sábado, 21 de fevereiro de 2026

ENTRE ONDAS E ROCHAS
O QUE PERMANECE NA VIDA DO ESPÍRITO
- A Era do Espírito -

Introdução

“Na vida, as coisas comuns passam e se diluem como uma onda do mar, mas nela permanecem tudo o que é bom, ou seja, o que possui qualidade e consistência.” — E. Mollo

A metáfora do oceano é particularmente feliz para expressar uma lei espiritual profunda: a da permanência do bem. À superfície, vemos ondas sucessivas — movimentos rápidos, ruídos, agitações. No fundo, porém, permanecem as correntes estáveis e as formações rochosas que resistem ao tempo.

À luz da Doutrina Espírita, essa imagem traduz a diferença entre o transitório e o essencial, entre o que pertence às circunstâncias materiais e o que se incorpora definitivamente ao patrimônio moral do Espírito. Em uma época marcada pela velocidade da informação, pela cultura da exposição e pela busca incessante de validação social, a reflexão torna-se ainda mais atual: estamos investindo nas ondas ou nas rochas?

1. A Impermanência do “Comum” e a Lei de Progresso

Grande parte das experiências humanas — tarefas automáticas, disputas de vaidade, prazeres imediatos — assemelha-se às ondas do mar: surgem, impressionam momentaneamente e logo se desfazem.

Em O Livro dos Espíritos, o Codificador registra que o Espírito nada perde do que adquire em inteligência e moralidade. As conquistas verdadeiras se incorporam à sua essência e o acompanham além da morte do corpo. Já as circunstâncias materiais — posição social, riqueza, fama — são instrumentos transitórios da experiência reencarnatória.

A coleção da Revista Espírita demonstra, em diversos relatos, como Espíritos desencarnados frequentemente lamentam ter dedicado toda uma existência a conquistas efêmeras, negligenciando valores duradouros. O que parecia sólido revelou-se espuma.

A Lei de Progresso ensina que tudo evolui, mas nem tudo permanece. Permanece apenas o que foi assimilado como virtude, conhecimento útil ou serviço ao próximo.

2. O Filtro da Qualidade: O Que a Consciência Conserva

A frase em análise sugere que a própria vida funciona como um mecanismo de filtragem. Essa ideia encontra eco na noção espírita de consciência como tribunal íntimo.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, aprendemos que o verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, amor e caridade na sua maior pureza. Não é o gesto ruidoso que permanece, mas a intenção reta; não é a aparência do bem, mas a sua substância moral.

Qualidade, sob o ponto de vista espiritual, envolve três elementos:

  • Intenção sincera
  • Utilidade real
  • Conformidade com as leis divinas

A vida retém o que tem densidade moral. O resto se dissolve na corrente do tempo.

3. Consistência: A Rocha Espiritual

A palavra “consistência” é decisiva. Algo consistente não se desfaz ao primeiro impacto. Espiritualmente, isso corresponde à transformação íntima — processo contínuo pelo qual o Espírito substitui tendências egoístas por virtudes estáveis.

Em A Gênese, encontramos a explicação de que o progresso moral não se opera por saltos bruscos, mas por esforços reiterados. O bem isolado é uma onda; o hábito do bem é uma rocha.

Consistência espiritual significa:

  • Coerência entre pensamento, sentimento e ação.
  • Perseverança no dever, mesmo sem aplausos.
  • Fidelidade aos princípios, mesmo diante das oscilações do meio social.

O Espírito não se transforma por atos esporádicos de entusiasmo, mas por disciplina interior.

4. Aplicação Atual: Entre Ativismo e Relevância

Vivemos na era das métricas instantâneas: curtidas, compartilhamentos, visualizações. A lógica social estimula volume e visibilidade. Contudo, volume não é substância.

4.1 Na Carreira: Da Agitação ao Legado

No campo profissional, as “ondas” podem ser:

·         Produtividade aparente sem profundidade.

·         Participação em discussões estéreis.

·         Busca exclusiva por reconhecimento externo.

As “rochas” são:

·         Competência real construída por estudo sério.

·         Ética constante, mesmo em ambientes competitivos.

·         Projetos que beneficiam coletivamente e sobrevivem à nossa presença.

A Doutrina Espírita recorda que o trabalho é meio de progresso. Mas ele só permanece como mérito quando realizado com retidão e espírito de serviço.

4.2 Nos Relacionamentos: Da Presença Física à Conexão Moral

Interações superficiais podem ser agradáveis, mas raramente constroem vínculos duradouros. O que consolida relações é:

·         Lealdade.

·         Escuta sincera.

·         Valores compartilhados.

·         Constância no apoio.

Conflitos triviais são ondas; caráter é rocha. Relações baseadas apenas em conveniência dissolvem-se na primeira maré adversa. As que se fundamentam em respeito e compromisso resistem às tempestades.

5. O Filtro Prático: Separando Onda e Essência

A filosofia proposta pode ser aplicada de modo objetivo.

1. Teste da Duração

Pergunte-se:
Isso terá valor daqui a um ano?
Se não tiver, talvez seja apenas espuma.

2. Regra dos Três Critérios

Uma ação tende a permanecer quando atende a pelo menos dois destes pontos:

·         Desenvolve meu caráter.

·         Amplia minha capacidade de servir.

·         Constrói algo útil para o futuro.

3. Método 1–2–3 Diário

·         1 Rocha: Uma tarefa essencial e de alta qualidade.

·         2 Sustentações: Atividades necessárias.

·         3 Ondas limitadas: Obrigações efêmeras, com tempo controlado.

Esse método favorece a disciplina moral e evita a sensação de dispersão constante.

6. Perspectiva Espiritual: O Que Atravessa a Morte

A Doutrina Espírita ensina que a morte não interrompe a consciência. Ao contrário, evidencia o que realmente construímos.

Nada levamos do que possuímos exteriormente; levamos apenas o que somos. Esse princípio é reiterado em diversas comunicações publicadas na Revista Espírita, onde Espíritos relatam perceber, após o desencarne, que apenas o bem praticado e o conhecimento assimilado lhes serviam de luz.

Assim, a metáfora do oceano adquire amplitude cósmica: as ondas pertencem à superfície da existência corporal; as rochas pertencem à estrutura imortal do Espírito.

Conclusão

Não devemos nos inquietar com a rapidez do tempo nem com perdas inevitáveis. O que é verdadeiramente bom possui densidade espiritual suficiente para permanecer.

A reflexão final impõe-se com serenidade:

Estamos investindo na espuma da agitação ou na solidez da transformação interior?

Trocar o foco do volume pela substância, da aparência pela essência, do impulso pela consistência — eis o caminho seguro do progresso espiritual.

O oceano da vida continuará a produzir ondas. Mas cabe a cada um de nós escolher se deseja ser arrastado por elas ou tornar-se rocha firme na construção do próprio destino.

Referências

  • O Livro dos Espíritos — Allan Kardec
  • O Evangelho Segundo o Espiritismo — Allan Kardec
  • A Gênese — Allan Kardec
  • Revista Espírita — Allan Kardec

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