Introdução
“Onde está o vosso tesouro, aí está também o vosso
coração.”
(Mateus 6:21)
A advertência de Jesus
permanece atual e desafiadora. Em um mundo marcado pelo consumismo acelerado,
pela cultura da imagem e pela busca incessante de reconhecimento social, a
pergunta do Cristo ecoa com ainda mais força: onde estamos depositando nossos valores
mais profundos?
À luz da Doutrina
Espírita, compreende-se que o verdadeiro tesouro não é aquilo que acumulamos
exteriormente, mas aquilo que incorporamos à própria consciência. O homem só
possui, em plena propriedade, o que pode levar consigo além da morte — e isso
se conquista pelo bom uso dos instrumentos temporários que a vida lhe confia.
1.
Tesouro e Coração: A Direção da Vida
Jesus estabelece uma
relação direta entre tesouro e coração. O tesouro indica prioridade; o coração
revela afeto e inclinação moral. Aquilo que mais valorizamos orienta nossas
decisões, nosso tempo e nossas energias.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo XVI (“Não se pode servir a Deus e a Mamon”),
encontramos a explicação de que a riqueza não é um mal em si mesma; o mal
reside no apego e no uso egoístico que dela se faz. O capítulo XXV (“Buscai e achareis”) reforça que os
bens espirituais devem ser prioridade, pois são imperecíveis.
Assim, o problema não
está na posse, mas na direção do coração.
2. Mau Uso e Bom Uso: A Lei de Responsabilidade
A vida concede ao
Espírito diversos instrumentos: posses materiais, autoridade, beleza,
inteligência, influência social. Nenhum deles é definitivo; todos são
empréstimos educativos.
Mau uso
·
Transformar a riqueza em instrumento de dominação.
·
Utilizar a autoridade para humilhar.
·
Empregar a inteligência para explorar.
·
Fazer da beleza um motivo de vaidade excessiva.
·
Converter o poder em opressão.
O mau uso converte
instrumentos em algemas. O apego gera inquietação e, frequentemente, sofrimento
futuro, conforme inúmeros relatos analisados na Revista Espírita.
Bom uso
·
Empregar recursos materiais em benefício coletivo.
·
Exercitar a autoridade com justiça e equilíbrio.
·
Utilizar a influência para promover o bem.
·
Cultivar a humildade diante das vantagens
transitórias.
O bom uso transforma
instrumentos em meios de crescimento moral. Aquilo que se converte em caridade,
serviço e aprendizado torna-se patrimônio real do Espírito.
3. A
Verdadeira Propriedade
A Doutrina Espírita
ensina que nada do que é exterior acompanha o homem após o desencarne. Ele leva
consigo apenas o que construiu interiormente: virtudes, conhecimento
assimilado, experiências morais.
Em Caminho, Verdade e Vida, nas mensagens “Propriedade” e “Posses
definitivas”, Emmanuel esclarece que os bens materiais são provisórios,
enquanto as conquistas do caráter constituem patrimônio inalienável. O mesmo
autor, em Fonte Viva, recorda que a
autolibertação nasce do desapego e do uso consciente dos recursos que o tempo
nos confia.
A pergunta essencial,
portanto, não é “o que possuo?”, mas “o que estou fazendo com o que possuo?”.
4. O
Exemplo do Cristo: O Tesouro do Amor
Jesus não acumulou
riquezas materiais, mas distribuiu abundantemente os tesouros do amor, da
compaixão e da verdade. Seu legado atravessou séculos porque estava fundado em
valores eternos.
Ele animava os homens a
buscarem “as coisas de Deus”, isto é, as virtudes que elevam o Espírito. Seu
ensinamento demonstra que o verdadeiro tesouro multiplica-se quando
compartilhado.
A vida de Jesus confirma
que o que permanece não é o brilho exterior, mas a qualidade moral.
5.
Ilustração: O Colar de Pérolas
Na obra A Vida Escreve, pelo Espírito Hilário
Silva, encontra-se a narrativa “O Colar de Pérolas”. A história apresenta
alguém que recebe precioso colar, símbolo das oportunidades e recursos da
existência. No entanto, o valor do colar não está apenas nas pérolas, mas na
forma como são utilizadas.
A lição é clara: cada
pérola representa um dom — tempo, inteligência, influência, afeto. Se guardadas
apenas para ostentação, perdem o sentido educativo. Se transformadas em
benefício para outros, convertem-se em luz.
6.
Tesouro Maior e Sociedade Atual
Vivemos tempos de
intensa valorização do ter. Redes sociais frequentemente associam sucesso à
ostentação. Contudo, pesquisas contemporâneas na área da psicologia positiva
indicam que propósito, vínculos afetivos e contribuição social são fatores mais
determinantes para o bem-estar duradouro do que acúmulo material.
Essa constatação
científica converge com o ensinamento espiritual: felicidade verdadeira está
ligada à qualidade moral das escolhas.
A Doutrina Espírita não
condena a prosperidade honesta; orienta quanto à responsabilidade moral que
dela decorre.
7.
Exame de Consciência
Perguntas úteis para
reflexão:
- Meu
tesouro está centrado na aparência ou na essência?
- Uso
minhas posses para servir ou apenas para me destacar?
- O
que estou construindo que sobreviverá ao tempo?
O coração sempre revela
onde está o tesouro. Se o apego domina, há inquietação. Se o serviço prevalece,
há serenidade.
Conclusão
O homem só possui
realmente aquilo que pode levar deste mundo. Tudo o mais é instrumento
temporário.
Riqueza, poder, glória,
autoridade e beleza são meios de prova e progresso. O uso que fazemos deles
determina se se tornarão pesos ou créditos espirituais.
Jesus apontou o caminho:
investir nas coisas de Deus, isto é, nas virtudes que elevam e libertam. O
verdadeiro tesouro é aquele que nenhuma crise econômica corrói, nenhuma moda
substitui e nenhuma morte destrói.
Onde está o nosso
tesouro? A resposta está na direção do nosso coração.
Referências
- O
Evangelho Segundo o Espiritismo — Allan Kardec
- Revista
Espírita — Allan Kardec
- Caminho,
Verdade e Vida — Emmanuel
- Fonte
Viva — Emmanuel
- A
Vida Escreve — Hilário Silva
- O
Espírito da Verdade — Espíritos diversos
- Na
Seara do Mestre — Vinícius
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