Um simples suéter esquecido
sobre a carteira vazia simbolizava a mudança silenciosa vivida por Tommy, um
menino antes alegre e aplicado, que passou a apresentar dificuldades escolares
após a separação dos pais. Preocupada com o rendimento e o comportamento do
aluno, a diretora da escola convocou uma reunião, sem que o pai e a mãe
soubessem que estariam juntos.
Durante o encontro, enquanto
relatava as alterações no desempenho do menino, a diretora buscava, sem
sucesso, as palavras capazes de despertar nos pais a real causa daquele
sofrimento. Foi então que decidiu apresentar um dever escolar de Tommy: uma
folha amarrotada, manchada de lágrimas, na qual ele havia escrito repetidamente
apenas uma frase: “Querida mamãe...
Querido papai... Eu amo vocês, eu amo vocês, eu amo vocês.”
Ao lerem o texto — um apelo
simples e profundo de amor dirigido aos dois — os pais compreenderam, em
silêncio, a dor do filho. A mensagem escrita revelou mais do que qualquer
explicação: expôs o impacto emocional da separação no coração da criança e reacendeu,
naquele instante, o vínculo esquecido entre eles.
Introdução
A infância é um período
decisivo da existência humana, no qual o Espírito reencarnante estrutura as
bases emocionais, morais e intelectuais que o acompanharão ao longo da vida. A
Doutrina Espírita, ao tratar da reencarnação, da educação e da responsabilidade
dos pais, oferece valiosos elementos para compreender as reações das crianças
diante dos conflitos familiares, especialmente nos casos de separação conjugal.
A narrativa do menino
Tommy, marcada por silêncio, sofrimento e um apelo singelo ao amor dos pais,
ilustra de forma clara uma realidade frequentemente observada nas escolas e nos
lares contemporâneos. À luz dos princípios espíritas, esse episódio convida à
reflexão sobre o papel da família, o impacto emocional das rupturas afetivas e
a importância das “palavras certas”, não apenas as ditas, mas aquelas vividas
no cotidiano.
A
Criança como Espírito em Processo de Educação
Segundo a Doutrina
Espírita, a criança não é uma alma recém-criada, mas um Espírito imortal que
retorna à vida corporal para prosseguir sua evolução. O Livro dos Espíritos
esclarece que, na infância, o Espírito se encontra mais maleável, permitindo
maior influência da educação e do meio familiar (questões 383 e 385).
Por essa razão, as
mudanças bruscas no ambiente emocional — como a separação dos pais — repercutem
profundamente no comportamento infantil. Quedas no rendimento escolar, atitudes
de rebeldia ou retraimento não são, na maioria das vezes, sinais de indisciplina
moral, mas expressões de sofrimento íntimo que ainda não encontram palavras.
Tommy, antes cooperativo
e aplicado, passa a manifestar desinteresse e indisciplina. A folha de dever
escolar, manchada de lágrimas, torna-se o canal pelo qual o Espírito infantil
exterioriza aquilo que não consegue verbalizar.
Família:
Oficina Primária de Amor e Aprendizado
A Doutrina Espírita
define a família como o primeiro núcleo de educação moral do Espírito. Mais do
que um agrupamento biológico, ela constitui um espaço de reencontro de
Espíritos afins ou comprometidos por laços do passado, com o objetivo de
aprendizado mútuo e reparação.
Allan Kardec, na Revista
Espírita, diversas vezes ressalta que a autoridade moral dos pais não se
impõe pela força, mas pelo exemplo. O amor vivido entre os cônjuges cria um
ambiente de segurança psíquica indispensável ao desenvolvimento da criança.
Quando esse amor se fragiliza ou se transforma, os filhos inevitavelmente
percebem, ainda que não compreendam racionalmente as causas.
A criança não necessita
apenas ser amada individualmente; ela precisa sentir que é fruto de um vínculo
de respeito, cuidado e responsabilidade entre aqueles que lhe deram a
existência física.
Separação
Conjugal e Responsabilidade Moral dos Pais
A Doutrina Espírita não
condena o divórcio, reconhecendo que há situações em que a convivência conjugal
se torna inviável ou prejudicial. Entretanto, esclarece que a dissolução da
união não extingue os deveres morais para com os filhos.
Quando a reconciliação
não é possível, a atenção às necessidades emocionais da criança deve ser
redobrada. O rompimento conjugal não pode se transformar em abandono afetivo,
disputa silenciosa ou indiferença disfarçada. Os Espíritos superiores, conforme
ensinam Kardec e a Revista Espírita, destacam que os compromissos
assumidos na paternidade e maternidade são provas sérias, das quais se prestará
contas.
No caso de Tommy, o
sofrimento não nasce apenas da separação em si, mas da sensação de perda do
amor que unia seus pais. Sua mensagem repetida — “Eu amo vocês” — revela o
desejo profundo de preservação do vínculo afetivo, ainda que sob nova forma.
As
Palavras Certas e o Amor que Educa
Há momentos em que
longos discursos se mostram inúteis, e o amor encontra meios simples e
profundos de se expressar. A folha amarrotada do dever escolar torna-se,
simbolicamente, a prece silenciosa de um Espírito em dor.
Na perspectiva espírita,
Deus se manifesta por meio das circunstâncias e das consciências sensíveis. A
intuição da diretora, ao apresentar o trabalho de Tommy, funciona como
instrumento providencial para despertar os pais para uma realidade que ambos
evitavam encarar.
As “palavras certas” nem
sempre são pronunciadas; muitas vezes, elas se revelam no gesto, no olhar, no
silêncio respeitoso e, sobretudo, na disposição de amar acima das divergências
pessoais.
Conclusão
A narrativa de Tommy
ensina que a infância não é um território neutro diante dos conflitos adultos.
Cada atitude, cada omissão e cada palavra dita ou calada repercute
profundamente no Espírito em formação.
À luz da Doutrina
Espírita, compreende-se que educar é amar com responsabilidade, e amar, muitas
vezes, exige renúncia, diálogo e maturidade moral. Mesmo quando os caminhos
conjugais se separam, o compromisso com o bem-estar espiritual dos filhos
permanece inalterado.
Que jamais faltem, no
seio das famílias, as palavras — e os atos — que expressem amor, respeito e
cuidado. Pois é nesse clima que os Espíritos reencarnantes encontram o solo
seguro para crescer, aprender e evoluir.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- MOMENTO ESPÍRITA. As palavras corretas. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=4046&stat=0
- LINDSTROM, Jane. As palavras certas. In: CANFIELD, Jack; HANSEN, Mark Victor. Histórias para Aquecer o Coração, v. 2. Editora Sextante.
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