sábado, 7 de fevereiro de 2026

RAIVA, PENSAMENTO E TRANSFORMAÇÃO MORAL
UMA ABORDAGEM ESPÍRITA SOBRE EMOÇÕES,
AFINIDADE E SINTONIA ESPIRITUAL
- A Era do Espírito -

Introdução

A frase atribuída a Mark Twain — “A raiva é um ácido que pode causar mais danos ao recipiente que a contém do que àquilo sobre o qual é derramada” — expressa, em linguagem simples, uma verdade profundamente analisada pela Doutrina Espírita: as emoções desordenadas afetam primeiramente aquele que as cultiva.

Em tempos recentes, tornou-se comum afirmar que a raiva pode ser “transmutada em alta frequência”, associando emoções a conceitos de vibração e energia. Embora essas expressões pertençam ao vocabulário contemporâneo, é legítimo perguntar como a Doutrina Espírita compreende, com precisão conceitual, o papel das emoções, do pensamento e da vontade na vida moral e espiritual do ser humano.

Para responder a essa questão, é necessário recorrer à Codificação Espírita e à coleção da Revista Espírita, respeitando o método racional adotado por Allan Kardec e evitando interpretações místicas ou simbólicas que extrapolem os princípios doutrinários.

A raiva sob a ótica espírita: emoção, reação e responsabilidade

A raiva, em si mesma, não é apresentada pela Doutrina Espírita como uma “energia” abstrata, mas como uma manifestação do Espírito, resultante de pensamentos, sentimentos e disposições morais ainda imperfeitas.

Em O Livro dos Espíritos, aprende-se que o Espírito progride pelo esforço consciente de domínio de suas más inclinações, substituindo-as por sentimentos mais elevados. A raiva, quando não educada, conduz à perturbação íntima, desequilibra o perispírito e favorece influências espirituais compatíveis com esse estado moral.

Kardec não propõe a repressão mecânica das emoções, mas sua educação pela razão e pela vontade. Reprimir sem compreender pode gerar conflitos interiores; compreender e transformar conduz ao progresso.

Pensamento como força ativa e modificadora dos fluidos

Um dos pilares da Doutrina Espírita é a compreensão do pensamento como força real e eficaz. Kardec afirma que o pensamento atua sobre os fluidos espirituais, imprimindo-lhes direção e qualidade.

Na Revista Espírita, encontram-se inúmeras referências à ação do pensamento como verdadeiro agente modificador do meio espiritual. Assim, uma emoção como a raiva não permanece confinada ao foro íntimo: ela produz alterações fluídicas no perispírito e no ambiente espiritual imediato do indivíduo.

Nesse sentido, a raiva persistente não prejudica apenas as relações humanas, mas compromete o equilíbrio espiritual daquele que a alimenta, confirmando, sob outra linguagem, a intuição expressa na reflexão atribuída a Mark Twain.

Transformação moral: da reação impulsiva à ação consciente

A Doutrina Espírita não ensina que a raiva deva ser “queimada” ou convertida em alguma forma de “frequência elevada”, mas que ela seja transformada moralmente. Essa transformação ocorre quando o Espírito deixa de reagir impulsivamente aos estímulos externos e passa a agir de forma consciente, orientado pela razão e pelos princípios morais.

O que alguns sistemas modernos chamam de “transmutar a raiva em determinação”, o Espiritismo compreende como educar a vontade, canalizando a energia emocional para ações úteis, justas e construtivas. Não se trata de negar o sentimento inicial, mas de impedir que ele governe o comportamento.

Essa mudança marca a passagem da reação instintiva para a ação responsável, característica do Espírito em processo de amadurecimento moral.

Afinidade espiritual e sintonia moral

A comunicação entre Espíritos — encarnados ou desencarnados — não ocorre ao acaso. Allan Kardec explica que ela se estabelece por afinidade, isto é, pela semelhança de pensamentos, sentimentos e disposições morais. Essa afinidade, frequentemente denominada “simpatia fluídica”, constitui o fundamento das influências espirituais e da mediunidade.

Como analogia didática, pode-se comparar esse fenômeno ao funcionamento das emissoras de rádio ou televisão. As estações transmitem continuamente seus sinais, mas apenas alcançam aqueles que se sintonizam com elas. O conteúdo não se ajusta ao receptor; é o receptor que, ao ajustar seu aparelho, passa a receber aquilo que corresponde à sintonia escolhida.

De modo semelhante, o mundo espiritual está em permanente intercâmbio. Cada Espírito se conecta naturalmente com inteligências e ambientes compatíveis com seu padrão íntimo. Estados emocionais como a raiva, quando reiterados, favorecem a aproximação de Espíritos em condição semelhante, enquanto sentimentos de equilíbrio, serenidade e boa vontade favorecem a sintonia com Espíritos mais adiantados.

Vibração: linguagem moderna e conceito espírita

O termo “vibração”, tão utilizado atualmente, não aparece com esse destaque nas obras de Kardec. Contudo, o conceito que ele procura expressar está amplamente presente na Doutrina Espírita por meio das noções de fluido, perispírito, pensamento e afinidade moral.

Kardec preferiu a linguagem dos fluidos por fidelidade ao conhecimento científico de seu tempo. Hoje, pode-se empregar a palavra “vibração” como recurso pedagógico, desde que se compreenda que, para o Espiritismo, o fator determinante não é uma frequência física mensurável, mas o estado moral do Espírito.

Elevar a chamada “vibração” significa, em termos espíritas, educar o pensamento, disciplinar as emoções e alinhar-se às Leis Morais.

Considerações finais

A raiva não é uma força a ser cultuada nem uma energia a ser simplesmente reprimida. Ela é um sinal de imperfeição moral ainda presente, oferecendo ao Espírito a oportunidade de autoconhecimento e progresso.

A Doutrina Espírita ensina que a verdadeira transformação não ocorre por técnicas emocionais ou conceitos simbólicos, mas pelo esforço contínuo de renovação interior. Pensar melhor, sentir melhor e agir melhor é o caminho seguro para a harmonização do períspirito, a melhoria das influências espirituais e o avanço do Espírito em sua jornada evolutiva.

Assim, mais do que “elevar frequências”, o Espiritismo convida à transformação íntima, silenciosa e perseverante, que faz do ser humano um agente consciente do bem, em sintonia com as Leis Divinas.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 27, 94, 257, 459.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda Parte.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulos I e XIV (edição de 1868).
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita. Coleção completa (1858–1869).
  • XAVIER, Francisco C. (Espíritos Emmanuel e André Luiz). Obras complementares de caráter doutrinário.

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