Introdução
Fala-se
muito em liberdade. Liberdade de expressão, de escolha, de crença, de
pensamento. No entanto, pouco se reflete sobre a mais profunda de todas: a libertação
espiritual.
À luz da
Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, a verdadeira liberdade não se
conquista fora, mas dentro. Não depende de circunstâncias sociais, políticas ou
econômicas, mas do grau de domínio que o Espírito alcança sobre si mesmo.
Em O
Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V, item 11, lemos:
“Para melhorarmos, outorgou-nos Deus, precisamente, o de que
necessitamos e nos basta: a voz da consciência e as tendências instintivas.
Priva-nos do que nos seria prejudicial.”
Essa
afirmação sintetiza um princípio essencial: Deus não nos aprisiona —
oferece-nos os meios de libertação. O aprisionamento nasce do uso
equivocado da liberdade.
Libertação x Aprisionamento: Onde Está a Diferença?
A oposição
entre libertação e aprisionamento não é externa, mas moral.
|
Libertação Espiritual |
Aprisionamento Espiritual |
|
Escuta da consciência |
Negligência da consciência |
|
Autodomínio |
Escravidão às paixões |
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Responsabilidade |
Transferência de culpa |
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Renovação interior |
Repetição de velhos padrões |
|
Confiança na Providência |
Revolta e vitimização |
O Espírito
não se encontra preso por circunstâncias, mas por suas próprias imperfeições.
Orgulho, egoísmo, inveja, ressentimento e medo são cadeias invisíveis mais
resistentes que ferro.
A Doutrina
Espírita ensina que a liberdade verdadeira é proporcional ao grau de depuração
moral. Quanto mais o Espírito se harmoniza com as leis divinas, menos sofre as
reações dolorosas de seus próprios atos.
A Sábia Providência e a História de Agenor
No capítulo
“Sábia Providência”, apresentado por Ermance Dufaux, encontramos a história
simbólica de Agenor, homem que constantemente se queixava das dificuldades que
enfrentava. Via nas limitações da vida uma injustiça divina. Desejava outros
talentos, outras oportunidades, outra posição.
Somente
mais tarde compreendeu que suas restrições eram instrumentos educativos. Aquilo
que considerava obstáculo era proteção. O que julgava perda era preservação.
Essa
narrativa ecoa o ensinamento do Evangelho: Deus nos concede exatamente o
necessário ao nosso progresso — nem mais, nem menos.
A ausência
de certos recursos pode ser libertação; a posse desmedida pode tornar-se
cárcere. A Providência não erra na dosagem.
Quantas
vezes pedimos aquilo que nos agravaria os débitos morais? Quantas vezes
reclamamos daquilo que nos protege?
A Corrigenda Interior: O Centro da Libertação
A
libertação espiritual não se opera por decretos externos, mas pela corrigenda
em nós próprios.
Joanna de
Angelis, na obra Messe de Amor, ao abordar a “moeda-bondade”, recorda
que cada gesto de compreensão e cada atitude de generosidade representam
investimento libertador. O bem praticado dissolve amarras invisíveis.
Emmanuel,
em Religião dos Espíritos, ao tratar da “Contradição”, adverte que
muitos desejam liberdade espiritual sem abrir mão das paixões que os
escravizam. Querem paz sem disciplina; ascensão sem esforço; luz sem
transformação.
Irmão X, em
“A Surpresa do Crente”, demonstra que a maior surpresa não está nas provas
exteriores, mas no reconhecimento tardio de nossas próprias incoerências.
A ação
humana deve concentrar-se na reforma — ou, mais profundamente, na transformação
íntima. Não se trata de martírio psicológico, nem de autoacusação contínua.
Trata-se de lucidez.
Aprisionamento
é permanecer igual. Libertação é decidir melhorar.
Consciência: A Chave da Porta Interior
A
consciência é a bússola divina instalada no Espírito. Não é voz que grita; é
orientação que sussurra.
Quando
ignorada, surgem conflitos íntimos, ansiedade, insatisfação persistente. A
psicologia contemporânea reconhece que grande parte do sofrimento humano
decorre de incoerências internas — a distância entre aquilo que sabemos ser
correto e aquilo que fazemos.
O
Espiritismo amplia essa visão ao ensinar que cada ato gera consequências que se
refletem na própria estrutura perispiritual do ser. A culpa não é punição
imposta; é resultado natural do desvio da lei moral.
Escutar a
consciência é libertar-se preventivamente. Silenciá-la é construir a própria
cela.
A Ilusão das Algemas Externas
Vivemos
numa época em que se atribui quase todo sofrimento a fatores externos: sistema
social, governo, economia, família, circunstâncias. Embora tais elementos
influenciem a experiência humana, a Doutrina Espírita recorda que a raiz do
progresso ou da estagnação está no Espírito.
Dois
indivíduos podem enfrentar idêntica adversidade: um se revolta e se aprisiona;
outro aprende e se fortalece.
A liberdade
não é ausência de provas. É capacidade de atravessá-las sem perder o equilíbrio
moral.
A Libertação Como Processo
A
libertação espiritual não ocorre de forma súbita. É processo gradual.
Cada vez
que vencemos um impulso inferior, afrouxamos uma corrente.
Cada vez que perdoamos, quebramos um elo.
Cada vez que servimos, ampliamos o horizonte interior.
A
Providência não nos exige perfeição imediata. Concede-nos oportunidades
sucessivas de aprendizado. As experiências difíceis são aulas. As limitações
são salvaguardas. As frustrações são redirecionamentos.
Conclusão
Libertação
espiritual e aprisionamento não são estados impostos por Deus. São resultados
das escolhas do Espírito.
Deus nos
concedeu consciência e tendências instintivas suficientes para o progresso. Se
nos priva de algo, é porque aquilo poderia nos prejudicar.
A ação do
homem deve concentrar-se na transformação íntima. Não na queixa, mas na
corrigenda pessoal. Não na fuga, mas na responsabilidade. Não na expectativa de
milagres, mas na prática diária do bem.
A liberdade
maior não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em desejar o que é justo.
Referências
- Allan Kardec. O Evangelho segundo o
Espiritismo, cap. V, item 11.
- Revista Espírita. Diversos artigos sobre
consciência e progresso moral.
- Ermance Dufaux. Reforma Íntima sem
Martírio, cap. “Sábia Providência”.
- Joanna de Angelis. Messe de Amor,
“Moeda-bondade”.
- Irmão X. Pontos e Contos, “A
Surpresa do Crente”.
- Emmanuel. Religião dos Espíritos,
“Contradição”.
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