Introdução
A frase
atribuída ao lama tibetano Chagdud Tulku Rinpoche — “Se a pessoa precisa de uma
religião para ser boa, não é boa; é como um cão adestrado” — provoca reflexões
profundas sobre a origem da conduta moral. Longe de atacar a religiosidade em
si, a afirmação questiona a motivação que sustenta o comportamento ético:
age-se por consciência ou por medo da punição e expectativa de recompensa? À
luz da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec e amplamente desenvolvida
na Revista Espírita (1858–1869), esse debate encontra esclarecimentos
coerentes com a razão, a psicologia moral e o progresso espiritual do ser
humano.
Moral por temor e moral por consciência
A analogia
do “cão adestrado” remete à ideia de um comportamento condicionado por
estímulos externos. Quando o indivíduo pratica o bem apenas para evitar
castigos ou alcançar recompensas futuras, sua ação ainda se encontra vinculada
ao interesse pessoal. Trata-se de uma moral heterônoma, dependente de uma
autoridade externa que vigia, pune ou premia.
A
psicologia do desenvolvimento, desde Jean Piaget até Lawrence Kohlberg,
descreve essa fase como inicial no amadurecimento moral. O indivíduo obedece
porque teme a punição ou deseja aprovação. Somente em estágios mais avançados
surge a moral autônoma, baseada em princípios compreendidos e interiorizados. A
ciência contemporânea confirma que a autonomia moral está associada a maior
estabilidade ética, independentemente de vigilância externa.
A Doutrina
Espírita concorda com essa leitura ao ensinar que o Espírito atravessa etapas
evolutivas. Em sua “infância espiritual”, necessita de freios exteriores; mais
tarde, aprende a guiar-se pela própria consciência. Por isso, os Espíritos
afirmam com clareza: “A lei de Deus está escrita na consciência” (O Livro
dos Espíritos, q. 621).
Religião, educação e coesão social
Do ponto de
vista sociológico, a religião exerceu e ainda exerce papel relevante como fator
de organização social. Estudos atuais em sociologia da religião indicam que a
religiosidade pode funcionar como elemento de proteção em contextos de
vulnerabilidade social, reduzindo, em média, índices de violência e favorecendo
processos de ressocialização, como ocorre em programas comunitários e
prisionais. Nesse sentido, a religião atua como um “freio social”,
especialmente onde a educação ética autônoma ainda não se consolidou.
A educação
laica, por sua vez, tem como objetivo formar cidadãos capazes de refletir
criticamente sobre suas ações, fundamentando-se em princípios universais como
empatia, justiça e respeito à dignidade humana. Dados educacionais recentes
indicam que ambientes que estimulam pensamento crítico e responsabilidade
social tendem a formar indivíduos com maior autonomia moral.
Essas duas
abordagens — religiosa e laica — não são necessariamente excludentes. Ambas
podem contribuir para a convivência social, embora por mecanismos distintos:
uma pela autoridade simbólica e comunitária; outra pela interiorização racional
de valores.
O olhar da ciência sobre a motivação ética
Pesquisas
em psicologia social, incluindo experimentos clássicos como os de Azim Shariff
e Ara Norenzayan, demonstram que o comportamento ético pode variar conforme a
motivação interna. Em testes de honestidade e altruísmo, pessoas religiosas
tendem a intensificar comportamentos éticos quando se sentem observadas por uma
instância superior, enquanto indivíduos não religiosos apresentam maior
constância, agindo a partir de normas internas e empatia social.
Esses
estudos não concluem que um grupo seja moralmente superior a outro, mas indicam
diferenças no “porquê” das ações. A ética baseada apenas no monitoramento
externo mostra-se mais instável do que aquela fundamentada na consciência e na
compreensão das consequências dos próprios atos.
A visão espírita: da obediência à compreensão
A Doutrina
Espírita oferece uma síntese harmoniosa entre razão, ciência e moral. Reconhece
que, em determinadas fases evolutivas, o Espírito necessita de regras externas,
símbolos e crenças que o contenham. Contudo, esclarece que esse estágio é
transitório. O objetivo do progresso espiritual é a autonomia moral.
Allan
Kardec ensina que o verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a justiça, o
amor e a caridade por convicção íntima, e não por interesse. Em O Evangelho
segundo o Espiritismo, a caridade desinteressada é apresentada como
critério do valor moral das ações. Fazer o bem apenas esperando recompensa
futura ainda revela traços de egoísmo.
Nesse
contexto, a fé proposta pela Doutrina Espírita não é cega, mas raciocinada. Ela
convida o indivíduo a compreender as leis naturais — especialmente a de causa e
efeito — e, por meio dessa compreensão, agir de forma ética por lógica e
consciência. Quando se entende que prejudicar o outro é, inevitavelmente,
prejudicar a si mesmo, a moral deixa de ser imposição e passa a ser necessidade
interior.
Conclusão
A crítica
simbolizada pela imagem do “cão adestrado” não nega a importância histórica da
religião, mas aponta seus limites quando a moral permanece dependente do medo.
À luz da Doutrina Espírita, esse tipo de conduta corresponde a uma fase inicial
do desenvolvimento do Espírito. O progresso moral autêntico ocorre quando a lei
divina, sempre presente na consciência, é finalmente compreendida e vivida de
forma espontânea.
A
Humanidade contemporânea ainda convive com ambos os modelos: o freio externo e
a ética da consciência. O avanço espiritual, contudo, aponta para uma sociedade
em que o bem seja praticado não por vigilância ou temor, mas por lucidez,
empatia e responsabilidade moral. Esse é o sentido mais profundo da autonomia
espiritual ensinada pelos Espíritos e exemplificada, em grau máximo, por Jesus,
modelo e guia da Humanidade.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o
Espiritismo.
- KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita
(1858–1869).
- PIAGET, Jean. O Juízo Moral na Criança.
- KOHLBERG, Lawrence. Essays on Moral
Development.
- SHARIFF, A.; NORENZAYAN, A. “God Is
Watching You: Priming God Concepts Increases Prosocial Behavior”. Psychological
Science, 2007.
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