Introdução
O movimento
espírita brasileiro consolidou-se, ao longo do século XX e início do XXI, como
um dos mais expressivos no mundo. Com milhares de centros, editoras, periódicos
e eventos públicos, tornou-se referência internacional na difusão da Doutrina
Espírita. Esse crescimento, entretanto, traz consigo desafios naturais: como
preservar a fidelidade doutrinária, o espírito crítico e a sobriedade
recomendados pelos Espíritos, evitando excessos emocionais ou personalismos?
A
Codificação organizada por Allan Kardec e os estudos publicados na Revista
Espírita oferecem critérios seguros para examinar essas questões com
serenidade e equilíbrio. Não se trata de crítica pessoal a indivíduos dedicados
e respeitáveis, mas de reflexão doutrinária sobre atitudes coletivas que podem,
ainda que involuntariamente, desviar o foco essencial da Doutrina.
O Risco do Personalismo
O
Espiritismo nasceu sob método. Kardec jamais se apresentou como fundador da
Doutrina Espírita, nem incentivou venerações pessoais. Pelo contrário, reiterou
que a Doutrina pertence aos Espíritos que a revelaram, sendo ele apenas o
codificador.
Em diversas
ocasiões, na própria Revista Espírita, observa-se o cuidado em evitar a
transformação de médiuns ou colaboradores em figuras de culto. O fenômeno
mediúnico, segundo a Doutrina, não santifica ninguém. O médium é instrumento —
digno de respeito pelo esforço e pela disciplina —, mas não objeto de
veneração.
Quando
títulos grandiosos, expressões superlativas ou qualificações simbólicas são
atribuídos a trabalhadores espíritas, surge uma questão legítima: estamos
valorizando o trabalho ou promovendo o personalismo?
A diferença
é sutil, mas essencial.
A Cultura Contemporânea da Imagem
Vivemos
numa sociedade orientada pela visibilidade. Redes sociais, transmissões
digitais e grandes eventos ampliaram o alcance de conferencistas e oradores
espíritas. Segundo dados recentes sobre comunicação digital no Brasil, mais de
150 milhões de pessoas utilizam regularmente plataformas online. Naturalmente,
esse ambiente favorece a projeção de figuras públicas.
Nada há de
condenável na divulgação ampla da mensagem espírita. Ao contrário, é recurso
valioso. O problema surge quando a cultura midiática — baseada em destaque
individual, manchetes impactantes e linguagem promocional — infiltra-se no
campo doutrinário sem o devido discernimento.
A Doutrina
Espírita não se estrutura sobre líderes carismáticos, mas sobre princípios
universais. Ela não depende de nomes; depende de ideias.
Ufanismo e Idolatria: Uma Reflexão Necessária
A exaltação
excessiva, ainda que bem-intencionada, pode produzir efeitos indesejáveis:
- Criação de mitos pessoais;
- Transferência da autoridade doutrinária
para indivíduos;
- Substituição do estudo pelo entusiasmo;
- Enfraquecimento do senso crítico.
O próprio
ensino evangélico recomenda evitar títulos e distinções honoríficas que
alimentem o orgulho. A grandeza moral manifesta-se na simplicidade.
A história
do movimento espírita brasileiro oferece exemplos notáveis de trabalhadores que
sempre recusaram adjetivações pomposas. Chico Xavier repetia que era apenas um
“cisco” nas mãos de Jesus. Divaldo Franco, conhecido internacionalmente por sua
oratória e dedicação assistencial, também sempre afirmou ser simples servidor
da causa.
O
reconhecimento justo é legítimo. A idolatria, porém, não encontra respaldo na
Codificação.
Dois Pesos e Duas Medidas?
Outro ponto
que merece análise é a aparente contradição, por vezes observada, entre a
rejeição de títulos acadêmicos para expositores e a concessão de qualificativos
simbólicos grandiosos a determinadas figuras.
A Doutrina
Espírita não combate o conhecimento acadêmico. Pelo contrário, aproxima-se da
ciência e incentiva o estudo sério. Em A Gênese, Kardec afirma que o
Espiritismo caminha de mãos dadas com o progresso científico. Portanto,
valorizar formação intelectual não é vaidade; pode ser instrumento de
credibilidade e esclarecimento.
