quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ESPIRITISMO E POLÍTICA
ESTUDO DOUTRINÁRIO OU MILITÂNCIA PARTIDÁRIA?
- A Era do Espírito -

Introdução

A relação entre Espiritismo e política tem sido tema recorrente de debates no movimento espírita contemporâneo. Em tempos de polarização ideológica intensa, surgem questionamentos: deve o Centro Espírita promover debates políticos? Kardec teria proibido qualquer discussão sobre política? Lideranças históricas teriam tomado partido ideológico? E, sobretudo, qual deve ser a postura do espírita diante da vida pública?

Para analisar tais questões com equilíbrio, é necessário recorrer às bases da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, especialmente às orientações presentes em O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo e na coleção da Revista Espírita. A análise exige distinção entre o papel institucional das sociedades espíritas e a responsabilidade individual do espírita como cidadão.

1. Kardec proibiu política nas Sociedades Espíritas?

No Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e em diversos artigos da Revista Espírita, Kardec recomendou que não se tratassem questões políticas e religiosas de caráter sectário no âmbito das reuniões.

O motivo, porém, não era simplesmente o contexto do Segundo Império de Napoleão III, mas a preservação da unidade doutrinária.

Kardec compreendia que:

  • A política partidária é transitória.
  • As paixões políticas dividem.
  • O Espiritismo busca princípios universais e permanentes.

A função do Centro Espírita é essencialmente educativa e moral. Transformá-lo em arena partidária comprometeria sua finalidade espiritual.

Isso não significa alienação social. Significa preservar o espaço da instituição como campo de estudo e elevação, não de disputa ideológica.

2. A Doutrina Espírita é apolítica?

Depende do sentido atribuído à palavra “política”.

Se entendida como disputa partidária, o Espiritismo não se vincula a nenhum sistema específico. Não é de esquerda nem de direita. Não é liberal nem conservador. É uma doutrina moral e filosófica baseada nas leis espirituais.

Entretanto, se política for entendida como organização da vida coletiva e promoção do bem comum, a Doutrina é profundamente comprometida com princípios sociais.

Em O Livro dos Espíritos, ao tratar da Lei de Sociedade e da Lei de Justiça, Amor e Caridade, ensina-se que o progresso é coletivo e que a construção de uma sociedade mais justa é dever moral.

A Constituição brasileira, ao estabelecer como objetivos fundamentais:

  • Construir sociedade livre, justa e solidária;
  • Erradicar a pobreza;
  • Reduzir desigualdades;

expressa metas compatíveis com valores universais defendidos pela Doutrina.

Assim, o espírita não é um alienado social. Ele é chamado à responsabilidade cidadã. O voto é livre, mas deve ser consciente e moralmente orientado.

3. Marxismo, capitalismo e a visão espiritual

Há registros históricos de que Léon Denis criticou o materialismo marxista de sua época. Sua preocupação central era a negação da dimensão espiritual do ser humano.

Por outro lado, Denis também reconhecia que ideais de fraternidade social poderiam florescer em mundos moralmente mais adiantados, desde que fundamentados em valores espirituais.

A Doutrina Espírita critica igualmente:

  • O materialismo econômico que reduz o homem à matéria.
  • O egoísmo individualista que gera exploração.
  • Qualquer sistema que ignore a educação moral do Espírito.

O problema, segundo a Codificação, não está apenas nas estruturas políticas, mas no homem que as administra. Sem transformação íntima, qualquer regime pode degenerar em injustiça.

Na Revista Espírita, Kardec é claro ao afirmar que as instituições humanas refletem o grau moral da sociedade que as compõe.

4. Lideranças espíritas e opiniões pessoais

Nomes como Francisco Cândido Xavier, Divaldo Pereira Franco e Herculano Pires são frequentemente citados em debates políticos.

Entretanto, a Doutrina ensina a distinguir:

  • Doutrina Espírita: conjunto de princípios revelados pelos Espíritos e organizados por Kardec.
  • Opiniões pessoais: posicionamentos humanos, condicionados ao contexto histórico.

Médiuns não são infalíveis nem constituem autoridade política da Doutrina. Suas posições individuais não equivalem a diretrizes espirituais universais.

O Espiritismo não cria líderes partidários, mas consciências responsáveis.

5. Deve haver debate político nos Centros Espíritas?

É necessário distinguir entre:

  • Estudo de temas sociais à luz da Doutrina.
  • Campanha político-partidária.

O primeiro é legítimo e até necessário. Questões como pobreza, desigualdade, justiça social, ética pública e cidadania podem e devem ser analisadas sob a ótica moral espírita.

O segundo — promoção de candidatos, militância partidária ou disputa ideológica — contraria o espírito de fraternidade e neutralidade institucional recomendado por Kardec.

O “show de horrores” ocorre quando o orgulho e as paixões substituem a reflexão serena. O Centro Espírita não é comitê eleitoral, mas escola de almas.

6. Em quem votariam Jesus ou os Espíritos Superiores?

A pergunta é provocativa, mas a resposta doutrinária é simples: Espíritos Superiores não se vinculam a personalismos.

Eles apoiariam princípios que:

  • Promovam educação moral.
  • Reduzam sofrimento humano.
  • Respeitem a liberdade de consciência.
  • Favoreçam justiça e fraternidade.

Não votariam por interesse ideológico, mas por coerência moral.

O “homem de bem”, descrito em O Evangelho segundo o Espiritismo, é o parâmetro. O espírita deve avaliar candidatos segundo critérios éticos, não segundo paixões.

Conclusão

A Doutrina Espírita não é neutra diante da injustiça social, mas é prudente diante da militância partidária.

Ela ensina que:

  • A verdadeira transformação social nasce da transformação moral.
  • Sistemas políticos refletem o nível evolutivo de seus cidadãos.
  • A educação espiritual é a base da reforma coletiva.

Debates sobre ética, justiça e cidadania são compatíveis com o estudo doutrinário. Campanhas e disputas ideológicas, não.

O Espiritismo propõe uma revolução silenciosa e profunda: a substituição do egoísmo pela fraternidade. Sem o “homem de bem”, qualquer sistema fracassará. Com ele, qualquer sistema poderá melhorar.

A pátria definitiva do Espírito é a espiritual. A atuação na Terra deve refletir essa consciência superior.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
  • Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • Revista Espírita (1858–1869).
  • Léon Denis. Obras sociais e filosóficas.
  • Francisco Cândido Xavier. Entrevistas e correspondências.
  • Herculano Pires. Estudos sobre ética social espírita.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

QUANDO OS BONS SE CALAM SILÊNCIO, RESPONSABILIDADE E EXEMPLO - A Era do Espírito - Introdução Ainda é comum ouvirmos — e até repetirmos — ...