Introdução
A relação entre
Espiritismo e política tem sido tema recorrente de debates no movimento
espírita contemporâneo. Em tempos de polarização ideológica intensa, surgem
questionamentos: deve o Centro Espírita promover debates políticos? Kardec
teria proibido qualquer discussão sobre política? Lideranças históricas teriam
tomado partido ideológico? E, sobretudo, qual deve ser a postura do espírita
diante da vida pública?
Para analisar tais
questões com equilíbrio, é necessário recorrer às bases da Doutrina Espírita
codificada por Allan Kardec, especialmente às orientações presentes em O
Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo e na coleção
da Revista Espírita. A análise exige distinção entre o papel institucional das
sociedades espíritas e a responsabilidade individual do espírita como cidadão.
1.
Kardec proibiu política nas Sociedades Espíritas?
No Regulamento da
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e em diversos artigos da Revista
Espírita, Kardec recomendou que não se tratassem questões políticas e
religiosas de caráter sectário no âmbito das reuniões.
O motivo, porém, não era
simplesmente o contexto do Segundo Império de Napoleão III, mas a preservação
da unidade doutrinária.
Kardec compreendia que:
- A
política partidária é transitória.
- As
paixões políticas dividem.
- O
Espiritismo busca princípios universais e permanentes.
A função do Centro
Espírita é essencialmente educativa e moral. Transformá-lo em arena partidária
comprometeria sua finalidade espiritual.
Isso não significa
alienação social. Significa preservar o espaço da instituição como campo de
estudo e elevação, não de disputa ideológica.
2. A
Doutrina Espírita é apolítica?
Depende do sentido
atribuído à palavra “política”.
Se entendida como
disputa partidária, o Espiritismo não se vincula a nenhum sistema específico.
Não é de esquerda nem de direita. Não é liberal nem conservador. É uma doutrina
moral e filosófica baseada nas leis espirituais.
Entretanto, se política
for entendida como organização da vida coletiva e promoção do bem comum, a
Doutrina é profundamente comprometida com princípios sociais.
Em O Livro dos
Espíritos, ao tratar da Lei de Sociedade e da Lei de Justiça, Amor e
Caridade, ensina-se que o progresso é coletivo e que a construção de uma
sociedade mais justa é dever moral.
A Constituição
brasileira, ao estabelecer como objetivos fundamentais:
- Construir
sociedade livre, justa e solidária;
- Erradicar
a pobreza;
- Reduzir
desigualdades;
expressa metas
compatíveis com valores universais defendidos pela Doutrina.
Assim, o espírita não é
um alienado social. Ele é chamado à responsabilidade cidadã. O voto é livre,
mas deve ser consciente e moralmente orientado.
3.
Marxismo, capitalismo e a visão espiritual
Há registros históricos
de que Léon Denis criticou o materialismo marxista de sua época. Sua
preocupação central era a negação da dimensão espiritual do ser humano.
Por outro lado, Denis
também reconhecia que ideais de fraternidade social poderiam florescer em
mundos moralmente mais adiantados, desde que fundamentados em valores
espirituais.
A Doutrina Espírita
critica igualmente:
- O
materialismo econômico que reduz o homem à matéria.
- O
egoísmo individualista que gera exploração.
- Qualquer
sistema que ignore a educação moral do Espírito.
O problema, segundo a
Codificação, não está apenas nas estruturas políticas, mas no homem que as
administra. Sem transformação íntima, qualquer regime pode degenerar em
injustiça.
Na Revista Espírita,
Kardec é claro ao afirmar que as instituições humanas refletem o grau moral da
sociedade que as compõe.
4.
Lideranças espíritas e opiniões pessoais
Nomes como Francisco
Cândido Xavier, Divaldo Pereira Franco e Herculano Pires são frequentemente
citados em debates políticos.
Entretanto, a Doutrina
ensina a distinguir:
- Doutrina
Espírita: conjunto de princípios revelados pelos Espíritos e organizados
por Kardec.
- Opiniões
pessoais: posicionamentos humanos, condicionados ao contexto histórico.
Médiuns não são
infalíveis nem constituem autoridade política da Doutrina. Suas posições
individuais não equivalem a diretrizes espirituais universais.
O Espiritismo não cria
líderes partidários, mas consciências responsáveis.
5.
Deve haver debate político nos Centros Espíritas?
É necessário distinguir
entre:
- Estudo
de temas sociais à luz da Doutrina.
- Campanha
político-partidária.
O primeiro é legítimo e
até necessário. Questões como pobreza, desigualdade, justiça social, ética
pública e cidadania podem e devem ser analisadas sob a ótica moral espírita.
O segundo — promoção de
candidatos, militância partidária ou disputa ideológica — contraria o espírito
de fraternidade e neutralidade institucional recomendado por Kardec.
O “show de horrores”
ocorre quando o orgulho e as paixões substituem a reflexão serena. O Centro
Espírita não é comitê eleitoral, mas escola de almas.
6. Em
quem votariam Jesus ou os Espíritos Superiores?
A pergunta é
provocativa, mas a resposta doutrinária é simples: Espíritos Superiores não se
vinculam a personalismos.
Eles apoiariam
princípios que:
- Promovam
educação moral.
- Reduzam
sofrimento humano.
- Respeitem
a liberdade de consciência.
- Favoreçam
justiça e fraternidade.
Não votariam por
interesse ideológico, mas por coerência moral.
O “homem de bem”,
descrito em O Evangelho segundo o Espiritismo, é o parâmetro. O espírita
deve avaliar candidatos segundo critérios éticos, não segundo paixões.
Conclusão
A Doutrina Espírita não
é neutra diante da injustiça social, mas é prudente diante da militância
partidária.
Ela ensina que:
- A
verdadeira transformação social nasce da transformação moral.
- Sistemas
políticos refletem o nível evolutivo de seus cidadãos.
- A
educação espiritual é a base da reforma coletiva.
Debates sobre ética,
justiça e cidadania são compatíveis com o estudo doutrinário. Campanhas e
disputas ideológicas, não.
O Espiritismo propõe uma
revolução silenciosa e profunda: a substituição do egoísmo pela fraternidade.
Sem o “homem de bem”, qualquer sistema fracassará. Com ele, qualquer sistema
poderá melhorar.
A pátria definitiva do
Espírito é a espiritual. A atuação na Terra deve refletir essa consciência
superior.
Referências
- Allan
Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan
Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo.
- Revista
Espírita (1858–1869).
- Léon
Denis. Obras sociais e filosóficas.
- Francisco
Cândido Xavier. Entrevistas e correspondências.
- Herculano
Pires. Estudos sobre ética social espírita.
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