Introdução
As palavras de Jesus,
preservadas nos Evangelhos, atravessam os séculos como convites permanentes à
reflexão moral e à renovação interior. No entanto, ao longo da história,
determinadas expressões evangélicas — como a “porta estreita”, o ensino de que
“muitos são chamados, poucos os escolhidos” ou ainda a afirmação de que “os
últimos serão os primeiros” — foram frequentemente interpretadas sob a ótica do
temor, da exclusão e de uma seletividade divina incompatível com a justiça e a
bondade de Deus.
A Doutrina Espírita,
revelada pelos Espíritos superiores e codificada por Allan Kardec mediante
método racional, experimental e progressivo, oferece uma leitura mais ampla e
coerente desses ensinamentos. Longe de suavizar o rigor moral do Evangelho, ela
o esclarece, libertando-o de concepções literalistas que obscurecem o sentido
educativo das Leis Divinas.
À luz da Codificação
Espírita e dos estudos desenvolvidos na Revista Espírita (1858–1869), os
ensinos do Cristo são compreendidos como diretrizes universais de progresso
espiritual, responsabilidade individual e vivência consciente da Lei de Amor,
Justiça e Caridade. Este artigo propõe uma análise integrada dessas passagens
evangélicas, relacionando-as à Lei de Deus inscrita na consciência, aos estados
de emancipação da alma e à atual transição espiritual da humanidade, marcada
por menor dependência de manifestações mediúnicas ostensivas e maior
valorização da consciência desperta.
A
Porta Estreita como Símbolo da Transformação Interior
A passagem registrada em
Lucas 13:23–30, tradicionalmente associada à ideia de exclusão espiritual, é
analisada por Allan Kardec no capítulo XVIII de O Evangelho segundo o
Espiritismo. Nessa perspectiva, a “porta estreita” não representa uma
barreira arbitrária imposta por Deus, mas o símbolo do caminho do dever, da
disciplina interior e do domínio progressivo das más inclinações.
Ela é estreita porque
exige do Espírito o abandono consciente de suas cargas morais — orgulho,
egoísmo, vaidade e apego excessivo aos interesses materiais. Em contraste, a
“porta larga” simboliza o caminho da facilidade moral, da ausência de esforço e
da satisfação imediata dos desejos, conduzindo ao retardamento do progresso
espiritual.
Quando Jesus afirma que
“muitos buscarão entrar e não poderão”, a Doutrina Espírita esclarece que o
impedimento não decorre de uma recusa divina, mas da falta de preparo íntimo do
próprio Espírito. O simples desejo pela felicidade espiritual, desacompanhado
do esforço efetivo de transformação interior, revela-se insuficiente. Essa
dificuldade, contudo, não é definitiva: à medida que o Espírito amadurece, o
sacrifício inicial converte-se em compreensão, liberdade interior e alegria
consciente.
Chamados
e Escolhidos: Consciência, Conduta e Universalidade do Progresso
Outra advertência
evangélica significativa refere-se àqueles que chamam Jesus de “Senhor”, mas
não praticam a justiça nem a caridade. A resposta simbólica — “não sei de onde
sois” — evidencia que a verdadeira filiação espiritual não se define por
rótulos religiosos, fórmulas exteriores ou declarações verbais, mas pela
conduta moral efetiva.
A Doutrina Espírita
reafirma que nenhuma crença, isoladamente, assegura progresso espiritual. O
reconhecimento do Cristo se manifesta na vivência sincera da Lei Divina. A
referência evangélica àqueles que virão “do Oriente e do Ocidente” para
participar do Reino reforça o princípio da universalidade da evolução: todos os
Espíritos, sem distinção de origem, cultura ou tradição religiosa, são chamados
ao progresso, desde que se empenhem na prática do bem.
Responsabilidade
Proporcional ao Conhecimento
Nesse mesmo contexto insere-se
o ensino registrado em Lucas 12:47–48: “A quem muito foi dado, muito será
pedido”. A Doutrina Espírita recorre a essa máxima evangélica para esclarecer o
princípio da responsabilidade proporcional ao grau de esclarecimento do
Espírito.
Ao oferecer explicações
racionais sobre a imortalidade da alma, a reencarnação e a justiça divina, a
Doutrina Espírita amplia o campo da responsabilidade moral daqueles que dela se
instruem. Não se trata de privilégio espiritual, mas de compromisso ético.
Quanto maior a compreensão das Leis Divinas, maior se torna a exigência de sua
aplicação prática, especialmente no esforço contínuo de transformação íntima e
no serviço desinteressado ao próximo.
O Amor
como Força Libertadora
A passagem de Lucas
7:47–48, referente à mulher que “muito amou”, ocupa lugar central na
compreensão espírita da Lei de Amor. O perdão mencionado por Jesus não é
interpretado como absolvição arbitrária, mas como consequência natural da
renovação interior.
Quando o amor substitui
o egoísmo, as causas profundas do sofrimento moral deixam de existir. A
caridade vivida com sinceridade atua como força regeneradora, reparando os
erros do passado não por simples anulação, mas pela mudança real do Espírito. O
progresso moral revela-se, assim, o verdadeiro mecanismo de libertação.
A Lei
Viva acima do Formalismo
O episódio da cura do
homem da mão ressequida (Mateus 12:10–14) ilustra a superioridade do espírito
da lei sobre sua letra. Presos ao formalismo do sábado, os fariseus censuram o
ato de Jesus, que demonstra, pelo exemplo, que o bem não admite adiamento.
