Introdução
O
arrependimento é um dos temas centrais da ética, da religião e da educação
moral do Espírito. Contudo, nem todo arrependimento possui o mesmo valor
transformador. À luz da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec e
amplamente esclarecida na Revista Espírita (1858–1869), o simples pesar
íntimo, desacompanhado de mudança efetiva de conduta e reparação do mal
causado, revela-se insuficiente para o progresso espiritual. O verdadeiro
arrependimento é aquele que conduz à renovação moral consciente, à responsabilidade
pelos próprios atos e à reparação possível do erro cometido.
O arrependimento na ética e na religião
A Moderna
Enciclopédia Brasileira define o arrependimento como o sentimento de pesar
decorrente da violação de uma lei ou norma moral, acompanhado da disposição de
evitar novas faltas. No campo ético, esse conceito refere-se sobretudo às leis
humanas; no campo religioso, especialmente no Cristianismo, o arrependimento
envolve o reconhecimento da falta praticada por atos, palavras ou pensamentos,
conduzindo ao desejo de penitência e mudança interior.
Entretanto,
a própria reflexão ética reconhece que o arrependimento puramente emocional —
marcado por contrição, culpa ou práticas penitenciais — possui valor limitado
se não resultar em atitudes concretas. Ele pode aliviar a angústia íntima, mas
não repara o dano causado. O que confere valor moral real ao arrependimento é a
reparação objetiva: pedir perdão ao ofendido, indenizar o prejuízo, reconstruir
o que foi destruído e, sobretudo, promover a transformação íntima que impede a
repetição do erro.
Arrependimento, expiação e progresso do Espírito
A Doutrina
Espírita aprofunda essa compreensão ao distinguir claramente arrependimento,
expiação e reparação. Em O Livro dos Espíritos, os Espíritos superiores
ensinam: “O arrependimento auxilia a melhora do Espírito, porém o erro deve
ser expiado” (q. 999). O arrependimento é, portanto, o primeiro passo; ele
desperta a consciência. Mas, por si só, não elimina as consequências do ato
praticado.
A Lei
Divina, justa e misericordiosa, estabelece que cada Espírito colhe os frutos do
que semeia. A expiação não deve ser entendida como punição arbitrária, mas como
mecanismo educativo, destinado a levar o Espírito à compreensão profunda de
seus atos. Sempre que possível, essa expiação se converte em reparação
consciente, que acelera o progresso moral e restabelece a harmonia da
consciência.
O “bom ladrão”: arrependimento e esperança
A passagem
do Evangelho segundo Lucas (23:39–43), que apresenta o chamado “bom ladrão”, é
frequentemente interpretada de forma superficial, como se o arrependimento de
última hora fosse suficiente para apagar todo o passado. Contudo, a leitura
espírita convida a uma compreensão mais profunda.
Ao
reconhecer sua culpa e a inocência de Jesus, o malfeitor demonstra lucidez
moral e humildade. Ao pedir que Jesus se lembrasse dele, expressa confiança e
desejo sincero de transformação. A resposta do Cristo — “Hoje estarás comigo
no Paraíso” — não significa isenção de responsabilidades futuras, mas a
conquista imediata da paz interior, fruto do arrependimento verdadeiro.
Como
esclarece Emmanuel, em Pão Nosso, o “Paraíso” ali mencionado representa
o novo estado de consciência alcançado pelo Espírito que se rende ao bem. A
partir daquele momento, o ex-malfeitor ingressa em um caminho de regeneração,
no qual lhe caberá refazer o trajeto moral, corrigindo tendências e reparando,
conforme possível, os males do passado.
Pedro: arrependimento ativo e fidelidade restaurada
Outro
exemplo significativo encontra-se na trajetória de Pedro. Após negar Jesus três
vezes, Pedro chora amargamente, tomado pelo arrependimento. Contudo, não se
deixa paralisar pela culpa. Após a morte do Cristo, transforma o arrependimento
em ação perseverante, dedicando-se à vivência e à divulgação dos ensinamentos
do Mestre, até o sacrifício final.
Esse
episódio ilustra que o arrependimento verdadeiro não conduz ao desânimo, mas ao
trabalho no bem. A dor moral, quando bem compreendida, converte-se em força
regeneradora.
A porta sempre aberta ao arrependimento
A
misericórdia divina manifesta-se na oportunidade constante de recomeço.
Conforme ensinam os Espíritos superiores: “O bom pai deixa sempre aberta a seus
filhos uma porta para o arrependimento” (O Livro dos Espíritos, q. 171).
Essa porta, porém, não conduz à impunidade, mas à responsabilidade consciente.
Deus
oferece ao Espírito as ferramentas necessárias para refazer o caminho: a
consciência, o livre-arbítrio, as múltiplas existências e as experiências
educativas que favorecem a reparação e o aprendizado. A felicidade não é
concedida como prêmio arbitrário, mas construída pelo próprio Espírito, à
medida que se harmoniza com a Lei Divina.
“Quem semeia, colherá”: a reparação como libertação
O
ensinamento “quem semeia, colherá” encontra ilustração profunda na obra Nosso
Lar, de André Luiz. O reencontro entre André e Elisa revela, de forma
tocante, a realidade da responsabilidade moral após a morte do corpo físico. O
sofrimento de Elisa não é apresentado como castigo imposto, mas como consequência
natural de escolhas equivocadas, associadas à ignorância e à ilusão.
Mais
significativo ainda é o processo de reparação. Ao reconhecer sua
responsabilidade e dedicar-se ao amparo moral de Elisa, André transforma o
remorso em ação benéfica. Como observa Narcisa, “bem-aventurados os
devedores em condições de pagar”. A reparação consciente não humilha;
liberta. Ela restabelece vínculos, pacifica a consciência e promove crescimento
espiritual para ambos os envolvidos.
Conclusão
À luz da
Doutrina Espírita, o arrependimento é indispensável, mas não suficiente. Ele
representa o despertar da consciência, o início do processo regenerador. O
progresso real do Espírito exige a continuidade desse movimento por meio da
reparação, da transformação íntima e do esforço perseverante no bem.
Sentir
pesar, bater no peito ou buscar consolo religioso pode aliviar momentaneamente
a dor moral, mas somente a mudança efetiva de atitudes e a responsabilidade
pelos próprios atos conduzem à verdadeira paz interior. Assim, a Lei Divina,
inscrita na consciência, convida cada Espírito não apenas a reconhecer seus
erros, mas a refazer o caminho, construindo, passo a passo, a própria
felicidade.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o
Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita
(1858–1869).
- ANDRÉ LUIZ (Espírito). Nosso Lar.
Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
- EMMANUEL (Espírito). Pão Nosso.
Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
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