Introdução
Estima-se que o
ministério público de Jesus tenha durado pouco menos de três anos, desde o
encontro com João Batista às margens do Jordão até os momentos derradeiros da
crucificação. Independentemente da precisão cronológica, a simbologia desse
período é profundamente significativa: em um espaço relativamente curto de
tempo, consolidou-se uma mensagem moral capaz de transformar consciências ao
longo de dois milênios.
À luz da Doutrina
Espírita — codificada por Allan Kardec sob orientação dos Espíritos superiores
— esse fato convida a uma reflexão racional e necessária: o que temos feito com
os nossos próprios “três anos”? Como estamos utilizando os ciclos de tempo que
a Providência nos concede?
O
Tempo como Instrumento de Progresso
A Doutrina Espírita
ensina que o progresso é lei natural. Em O Livro dos Espíritos,
aprendemos que o Espírito é criado simples e ignorante, destinado à perfeição
relativa por meio de múltiplas existências corporais. O tempo, portanto, não é
mero marcador cronológico: é instrumento educativo.
Se em menos de três anos
o Cristo pôde formar discípulos, lançar fundamentos morais e semear princípios
de amor e justiça, isso demonstra que a transformação não depende
exclusivamente de longos períodos, mas da intensidade e qualidade do
aproveitamento das oportunidades.
Cada giro da Terra em
torno do Sol representa cerca de 365 novas ocasiões de aprendizado. Três anos
somam aproximadamente mil e noventa e cinco dias. Mil e noventa e cinco
oportunidades de reajuste moral.
Vidas
Transformadas em Breve Espaço
Durante aquele período,
Simão, o pescador da Galileia, foi chamado a tornar-se Pedro — símbolo de
firmeza. Cometeu falhas, negou o Mestre por invigilância, mas reergueu-se.
Tornou-se um dos pilares do movimento cristão nascente.
João, ainda jovem,
conviveu de perto com o Cristo e amadureceu espiritualmente. Sua fidelidade aos
pés da cruz revela a profundidade do vínculo estabelecido. Décadas depois, suas
reflexões sobre o amor testemunhavam a permanência daquela influência transformadora.
Maria de Magdala, por
sua vez, reformulou a própria existência. De alma atormentada, converteu-se em
trabalhadora dedicada, símbolo de renovação moral.
Esses exemplos
demonstram um princípio coerente com a Lei de Progresso: o contato com o bem,
quando aceito conscientemente, acelera o desenvolvimento do Espírito.
A
Atualidade do Exame de Consciência
Vivemos tempos de
rápidas transformações sociais, tecnológicas e culturais. Em poucos anos, a
humanidade presencia mudanças que antes exigiriam décadas. A comunicação
instantânea aproxima povos, mas também amplia conflitos; o avanço científico
salva vidas, mas desafia valores éticos.
Nesse contexto, o exame
íntimo torna-se ainda mais necessário.
Perguntemo-nos, com
serenidade:
- Estamos
mais pacientes do que há três anos?
- Desenvolvemos
maior capacidade de diálogo?
- Tornamo-nos
mais solidários em um mundo marcado por desigualdades?
- Diminuímos
o apego excessivo aos bens transitórios?
- Substituímos
o “eu” pelo “nós” em nossas decisões?
- Oramos
com mais consciência, ou apenas repetimos fórmulas?
A Doutrina Espírita não
propõe culpa estéril, mas avaliação construtiva. Kardec, na Revista Espírita
(1858–1869), frequentemente ressaltava a importância da observação e da análise
criteriosa — método que deve igualmente ser aplicado à vida moral.
Sem avaliação, não há
progresso consciente. Sem disciplina interior, as imperfeições se cristalizam.
Transformação
Íntima e Saúde Espiritual
A melhoria moral não
ocorre por impulso emocional passageiro, mas por transformação íntima contínua.
Transformar é modificar a forma das nossas manifestações — pensamentos,
sentimentos e atitudes — preservando a essência espiritual criada por Deus.
Quando deixamos de
examinar nossas tendências inferiores, elas se fortalecem. Orgulho, egoísmo e
indiferença podem se enraizar silenciosamente, comprometendo nossa saúde
espiritual.
O Evangelho, entretanto,
é roteiro seguro. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, aprendemos que “fora da caridade não há salvação”,
expressão que sintetiza a necessidade do amor ativo como critério de evolução.
Evangelho
e Alegria Interior
Há ainda um ponto
decisivo: a alegria.
O progresso espiritual
não se mede apenas por renúncias exteriores, mas pela serenidade íntima. O
Evangelho vivido gera contentamento profundo, mesmo diante das provas.
Se, após três anos,
estamos mais amargurados, mais intolerantes ou mais inquietos, algo precisa ser
revisto. A verdadeira assimilação dos ensinos do Cristo produz equilíbrio e
esperança.
Alegria espiritual não é
ausência de dificuldades, mas confiança nas leis divinas e na finalidade
educativa das experiências.
Conclusão
Menos de três anos foram
suficientes para que o Cristo imprimisse novos rumos à história moral da
humanidade. O tempo, quando bem aproveitado, torna-se força transformadora.
Também nós dispomos de
ciclos semelhantes — anos que se sucedem, dias que se renovam. A questão
essencial não é quanto tempo temos, mas como o utilizamos.
O exame periódico da
própria consciência é disciplina indispensável ao progresso. Não para nos
condenar, mas para identificar pontos de urgência e promover ajustes
necessários.
Cada período de três
anos pode ser apenas repetição automática da rotina… ou marco de autêntica
renovação.
A escolha, segundo
ensina a Doutrina Espírita, é sempre do Espírito.
Pensemos nisso.
Referências
- O
Livro dos Espíritos – Allan Kardec.
- O
Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec.
- A
Gênese – Allan Kardec.
- Revista
Espírita – Direção de Allan Kardec.
- Opinião
Espírita – Espíritos Emmanuel e André Luiz, psicografia de Francisco
Cândido Xavier e Waldo Vieira.
- Momento
Espírita. Três anos... Disponível em momento.com.br.
Nenhum comentário:
Postar um comentário