quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CARNAVAL POLARIZAÇÃO E RESPEITO ÀS CRENÇAS
UMA ANÁLISE À LUZ DA DOUTRINA ESPÍRITA
- A Era do Espírito -

Introdução

O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, realizado em fevereiro de 2026, gerou intensa controvérsia nacional ao apresentar a ala intitulada “Neoconservadores em Conserva”, na qual integrantes trajavam fantasias em formato de latas, representando grupos conservadores, incluindo evangélicos portando a Bíblia. A repercussão envolveu manifestações da Ordem dos Advogados do Brasil, reações parlamentares e debates jurídicos sobre liberdade de expressão e intolerância religiosa.

Mais do que um episódio isolado, o fato revela tensões profundas entre arte, política e fé em um país marcado por crescente polarização ideológica. À luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e dos ensinamentos constantes em O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo e na coleção da Revista Espírita, é possível analisar o acontecimento sob perspectiva moral e espiritual, buscando compreender não apenas o fato em si, mas suas causas profundas e suas consequências coletivas.

1. O Contexto Social: Polarização e Sensibilidade Religiosa

Dados recentes do Ministério dos Direitos Humanos indicam crescimento expressivo das denúncias de intolerância religiosa no Brasil nos últimos anos, com aumento significativo dos registros no Disque 100. Historicamente, religiões de matriz africana figuram entre as principais vítimas; contudo, observa-se também aumento de queixas envolvendo grupos cristãos em contextos de sátira pública.

O episódio carnavalesco ocorreu em ambiente já tensionado por disputas políticas intensas. O enredo da escola homenageava o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, o que provocou reações de opositores, entre eles o senador Flávio Bolsonaro. O debate ultrapassou o campo artístico e assumiu contornos jurídicos e ideológicos.

Sob o olhar sociológico, o Carnaval historicamente funciona como espaço de crítica social e inversão simbólica. Contudo, quando a sátira recai sobre símbolos considerados sagrados por milhões de pessoas, a recepção tende a ser emocionalmente intensa, especialmente em cenário de polarização.

2. Liberdade de Expressão e Responsabilidade Moral

A Constituição Federal assegura a liberdade de expressão e a liberdade de crença. No campo jurídico, o debate concentra-se na linha tênue entre crítica política legítima e possível vilipêndio a objeto de culto.

A Doutrina Espírita reconhece amplamente o livre-arbítrio. Em O Livro dos Espíritos, ao tratar da Lei de Liberdade, ensina-se que o ser humano é livre para pensar e agir, mas responde moralmente pelo uso dessa liberdade. A máxima moral implícita é clara: a liberdade de um encontra limite na dignidade do outro.

Do ponto de vista espiritual, a questão essencial não é apenas se houve ou não infração legal, mas se houve caridade moral. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, a caridade é definida não apenas como auxílio material, mas como benevolência, indulgência e respeito às convicções alheias.

Criticar ideias é legítimo; ridicularizar aquilo que o outro considera sagrado pode configurar falta de indulgência e manifestação de orgulho. A Doutrina Espírita não propõe censura à arte, mas convida à reflexão sobre a intenção e os efeitos morais do ato.

3. Psicologia Social e Lei de Sintonia

A psicologia social descreve fenômenos como desumanização e identidade grupal (“nós contra eles”). Representar um grupo humano como objeto — ainda que sob forma satírica — pode favorecer processos inconscientes de estigmatização.

A Doutrina Espírita aprofunda essa análise ao ensinar a Lei de Sintonia: pensamentos e sentimentos atraem Espíritos que vibram na mesma faixa moral. Ambientes marcados por escárnio, hostilidade ou ressentimento tendem a favorecer a influência de inteligências espirituais igualmente desequilibradas.

Na Revista Espírita, Kardec observa que conflitos coletivos frequentemente se agravam quando paixões inferiores predominam. O orgulho e o egoísmo são apontados como raízes das desarmonias sociais. Quando a crítica perde o caráter construtivo e assume o tom de humilhação, instala-se campo fértil para animosidades recíprocas.

4. Transição Planetária e Provas Coletivas

A Doutrina Espírita ensina que a Terra atravessa período de transição moral, caracterizado pela convivência de valores elevados e paixões ainda intensas. Em O Livro dos Espíritos, esclarece-se que as crises sociais fazem parte do processo de progresso, funcionando como provas coletivas.

O aumento das denúncias de intolerância religiosa pode ser interpretado como sintoma duplo: de um lado, persistem preconceitos; de outro, cresce a consciência dos direitos e da dignidade humana. O conflito evidencia que a sociedade está aprendendo — ainda de modo imperfeito — a lidar com a diversidade.

Sob essa ótica, tanto a ação quanto as reações podem revelar imperfeições morais. O deboche pode nascer do orgulho; a resposta movida pelo ódio pode nascer do mesmo sentimento. A solução espiritual não reside na radicalização, mas na transformação íntima — substituindo a agressividade pela firmeza respeitosa.

5. A Caridade Moral como Caminho de Equilíbrio

A questão 886 de O Livro dos Espíritos define o verdadeiro sentido da caridade como:

“Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros e perdão das ofensas.”

Aplicando-se esse princípio ao caso analisado:

  • A crítica política pode existir sem desprezo religioso.
  • A defesa da fé pode ocorrer sem intolerância recíproca.
  • A arte pode provocar reflexão sem humilhar.

O Espiritismo não toma partido político, pois seu campo é moral e espiritual. Seu convite é à elevação do pensamento. Quando a arte promove reflexão com respeito, cumpre função social elevada. Quando se converte em instrumento de escárnio, pode intensificar divisões.

Do mesmo modo, quando a reação busca apenas punição ou revanche, perpetua o ciclo de antagonismo. A superação da polarização exige maturidade espiritual coletiva.

Conclusão

O episódio envolvendo a Acadêmicos de Niterói não deve ser analisado apenas sob o prisma jurídico ou partidário, mas como reflexo de um momento histórico de intensa sensibilidade social.

À luz da Doutrina Espírita, o fato evidencia:

  • A necessidade de equilibrar liberdade e responsabilidade.
  • A importância da caridade moral nas divergências.
  • O risco da desumanização do adversário.
  • A urgência da transformação íntima como base para a paz social.

Em tempos de exaltação ideológica, o ensinamento espírita recorda que todos somos Espíritos em evolução, pertencentes à mesma família universal. Divergir é natural; desrespeitar não é inevitável. A verdadeira superação da intolerância não virá apenas de leis humanas, mas da educação moral das consciências.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
  • Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • Revista Espírita (1858–1869).
  • Constituição da República Federativa do Brasil, Art. 5º, VI.
  • Código Penal Brasileiro, Art. 208.
  • Dados públicos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (Disque 100).

 

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