Introdução
No século XIX, período
de intensas transformações científicas e filosóficas, surgiram pensadores que
buscaram aproximar ciência e espiritualidade sem recorrer ao misticismo
acrítico. Entre eles destacou-se Camille Flammarion, astrônomo e divulgador
científico, que utilizou a metáfora do “teclado cósmico” para ilustrar a
vastidão do universo invisível e as limitações naturais dos sentidos humanos.
Embora tal imagem não
pertença à Codificação Espírita, a ideia central — a existência de múltiplos
níveis de realidade — encontra consonância com princípios fundamentais da
Doutrina Espírita, sistematizada por Allan Kardec sob a orientação dos
Espíritos superiores e amplamente desenvolvida na coleção da Revista Espírita.
O presente artigo propõe
examinar essa analogia à luz da Doutrina Espírita, dialogando também com a
cultura contemporânea, inclusive com representações simbólicas como o filme
Contatos Imediatos do Terceiro Grau, dirigido por Steven Spielberg.
A
Limitação dos Sentidos e a Amplitude do Real
Flammarion comparava o
universo a um piano infinito, no qual cada nota corresponderia a uma frequência
da matéria ou da energia. O ser humano perceberia apenas algumas “oitavas”
dessa escala.
A ciência contemporânea
confirma que nossos sentidos captam apenas uma pequena fração do espectro
eletromagnético. Não vemos o ultravioleta nem o infravermelho; não ouvimos
frequências acima ou abaixo de certos limites. A realidade física é muito mais
ampla do que nossa percepção direta.
Para Flammarion, essa
limitação poderia explicar por que determinados fenômenos escapam à observação
comum: não por inexistirem, mas por situarem-se fora da faixa ordinária de
captação biológica. Ainda que a ciência atual distinga claramente fenômenos físicos
mensuráveis de experiências subjetivas ou espirituais, admite plenamente que a
percepção humana é restrita e que o universo opera em múltiplos níveis ainda em
investigação.
O
Fluido Cósmico Universal e a Unidade da Criação
Em A Gênese, Kardec apresenta o conceito de Fluido Cósmico Universal,
princípio elementar primitivo que serve de base a todas as formas materiais e
espirituais. As diferenças entre os estados da matéria decorrem de modificações
desse fluido.
Não há, portanto,
ruptura absoluta entre matéria e espírito, mas gradação. O que varia é o grau
de sutileza, pureza e organização. Se utilizarmos a analogia musical apenas
como recurso didático, poderíamos dizer que as diversas manifestações da
criação correspondem a diferentes “notas” extraídas de um mesmo instrumento
universal.
A Doutrina Espírita,
entretanto, mantém prudência metodológica: não transforma metáforas em teorias.
O que afirma, com base no ensino concordante dos Espíritos, é a unidade
fundamental da criação e a continuidade entre o mundo visível e o invisível.
A
Escala Espírita: Progresso como Ascensão Harmônica
Em O Livro dos Espíritos, especialmente na questão 100, encontra-se a
chamada Escala Espírita, que classifica os Espíritos segundo seu grau de
adiantamento moral e intelectual.
Não se trata de
hierarquia arbitrária, mas de consequência natural da lei de progresso.
Espíritos ainda fortemente vinculados à materialidade apresentam percepções
limitadas e paixões predominantes; Espíritos mais adiantados revelam maior
lucidez, desapego e benevolência.
Se mantivermos a imagem
musical como figura simbólica, a evolução espiritual pode ser comparada a uma
ascensão harmônica: não há mudança de essência — pois todos são criados simples
e ignorantes —, mas transformação gradual do estado moral e intelectual.
A chamada “elevação de
frequência”, em linguagem figurada, não se mede em hertz, mas em virtudes.
Lei de
Afinidade e Sintonia Moral
Em O Livro dos Médiuns, Kardec explica que as comunicações espirituais
obedecem à lei de afinidade. Espíritos aproximam-se de encarnados cujos
pensamentos lhes sejam semelhantes.