Para a Doutrina
Espírita, práticas exteriores só possuem valor quando se traduzem em benefício
real ao próximo. A máxima “fora da caridade não há salvação” encontra nesse
episódio uma expressão viva. A omissão diante do sofrimento humano, sob
qualquer justificativa religiosa, constitui falha moral significativa.
O Espiritismo também
esclarece a cura como resultado de ação fluídica e magnética, exercida por
Jesus, Espírito de elevadíssimo grau evolutivo, em perfeita harmonia com as
Leis Naturais. A fé daquele que “estende a mão” simboliza o esforço da vontade,
indispensável tanto à restauração física quanto à renovação moral.
O
Convite Divino, a Veste Nupcial e o Despertar da Consciência
Na Parábola das Bodas
(Mateus 22:1–14), estudada no capítulo XVIII de O Evangelho segundo o
Espiritismo, o rei simboliza Deus, e o banquete representa o estado de
harmonia e felicidade espiritual. O convite é permanente e universal, realizado
por meio da consciência, das revelações espirituais e das experiências
educativas da vida.
A recusa dos primeiros
convidados simboliza o apego aos interesses materiais e a cegueira moral
daqueles que conhecem a lei, mas não a vivenciam. Deus não força a evolução;
Ele convida. A recusa apenas adia a própria felicidade, conduzindo o Espírito a
novas provas e existências até que desperte.
A exigência da “veste
nupcial” esclarece que não basta ser chamado: é necessário preparo íntimo. No
entendimento espírita, essa veste corresponde à pureza de sentimentos e à
retidão de intenções, construídas pelo esforço contínuo no bem.
Os
Trabalhadores da Última Hora e o Trabalho Coletivo na Atualidade
A Parábola dos
Trabalhadores da Vinha, analisada por Kardec no capítulo XX de O Evangelho
segundo o Espiritismo, fundamenta o conceito dos “trabalhadores da última
hora”. As diferentes horas da chamada representam tanto as diversas épocas das
revelações quanto as múltiplas existências do Espírito.
O mesmo denário
concedido a todos simboliza a paz de consciência e o acesso a estados
espirituais mais felizes. Deus não mede o tempo de serviço, mas a sinceridade e
a dedicação no bem. Um Espírito que desperta tardiamente, mas trabalha com
fervor, pode alcançar progresso equivalente ao daquele que iniciou mais cedo,
porém com menor empenho moral.
Na atualidade, esses
trabalhadores se expressam menos por manifestações individuais e ostensivas e
mais por ações coletivas, conscientes e solidárias. O serviço no bem, a
vivência ética, a responsabilidade social e o compromisso com a transformação
interior constituem as formas modernas e maduras de cooperação com a obra
divina.
Lei de
Deus na Consciência e a Diminuição da Mediunidade Ostensiva
Em um mundo marcado pelo
avanço tecnológico e pela ampliação dos meios de comunicação, observa-se
crescente interesse por fenômenos espirituais. A Doutrina Espírita, entretanto,
esclarece que a mediunidade é instrumento educativo, não finalidade em si mesma.
A advertência de Jesus
aos “homens de pouca fé” (Mateus 17:20) não se refere à ausência de crença em
Deus, mas à fragilidade de uma fé dependente de sinais exteriores. Conforme
ensina O Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XIX), a fé deve evoluir
da forma instintiva para a fé raciocinada, que crê porque compreende e não teme
o exame da razão.
Antes de qualquer
revelação exterior, a Lei de Deus está inscrita na consciência de cada Espírito
(O Livro dos Espíritos, questão 621). Jesus não veio substituí-la, mas
despertá-la. A dependência contínua de intermediários, quando o Espírito já
dispõe de discernimento moral, representa estágio transitório da evolução.
A intuição, entendida
como percepção direta da consciência, e os estados de emancipação da alma,
descritos nas questões 400 a 441 de O Livro dos Espíritos, confirmam que
o Espírito possui recursos próprios de orientação moral. A prece e a
vigilância, como atos conscientes da vontade, favorecem a sintonia com
inspirações superiores e o equilíbrio interior.
Conclusão
Os ensinamentos de
Jesus, analisados à luz da Doutrina Espírita, revelam uma pedagogia divina
fundada na justiça, no amor e na responsabilidade individual. A porta estreita
não exclui: educa. O convite divino não impõe: esclarece. A recompensa não
privilegia: equilibra.
Cada Espírito é chamado
ao progresso segundo suas possibilidades e escolhas. A verdadeira seleção não
se baseia em crenças exteriores, mas na vivência da caridade e no esforço
sincero de transformação interior. Assim compreendidos, os Evangelhos deixam de
ser mensagens de temor e se afirmam como roteiros seguros de crescimento moral,
plenamente coerentes com a misericórdia e a sabedoria de Deus.
Referências
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 23, 76, 400–441, 621–625,
888-a.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda Parte.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos VI, XVIII, XIX
e XX.
- KARDEC,
Allan. A Gênese. Capítulos I e XVIII (edição de 1868).
- KARDEC,
Allan. Obras Póstumas.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita. Coleção completa (1858–1869).
- Bíblia.
Evangelhos de Mateus e Lucas.
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