quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

JOSÉ HERCULANO PIRES, A IMPRENSA
E A EDUCAÇÃO DO ESPÍRITO
ATUALIDADE DE UM MÉTODO DOUTRINÁRIO
- A Era do Espírito -

Introdução

A história do Espiritismo no Brasil não pode ser compreendida sem considerar o papel decisivo da imprensa como instrumento de esclarecimento público, debate racional e educação moral. Nesse contexto, destaca-se a atuação de José Herculano Pires, cuja produção intelectual uniu rigor filosófico, fidelidade à Doutrina Espírita e profundo compromisso pedagógico.

Durante duas décadas, por meio de uma coluna regular no Diário de São Paulo, Herculano utilizou o jornalismo como extensão natural do método espírita: observar os fatos, analisá-los à luz da razão e confrontá-los com os princípios universais ensinados pelos Espíritos superiores, conforme a Codificação. Essa experiência não apenas marcou a divulgação doutrinária no país, como também influenciou decisivamente sua produção bibliográfica e pedagógica, cujos reflexos permanecem atuais.

A Coluna “Irmão Saulo”: identidade, missão e método

A partir de 1948, Herculano passou a assinar seus artigos com o pseudônimo Irmão Saulo, nome carregado de simbolismo. A referência a Saulo de Tarso, antes de sua conversão moral, indicava a proposta de transformação pelo esclarecimento e pelo contato com a verdade. A coluna, anteriormente vinculada à Federação Espírita do Estado de São Paulo, ganhou novo fôlego ao assumir um tom crítico, educativo e profundamente racional.

Os textos tinham como objetivo combater desvios interpretativos, misticismos excessivos e leituras utópicas que se afastavam do caráter científico e filosófico do Espiritismo. Inspirado diretamente no método de Allan Kardec, Herculano insistia no “conhecimento positivo”, no livre exame e na coerência lógica, princípios amplamente defendidos na Revista Espírita.

Diálogo com o público e parceria com Chico Xavier

Durante quatro anos, a coluna abrigou também a participação de Chico Xavier, sob o título “Chico Xavier pede licença”. O diálogo entre o filósofo e o médium revelou ao grande público que razão e mediunidade não se opõem, mas se completam quando orientadas por critérios sérios e pelo controle universal do ensino dos Espíritos.

Essa interlocução ampliou o alcance da Doutrina para leitores não vinculados aos centros espíritas, mostrando que o Espiritismo podia — e devia — dialogar com os desafios culturais, científicos e sociais do seu tempo.

Do artigo ao livro: imprensa como laboratório doutrinário

A produção jornalística de Herculano não se esgotava na crônica semanal. O jornal funcionava como um verdadeiro laboratório de ideias, onde temas atuais eram analisados à luz da Doutrina, debatidos com os leitores e posteriormente organizados em obras de maior fôlego.

O processo seguia um fluxo característico:

  1. Provocação dos fatos – acontecimentos científicos, educacionais ou sociais em evidência.
  2. Resposta doutrinária – análise racional baseada na filosofia espírita.
  3. Sistematização – reunião, revisão e ampliação dos textos em forma de livro.

Assim surgiram obras como O Mistério do Bem e do Mal, Astronautas do Além, Na Era do Espírito e O Infinito e o Finito. Muitas dessas reflexões, amadurecidas no contato direto com a opinião pública, permanecem surpreendentemente atuais diante de temas contemporâneos como ética, educação, ciência e responsabilidade social.

A Pedagogia Espírita: educação do ser integral

Entre as contribuições mais relevantes de Herculano Pires destaca-se o livro Pedagogia Espírita, obra fundamental para a compreensão da educação sob a ótica da Doutrina Espírita. Longe de propor mera catequese, o autor apresenta uma visão educativa baseada na natureza espiritual do ser humano.

Seus pilares centrais incluem:

  • A criança como Espírito reencarnado, portador de experiências pretéritas e potencialidades latentes.
  • Educação integral, voltada ao desenvolvimento intelectual, moral e ético.
  • Liberdade com responsabilidade, respeitando o livre-arbítrio e as inclinações naturais do educando.
  • Superação da “evangelização” ritualizada, substituída por uma educação racional, acessível à inteligência infantil.

Dialogando com pensadores como Pestalozzi, Rousseau e Comenius, Herculano demonstrou que o Espiritismo não se opõe à pedagogia moderna, mas a amplia, oferecendo-lhe fundamentos espirituais coerentes com a razão.

Atualidade e aplicação no século XXI

Muitos dos princípios defendidos por Herculano antecipam abordagens hoje reconhecidas, como a educação socioemocional, as metodologias ativas e o ensino humanista. Em ambientes laicos, tais ideias podem ser aplicadas sem caráter confessional, mantendo o foco na formação ética, no respeito à individualidade e na construção da autonomia moral.

No Brasil, existem instituições que utilizam oficialmente essa abordagem pedagógica, respeitando a legislação educacional e a Base Nacional Comum Curricular, sob supervisão do Ministério da Educação. Essas experiências demonstram que a Pedagogia Espírita, quando compreendida como filosofia educacional e não como proselitismo religioso, é plenamente compatível com o ensino contemporâneo.

Considerações finais

A atuação de José Herculano Pires na imprensa e na educação confirma uma verdade essencial da Doutrina Espírita: o conhecimento não deve ficar restrito aos círculos internos, mas alcançar a sociedade, dialogar com o seu tempo e contribuir para o progresso moral coletivo.

Ao utilizar o jornal como tribuna de ideias e a educação como caminho de libertação do Espírito, Herculano mostrou que o Espiritismo é, antes de tudo, uma filosofia viva, capaz de iluminar o presente e preparar o futuro.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
  • KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • PIRES, José Herculano. O Mistério do Bem e do Mal.
  • PIRES, José Herculano. Pedagogia Espírita.
  • PIRES, José Herculano. Na Era do Espírito.
  • Estudos históricos e educacionais sobre Espiritismo e pedagogia humanista no Brasil.

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