quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ENTRE A EXALTAÇÃO E A SOBRIEDADE
REFLEXÕES SOBRE PERSONALISMO NO MOVIMENTO ESPÍRITA
- A Era do Espírito -

Introdução

O movimento espírita brasileiro consolidou-se, ao longo do século XX e início do XXI, como um dos mais expressivos no mundo. Com milhares de centros, editoras, periódicos e eventos públicos, tornou-se referência internacional na difusão da Doutrina Espírita. Esse crescimento, entretanto, traz consigo desafios naturais: como preservar a fidelidade doutrinária, o espírito crítico e a sobriedade recomendados pelos Espíritos, evitando excessos emocionais ou personalismos?

A Codificação organizada por Allan Kardec e os estudos publicados na Revista Espírita oferecem critérios seguros para examinar essas questões com serenidade e equilíbrio. Não se trata de crítica pessoal a indivíduos dedicados e respeitáveis, mas de reflexão doutrinária sobre atitudes coletivas que podem, ainda que involuntariamente, desviar o foco essencial da Doutrina.

O Risco do Personalismo

O Espiritismo nasceu sob método. Kardec jamais se apresentou como fundador da Doutrina Espírita, nem incentivou venerações pessoais. Pelo contrário, reiterou que a Doutrina pertence aos Espíritos que a revelaram, sendo ele apenas o codificador.

Em diversas ocasiões, na própria Revista Espírita, observa-se o cuidado em evitar a transformação de médiuns ou colaboradores em figuras de culto. O fenômeno mediúnico, segundo a Doutrina, não santifica ninguém. O médium é instrumento — digno de respeito pelo esforço e pela disciplina —, mas não objeto de veneração.

Quando títulos grandiosos, expressões superlativas ou qualificações simbólicas são atribuídos a trabalhadores espíritas, surge uma questão legítima: estamos valorizando o trabalho ou promovendo o personalismo?

A diferença é sutil, mas essencial.

A Cultura Contemporânea da Imagem

Vivemos numa sociedade orientada pela visibilidade. Redes sociais, transmissões digitais e grandes eventos ampliaram o alcance de conferencistas e oradores espíritas. Segundo dados recentes sobre comunicação digital no Brasil, mais de 150 milhões de pessoas utilizam regularmente plataformas online. Naturalmente, esse ambiente favorece a projeção de figuras públicas.

Nada há de condenável na divulgação ampla da mensagem espírita. Ao contrário, é recurso valioso. O problema surge quando a cultura midiática — baseada em destaque individual, manchetes impactantes e linguagem promocional — infiltra-se no campo doutrinário sem o devido discernimento.

A Doutrina Espírita não se estrutura sobre líderes carismáticos, mas sobre princípios universais. Ela não depende de nomes; depende de ideias.

Ufanismo e Idolatria: Uma Reflexão Necessária

A exaltação excessiva, ainda que bem-intencionada, pode produzir efeitos indesejáveis:

  • Criação de mitos pessoais;
  • Transferência da autoridade doutrinária para indivíduos;
  • Substituição do estudo pelo entusiasmo;
  • Enfraquecimento do senso crítico.

O próprio ensino evangélico recomenda evitar títulos e distinções honoríficas que alimentem o orgulho. A grandeza moral manifesta-se na simplicidade.

A história do movimento espírita brasileiro oferece exemplos notáveis de trabalhadores que sempre recusaram adjetivações pomposas. Chico Xavier repetia que era apenas um “cisco” nas mãos de Jesus. Divaldo Franco, conhecido internacionalmente por sua oratória e dedicação assistencial, também sempre afirmou ser simples servidor da causa.

O reconhecimento justo é legítimo. A idolatria, porém, não encontra respaldo na Codificação.

Dois Pesos e Duas Medidas?

Outro ponto que merece análise é a aparente contradição, por vezes observada, entre a rejeição de títulos acadêmicos para expositores e a concessão de qualificativos simbólicos grandiosos a determinadas figuras.

