quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A HORA QUE PASSA
ENTRE A AFLIÇÃO E O RECONFORTO
- A Era do Espírito -

Introdução

Vivemos em uma época marcada pela aceleração. Notícias chegam em tempo real, crises se sucedem, compromissos se acumulam. Segundo relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde, os transtornos ligados à ansiedade e ao estresse cresceram significativamente na última década, refletindo uma humanidade frequentemente aprisionada entre lembranças dolorosas do passado e temores incertos quanto ao futuro.

Entretanto, o ensino do Cristo permanece atual e direto: “A cada dia basta o seu mal” (Mateus, 6:34). A orientação evangélica, comentada à luz da Doutrina Espírita, não constitui convite à indiferença, mas à confiança ativa. É uma convocação a viver a hora presente com lucidez, responsabilidade e fé.

1. Aflição e reconforto: duas atitudes diante do tempo

A aflição nasce, muitas vezes, da fixação mental. Revivemos perdas, repetimos erros já consumados, alimentamos culpas que poderiam converter-se em aprendizado. Ou, ao contrário, projetamos cenários sombrios que talvez jamais se concretizem.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V, ao tratar das aflições, é esclarecido que as provas possuem finalidade educativa. Não são punições arbitrárias, mas instrumentos de progresso. Quando compreendidas sob essa ótica, deixam de ser motivo exclusivo de desalento e transformam-se em oportunidade de reconforto interior.

O reconforto não elimina o problema, mas modifica a maneira de enfrentá-lo. Ele nasce da certeza de que Deus é soberanamente justo e bom, e de que nenhuma dificuldade ultrapassa as forças daquele que a suporta.

2. “A cada dia basta o seu mal”

O ensinamento registrado por Mateus não recomenda descuido com o futuro, mas disciplina mental. A preocupação excessiva paralisa; a ocupação equilibrada fortalece.

A Doutrina Espírita ensina que o Espírito é imortal e que a existência corporal é etapa transitória de aprendizado. Essa compreensão amplia o horizonte da vida, mas também valoriza o instante presente, pois é nele que se realizam as escolhas morais.

Ontem já se incorporou à experiência; amanhã ainda não chegou. O único campo efetivo de ação é o hoje. A cada dia cabe o esforço possível, a decisão correta, o gesto fraterno.

Em Agenda Cristã, na mensagem “Princípios redentores”, André Luiz recorda que o dever bem cumprido no momento oportuno é semente de paz futura. Emmanuel, em “Examina a própria aflição” (Religião dos Espíritos), convida-nos a avaliar se não ampliamos, com a imaginação desgovernada, sofrimentos que poderiam ser administrados com serenidade.

3. A perda irreparável: lição sobre o tempo

Na mensagem “A perda irreparável”, constante do livro Luz Acima, Irmão X apresenta a reflexão sobre aquilo que verdadeiramente se perde: não são apenas bens ou oportunidades externas, mas o tempo desperdiçado em lamentações estéreis.

Perde-se o dia quando se adia o bem que poderia ser feito. Perde-se a hora quando se prefere a queixa à ação construtiva. O prejuízo maior não está no obstáculo enfrentado, mas na chance não aproveitada de crescimento moral.

Essa perspectiva dialoga com a orientação do Cristo. Se cada dia possui seu próprio desafio, cada dia também contém sua própria possibilidade de vitória íntima.

4. Não se prender ao ontem, nem temer excessivamente o amanhã

Emmanuel, na mensagem “Embaraços” (Bênção de Paz), lembra que os obstáculos fazem parte da jornada evolutiva. Amélia Rodrigues, em “Aflitos e consolados” (Quando voltar a primavera), destaca que o consolo nasce da compreensão do sentido espiritual das provas.

Joanna de Ângelis, em “Convite à coragem” (Convites da Vida), enfatiza que a coragem não é ausência de medo, mas decisão consciente de agir apesar dele. Essa coragem é aplicada, sobretudo, no instante presente.

Diversas mensagens reunidas em O Espírito da Verdade — como “Fazendo sol”, “Lições do momento” e “Afliges-te” — reiteram que o clima interior depende menos das circunstâncias externas e mais da atitude mental adotada.

Assim, a Doutrina orienta:

  • não cultivar culpas improdutivas pelo passado;
  • aprender com os erros e reparar o que for possível;
  • planejar o futuro com responsabilidade, sem ansiedade desmedida;
  • concentrar energias no dever imediato.

A confiança em Deus não dispensa o esforço pessoal, mas o ilumina.

5. A hora que passa: campo de renovação

Cada hora que passa é oportunidade irrepetível. O tempo é patrimônio sagrado concedido para o aprimoramento do Espírito. Se mal utilizado, converte-se em perda real; se bem aplicado, transforma-se em conquista eterna.

Viver o presente não significa ignorar experiências anteriores ou desconsiderar consequências futuras. Significa reconhecer que a ação concreta só ocorre no agora. É no diálogo paciente, no trabalho honesto, na compreensão familiar, na caridade silenciosa que o Espírito edifica seu porvir.

Quando a aflição se aproxima, convém perguntar: estou ampliando o problema com a imaginação ou enfrentando-o com serenidade? Estou preso ao que não posso mais modificar ou aplicando-me ao que depende de mim neste instante?

Conclusão

“A cada dia basta o seu mal” é convite à maturidade espiritual. Entre a aflição e o reconforto, a escolha reside na postura íntima. O passado ensina; o futuro inspira; mas o presente constrói.

A Doutrina Espírita, fundamentada na justiça e na misericórdia divinas, convida-nos a viver cada hora com responsabilidade e confiança. Deus não nos abandona. Se as dificuldades se apresentam, trazem consigo os recursos necessários à superação.

A hora que passa é semente. Que saibamos cultivá-la com fé raciocinada, trabalho diligente e esperança ativa, transformando cada dia em degrau seguro na ascensão do Espírito.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V.
  • ANDRÉ LUIZ. Agenda Cristã, “Princípios redentores”, mens. 2.
  • EMMANUEL. Bênção de Paz, “Embaraços”, mens. 9.
  • EMMANUEL. Religião dos Espíritos, “Examina a própria aflição”, p. 33.
  • AMÉLIA RODRIGUES. Quando voltar a primavera, “Aflitos e consolados”, p. 41.
  • JOANNA DE ÂNGELIS. Convites da Vida, “Convite à coragem”, mens. 9.
  • AUTORES DIVERSOS. O Espírito da Verdade, “Fazendo sol”, mens. 25; “Lições do momento”, mens. 28; “Afliges-te”, mens. 89.
  • IRMÃO X. Luz Acima, “A perda irreparável”, mens. 16.

 

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