quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

AS PALAVRAS QUE EDUCAM
FAMÍLIA, AFETO E RESPONSABILIDADE
- A Era do Espírito -

Um simples suéter esquecido sobre a carteira vazia simbolizava a mudança silenciosa vivida por Tommy, um menino antes alegre e aplicado, que passou a apresentar dificuldades escolares após a separação dos pais. Preocupada com o rendimento e o comportamento do aluno, a diretora da escola convocou uma reunião, sem que o pai e a mãe soubessem que estariam juntos.

Durante o encontro, enquanto relatava as alterações no desempenho do menino, a diretora buscava, sem sucesso, as palavras capazes de despertar nos pais a real causa daquele sofrimento. Foi então que decidiu apresentar um dever escolar de Tommy: uma folha amarrotada, manchada de lágrimas, na qual ele havia escrito repetidamente apenas uma frase: “Querida mamãe... Querido papai... Eu amo vocês, eu amo vocês, eu amo vocês.”

Ao lerem o texto — um apelo simples e profundo de amor dirigido aos dois — os pais compreenderam, em silêncio, a dor do filho. A mensagem escrita revelou mais do que qualquer explicação: expôs o impacto emocional da separação no coração da criança e reacendeu, naquele instante, o vínculo esquecido entre eles.

Introdução

A infância é um período decisivo da existência humana, no qual o Espírito reencarnante estrutura as bases emocionais, morais e intelectuais que o acompanharão ao longo da vida. A Doutrina Espírita, ao tratar da reencarnação, da educação e da responsabilidade dos pais, oferece valiosos elementos para compreender as reações das crianças diante dos conflitos familiares, especialmente nos casos de separação conjugal.

A narrativa do menino Tommy, marcada por silêncio, sofrimento e um apelo singelo ao amor dos pais, ilustra de forma clara uma realidade frequentemente observada nas escolas e nos lares contemporâneos. À luz dos princípios espíritas, esse episódio convida à reflexão sobre o papel da família, o impacto emocional das rupturas afetivas e a importância das “palavras certas”, não apenas as ditas, mas aquelas vividas no cotidiano.

A Criança como Espírito em Processo de Educação

Segundo a Doutrina Espírita, a criança não é uma alma recém-criada, mas um Espírito imortal que retorna à vida corporal para prosseguir sua evolução. O Livro dos Espíritos esclarece que, na infância, o Espírito se encontra mais maleável, permitindo maior influência da educação e do meio familiar (questões 383 e 385).

Por essa razão, as mudanças bruscas no ambiente emocional — como a separação dos pais — repercutem profundamente no comportamento infantil. Quedas no rendimento escolar, atitudes de rebeldia ou retraimento não são, na maioria das vezes, sinais de indisciplina moral, mas expressões de sofrimento íntimo que ainda não encontram palavras.

Tommy, antes cooperativo e aplicado, passa a manifestar desinteresse e indisciplina. A folha de dever escolar, manchada de lágrimas, torna-se o canal pelo qual o Espírito infantil exterioriza aquilo que não consegue verbalizar.

Família: Oficina Primária de Amor e Aprendizado

A Doutrina Espírita define a família como o primeiro núcleo de educação moral do Espírito. Mais do que um agrupamento biológico, ela constitui um espaço de reencontro de Espíritos afins ou comprometidos por laços do passado, com o objetivo de aprendizado mútuo e reparação.

Allan Kardec, na Revista Espírita, diversas vezes ressalta que a autoridade moral dos pais não se impõe pela força, mas pelo exemplo. O amor vivido entre os cônjuges cria um ambiente de segurança psíquica indispensável ao desenvolvimento da criança. Quando esse amor se fragiliza ou se transforma, os filhos inevitavelmente percebem, ainda que não compreendam racionalmente as causas.

A criança não necessita apenas ser amada individualmente; ela precisa sentir que é fruto de um vínculo de respeito, cuidado e responsabilidade entre aqueles que lhe deram a existência física.

Separação Conjugal e Responsabilidade Moral dos Pais

A Doutrina Espírita não condena o divórcio, reconhecendo que há situações em que a convivência conjugal se torna inviável ou prejudicial. Entretanto, esclarece que a dissolução da união não extingue os deveres morais para com os filhos.

Quando a reconciliação não é possível, a atenção às necessidades emocionais da criança deve ser redobrada. O rompimento conjugal não pode se transformar em abandono afetivo, disputa silenciosa ou indiferença disfarçada. Os Espíritos superiores, conforme ensinam Kardec e a Revista Espírita, destacam que os compromissos assumidos na paternidade e maternidade são provas sérias, das quais se prestará contas.

No caso de Tommy, o sofrimento não nasce apenas da separação em si, mas da sensação de perda do amor que unia seus pais. Sua mensagem repetida — “Eu amo vocês” — revela o desejo profundo de preservação do vínculo afetivo, ainda que sob nova forma.

As Palavras Certas e o Amor que Educa

Há momentos em que longos discursos se mostram inúteis, e o amor encontra meios simples e profundos de se expressar. A folha amarrotada do dever escolar torna-se, simbolicamente, a prece silenciosa de um Espírito em dor.

Na perspectiva espírita, Deus se manifesta por meio das circunstâncias e das consciências sensíveis. A intuição da diretora, ao apresentar o trabalho de Tommy, funciona como instrumento providencial para despertar os pais para uma realidade que ambos evitavam encarar.

As “palavras certas” nem sempre são pronunciadas; muitas vezes, elas se revelam no gesto, no olhar, no silêncio respeitoso e, sobretudo, na disposição de amar acima das divergências pessoais.

Conclusão

A narrativa de Tommy ensina que a infância não é um território neutro diante dos conflitos adultos. Cada atitude, cada omissão e cada palavra dita ou calada repercute profundamente no Espírito em formação.

À luz da Doutrina Espírita, compreende-se que educar é amar com responsabilidade, e amar, muitas vezes, exige renúncia, diálogo e maturidade moral. Mesmo quando os caminhos conjugais se separam, o compromisso com o bem-estar espiritual dos filhos permanece inalterado.

Que jamais faltem, no seio das famílias, as palavras — e os atos — que expressem amor, respeito e cuidado. Pois é nesse clima que os Espíritos reencarnantes encontram o solo seguro para crescer, aprender e evoluir.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • MOMENTO ESPÍRITA. As palavras corretas. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=4046&stat=0
  • LINDSTROM, Jane. As palavras certas. In: CANFIELD, Jack; HANSEN, Mark Victor. Histórias para Aquecer o Coração, v. 2. Editora Sextante.

 

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