É um princípio de
ressonância moral. Assim como dois instrumentos afinados na mesma nota vibram
em conjunto, também as consciências se atraem por sintonia de sentimentos e
ideias.
A mediunidade, longe de
constituir milagre, é faculdade natural, dependente de condições orgânicas e,
sobretudo, morais. A comunicação entre planos não viola leis naturais; ocorre
segundo leis ainda pouco conhecidas em sua totalidade, mas não arbitrárias.
Livre-Arbítrio
e Dissonância Transitória
Desde o momento em que o
Espírito adquire consciência de si e passa a exercer o livre-arbítrio,
inaugura-se etapa decisiva da evolução: a possibilidade do erro.
A Doutrina Espírita
ensina que o mal não decorre de natureza essencialmente perversa, mas da
ignorância. A liberdade é condição indispensável ao progresso. Sem
possibilidade de escolha, não haveria mérito, responsabilidade nem crescimento
real.
A dissonância moral —
simbolicamente comparável a uma nota fora do tom — é transitória. Pode
prolongar-se por séculos ou milênios, mas não compromete o destino final da
criação. A Lei de Deus está inscrita na consciência, funcionando como
verdadeiro diapasão interior.
A persistência do erro
explica-se pela dificuldade do Espírito em ouvir essa orientação íntima, muitas
vezes abafada pelo orgulho e pelo egoísmo. Contudo, a experiência repetida ao
longo das existências sucessivas conduz, gradualmente, ao reconhecimento de que
a harmonia com a Lei divina é a condição mais favorável à felicidade.
Cultura
Contemporânea e Linguagem Simbólica
No filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau,
Spielberg utilizou uma sequência de cinco notas musicais como meio de
comunicação entre humanos e inteligências extraterrestres. A concepção partiu
da ideia de que matemática e música constituem linguagens universais.
Ainda que se trate de
obra de ficção, a escolha simbólica dialoga com concepções antigas, como a
“música das esferas” pitagórica, e com a percepção moderna de que o universo se
estrutura segundo leis de ordem e proporção.
A Doutrina Espírita não
afirma que a criação seja literalmente uma composição musical, mas reconhece
que ela obedece a leis sábias, justas e harmônicas. A metáfora da música ajuda
a ilustrar essa ordem dinâmica, sem substituir o estudo sério e metódico dos
fatos.
Harmonia
como Destino da Criação
A Doutrina Espírita não
ensina que a criação tenha sido inaugurada em perfeita harmonia consciente. O
Espírito é criado simples e ignorante; a harmonia universal é conquista
coletiva, não condição inicial.
O mal não constitui
princípio absoluto, mas desarmonia passageira. A chamada “dissonância” não é
condenação eterna; é estágio educativo. À medida que o Espírito progride,
ajusta-se espontaneamente à ordem divina.
Assim, a grande sinfonia
universal não é espetáculo externo, mas processo interior de transformação
íntima. A verdadeira afinação não se mede por sons físicos, mas por sentimentos
depurados.
A substituição gradual
do egoísmo pela caridade representa, em termos morais, a passagem da
dissonância à consonância. E como ensina a Doutrina Espírita, o progresso é lei
universal e irresistível.
Se mantivermos a imagem
do “teclado cósmico”, compreenderemos que o universo não é caos, mas ordem em
construção. Cada Espírito, ao exercer com responsabilidade seu livre-arbítrio,
participa ativamente da harmonia final — não por imposição, mas por compreensão.
Referências
- Allan
Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan
Kardec. O Livro dos Médiuns.
- Allan
Kardec. A Gênese.
- Revista
Espírita (1858–1869).
- Camille
Flammarion. L’Atmosphère (1888) e obras de divulgação científica e
filosófica.
- Contatos
Imediatos do Terceiro Grau, direção de Steven Spielberg.
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