Se a
simplicidade é virtude, ela deve ser aplicada com coerência. Nem o currículo
acadêmico deve ser motivo de soberba, nem a atividade mediúnica deve justificar
títulos místicos.
Equilíbrio
é a palavra-chave.
O Verdadeiro Mérito
O mérito
real, à luz da Doutrina Espírita, não está no aplauso público, mas na
transformação moral. A grandeza espiritual não se mede por número de palestras,
livros publicados ou homenagens recebidas, mas pelo esforço íntimo de
renovação.
A
Codificação é clara ao ensinar que todos somos Espíritos em evolução, sujeitos
a erros e aprendizados. Nenhum encarnado está acima das leis morais.
Quando o
movimento espírita preserva essa consciência, mantém-se fiel ao seu caráter
racional e progressivo. Quando se deixa levar por exaltações excessivas, corre
o risco de reproduzir modelos religiosos personalistas que a própria Doutrina
veio esclarecer e superar.
Caminho Seguro: Sobriedade e Estudo
A melhor
homenagem que se pode prestar a qualquer trabalhador espírita é estudar e viver
os princípios que ele divulga.
- Menos adjetivos.
- Mais conteúdo.
- Menos exaltação pessoal.
- Mais aprofundamento doutrinário.
- Menos espetáculo.
- Mais coerência moral.
A
sobriedade sempre foi marca da metodologia espírita. A Revista Espírita
analisava fatos com rigor, sem sensacionalismo. Esse padrão continua sendo
referência segura.
Conclusão
O
crescimento do movimento espírita é motivo de gratidão, mas também de
responsabilidade. Em tempos de visibilidade ampliada, é necessário preservar o
espírito crítico, a humildade e a coerência doutrinária.
Reconhecer
o valor de trabalhadores dedicados é justo. Transformá-los em símbolos quase
míticos, porém, não se harmoniza com o ensino espírita.
A Doutrina
não se sustenta em personalidades, mas em princípios. E os princípios
permanecem, independentemente dos nomes.
Que
saibamos valorizar os servidores sinceros, sem esquecer que o verdadeiro
protagonista da obra espírita é o ensino dos Espíritos — cuja finalidade maior
é a educação moral da Humanidade.
Referência
- Allan Kardec. Obras fundamentais da Codificação Espírita:
- O Livro dos Espíritos. Paris: 1ª ed. 18 de abril de 1857.
- O Evangelho Segundo o Espiritismo. Paris: 1864.
- A Gênese. Paris: 1868.
- Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Publicação mensal dirigida por Allan Kardec, Paris, 1858–1869. Fonte primária para análise metodológica, crítica ao personalismo e estudo dos critérios de universalidade do ensino dos Espíritos.
- Federação Espírita Brasileira. Dados estatísticos e históricos do movimento espírita no Brasil; relatórios institucionais e publicações doutrinárias.
- Federação Espírita do Paraná. Publicações periódicas e documentos editoriais relativos ao jornal Mundo Espírita.
- Chico Xavier. Entrevistas e declarações públicas registradas em periódicos e obras biográficas, com ênfase na postura de humildade diante da mediunidade.
- Divaldo Franco. Conferências públicas, entrevistas e registros institucionais da Casa do Caminho, Salvador (BA), sobre atividades assistenciais e doutrinárias.
- INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2010 e atualizações populacionais — dados sobre o número de adeptos do Espiritismo no Brasil.
- UNIÃO INTERNACIONAL DE TELECOMUNICAÇÕES (UIT) e relatórios nacionais de conectividade digital (2022–2024). Estatísticas sobre acesso à internet e uso de redes sociais no Brasil, contextualizando o crescimento da visibilidade pública de lideranças religiosas.
- PEREIRA, Marcelo Henrique. Idolatria Espírita. Artigo de reflexão doutrinária sobre personalismo no movimento espírita. Texto de análise crítica do fenômeno da exaltação de personalidades no meio espírita brasileiro.
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