Introdução
Durante
muito tempo, acreditou-se que a competição seria o principal motor do progresso
humano. A ideia de que o egoísmo estaria na base da evolução ganhou força
especialmente a partir de interpretações biológicas associadas à obra de
Charles Darwin e, mais tarde, à popularização do conceito do “gene egoísta”,
formulado por Richard Dawkins.
Entretanto,
pesquisas recentes em Matemática, Estatística e Biologia Evolutiva vêm
demonstrando que, em muitos contextos sociais, grupos cooperativos prosperam
mais do que grupos dominados por atitudes egoístas. Essa constatação científica
dialoga diretamente com os princípios morais do Evangelho e com o ensino
espírita sistematizado por Allan Kardec.
No capítulo
I de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 8 — “Aliança da Ciência e
da Religião” — Kardec afirma que Ciência e Religião são duas alavancas da
inteligência humana e que, tendo ambas o mesmo princípio, que é Deus, não podem
contradizer-se. Se parecem divergir, é porque uma ou outra ainda não
compreendeu plenamente a verdade.
Hoje, ao
observarmos os resultados de certos modelos matemáticos aplicados à dinâmica
social, vemos a confirmação progressiva dessa aliança.
Do egoísmo biológico à cooperação estratégica
A teoria da
evolução mostrou que organismos cujas características favorecem sobrevivência e
reprodução tendem a prevalecer. Contudo, desde o próprio Darwin, permanecia uma
questão intrigante: como explicar comportamentos altruístas, inclusive entre
indivíduos sem laços diretos de parentesco?
Modelos
contemporâneos da chamada Teoria dos Jogos — desenvolvida por John von Neumann
e Oskar Morgenstern — passaram a analisar matematicamente dilemas sociais
envolvendo cooperação e egoísmo. Um exemplo clássico é o “Jogo dos Bens
Públicos”.
Nesse
modelo, indivíduos recebem recursos e podem optar por contribuir para um fundo
comum. O montante arrecadado é ampliado e redistribuído igualmente. Se todos
cooperam, todos ganham. Se muitos deixam de cooperar e apenas usufruem do
esforço alheio, o sistema entra em colapso.
Simulações
computacionais modernas mostram que sociedades onde predomina a cooperação
tendem a apresentar maior estabilidade e prosperidade coletiva ao longo do
tempo. Já ambientes marcados pelo egoísmo sistemático tendem ao prejuízo geral.
Esses
resultados não anulam a importância da competição na natureza, mas revelam que
a cooperação é, muitas vezes, estratégia evolutivamente vantajosa.
Um princípio moral confirmado pela razão
A Doutrina
Espírita ensina que o progresso verdadeiro é simultaneamente intelectual e
moral. Em O Livro dos Espíritos, questão 1, Deus é definido como
“inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Se a criação é obra
dessa Inteligência suprema, suas leis materiais e morais não podem estar em
oposição.
Quando a
Matemática demonstra que a cooperação gera prosperidade coletiva, ela apenas
traduz, em linguagem numérica, o ensinamento evangélico: “Amai-vos uns aos
outros.”
O chamado
“dilema social” estudado pela Teoria dos Jogos encontra paralelo na Lei de
Causa e Efeito, exposta no capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
O egoísmo pode gerar vantagem imediata, mas produz desequilíbrio que retorna ao
próprio agente. A cooperação, embora por vezes exija renúncia inicial, constrói
benefício duradouro.
Assim, o
que a estatística observa no grupo, a Lei Moral regula no indivíduo.
Livre-arbítrio e responsabilidade
Importa
esclarecer que modelos matemáticos não determinam o comportamento humano. Eles
analisam tendências estatísticas em populações. O indivíduo, dotado de
livre-arbítrio, permanece responsável por suas escolhas.
A ciência
pode demonstrar que a cooperação é vantajosa. Contudo, a decisão de cooperar é
ato moral, vinculado ao grau evolutivo do Espírito.
O progresso
moral não se impõe por equações; ele se constrói pela educação da consciência.
É nesse ponto que se harmonizam Ciência e Espiritismo: uma revela padrões
objetivos; o outro ilumina as causas profundas e o sentido espiritual desses
padrões.
Cooperação e evolução espiritual
Quando um
grupo insiste na não cooperação, o sistema entra em crise. Algo semelhante
ocorre no campo espiritual. O egoísmo sistemático gera sofrimento, conflitos e
reajustes. Pela Lei de Causa e Efeito, o Espírito aprende que a felicidade
isolada é ilusória.
Ao longo
das “rodadas” da existência — isto é, das múltiplas experiências
reencarnatórias — o Espírito percebe que a verdadeira vantagem está na
fraternidade.
A
cooperação, nesse sentido, não é apenas estratégia social eficiente; é condição
de evolução espiritual.
O
pensamento de Emmanuel, em O Consolador, reforça essa ideia ao afirmar
que as ciências abstratas colaboram na educação da inteligência, mas devem
conduzir à ciência da vida em suas mais profundas revelações espirituais. A
Matemática, portanto, pode ser instrumento pedagógico para revelar, pela razão,
aquilo que o Cristo ensinou pelo amor.
Ciência e Evangelho: convergência progressiva
Durante
séculos, muitos relegaram os ensinamentos religiosos ao campo da crença cega.
Contudo, à medida que a investigação científica se amplia e se afasta do
materialismo exclusivo, surgem evidências de que princípios como cooperação,
solidariedade e ajuda mútua são não apenas moralmente elevados, mas
funcionalmente eficazes para a sobrevivência e o progresso coletivo.
A Doutrina
Espírita jamais temeu o avanço científico. Ao contrário, afirma que, se a
ciência provar que determinado ponto deve ser revisto, a interpretação deverá
acompanhar o progresso do conhecimento. Essa postura revela confiança na
unidade das leis divinas.
Quando a
Matemática demonstra que sociedades cooperativas prosperam, não está “provando”
o Evangelho no sentido teológico, mas confirmando racionalmente a sabedoria
moral que o Evangelho já apresentava.
Conclusão
A
cooperação não é apenas virtude religiosa; é também estratégia racional de
progresso social.
As
pesquisas matemáticas contemporâneas mostram que grupos baseados na colaboração
superam, no longo prazo, aqueles dominados pelo egoísmo. A Doutrina Espírita,
por sua vez, ensina que a lei de amor e fraternidade é fundamento da evolução
espiritual.
Assim,
Ciência e Espiritismo caminham para um ponto de convergência: a compreensão de
que o verdadeiro progresso nasce da união entre inteligência e moralidade.
O desafio
permanece individual. Cada Espírito escolhe cooperar ou não. Cada decisão
constitui investimento no próprio futuro.
Se a
Matemática confirma que a cooperação é vantajosa, a consciência nos convida a
praticá-la não apenas por interesse, mas por amor — porque essa é a lei maior
que rege o Universo.
Referências
- O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap.
I, item 8; Cap. V.
- O Livro dos Espíritos. Questão 1.
- Allan Kardec. Revista Espírita
(1858–1869).
- Charles Darwin. On the Origin of
Species.
- Richard Dawkins. The Selfish Gene.
- John von Neumann; Oskar Morgenstern. Theory
of Games and Economic Behavior.
- O Consolador. Emmanuel.
- Alexandre
Fontes da Fonseca, Aliança entre Ciência e Religião: Uma Contribuição da
Matemática, Revista FidelidadESPÍRITA Outubro 2003
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