Introdução
A breve cena literária em que
Alice, perdida, dialoga com o gato que lhe responde que qualquer caminho serve
para quem não sabe aonde ir, encerra uma advertência profunda e atemporal. Mais
do que uma curiosidade narrativa, essa imagem traduz com precisão a condição do
ser humano contemporâneo diante do excesso de informações, de estímulos e de
possibilidades oferecidas pela tecnologia. À luz da Doutrina Espírita
codificada por Allan Kardec e do pensamento desenvolvido na Revista Espírita
(1858–1869), essa reflexão ganha contornos morais e educativos, convidando à
análise do uso consciente da inteligência, do livre-arbítrio e da
responsabilidade espiritual no mundo digital.
Informação e
conhecimento: distinção necessária
Vivemos, indiscutivelmente, uma
era marcada pela abundância informacional. Dados atuais indicam que bilhões de
conteúdos digitais são produzidos diariamente, e a internet se consolidou como
a principal via de acesso à informação no planeta. No entanto, a Doutrina
Espírita ensina que o progresso intelectual não se confunde com o simples
acúmulo de dados. Em O Livro
dos Espíritos, Kardec registra que a inteligência é uma faculdade
que se desenvolve pelo exercício e pela reflexão, e não pela repetição mecânica
de conteúdos.
A informação, por sua natureza,
é quantitativa e transitória. O conhecimento, por outro lado, é qualitativo,
seletivo e integrador. Ele nasce da comparação de ideias, da análise crítica e
da assimilação consciente, como bem observava David Hume. Essa distinção é
essencial para evitar o equívoco moderno de supor que estar informado equivale
a compreender, ou que acesso ilimitado significa sabedoria.
O critério como
expressão do livre-arbítrio
A Doutrina Espírita ensina que
o Espírito é livre para escolher, mas responsável pelas consequências de suas
escolhas. Esse princípio se aplica plenamente ao campo intelectual. Diante da
multiplicidade de conteúdos disponíveis, o critério torna-se uma expressão
direta do livre-arbítrio esclarecido. Sem ele, o indivíduo corre o risco de se
perder em uma sucessão de estímulos desconexos, sem finalidade educativa ou
moral.
Na Revista Espírita, Kardec frequentemente alerta
para os perigos da curiosidade sem discernimento, especialmente no trato com
ideias, teorias e comunicações que não resistem ao exame da razão. O mesmo
princípio pode ser aplicado ao uso das tecnologias atuais: sem objetivo claro,
sem reflexão e sem finalidade elevada, o acesso irrestrito pode gerar
dispersão, ansiedade e empobrecimento interior, em vez de progresso real.
Tecnologia como
instrumento, não como fim
Computadores, redes digitais e
sistemas de comunicação são ferramentas valiosas, mas, como toda ferramenta,
não possuem finalidade em si mesmas. Seu valor está no uso que delas se faz. A
Doutrina Espírita jamais se opôs ao progresso material; ao contrário,
reconhece-o como parte da Lei de Progresso. Contudo, ensina que o
desenvolvimento intelectual deve caminhar em harmonia com o desenvolvimento
moral.
Quando a tecnologia deixa de
servir ao aprimoramento do Espírito e passa a dominar o tempo, a atenção e a
vontade do indivíduo, ocorre um desequilíbrio. Kardec observa que a verdadeira
instrução é aquela que melhora o homem, tornando-o mais consciente de seus
deveres e mais sensível às leis divinas. Assim, o uso criterioso da tecnologia
deve estar subordinado a finalidades educativas, éticas e espirituais.
O risco do naufrágio
intelectual e moral
A metáfora do naufrágio,
aplicada ao uso indiscriminado da internet, encontra pleno respaldo na reflexão
espírita. Navegar sem rumo, sem objetivos claros e sem critérios de seleção
equivale a expor-se a ventos contrários, como advertia Sêneca. No campo espiritual,
isso pode significar a perda de tempo precioso, a assimilação de ideias
superficiais ou nocivas e o enfraquecimento da capacidade reflexiva.
A Doutrina Espírita ensina que
nenhuma informação deve ser aceita como verdade sem passar pelo crivo da razão
e do bom senso. O conhecimento verdadeiro amadurece no íntimo do Espírito, após
reflexão, confronto de ideias e vivência prática. Sabedoria não se transfere
automaticamente; ela é fruto de uma caminhada pessoal, intransferível e
progressiva.
Conclusão
À semelhança de Alice, o ser
humano contemporâneo precisa responder, antes de tudo, à pergunta fundamental:
“Aonde desejo ir?”. Sem essa definição interior, qualquer caminho intelectual
parecerá válido, mas poucos conduzirão ao progresso real. A Doutrina Espírita
oferece critérios seguros para essa escolha: razão aliada ao sentimento,
reflexão constante, responsabilidade moral e finalidade elevada.
Na era digital, mais do que
acumular informações, somos convidados a educar o pensamento, disciplinar a
curiosidade e transformar dados em conhecimento útil ao crescimento intelectual
e moral. Somente assim evitaremos o naufrágio em meio à abundância e faremos da
tecnologia um instrumento legítimo de progresso do Espírito.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- CORTELLA, Mario Sergio. Não nascemos prontos – provocações filosóficas. Petrópolis: Vozes.
- Momento Espírita. O naufrágio de muitos internautas. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=1640&stat=0.
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