A Doutrina Espírita não combate o conhecimento acadêmico. Pelo contrário, aproxima-se da ciência e incentiva o estudo sério. Em A Gênese, Kardec afirma que o Espiritismo caminha de mãos dadas com o progresso científico. Portanto, valorizar formação intelectual não é vaidade; pode ser instrumento de credibilidade e esclarecimento.

Se a simplicidade é virtude, ela deve ser aplicada com coerência. Nem o currículo acadêmico deve ser motivo de soberba, nem a atividade mediúnica deve justificar títulos místicos.

Equilíbrio é a palavra-chave.

O Verdadeiro Mérito

O mérito real, à luz da Doutrina Espírita, não está no aplauso público, mas na transformação moral. A grandeza espiritual não se mede por número de palestras, livros publicados ou homenagens recebidas, mas pelo esforço íntimo de renovação.

A Codificação é clara ao ensinar que todos somos Espíritos em evolução, sujeitos a erros e aprendizados. Nenhum encarnado está acima das leis morais.

Quando o movimento espírita preserva essa consciência, mantém-se fiel ao seu caráter racional e progressivo. Quando se deixa levar por exaltações excessivas, corre o risco de reproduzir modelos religiosos personalistas que a própria Doutrina veio esclarecer e superar.

Caminho Seguro: Sobriedade e Estudo

A melhor homenagem que se pode prestar a qualquer trabalhador espírita é estudar e viver os princípios que ele divulga.

  • Menos adjetivos.
  • Mais conteúdo.
  • Menos exaltação pessoal.
  • Mais aprofundamento doutrinário.
  • Menos espetáculo.
  • Mais coerência moral.

A sobriedade sempre foi marca da metodologia espírita. A Revista Espírita analisava fatos com rigor, sem sensacionalismo. Esse padrão continua sendo referência segura.

Conclusão

O crescimento do movimento espírita é motivo de gratidão, mas também de responsabilidade. Em tempos de visibilidade ampliada, é necessário preservar o espírito crítico, a humildade e a coerência doutrinária.

Reconhecer o valor de trabalhadores dedicados é justo. Transformá-los em símbolos quase míticos, porém, não se harmoniza com o ensino espírita.

A Doutrina não se sustenta em personalidades, mas em princípios. E os princípios permanecem, independentemente dos nomes.

Que saibamos valorizar os servidores sinceros, sem esquecer que o verdadeiro protagonista da obra espírita é o ensino dos Espíritos — cuja finalidade maior é a educação moral da Humanidade.

Referência

  • Allan Kardec. Obras fundamentais da Codificação Espírita:
    • O Livro dos Espíritos. Paris: 1ª ed. 18 de abril de 1857.
    • O Evangelho Segundo o Espiritismo. Paris: 1864. 
    • A Gênese. Paris: 1868.
  • Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Publicação mensal dirigida por Allan Kardec, Paris, 1858–1869. Fonte primária para análise metodológica, crítica ao personalismo e estudo dos critérios de universalidade do ensino dos Espíritos.
  • Federação Espírita Brasileira. Dados estatísticos e históricos do movimento espírita no Brasil; relatórios institucionais e publicações doutrinárias.
  • Federação Espírita do Paraná. Publicações periódicas e documentos editoriais relativos ao jornal Mundo Espírita.
  • Chico Xavier. Entrevistas e declarações públicas registradas em periódicos e obras biográficas, com ênfase na postura de humildade diante da mediunidade.
  • Divaldo Franco. Conferências públicas, entrevistas e registros institucionais da Casa do Caminho, Salvador (BA), sobre atividades assistenciais e doutrinárias.
  • INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2010 e atualizações populacionais — dados sobre o número de adeptos do Espiritismo no Brasil.
  • UNIÃO INTERNACIONAL DE TELECOMUNICAÇÕES (UIT) e relatórios nacionais de conectividade digital (2022–2024). Estatísticas sobre acesso à internet e uso de redes sociais no Brasil, contextualizando o crescimento da visibilidade pública de lideranças religiosas.
  • PEREIRA, Marcelo Henrique. Idolatria Espírita. Artigo de reflexão doutrinária sobre personalismo no movimento espírita. Texto de análise crítica do fenômeno da exaltação de personalidades no meio espírita brasileiro.
 

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