes da Organização Mundial da
Saúde, os transtornos ligados à ansiedade e ao estresse cresceram significativamente
na última década, refletindo uma humanidade frequentemente aprisionada entre
lembranças dolorosas do passado e temores incertos quanto ao futuro.
Entretanto, o ensino do
Cristo permanece atual e direto: “A cada dia basta o seu mal” (Mateus, 6:34). A
orientação evangélica, comentada à luz da Doutrina Espírita, não constitui
convite à indiferença, mas à confiança ativa. É uma convocação a viver a hora
presente com lucidez, responsabilidade e fé.
1.
Aflição e reconforto: duas atitudes diante do tempo
A aflição nasce, muitas
vezes, da fixação mental. Revivemos perdas, repetimos erros já consumados,
alimentamos culpas que poderiam converter-se em aprendizado. Ou, ao contrário,
projetamos cenários sombrios que talvez jamais se concretizem.
Em O Evangelho
Segundo o Espiritismo, cap. V, ao tratar das aflições, é esclarecido que as
provas possuem finalidade educativa. Não são punições arbitrárias, mas
instrumentos de progresso. Quando compreendidas sob essa ótica, deixam de ser
motivo exclusivo de desalento e transformam-se em oportunidade de reconforto
interior.
O reconforto não elimina
o problema, mas modifica a maneira de enfrentá-lo. Ele nasce da certeza de que
Deus é soberanamente justo e bom, e de que nenhuma dificuldade ultrapassa as
forças daquele que a suporta.
2. “A
cada dia basta o seu mal”
O ensinamento registrado
por Mateus não recomenda descuido com o futuro, mas disciplina mental. A
preocupação excessiva paralisa; a ocupação equilibrada fortalece.
A Doutrina Espírita
ensina que o Espírito é imortal e que a existência corporal é etapa transitória
de aprendizado. Essa compreensão amplia o horizonte da vida, mas também
valoriza o instante presente, pois é nele que se realizam as escolhas morais.
Ontem já se incorporou à
experiência; amanhã ainda não chegou. O único campo efetivo de ação é o hoje. A
cada dia cabe o esforço possível, a decisão correta, o gesto fraterno.
Em Agenda Cristã,
na mensagem “Princípios redentores”,
André Luiz recorda que o dever bem cumprido no momento oportuno é semente de
paz futura. Emmanuel, em “Examina a
própria aflição” (Religião dos Espíritos), convida-nos a avaliar se
não ampliamos, com a imaginação desgovernada, sofrimentos que poderiam ser
administrados com serenidade.
3. A
perda irreparável: lição sobre o tempo
Na mensagem “A perda irreparável”, constante do
livro Luz Acima, Irmão X apresenta a reflexão sobre aquilo que
verdadeiramente se perde: não são apenas bens ou oportunidades externas, mas o
tempo desperdiçado em lamentações estéreis.
Perde-se o dia quando se
adia o bem que poderia ser feito. Perde-se a hora quando se prefere a queixa à
ação construtiva. O prejuízo maior não está no obstáculo enfrentado, mas na
chance não aproveitada de crescimento moral.
Essa perspectiva dialoga
com a orientação do Cristo. Se cada dia possui seu próprio desafio, cada dia
também contém sua própria possibilidade de vitória íntima.
4. Não
se prender ao ontem, nem temer excessivamente o amanhã
Emmanuel, na mensagem
“Embaraços” (Bênção de Paz), lembra que os obstáculos fazem parte da
jornada evolutiva. Amélia Rodrigues, em “Aflitos e consolados” (Quando
voltar a primavera), destaca que o consolo nasce da compreensão do sentido
espiritual das provas.
Joanna de Ângelis, em
“Convite à coragem” (Convites da Vida), enfatiza que a coragem não é
ausência de medo, mas decisão consciente de agir apesar dele. Essa coragem é
aplicada, sobretudo, no instante presente.
Diversas mensagens
reunidas em O Espírito da Verdade — como “Fazendo sol”, “Lições do
momento” e “Afliges-te” — reiteram que o clima interior depende menos das
circunstâncias externas e mais da atitude mental adotada.
Assim, a Doutrina
orienta:
- não
cultivar culpas improdutivas pelo passado;
- aprender
com os erros e reparar o que for possível;
- planejar
o futuro com responsabilidade, sem ansiedade desmedida;
- concentrar
energias no dever imediato.
A confiança em Deus não
dispensa o esforço pessoal, mas o ilumina.
5. A
hora que passa: campo de renovação
Cada hora que passa é
oportunidade irrepetível. O tempo é patrimônio sagrado concedido para o
aprimoramento do Espírito. Se mal utilizado, converte-se em perda real; se bem
aplicado, transforma-se em conquista eterna.
Viver o presente não
significa ignorar experiências anteriores ou desconsiderar consequências
futuras. Significa reconhecer que a ação concreta só ocorre no agora. É no
diálogo paciente, no trabalho honesto, na compreensão familiar, na caridade
silenciosa que o Espírito edifica seu porvir.
Quando a aflição se
aproxima, convém perguntar: estou ampliando o problema com a imaginação ou
enfrentando-o com serenidade? Estou preso ao que não posso mais modificar ou
aplicando-me ao que depende de mim neste instante?
Conclusão
“A cada dia basta o seu
mal” é convite à maturidade espiritual. Entre a aflição e o reconforto, a
escolha reside na postura íntima. O passado ensina; o futuro inspira; mas o
presente constrói.
A Doutrina Espírita,
fundamentada na justiça e na misericórdia divinas, convida-nos a viver cada
hora com responsabilidade e confiança. Deus não nos abandona. Se as
dificuldades se apresentam, trazem consigo os recursos necessários à superação.
A hora que passa é
semente. Que saibamos cultivá-la com fé raciocinada, trabalho diligente e
esperança ativa, transformando cada dia em degrau seguro na ascensão do
Espírito.
Referências
- KARDEC,
Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V.
- ANDRÉ
LUIZ. Agenda Cristã, “Princípios redentores”, mens. 2.
- EMMANUEL.
Bênção de Paz, “Embaraços”, mens. 9.
- EMMANUEL.
Religião dos Espíritos, “Examina a própria aflição”, p. 33.
- AMÉLIA
RODRIGUES. Quando voltar a primavera, “Aflitos e consolados”, p.
41.
- JOANNA
DE ÂNGELIS. Convites da Vida, “Convite à coragem”, mens. 9.
- AUTORES
DIVERSOS. O Espírito da Verdade, “Fazendo sol”, mens. 25; “Lições
do momento”, mens. 28; “Afliges-te”, mens. 89.
- IRMÃO
X. Luz Acima, “A perda irreparável”, mens. 16.
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