Introdução
“Ora,
como todo efeito inteligente há de por força derivar de uma causa inteligente,
ficou evidenciado que, mesmo admitindo-se em tais casos, a intervenção da
eletricidade ou de qualquer outro fluido, outra causa a essa se achava
associada.”
Essa
afirmação de Allan Kardec sintetiza um princípio metodológico que permanece
atual: onde há efeito inteligente, há causa inteligente. Tal critério, aplicado
inicialmente às manifestações mediúnicas, pode ser ampliado à reflexão
contemporânea sobre a informação, a vida e a própria estrutura do Universo.
Vivemos
numa era em que dados circulam em volumes antes inimagináveis. Fala-se em
inteligência artificial, big data, algoritmos e redes neurais. Contudo,
permanece a pergunta essencial: a informação nasce da matéria ou é expressão
de um princípio inteligente que a utiliza? À luz da Doutrina Espírita —
codificada por Kardec com base no ensino metódico dos Espíritos — essa questão
assume relevância filosófica profunda.
Matéria, energia e informação: um novo cenário
O
materialismo clássico sustentava que tudo se reduzia à matéria. A física
moderna mostrou que matéria e energia são intercambiáveis. Mais recentemente, a
ciência passou a reconhecer a informação como elemento central na organização
dos sistemas físicos e biológicos.
Na teoria
clássica da informação, formulada por Claude Shannon, informação é tratada
quantitativamente — medida em bits e bytes — independentemente de significado.
Essa abordagem permitiu o desenvolvimento das telecomunicações, da internet e
dos sistemas digitais atuais.
Entretanto,
essa definição é estatística. Ela mede quantidade de sinais, não sentido.
Uma frase com significado elevado e outra composta de letras aleatórias podem
conter a mesma quantidade de informação no sentido matemático. O que a teoria
não explica é a origem do significado.
É
justamente aqui que a reflexão espírita oferece contribuição notável.
Os níveis da informação e o critério espírita
Pesquisadores
modernos distinguem níveis na informação: estatístico, sintático, semântico,
pragmático e finalístico. Quanto mais se sobe nesses níveis, mais evidente se
torna a presença de intenção.
Em O
Livro dos Médiuns, Kardec estabelece critério semelhante ao analisar
manifestações inteligentes. No capítulo III, ao comparar uma ventoinha movida
pelo vento com uma mesa que responde inteligentemente a perguntas, conclui que,
se há resposta intencional, há inteligência atuante.
Esse
raciocínio permanece válido:
- Um ruído pode gerar sinais.
- Um algoritmo pode reorganizar dados.
- Mas somente uma inteligência produz mensagem
com intenção e finalidade consciente.
A matéria,
por si, não demonstra propósito.
Computadores criam informação?
Os sistemas
computacionais atuais impressionam pela capacidade de processar dados. Contudo,
ainda operam com base em algoritmos previamente estruturados por mentes
humanas. Manipulam sinais; não originam consciência.
Podem
ampliar a complexidade estatística de uma mensagem, mas não acrescentam
significado genuíno independente. O conteúdo cognitivo permanece vinculado à
inteligência que programou o sistema.
Assim,
longe de invalidar o princípio espírita, o avanço tecnológico reforça a
distinção entre processamento mecânico e produção inteligente de
sentido.
Vida, DNA e princípio inteligente
A biologia
molecular revelou a complexidade extraordinária do DNA. A molécula contém
imenso conteúdo informacional. Segundo cálculos comparativos, o genoma humano
ultrapassa, em densidade de codificação, a soma de bibliotecas inteiras.
Debates
científicos continuam quanto à origem dessa organização. Mecanismos evolutivos
explicam transformações graduais, mas permanece aberta a questão filosófica: de
onde procede a capacidade de organizar informação com finalidade adaptativa?
Em O
Livro dos Espíritos, ao tratar do princípio inteligente, Kardec registra
que ele evolui através dos reinos da Natureza até alcançar a individualização
consciente no ser humano. Já em Evolução em Dois Mundos, o Espírito
André Luiz, pela mediunidade de Chico Xavier, descreve a interação progressiva
entre princípio espiritual e matéria ao longo do processo evolutivo.
À luz dessa
perspectiva, o código genético pode ser compreendido como registro material do
aprendizado acumulado pelo princípio inteligente em sua longa trajetória
evolutiva.
Exobiologia e busca por inteligência
Programas
científicos como o SETI Institute buscam detectar sinais de vida inteligente no
cosmos. O critério utilizado é justamente identificar padrões que revelem
intenção — algo além do ruído estatístico natural.
Mais uma
vez, aplica-se o princípio espírita:
efeito inteligente implica causa inteligente.
A Doutrina
Espírita, ao afirmar a pluralidade dos mundos habitados, antecipou
conceitualmente essa possibilidade, conforme registrado em O Livro dos
Espíitos.
Reducionismo e seus limites
Modelos
físico-químicos explicam mecanismos. Sistemas auto-organizáveis, estudados a
partir das contribuições de Ilya Prigogine, mostram como estruturas podem
emergir longe do equilíbrio termodinâmico. Contudo, ordem não equivale a
significado.
Redução da
entropia não é criação de informação semântica.
A
informação com sentido — aquela que educa, orienta e transforma — permanece
vinculada à inteligência. Esse entendimento amplia a visão científica sem
negá-la, integrando-a a uma concepção mais abrangente da realidade.
Informação como atributo do Espírito
Se a
matéria transmite sinais e a energia os sustenta, é o Espírito que lhes confere
sentido. Informação, nos níveis mais elevados — semântico, pragmático e
finalístico — é expressão do princípio inteligente.
Essa
conclusão harmoniza-se com o método empregado por Kardec na Revista Espírita:
análise dos fatos, comparação, rejeição de hipóteses exclusivamente materiais
quando insuficientes e aceitação da causa inteligente como explicação racional.
O
reconhecimento da informação como atributo do Espírito não contradiz a ciência;
antes, aponta para seus horizontes futuros. A integração entre conhecimento
científico e filosofia espiritual talvez constitua uma das tarefas mais
relevantes do pensamento contemporâneo.
Conclusão
A
importância crescente da informação no mundo moderno não enfraquece a concepção
espiritual do Universo — antes a fortalece.
Onde há
significado, intenção e finalidade consciente, há inteligência.
Onde há inteligência, há princípio espiritual.
O critério
estabelecido por Kardec nas manifestações mediúnicas pode, legitimamente, ser
ampliado à Natureza inteira: a matéria executa; a inteligência dirige.
Assim, a
informação, em seu nível mais profundo, revela-se não apenas dado ou sinal, mas
expressão da vida espiritual que estrutura o cosmos.
Referências
- Allan Kardec.
- O Livro dos Espíritos.
- O Livro dos Médiuns.
- Revista Espírita.
- Claude Shannon. A Mathematical Theory
of Communication. Bell System Technical Journal, 1948.
- Werner Gitt. Information, Science and
Biology. 1996.
- SETI Institute. Documentos institucionais
sobre detecção de sinais inteligentes.
- Ilya Prigogine. Estudos sobre estruturas
dissipativas e termodinâmica fora do equilíbrio.
- André Luiz (Espírito). Evolução em Dois
Mundos. Psicografia de Chico Xavier.
- Ademir Xavier, A Importância da
Informação na Estruturação Inteligente do Universo, Boletim do GEAE, Ano
14 Número 485 2004.
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