Introdução
Em muitos debates
atuais, afirma-se que o poder político não reside apenas na figura do
governante eleito, mas nas forças econômicas que sustentam ou pressionam os
sistemas de governo. Segundo essa leitura, quando há conflito entre interesses
econômicos dominantes e decisões políticas, quem frequentemente sofre as
consequências é a população mais vulnerável.
Essa análise, comum à
ciência política contemporânea, pode ser examinada à luz da Doutrina Espírita,
codificada por Allan Kardec. O Espiritismo não se vincula a partidos,
ideologias ou sistemas específicos, mas oferece princípios morais e leis
universais que ajudam a compreender as causas profundas das estruturas sociais.
A questão fundamental
não é apenas “quem governa”, mas “com que estado moral governamos e elegemos”.
Estruturas
de Poder e Estado Moral Coletivo
Na perspectiva espírita,
as instituições humanas refletem o nível moral da sociedade que as compõe. Em O Livro dos Espíritos, ao tratar da Lei
de Sociedade e da Lei de Justiça, os Espíritos ensinam que o homem é
naturalmente inclinado à vida coletiva, mas leva para dentro das instituições
suas virtudes e imperfeições.
Se o egoísmo e o orgulho
predominam nos indivíduos, tais tendências inevitavelmente se projetam na
política, na economia e nas relações de poder. Assim, a influência excessiva de
interesses corporativos ou financeiros não é fenômeno isolado: é expressão do
apego humano à riqueza e à supremacia.
A desigualdade das
condições sociais, conforme ensina a questão 814 da obra citada, não é criação
divina, mas resultado da ação humana. Logo, sistemas que privilegiam poucos em
detrimento de muitos decorrem da imperfeição moral ainda dominante na Terra, classificada
como mundo de provas e expiações.
Governantes:
Missão, Prova e Responsabilidade
A Doutrina Espírita
esclarece que posições de autoridade constituem prova ou missão (questão 573).
Governar é oportunidade de servir.
Quando o dirigente cede
ao egoísmo, favorecendo interesses particulares em detrimento do bem comum,
compromete-se perante a Lei de Causa e Efeito. Da mesma forma, grupos
econômicos que utilizam poder financeiro para manipular decisões políticas
também respondem moralmente por suas escolhas.
A coleção da Revista Espírita apresenta diversas
reflexões sobre a responsabilidade dos que exercem influência social. Ali se
observa que o verdadeiro progresso não se mede apenas por desenvolvimento
material, mas por avanço moral.
A política, portanto, é
campo de aprendizado espiritual coletivo.
O Sofrimento Popular e a Lei de Causa e Efeito
Quando crises econômicas
atingem a população — desemprego, inflação, instabilidade social — muitos
concluem que “o povo sempre paga a conta”. Sob o ponto de vista espírita, o
sofrimento coletivo pode decorrer de múltiplos fatores:
- Imperfeições
morais persistentes;
- Estruturas
sociais baseadas no egoísmo;
- Débitos
individuais e coletivos do passado;
- Necessidade
de aprendizado solidário.
Não se trata de
fatalismo. Ao contrário: o Espiritismo ensina que a dor é instrumento educativo
e transitório. As dificuldades sociais convidam à cooperação, à justiça e à
responsabilidade compartilhada.
A transformação real não
virá apenas por mudanças externas de governo, mas pela modificação gradual das
consciências.
Polarização
e Psicologia Moral
A intensa divisão entre
correntes ideológicas — frequentemente marcada por antagonismos passionais —
pode ser compreendida à luz das paixões humanas. O orgulho alimenta a
necessidade de estar certo; o egoísmo fortalece a defesa de interesses
particulares.
Na Lei de Liberdade, em O Livro dos Espíritos (questão 909),
aprendemos que o homem pode vencer suas más inclinações pelo esforço sincero. A
polarização exacerbada é expressão dessas inclinações não dominadas.
A identificação cega com
grupos políticos assemelha-se ao que a psicologia moderna chama de “mentalidade
tribal”. O indivíduo passa a defender símbolos e bandeiras como se defendesse a
própria sobrevivência. Entretanto, o Espiritismo convida à serenidade e à
análise racional.
O adversário político
não é inimigo espiritual; é companheiro de jornada evolutiva.
O Voto
como Dever Moral
Na ótica espírita, o
voto não é apenas ato civil, mas compromisso moral. Escolher representantes
significa delegar poder. Quem vota por interesse pessoal, por paixão ou por
conveniência participa, ainda que indiretamente, das consequências da escolha.
A orientação doutrinária
sugere critérios elevados:
- Examinar
o caráter antes da retórica;
- Avaliar
propostas à luz da justiça e da solidariedade;
- Rejeitar
discursos de ódio e violência;
- Pensar
no bem coletivo, sobretudo dos mais vulneráveis.
A omissão sistemática
também constitui escolha. A Lei de Progresso ensina que a humanidade avança
pelo esforço consciente. Participar com equilíbrio é colaborar com esse avanço.
Mudança
Estrutural e Reforma Interior
A crítica às engrenagens
do poder econômico pode conter elementos de verdade. Contudo, substituir
figuras sem modificar mentalidades mantém intactas as raízes do problema.
O Espiritismo enfatiza
que o egoísmo é a grande chaga da humanidade. Enquanto ele presidir decisões
individuais, continuará influenciando sistemas econômicos e políticos.
A regeneração social
depende da transformação íntima — expressão mais adequada do que mera reforma
externa. Corações mais fraternos produzirão instituições mais justas.
Conclusão
A percepção de que
forças econômicas influenciam decisões políticas encontra respaldo em análises
sociológicas modernas. Entretanto, a Doutrina Espírita amplia o horizonte dessa
discussão ao situá-la no campo das Leis Morais.
Governantes, elites
econômicas e cidadãos comuns são Espíritos em processo de aperfeiçoamento. O
sistema social reflete o estado moral coletivo. Se desejamos estruturas mais
justas, precisamos cultivar virtudes que sustentem tais estruturas.
A política não é terreno
de salvação instantânea nem de condenação absoluta. É campo de aprendizado.
Quando a fraternidade
substituir o egoísmo como princípio orientador das decisões humanas, as
relações entre poder econômico e poder político encontrarão equilíbrio natural.
Até lá, cada consciência é chamada a contribuir, pelo esforço no bem, para que
o progresso deixe de ser apenas material e se torne verdadeiramente moral.
Referências
Obras
da Codificação Espírita
- O
Livro dos Espíritos – Allan Kardec.
- O
Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec.
- Revista
Espírita – Dirigida por Allan Kardec.
Obras
Complementares do Espiritismo
- O
Consolador – Espírito Emmanuel, psicografia de Chico Xavier.
- A
Caminho da Luz – Espírito Emmanuel, psicografia de Chico Xavier.
- Justiça
Divina – Espírito Emmanuel, psicografia de Chico Xavier.
Sociologia
e Ciência Política
- The
Power Elite – C. Wright Mills.
- Political
Order in Changing Societies – Samuel P. Huntington.
- Why
Nations Fail – Daron Acemoglu; James A. Robinson.
Psicologia
Social e Moral
- The
Righteous Mind – Jonathan Haidt.
- Learned
Helplessness – Martin Seligman.
- Thinking,
Fast and Slow – Daniel Kahneman.
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