Introdução
Em diversos ambientes
espiritualistas contemporâneos, tornou-se comum o uso das expressões “vibrar”,
“elevar a vibração” ou “baixar a vibração” para explicar estados morais,
emocionais e espirituais. Embora esses termos façam parte do vocabulário
moderno, surge a pergunta legítima: como a Doutrina Espírita, codificada por
Allan Kardec no século XIX, compreende essa temática?
A resposta exige uma
leitura cuidadosa da Codificação e da Revista Espírita, considerando o
contexto científico da época e o método rigoroso adotado por Kardec. Embora o
termo “vibração” não apareça com a frequência atual, o conceito que ele procura
expressar está amplamente presente nos ensinos espíritas, sobretudo por meio das
noções de fluido, perispírito, pensamento e sintonia moral.
O
fluido cósmico universal e os estados da matéria
Segundo O Livro dos
Espíritos, existe uma substância primitiva, denominada Fluido Cósmico
Universal, da qual derivam todas as formas de matéria, desde as mais densas até
as mais sutis. Esse fluido é o elemento intermediário entre o Espírito e a
matéria propriamente dita, servindo de base à formação do perispírito e à
organização dos mundos.
A diferença entre a
matéria grosseira e a matéria espiritualizada não está na natureza do
princípio, mas no seu grau de transformação e sutileza. Espíritos mais elevados
atuam em estados fluídicos mais rarefeitos, compatíveis com sua condição moral.
Em linguagem atual, poder-se-ia dizer que se trata de diferentes estados
vibratórios da mesma substância fundamental, embora Kardec tenha preferido o
termo “fluido” por ser o mais adequado ao conhecimento científico de seu tempo.
O
pensamento como força real
Um dos pontos centrais
da Doutrina Espírita é a compreensão do pensamento como força ativa e eficaz.
Para Kardec, o pensamento não é abstração, mas ação do Espírito, capaz de
produzir efeitos reais sobre os fluidos que o cercam.
Na Revista Espírita,
encontra-se reiteradamente a explicação de que o pensamento imprime movimento e
direção aos fluidos espirituais, funcionando como verdadeiro impulso. Assim
como o som necessita do ar para se propagar, o pensamento utiliza o fluido
cósmico como meio de transmissão.
Essa concepção antecipa,
em termos filosóficos, a noção moderna de campos e ondas, sem, contudo,
confundir fenômenos espirituais com medições físicas estritas. A chamada
“vibração do pensamento” corresponde, no entendimento espírita, à modificação
fluídica produzida pela vontade e pelo sentimento.
Sintonia
moral e lei de afinidade
A comunicação entre Espíritos —
encarnados ou desencarnados — não se estabelece ao acaso. Allan Kardec
esclarece que ela ocorre por afinidade, isto é, pela semelhança de pensamentos,
sentimentos e disposições morais. Essa “simpatia fluídica” constitui o fundamento
da mediunidade e das influências espirituais em geral.
Pode-se recorrer, como analogia
didática, ao funcionamento das emissoras de rádio ou televisão. As estações
emitem continuamente seus sinais, mas apenas alcançam o público que se
sintoniza com elas. O conteúdo transmitido não se adapta ao receptor; é o receptor
que, ao ajustar seu aparelho, passa a receber aquilo que corresponde à
frequência escolhida. De modo semelhante, o mundo espiritual está em constante
intercâmbio, e cada Espírito entra em contato com aqueles que se harmonizam com
seu padrão íntimo.
Assim, sentimentos elevados
favorecem a sintonia com Espíritos mais adiantados, enquanto paixões,
desequilíbrios e pensamentos inferiores atraem companhias em idêntica condição
moral. Não se trata de imposição externa, mas de afinidade natural, regida pela
lei de causa e efeito.
Essa comparação é útil enquanto
recurso explicativo, desde que não se perca de vista seu caráter simbólico.
Para a Doutrina Espírita, o fator determinante da comunicação não é uma
frequência física mensurável, mas o estado moral do Espírito, que define sua
capacidade de percepção, influência e intercâmbio nos diversos planos da vida.
Passe,
prece e irradiação à distância
Na prática espírita, a
transmissão fluídica manifesta-se de modo claro no passe e nas irradiações à
distância. Kardec descreve o passe como uma ação combinada de fluidos humanos e
espirituais, dirigida pela vontade e qualificada pelo sentimento.
Quando se fala em
“vibrar por alguém”, trata-se, na realidade, de concentrar o pensamento e a
intenção no bem, projetando fluidos salutares em favor do necessitado. A
eficácia dessa ação depende de dois fatores essenciais: a sinceridade e
elevação moral de quem emite, e a receptividade daquele que recebe.
Nas irradiações
coletivas, a união de pensamentos cria uma corrente fluídica mais intensa, que
pode ser utilizada pelos Espíritos socorristas conforme as Leis Divinas. Essa
cooperação entre encarnados e desencarnados é amplamente documentada na Revista
Espírita, sempre com ênfase no caráter educativo e moral do processo.
Perispírito
e receptividade vibratória
O perispírito desempenha
papel fundamental nesse intercâmbio. Ele funciona como envoltório sensível,
reagindo às influências do meio espiritual conforme o padrão mental do
Espírito. Pensamentos reiterados de equilíbrio, prece e vigilância contribuem
para tornar o perispírito mais harmonizado, favorecendo a assimilação de
fluidos benéficos.
Por essa razão, a
Doutrina Espírita insiste na educação do pensamento como base da saúde
espiritual. Não se trata de evitar influências externas por isolamento, mas de
elevar o próprio padrão íntimo, ajustando-se conscientemente às Leis Morais.
Paralelo
com a ciência contemporânea
A ciência moderna
demonstrou que a atividade cerebral gera campos eletromagnéticos detectáveis,
conhecidos como ondas cerebrais. Embora a neurociência não afirme que o
pensamento, em si, se propague pelo espaço como entidade independente, ela
reconhece que o cérebro opera por oscilações e padrões rítmicos.
O ponto de convergência
com a Doutrina Espírita está na compreensão do pensamento como fenômeno ativo e
organizado. A diferença fundamental é que a ciência investiga o “instrumento” —
o cérebro — enquanto o Espiritismo identifica o Espírito como a causa inteligente
que se expressa por meio dele.
Kardec foi claro ao
afirmar que o pensamento não é produto da matéria, mas atributo do Espírito,
sendo o cérebro apenas o intermediário de sua manifestação no plano físico.
Conclusão
A noção de vibração, tão
difundida atualmente, encontra sólido fundamento na Doutrina Espírita, desde
que compreendida à luz de seus princípios essenciais. Kardec utilizou a
linguagem dos fluidos não por limitação conceitual, mas por fidelidade ao
método científico de sua época, evitando extrapolações imprudentes.
Na visão espírita,
vibrar é pensar e sentir; elevar a vibração é educar o pensamento; e
sintonizar-se é alinhar-se moralmente às Leis Divinas. A verdadeira elevação
não reside em termos técnicos ou analogias modernas, mas na transformação
íntima que torna o Espírito mais apto a amar, servir e compreender.
Referências
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 27, 94, 257, 459.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda Parte.
- KARDEC,
Allan. A Gênese. Capítulos I e XIV (edição de 1868).
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita. Coleção completa (1858–1869).
- XAVIER,
Francisco C. (Espíritos Emmanuel e André Luiz). Obras diversas de caráter
complementar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário