sábado, 7 de fevereiro de 2026

 

PENSAMENTO, FLUIDOS E VIBRAÇÃO
A LINGUAGEM DA CONSCIÊNCIA NA DOUTRINA ESPÍRITA
- A Era do Espírito -

Introdução

Em diversos ambientes espiritualistas contemporâneos, tornou-se comum o uso das expressões “vibrar”, “elevar a vibração” ou “baixar a vibração” para explicar estados morais, emocionais e espirituais. Embora esses termos façam parte do vocabulário moderno, surge a pergunta legítima: como a Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec no século XIX, compreende essa temática?

A resposta exige uma leitura cuidadosa da Codificação e da Revista Espírita, considerando o contexto científico da época e o método rigoroso adotado por Kardec. Embora o termo “vibração” não apareça com a frequência atual, o conceito que ele procura expressar está amplamente presente nos ensinos espíritas, sobretudo por meio das noções de fluido, perispírito, pensamento e sintonia moral.

O fluido cósmico universal e os estados da matéria

Segundo O Livro dos Espíritos, existe uma substância primitiva, denominada Fluido Cósmico Universal, da qual derivam todas as formas de matéria, desde as mais densas até as mais sutis. Esse fluido é o elemento intermediário entre o Espírito e a matéria propriamente dita, servindo de base à formação do perispírito e à organização dos mundos.

A diferença entre a matéria grosseira e a matéria espiritualizada não está na natureza do princípio, mas no seu grau de transformação e sutileza. Espíritos mais elevados atuam em estados fluídicos mais rarefeitos, compatíveis com sua condição moral. Em linguagem atual, poder-se-ia dizer que se trata de diferentes estados vibratórios da mesma substância fundamental, embora Kardec tenha preferido o termo “fluido” por ser o mais adequado ao conhecimento científico de seu tempo.

O pensamento como força real

Um dos pontos centrais da Doutrina Espírita é a compreensão do pensamento como força ativa e eficaz. Para Kardec, o pensamento não é abstração, mas ação do Espírito, capaz de produzir efeitos reais sobre os fluidos que o cercam.

Na Revista Espírita, encontra-se reiteradamente a explicação de que o pensamento imprime movimento e direção aos fluidos espirituais, funcionando como verdadeiro impulso. Assim como o som necessita do ar para se propagar, o pensamento utiliza o fluido cósmico como meio de transmissão.

Essa concepção antecipa, em termos filosóficos, a noção moderna de campos e ondas, sem, contudo, confundir fenômenos espirituais com medições físicas estritas. A chamada “vibração do pensamento” corresponde, no entendimento espírita, à modificação fluídica produzida pela vontade e pelo sentimento.

Sintonia moral e lei de afinidade

A comunicação entre Espíritos — encarnados ou desencarnados — não se estabelece ao acaso. Allan Kardec esclarece que ela ocorre por afinidade, isto é, pela semelhança de pensamentos, sentimentos e disposições morais. Essa “simpatia fluídica” constitui o fundamento da mediunidade e das influências espirituais em geral.

Pode-se recorrer, como analogia didática, ao funcionamento das emissoras de rádio ou televisão. As estações emitem continuamente seus sinais, mas apenas alcançam o público que se sintoniza com elas. O conteúdo transmitido não se adapta ao receptor; é o receptor que, ao ajustar seu aparelho, passa a receber aquilo que corresponde à frequência escolhida. De modo semelhante, o mundo espiritual está em constante intercâmbio, e cada Espírito entra em contato com aqueles que se harmonizam com seu padrão íntimo.

Assim, sentimentos elevados favorecem a sintonia com Espíritos mais adiantados, enquanto paixões, desequilíbrios e pensamentos inferiores atraem companhias em idêntica condição moral. Não se trata de imposição externa, mas de afinidade natural, regida pela lei de causa e efeito.

Essa comparação é útil enquanto recurso explicativo, desde que não se perca de vista seu caráter simbólico. Para a Doutrina Espírita, o fator determinante da comunicação não é uma frequência física mensurável, mas o estado moral do Espírito, que define sua capacidade de percepção, influência e intercâmbio nos diversos planos da vida.

Passe, prece e irradiação à distância

Na prática espírita, a transmissão fluídica manifesta-se de modo claro no passe e nas irradiações à distância. Kardec descreve o passe como uma ação combinada de fluidos humanos e espirituais, dirigida pela vontade e qualificada pelo sentimento.

Quando se fala em “vibrar por alguém”, trata-se, na realidade, de concentrar o pensamento e a intenção no bem, projetando fluidos salutares em favor do necessitado. A eficácia dessa ação depende de dois fatores essenciais: a sinceridade e elevação moral de quem emite, e a receptividade daquele que recebe.

Nas irradiações coletivas, a união de pensamentos cria uma corrente fluídica mais intensa, que pode ser utilizada pelos Espíritos socorristas conforme as Leis Divinas. Essa cooperação entre encarnados e desencarnados é amplamente documentada na Revista Espírita, sempre com ênfase no caráter educativo e moral do processo.

Perispírito e receptividade vibratória

O perispírito desempenha papel fundamental nesse intercâmbio. Ele funciona como envoltório sensível, reagindo às influências do meio espiritual conforme o padrão mental do Espírito. Pensamentos reiterados de equilíbrio, prece e vigilância contribuem para tornar o perispírito mais harmonizado, favorecendo a assimilação de fluidos benéficos.

Por essa razão, a Doutrina Espírita insiste na educação do pensamento como base da saúde espiritual. Não se trata de evitar influências externas por isolamento, mas de elevar o próprio padrão íntimo, ajustando-se conscientemente às Leis Morais.

Paralelo com a ciência contemporânea

A ciência moderna demonstrou que a atividade cerebral gera campos eletromagnéticos detectáveis, conhecidos como ondas cerebrais. Embora a neurociência não afirme que o pensamento, em si, se propague pelo espaço como entidade independente, ela reconhece que o cérebro opera por oscilações e padrões rítmicos.

O ponto de convergência com a Doutrina Espírita está na compreensão do pensamento como fenômeno ativo e organizado. A diferença fundamental é que a ciência investiga o “instrumento” — o cérebro — enquanto o Espiritismo identifica o Espírito como a causa inteligente que se expressa por meio dele.

Kardec foi claro ao afirmar que o pensamento não é produto da matéria, mas atributo do Espírito, sendo o cérebro apenas o intermediário de sua manifestação no plano físico.

Conclusão

A noção de vibração, tão difundida atualmente, encontra sólido fundamento na Doutrina Espírita, desde que compreendida à luz de seus princípios essenciais. Kardec utilizou a linguagem dos fluidos não por limitação conceitual, mas por fidelidade ao método científico de sua época, evitando extrapolações imprudentes.

Na visão espírita, vibrar é pensar e sentir; elevar a vibração é educar o pensamento; e sintonizar-se é alinhar-se moralmente às Leis Divinas. A verdadeira elevação não reside em termos técnicos ou analogias modernas, mas na transformação íntima que torna o Espírito mais apto a amar, servir e compreender.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 27, 94, 257, 459.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda Parte.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulos I e XIV (edição de 1868).
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita. Coleção completa (1858–1869).
  • XAVIER, Francisco C. (Espíritos Emmanuel e André Luiz). Obras diversas de caráter complementar.

 

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