Conforme a resposta à
questão 593 de O Livro dos Espíritos, é correto afirmar que o instinto
predomina na maioria dos animais; contudo, há aqueles que agem por uma vontade
determinada, revelando que o princípio inteligente, nesse estágio, já manifesta
formas iniciais de inteligência, ainda que limitadas à condição evolutiva em
que se encontra. Pode-se deduzir, portanto, que o princípio inteligente não
surge abruptamente, mas alcança cada estágio por meio de experiências e
aprendizados sucessivos, e todo aprendizado implica, de algum modo, a
assimilação gradual de verdades dispersas na criação.
Assim, a verdade
desenvolve-se progressivamente, em consonância com o avanço do princípio
inteligente (LE, q. 23) e, posteriormente, do Espírito individualizado (LE, q.
76), tanto no plano individual quanto no coletivo. Nos estágios iniciais da
evolução, os Espíritos mais adiantados destacam-se por divulgar parcelas da
verdade, sendo, não raro, mitificados pelos mais atrasados. À medida que o
progresso geral se amplia e a humanidade alcança condições intelectuais e
morais mais propícias, a verdade passa a ser revelada de forma coletiva, por
intermédio de Espíritos superiores, justamente para evitar sua personalização
em um único indivíduo.
Esse mecanismo está em
perfeita harmonia com o ensinamento do Espírito São Vicente de Paulo, em O
Livro dos Espíritos, questão 888-a, ao afirmar que o Espírito, qualquer que
seja o seu grau de adiantamento, encontra-se sempre situado entre um superior
que o orienta e aperfeiçoa e um inferior perante o qual tem deveres a cumprir.
Trata-se de uma dinâmica evolutiva contínua, que se fortalece do individual ao
coletivo, até que se alcance a perfeição relativa, objetivo comum da jornada
espiritual.
No movimento espírita, é
relativamente frequente a afirmação de que Jesus e o Espírito de Verdade seriam
o mesmo Espírito. Embora essa interpretação seja, em geral, motivada por
sincera admiração à figura do Cristo, ela não encontra respaldo sólido quando
analisada à luz do método racional da Doutrina Espírita, das obras da
Codificação e dos esclarecimentos constantes da Revista Espírita
(1858–1869).
A Doutrina Espírita
convida ao exame criterioso, afastando tanto o dogmatismo quanto a
personalização excessiva de conceitos que, em sua essência, são mais amplos,
coletivos e funcionais. Assim como ocorreu com diversas concepções teológicas
herdadas das tradições religiosas, a identificação literal entre Jesus e o
Espírito de Verdade exige esclarecimento, distinção conceitual e fidelidade ao
princípio da revelação progressiva.
Este artigo propõe
analisar, de forma clara, racional e doutrinariamente coerente, quem é Jesus
segundo a Doutrina Espírita, o que representa o Espírito de Verdade e como
ambos se harmonizam sem se confundirem. Tal abordagem fundamenta-se no
raciocínio livre e responsável, pois raciocinar não significa impor verdades,
mas examinar ideias à luz da razão e do bom senso.
Jesus
segundo a Doutrina Espírita
A Doutrina Espírita
reconhece Jesus como o Espírito mais elevado que já esteve na Terra, modelo
moral da humanidade e guia espiritual do planeta. Sua superioridade não decorre
de uma natureza divina exclusiva, mas do grau máximo de adiantamento moral e intelectual
que alcançou.
Em O Livro dos
Espíritos, Jesus é apresentado como o tipo moral mais perfeito que Deus
ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo. Em A Gênese, é
identificado como o governador espiritual da Terra, responsável pela orientação
evolutiva da humanidade.
Entretanto, a Doutrina
Espírita é clara ao afirmar que Jesus não se confunde com Deus, nem se
apresenta como a Verdade absoluta em sentido ontológico. Ele é o mais fiel
intérprete da Lei Divina que a humanidade conheceu, mas não esgota, nem poderia
esgotar, toda a verdade universal, uma vez que esta se revela progressivamente,
conforme a capacidade humana de compreendê-la.
O
Espírito de Verdade nas obras da Codificação
O Espírito de Verdade
surge na Doutrina Espírita com uma função bem definida: presidir, orientar e
inspirar a revelação espírita, assegurando-lhe coerência moral, elevação
filosófica e fidelidade ao ensino do Cristo.
