sábado, 21 de fevereiro de 2026

ONDE ESTÁ O NOSSO TESOURO?
- A Era do Espírito -

Introdução

“Onde está o vosso tesouro, aí está também o vosso coração.” (Mateus 6:21)

A advertência de Jesus permanece atual e desafiadora. Em um mundo marcado pelo consumismo acelerado, pela cultura da imagem e pela busca incessante de reconhecimento social, a pergunta do Cristo ecoa com ainda mais força: onde estamos depositando nossos valores mais profundos?

À luz da Doutrina Espírita, compreende-se que o verdadeiro tesouro não é aquilo que acumulamos exteriormente, mas aquilo que incorporamos à própria consciência. O homem só possui, em plena propriedade, o que pode levar consigo além da morte — e isso se conquista pelo bom uso dos instrumentos temporários que a vida lhe confia.

1. Tesouro e Coração: A Direção da Vida

Jesus estabelece uma relação direta entre tesouro e coração. O tesouro indica prioridade; o coração revela afeto e inclinação moral. Aquilo que mais valorizamos orienta nossas decisões, nosso tempo e nossas energias.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo XVI (“Não se pode servir a Deus e a Mamon”), encontramos a explicação de que a riqueza não é um mal em si mesma; o mal reside no apego e no uso egoístico que dela se faz. O capítulo XXV (“Buscai e achareis”) reforça que os bens espirituais devem ser prioridade, pois são imperecíveis.

Assim, o problema não está na posse, mas na direção do coração.

2. Mau Uso e Bom Uso: A Lei de Responsabilidade

A vida concede ao Espírito diversos instrumentos: posses materiais, autoridade, beleza, inteligência, influência social. Nenhum deles é definitivo; todos são empréstimos educativos.

Mau uso

·         Transformar a riqueza em instrumento de dominação.

·         Utilizar a autoridade para humilhar.

·         Empregar a inteligência para explorar.

·         Fazer da beleza um motivo de vaidade excessiva.

·         Converter o poder em opressão.

O mau uso converte instrumentos em algemas. O apego gera inquietação e, frequentemente, sofrimento futuro, conforme inúmeros relatos analisados na Revista Espírita.

Bom uso

·         Empregar recursos materiais em benefício coletivo.

·         Exercitar a autoridade com justiça e equilíbrio.

·         Utilizar a influência para promover o bem.

·         Cultivar a humildade diante das vantagens transitórias.

O bom uso transforma instrumentos em meios de crescimento moral. Aquilo que se converte em caridade, serviço e aprendizado torna-se patrimônio real do Espírito.

3. A Verdadeira Propriedade

A Doutrina Espírita ensina que nada do que é exterior acompanha o homem após o desencarne. Ele leva consigo apenas o que construiu interiormente: virtudes, conhecimento assimilado, experiências morais.

Em Caminho, Verdade e Vida, nas mensagens “Propriedade” e “Posses definitivas”, Emmanuel esclarece que os bens materiais são provisórios, enquanto as conquistas do caráter constituem patrimônio inalienável. O mesmo autor, em Fonte Viva, recorda que a autolibertação nasce do desapego e do uso consciente dos recursos que o tempo nos confia.

A pergunta essencial, portanto, não é “o que possuo?”, mas “o que estou fazendo com o que possuo?”.

4. O Exemplo do Cristo: O Tesouro do Amor

Jesus não acumulou riquezas materiais, mas distribuiu abundantemente os tesouros do amor, da compaixão e da verdade. Seu legado atravessou séculos porque estava fundado em valores eternos.

Ele animava os homens a buscarem “as coisas de Deus”, isto é, as virtudes que elevam o Espírito. Seu ensinamento demonstra que o verdadeiro tesouro multiplica-se quando compartilhado.

A vida de Jesus confirma que o que permanece não é o brilho exterior, mas a qualidade moral.

5. Ilustração: O Colar de Pérolas

Na obra A Vida Escreve, pelo Espírito Hilário Silva, encontra-se a narrativa “O Colar de Pérolas”. A história apresenta alguém que recebe precioso colar, símbolo das oportunidades e recursos da existência. No entanto, o valor do colar não está apenas nas pérolas, mas na forma como são utilizadas.

A lição é clara: cada pérola representa um dom — tempo, inteligência, influência, afeto. Se guardadas apenas para ostentação, perdem o sentido educativo. Se transformadas em benefício para outros, convertem-se em luz.

6. Tesouro Maior e Sociedade Atual

Vivemos tempos de intensa valorização do ter. Redes sociais frequentemente associam sucesso à ostentação. Contudo, pesquisas contemporâneas na área da psicologia positiva indicam que propósito, vínculos afetivos e contribuição social são fatores mais determinantes para o bem-estar duradouro do que acúmulo material.

Essa constatação científica converge com o ensinamento espiritual: felicidade verdadeira está ligada à qualidade moral das escolhas.

A Doutrina Espírita não condena a prosperidade honesta; orienta quanto à responsabilidade moral que dela decorre.

7. Exame de Consciência

Perguntas úteis para reflexão:

  • Meu tesouro está centrado na aparência ou na essência?
  • Uso minhas posses para servir ou apenas para me destacar?
  • O que estou construindo que sobreviverá ao tempo?

O coração sempre revela onde está o tesouro. Se o apego domina, há inquietação. Se o serviço prevalece, há serenidade.

Conclusão

O homem só possui realmente aquilo que pode levar deste mundo. Tudo o mais é instrumento temporário.

Riqueza, poder, glória, autoridade e beleza são meios de prova e progresso. O uso que fazemos deles determina se se tornarão pesos ou créditos espirituais.

Jesus apontou o caminho: investir nas coisas de Deus, isto é, nas virtudes que elevam e libertam. O verdadeiro tesouro é aquele que nenhuma crise econômica corrói, nenhuma moda substitui e nenhuma morte destrói.

Onde está o nosso tesouro? A resposta está na direção do nosso coração.

Referências

  • O Evangelho Segundo o Espiritismo — Allan Kardec
  • Revista Espírita — Allan Kardec
  • Caminho, Verdade e Vida — Emmanuel
  • Fonte Viva — Emmanuel
  • A Vida Escreve — Hilário Silva
  • O Espírito da Verdade — Espíritos diversos
  • Na Seara do Mestre — Vinícius

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