sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

COOPERAÇÃO
QUANDO A MATEMÁTICA CONFIRMA O EVANGELHO
- A Era do Espírito -

Introdução

Durante muito tempo, acreditou-se que a competição seria o principal motor do progresso humano. A ideia de que o egoísmo estaria na base da evolução ganhou força especialmente a partir de interpretações biológicas associadas à obra de Charles Darwin e, mais tarde, à popularização do conceito do “gene egoísta”, formulado por Richard Dawkins.

Entretanto, pesquisas recentes em Matemática, Estatística e Biologia Evolutiva vêm demonstrando que, em muitos contextos sociais, grupos cooperativos prosperam mais do que grupos dominados por atitudes egoístas. Essa constatação científica dialoga diretamente com os princípios morais do Evangelho e com o ensino espírita sistematizado por Allan Kardec.

No capítulo I de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 8 — “Aliança da Ciência e da Religião” — Kardec afirma que Ciência e Religião são duas alavancas da inteligência humana e que, tendo ambas o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se parecem divergir, é porque uma ou outra ainda não compreendeu plenamente a verdade.

Hoje, ao observarmos os resultados de certos modelos matemáticos aplicados à dinâmica social, vemos a confirmação progressiva dessa aliança.

Do egoísmo biológico à cooperação estratégica

A teoria da evolução mostrou que organismos cujas características favorecem sobrevivência e reprodução tendem a prevalecer. Contudo, desde o próprio Darwin, permanecia uma questão intrigante: como explicar comportamentos altruístas, inclusive entre indivíduos sem laços diretos de parentesco?

Modelos contemporâneos da chamada Teoria dos Jogos — desenvolvida por John von Neumann e Oskar Morgenstern — passaram a analisar matematicamente dilemas sociais envolvendo cooperação e egoísmo. Um exemplo clássico é o “Jogo dos Bens Públicos”.

Nesse modelo, indivíduos recebem recursos e podem optar por contribuir para um fundo comum. O montante arrecadado é ampliado e redistribuído igualmente. Se todos cooperam, todos ganham. Se muitos deixam de cooperar e apenas usufruem do esforço alheio, o sistema entra em colapso.

Simulações computacionais modernas mostram que sociedades onde predomina a cooperação tendem a apresentar maior estabilidade e prosperidade coletiva ao longo do tempo. Já ambientes marcados pelo egoísmo sistemático tendem ao prejuízo geral.

Esses resultados não anulam a importância da competição na natureza, mas revelam que a cooperação é, muitas vezes, estratégia evolutivamente vantajosa.

Um princípio moral confirmado pela razão

A Doutrina Espírita ensina que o progresso verdadeiro é simultaneamente intelectual e moral. Em O Livro dos Espíritos, questão 1, Deus é definido como “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Se a criação é obra dessa Inteligência suprema, suas leis materiais e morais não podem estar em oposição.

Quando a Matemática demonstra que a cooperação gera prosperidade coletiva, ela apenas traduz, em linguagem numérica, o ensinamento evangélico: “Amai-vos uns aos outros.”

O chamado “dilema social” estudado pela Teoria dos Jogos encontra paralelo na Lei de Causa e Efeito, exposta no capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo. O egoísmo pode gerar vantagem imediata, mas produz desequilíbrio que retorna ao próprio agente. A cooperação, embora por vezes exija renúncia inicial, constrói benefício duradouro.

Assim, o que a estatística observa no grupo, a Lei Moral regula no indivíduo.

Livre-arbítrio e responsabilidade

Importa esclarecer que modelos matemáticos não determinam o comportamento humano. Eles analisam tendências estatísticas em populações. O indivíduo, dotado de livre-arbítrio, permanece responsável por suas escolhas.

A ciência pode demonstrar que a cooperação é vantajosa. Contudo, a decisão de cooperar é ato moral, vinculado ao grau evolutivo do Espírito.

O progresso moral não se impõe por equações; ele se constrói pela educação da consciência. É nesse ponto que se harmonizam Ciência e Espiritismo: uma revela padrões objetivos; o outro ilumina as causas profundas e o sentido espiritual desses padrões.

Cooperação e evolução espiritual

Quando um grupo insiste na não cooperação, o sistema entra em crise. Algo semelhante ocorre no campo espiritual. O egoísmo sistemático gera sofrimento, conflitos e reajustes. Pela Lei de Causa e Efeito, o Espírito aprende que a felicidade isolada é ilusória.

Ao longo das “rodadas” da existência — isto é, das múltiplas experiências reencarnatórias — o Espírito percebe que a verdadeira vantagem está na fraternidade.

A cooperação, nesse sentido, não é apenas estratégia social eficiente; é condição de evolução espiritual.

O pensamento de Emmanuel, em O Consolador, reforça essa ideia ao afirmar que as ciências abstratas colaboram na educação da inteligência, mas devem conduzir à ciência da vida em suas mais profundas revelações espirituais. A Matemática, portanto, pode ser instrumento pedagógico para revelar, pela razão, aquilo que o Cristo ensinou pelo amor.

Ciência e Evangelho: convergência progressiva

Durante séculos, muitos relegaram os ensinamentos religiosos ao campo da crença cega. Contudo, à medida que a investigação científica se amplia e se afasta do materialismo exclusivo, surgem evidências de que princípios como cooperação, solidariedade e ajuda mútua são não apenas moralmente elevados, mas funcionalmente eficazes para a sobrevivência e o progresso coletivo.

A Doutrina Espírita jamais temeu o avanço científico. Ao contrário, afirma que, se a ciência provar que determinado ponto deve ser revisto, a interpretação deverá acompanhar o progresso do conhecimento. Essa postura revela confiança na unidade das leis divinas.

Quando a Matemática demonstra que sociedades cooperativas prosperam, não está “provando” o Evangelho no sentido teológico, mas confirmando racionalmente a sabedoria moral que o Evangelho já apresentava.

Conclusão

A cooperação não é apenas virtude religiosa; é também estratégia racional de progresso social.

As pesquisas matemáticas contemporâneas mostram que grupos baseados na colaboração superam, no longo prazo, aqueles dominados pelo egoísmo. A Doutrina Espírita, por sua vez, ensina que a lei de amor e fraternidade é fundamento da evolução espiritual.

Assim, Ciência e Espiritismo caminham para um ponto de convergência: a compreensão de que o verdadeiro progresso nasce da união entre inteligência e moralidade.

O desafio permanece individual. Cada Espírito escolhe cooperar ou não. Cada decisão constitui investimento no próprio futuro.

Se a Matemática confirma que a cooperação é vantajosa, a consciência nos convida a praticá-la não apenas por interesse, mas por amor — porque essa é a lei maior que rege o Universo.

Referências

  • O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. I, item 8; Cap. V.
  • O Livro dos Espíritos. Questão 1.
  • Allan Kardec. Revista Espírita (1858–1869).
  • Charles Darwin. On the Origin of Species.
  • Richard Dawkins. The Selfish Gene.
  • John von Neumann; Oskar Morgenstern. Theory of Games and Economic Behavior.
  • O Consolador. Emmanuel.
  • Alexandre Fontes da Fonseca, Aliança entre Ciência e Religião: Uma Contribuição da Matemática, Revista FidelidadESPÍRITA Outubro 2003

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