Em Obras Póstumas,
observa-se sua atuação como orientador do método, advertindo contra desvios
conceituais, corrigindo excessos e estimulando o uso rigoroso da razão. Em
nenhum momento o Espírito de Verdade se apresenta como o próprio Cristo, nem
reivindica identidade pessoal com Jesus. Ao contrário, adota um nome simbólico
e recusa revelar individualidade humana pretérita, justamente para evitar
personalismos e cultos à personalidade.
Nos Prolegômenos de O
Livro dos Espíritos, o Espírito de Verdade aparece entre diversos Espíritos
superiores, o que reforça o caráter coletivo, universal e impessoal da
revelação. A Doutrina Espírita não se fundamenta na autoridade de um Espírito
isolado, mas na concordância geral do ensino espiritual submetido ao controle
da razão.
O
Consolador prometido: doutrina, não indivíduo
Grande parte da confusão
entre Jesus e o Espírito de Verdade decorre de uma interpretação literal da
promessa do Consolador, registrada no Evangelho de João. A Doutrina Espírita,
entretanto, oferece uma leitura clara e coerente dessa promessa.
Em O Evangelho
segundo o Espiritismo e, de forma ainda mais aprofundada, em A Gênese,
demonstra-se que o Consolador não poderia ser o próprio Jesus retornando em
pessoa, pois:
- Jesus
afirma que o Consolador viria depois de sua partida;
- Declara
que ele permaneceria eternamente com a humanidade;
- Ensina
que ele estaria “em nós”, esclarecendo e recordando todas as coisas.
Tais condições não se
aplicam a uma individualidade encarnada, por mais elevada que seja. Aplicam-se,
com precisão, a uma doutrina de caráter espiritual, moral e racional, inspirada
pelo Espírito de Verdade e assimilada progressivamente pela consciência humana.
O Consolador prometido
é, portanto, a continuação esclarecedora da obra do Cristo, agora expressa em
linguagem compatível com o progresso científico, filosófico e moral da
humanidade.
O
Espírito de Verdade como princípio orientador
Na Doutrina Espírita, o
Espírito de Verdade deve ser compreendido como a expressão viva da verdade
espiritual em ação, e não como uma personalidade exclusiva. Ele representa o
conjunto dos Espíritos superiores comprometidos com a implantação do Reino de Deus
pela via do esclarecimento, da justiça e do amor.
Essa compreensão evita
dois desvios recorrentes:
- a
divinização de Espíritos, ainda que altamente elevados;
- a
redução da Doutrina Espírita a um sistema dependente de uma figura
centralizadora.
O Espírito de Verdade é,
assim, a voz coletiva da verdade, que se manifesta quando o pensamento humano
atinge maturidade suficiente para compreender leis universais como a
imortalidade da alma, a pluralidade das existências, a comunicabilidade dos
Espíritos e a lei de causa e efeito.
Harmonia,
não identidade
Nada há de contraditório
entre reconhecer a supremacia moral de Jesus e compreender o Espírito de
Verdade como princípio orientador da revelação espírita. Ao contrário, há
perfeita harmonia.
Jesus é o modelo vivo da
Lei de Amor. O Espírito de Verdade é a luz esclarecedora dessa lei, aplicada ao
entendimento humano em uma nova etapa evolutiva.
Confundi-los como sendo
o mesmo Espírito não amplia o entendimento; ao contrário, limita-o, pois
personaliza aquilo que é universal e reduz uma função espiritual a uma
identidade individual.
Conclusão
À luz da Doutrina
Espírita, afirmar que Jesus e o Espírito de Verdade são o mesmo Espírito não
constitui a interpretação mais racional nem a mais fiel ao método espírita.
Jesus é o Cristo, Espírito de altíssima hierarquia, governador espiritual da
Terra e modelo moral da humanidade. O Espírito de Verdade, por sua vez, é a
expressão funcional e coletiva da verdade espiritual, presidindo a revelação do
Consolador prometido por Jesus.
Distinguir não é
separar; é compreender melhor. Essa distinção preserva a grandeza do Cristo,
evita personalismos desnecessários e mantém a Doutrina Espírita fiel ao seu
caráter essencial: uma revelação progressiva, racional, universal e
libertadora, destinada a esclarecer, consolar e transformar o ser humano.
Referências
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos, questões 23, 76, 593, 888-a, entre
outras.
- KARDEC,
Allan. Obras Póstumas.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI, itens 3 a 7.
- KARDEC,
Allan. A Gênese, caps. I (itens 42 a 47) e XVII, edição de 1868.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita (1858–1869), especialmente fevereiro de
1865 e artigos correlatos sobre o Cristo, o Consolador e o Espírito de
Verdade
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