sábado, 7 de fevereiro de 2026

NOSSOS FILHOS COMO ESPÍRITOS
HEREDITARIEDADE, INDIVIDUALIDADE
E RESPONSABILIDADE MORAL
- A Era do Espírito -

Introdução

A pergunta sobre quem são nossos filhos e o que representam em nossas vidas atravessa gerações e desafia explicações simplistas. O senso comum costuma responder apoiando-se quase exclusivamente na hereditariedade biológica e em associações imediatas entre pais e filhos: o temperamento, a inteligência, os gostos e até as tendências morais seriam, segundo essa visão, extensões diretas da personalidade dos genitores.

Entretanto, a observação atenta da vida cotidiana, aliada aos princípios da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e aprofundados na Revista Espírita (1858–1869), revela um quadro muito mais amplo e coerente com as Leis Divinas. Os filhos não são simples continuações psicológicas dos pais, mas Espíritos imortais, portadores de uma história anterior ao nascimento físico, que reencontram determinados lares por necessidade evolutiva, educativa e reparadora.

Ideias cristalizadas e a ilusão da herança psicológica

No convívio social, repetem-se afirmações que acabam assumindo o estatuto de verdades incontestáveis: “herdou a inteligência do pai”, “puxou o temperamento da mãe”, “tem o talento artístico da família”. Essas explicações, embora confortáveis, raramente resistem a uma análise mais profunda.

Longe de respostas claras e definitivas, o que se verifica no dia a dia é a multiplicidade de exemplos que contradizem tais certezas. Pais intelectualmente brilhantes podem ter filhos comuns, assim como pais simples podem educar filhos de inteligência notável. Pessoas pacíficas frequentemente convivem com filhos inquietos, enquanto lares desarmonizados, não raro, acolhem Espíritos equilibrados e sensatos.

Esses contrastes evidenciam que as características psicológicas fundamentais — inteligência, inclinações morais, sensibilidade, tendências artísticas ou agressividade — não se transmitem biologicamente.

O que, de fato, é herdado ao nascer

À luz dos conhecimentos atuais da biologia e em consonância com a Doutrina Espírita, compreende-se que a hereditariedade genética atua essencialmente sobre o corpo físico. São transmitidas características como cor da pele, dos olhos e dos cabelos, conformação corporal, traços fisionômicos e determinadas predisposições orgânicas, inclusive para maior ou menor resistência a enfermidades.

Essa transmissão, contudo, limita-se ao instrumento material. O Espírito que utiliza esse corpo não é produto dos pais. Ele preexiste ao nascimento e sobrevive à morte do corpo, conforme ensinam as Leis Naturais estudadas na Codificação Espírita.

Mesmo entre gêmeos univitelinos, formados a partir do mesmo ovo e submetidos a condições biológicas praticamente idênticas, observam-se diferenças marcantes de temperamento, caráter e inclinações morais. Tais diferenças não podem ser explicadas apenas pela genética ou pelo meio, mas encontram explicação lógica na individualidade espiritual de cada um.

Cada criança como um universo espiritual

A Doutrina Espírita ensina que cada Espírito é único. Ainda que compartilhe semelhanças físicas e viva em ambientes semelhantes, traz consigo uma bagagem psicológica e moral construída ao longo de múltiplas experiências reencarnatórias.

Nossos filhos são Espíritos e retornam à vida corporal não por acaso, mas por necessidade. Necessidade de aprender, de reparar equívocos do passado, de desenvolver virtudes, de servir como instrumento de equilíbrio em lares fragilizados ou, simplesmente, de vivenciar o amor em suas múltiplas expressões.

Essa compreensão desloca o eixo da parentalidade: os pais deixam de ser “criadores de almas” para assumir o papel de cooperadores conscientes do progresso espiritual daqueles que lhes são confiados.

Laços de sangue e laços espirituais

A Doutrina Espírita esclarece que os laços consanguíneos não criam, por si sós, afinidade espiritual. O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito, pois já existia antes da formação do organismo físico.

A reencarnação explica por que Espíritos com histórias distintas se reúnem em determinados núcleos familiares: afinidades, compromissos do passado, provas necessárias ou missões de auxílio mútuo. Em alguns casos, laços espirituais profundos se fortalecem; em outros, antigas desarmonias solicitam esforço consciente de reconciliação.

Cabe aos pais compreender que sua responsabilidade não se limita ao sustento material, mas se estende ao auxílio no desenvolvimento intelectual e moral do Espírito reencarnante, respeitando-lhe a individualidade e estimulando-lhe o progresso.

Educar sem possuir, orientar sem moldar

Sob a ótica espírita, educar não significa moldar consciências à imagem dos adultos, mas oferecer referências morais, exemplos coerentes e ambiente favorável ao crescimento interior. A autoridade paterna e materna adquire, assim, caráter educativo e transitório, jamais possessivo.

O verdadeiro êxito da parentalidade não está em formar cópias de si mesmo, mas em contribuir para que o Espírito encontre, em si, os recursos necessários à própria evolução. Isso exige humildade, renúncia a expectativas egoístas e disposição constante para o aprendizado mútuo.

Conclusão

Compreender os filhos como Espíritos imortais transforma profundamente a maneira de vê-los, educá-los e amá-los. Eles não são propriedades, nem prolongamentos psicológicos dos pais, mas viajores da eternidade que encontram, no lar terrestre, uma etapa importante de seu caminho evolutivo.

Aos pais cabe a tarefa elevada de cuidar do corpo, iluminar a inteligência e favorecer o despertar moral, conscientes de que a autoria da alma pertence a Deus. Nesse intercâmbio sagrado, pais e filhos crescem juntos, aprendendo que amar é, sobretudo, respeitar a individualidade e cooperar com as Leis Divinas.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XIV, item 8.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 132, 135, 203 e 208.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita. Coleção completa (1858–1869).
  • MIRANDA, Hermínio C. Nossos filhos são Espíritos. Capítulo 2. Ed. Lachâtre.

 

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