segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

CRITÉRIO CONHECIMENTO
E RESPONSABILIDADE MORAL NA ERA DIGITAL
- A Era do Espírito -

Introdução

A breve cena literária em que Alice, perdida, dialoga com o gato que lhe responde que qualquer caminho serve para quem não sabe aonde ir, encerra uma advertência profunda e atemporal. Mais do que uma curiosidade narrativa, essa imagem traduz com precisão a condição do ser humano contemporâneo diante do excesso de informações, de estímulos e de possibilidades oferecidas pela tecnologia. À luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e do pensamento desenvolvido na Revista Espírita (1858–1869), essa reflexão ganha contornos morais e educativos, convidando à análise do uso consciente da inteligência, do livre-arbítrio e da responsabilidade espiritual no mundo digital.

Informação e conhecimento: distinção necessária

Vivemos, indiscutivelmente, uma era marcada pela abundância informacional. Dados atuais indicam que bilhões de conteúdos digitais são produzidos diariamente, e a internet se consolidou como a principal via de acesso à informação no planeta. No entanto, a Doutrina Espírita ensina que o progresso intelectual não se confunde com o simples acúmulo de dados. Em O Livro dos Espíritos, Kardec registra que a inteligência é uma faculdade que se desenvolve pelo exercício e pela reflexão, e não pela repetição mecânica de conteúdos.

A informação, por sua natureza, é quantitativa e transitória. O conhecimento, por outro lado, é qualitativo, seletivo e integrador. Ele nasce da comparação de ideias, da análise crítica e da assimilação consciente, como bem observava David Hume. Essa distinção é essencial para evitar o equívoco moderno de supor que estar informado equivale a compreender, ou que acesso ilimitado significa sabedoria.

O critério como expressão do livre-arbítrio

A Doutrina Espírita ensina que o Espírito é livre para escolher, mas responsável pelas consequências de suas escolhas. Esse princípio se aplica plenamente ao campo intelectual. Diante da multiplicidade de conteúdos disponíveis, o critério torna-se uma expressão direta do livre-arbítrio esclarecido. Sem ele, o indivíduo corre o risco de se perder em uma sucessão de estímulos desconexos, sem finalidade educativa ou moral.

Na Revista Espírita, Kardec frequentemente alerta para os perigos da curiosidade sem discernimento, especialmente no trato com ideias, teorias e comunicações que não resistem ao exame da razão. O mesmo princípio pode ser aplicado ao uso das tecnologias atuais: sem objetivo claro, sem reflexão e sem finalidade elevada, o acesso irrestrito pode gerar dispersão, ansiedade e empobrecimento interior, em vez de progresso real.

Tecnologia como instrumento, não como fim

Computadores, redes digitais e sistemas de comunicação são ferramentas valiosas, mas, como toda ferramenta, não possuem finalidade em si mesmas. Seu valor está no uso que delas se faz. A Doutrina Espírita jamais se opôs ao progresso material; ao contrário, reconhece-o como parte da Lei de Progresso. Contudo, ensina que o desenvolvimento intelectual deve caminhar em harmonia com o desenvolvimento moral.

Quando a tecnologia deixa de servir ao aprimoramento do Espírito e passa a dominar o tempo, a atenção e a vontade do indivíduo, ocorre um desequilíbrio. Kardec observa que a verdadeira instrução é aquela que melhora o homem, tornando-o mais consciente de seus deveres e mais sensível às leis divinas. Assim, o uso criterioso da tecnologia deve estar subordinado a finalidades educativas, éticas e espirituais.

O risco do naufrágio intelectual e moral

A metáfora do naufrágio, aplicada ao uso indiscriminado da internet, encontra pleno respaldo na reflexão espírita. Navegar sem rumo, sem objetivos claros e sem critérios de seleção equivale a expor-se a ventos contrários, como advertia Sêneca. No campo espiritual, isso pode significar a perda de tempo precioso, a assimilação de ideias superficiais ou nocivas e o enfraquecimento da capacidade reflexiva.

A Doutrina Espírita ensina que nenhuma informação deve ser aceita como verdade sem passar pelo crivo da razão e do bom senso. O conhecimento verdadeiro amadurece no íntimo do Espírito, após reflexão, confronto de ideias e vivência prática. Sabedoria não se transfere automaticamente; ela é fruto de uma caminhada pessoal, intransferível e progressiva.

Conclusão

À semelhança de Alice, o ser humano contemporâneo precisa responder, antes de tudo, à pergunta fundamental: “Aonde desejo ir?”. Sem essa definição interior, qualquer caminho intelectual parecerá válido, mas poucos conduzirão ao progresso real. A Doutrina Espírita oferece critérios seguros para essa escolha: razão aliada ao sentimento, reflexão constante, responsabilidade moral e finalidade elevada.

Na era digital, mais do que acumular informações, somos convidados a educar o pensamento, disciplinar a curiosidade e transformar dados em conhecimento útil ao crescimento intelectual e moral. Somente assim evitaremos o naufrágio em meio à abundância e faremos da tecnologia um instrumento legítimo de progresso do Espírito.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos – provocações filosóficas. Petrópolis: Vozes.
  • Momento Espírita. O naufrágio de muitos internautas. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=1640&stat=0.

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