“Na vida, as coisas comuns passam e se diluem como
uma onda do mar, mas nela permanecem tudo o que é bom, ou seja, o que possui
qualidade e consistência.” — E. Mollo
A metáfora do oceano é
particularmente feliz para expressar uma lei espiritual profunda: a da
permanência do bem. À superfície, vemos ondas sucessivas — movimentos rápidos,
ruídos, agitações. No fundo, porém, permanecem as correntes estáveis e as
formações rochosas que resistem ao tempo.
À luz da Doutrina
Espírita, essa imagem traduz a diferença entre o transitório e o essencial,
entre o que pertence às circunstâncias materiais e o que se incorpora
definitivamente ao patrimônio moral do Espírito. Em uma época marcada pela
velocidade da informação, pela cultura da exposição e pela busca incessante de
validação social, a reflexão torna-se ainda mais atual: estamos investindo nas
ondas ou nas rochas?
1. A
Impermanência do “Comum” e a Lei de Progresso
Grande parte das
experiências humanas — tarefas automáticas, disputas de vaidade, prazeres
imediatos — assemelha-se às ondas do mar: surgem, impressionam momentaneamente
e logo se desfazem.
Em O Livro dos Espíritos, o Codificador registra que o Espírito nada
perde do que adquire em inteligência e moralidade. As conquistas verdadeiras se
incorporam à sua essência e o acompanham além da morte do corpo. Já as
circunstâncias materiais — posição social, riqueza, fama — são instrumentos
transitórios da experiência reencarnatória.
A coleção da Revista Espírita demonstra, em diversos
relatos, como Espíritos desencarnados frequentemente lamentam ter dedicado toda
uma existência a conquistas efêmeras, negligenciando valores duradouros. O que
parecia sólido revelou-se espuma.
A Lei de Progresso
ensina que tudo evolui, mas nem tudo permanece. Permanece apenas o que foi
assimilado como virtude, conhecimento útil ou serviço ao próximo.
2. O
Filtro da Qualidade: O Que a Consciência Conserva
A frase em análise
sugere que a própria vida funciona como um mecanismo de filtragem. Essa ideia
encontra eco na noção espírita de consciência como tribunal íntimo.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, aprendemos que o verdadeiro
homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, amor e caridade na sua
maior pureza. Não é o gesto ruidoso que permanece, mas a intenção reta; não é a
aparência do bem, mas a sua substância moral.
Qualidade, sob o ponto
de vista espiritual, envolve três elementos:
- Intenção sincera
- Utilidade real
- Conformidade com as leis divinas
A vida retém o que tem
densidade moral. O resto se dissolve na corrente do tempo.
3.
Consistência: A Rocha Espiritual
A palavra “consistência”
é decisiva. Algo consistente não se desfaz ao primeiro impacto.
Espiritualmente, isso corresponde à transformação íntima — processo contínuo
pelo qual o Espírito substitui tendências egoístas por virtudes estáveis.
Em A Gênese, encontramos a explicação de que o progresso moral não se
opera por saltos bruscos, mas por esforços reiterados. O bem isolado é uma
onda; o hábito do bem é uma rocha.
Consistência espiritual
significa:
- Coerência
entre pensamento, sentimento e ação.
- Perseverança
no dever, mesmo sem aplausos.
- Fidelidade
aos princípios, mesmo diante das oscilações do meio social.
O Espírito não se
transforma por atos esporádicos de entusiasmo, mas por disciplina interior.
4.
Aplicação Atual: Entre Ativismo e Relevância
Vivemos na era das
métricas instantâneas: curtidas, compartilhamentos, visualizações. A lógica
social estimula volume e visibilidade. Contudo, volume não é substância.
4.1 Na Carreira: Da Agitação ao Legado
No
campo profissional, as “ondas” podem ser:
·
Produtividade aparente sem profundidade.
·
Participação em discussões estéreis.
·
Busca exclusiva por reconhecimento externo.
As
“rochas” são:
·
Competência real construída por estudo sério.
·
Ética constante, mesmo em ambientes competitivos.
·
Projetos que beneficiam coletivamente e sobrevivem
à nossa presença.
A
Doutrina Espírita recorda que o trabalho é meio de progresso. Mas ele só
permanece como mérito quando realizado com retidão e espírito de serviço.
4.2 Nos Relacionamentos: Da Presença Física à
Conexão Moral
Interações
superficiais podem ser agradáveis, mas raramente constroem vínculos duradouros.
O que consolida relações é:
·
Lealdade.
·
Escuta sincera.
·
Valores compartilhados.
·
Constância no apoio.
Conflitos
triviais são ondas; caráter é rocha. Relações baseadas apenas em conveniência
dissolvem-se na primeira maré adversa. As que se fundamentam em respeito e
compromisso resistem às tempestades.
5. O
Filtro Prático: Separando Onda e Essência
A filosofia proposta
pode ser aplicada de modo objetivo.
1. Teste da Duração
Pergunte-se:
Isso terá valor daqui a um ano?
Se não tiver, talvez seja apenas espuma.
2. Regra dos Três Critérios
Uma
ação tende a permanecer quando atende a pelo menos dois destes pontos:
·
Desenvolve meu caráter.
·
Amplia minha capacidade de servir.
·
Constrói algo útil para o futuro.
3. Método 1–2–3 Diário
·
1 Rocha: Uma tarefa essencial e de alta qualidade.
·
2 Sustentações: Atividades necessárias.
·
3 Ondas limitadas: Obrigações efêmeras,
com tempo controlado.
Esse método favorece a
disciplina moral e evita a sensação de dispersão constante.
6.
Perspectiva Espiritual: O Que Atravessa a Morte
A Doutrina Espírita
ensina que a morte não interrompe a consciência. Ao contrário, evidencia o que
realmente construímos.
Nada levamos do que
possuímos exteriormente; levamos apenas o que somos. Esse princípio é reiterado
em diversas comunicações publicadas na Revista
Espírita, onde Espíritos relatam perceber, após o desencarne, que apenas o
bem praticado e o conhecimento assimilado lhes serviam de luz.
Assim, a metáfora do
oceano adquire amplitude cósmica: as ondas pertencem à superfície da existência
corporal; as rochas pertencem à estrutura imortal do Espírito.
Conclusão
Não devemos nos
inquietar com a rapidez do tempo nem com perdas inevitáveis. O que é
verdadeiramente bom possui densidade espiritual suficiente para permanecer.
A reflexão final
impõe-se com serenidade:
Estamos investindo na
espuma da agitação ou na solidez da transformação interior?
Trocar o foco do volume
pela substância, da aparência pela essência, do impulso pela consistência — eis
o caminho seguro do progresso espiritual.
O oceano da vida
continuará a produzir ondas. Mas cabe a cada um de nós escolher se deseja ser
arrastado por elas ou tornar-se rocha firme na construção do próprio destino.
Referências
- O
Livro dos Espíritos — Allan Kardec
- O
Evangelho Segundo o Espiritismo — Allan Kardec
- A
Gênese — Allan Kardec
- Revista
Espírita — Allan Kardec
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