Introdução
A frase atribuída a Mark
Twain — “A raiva é um ácido que pode causar mais danos ao recipiente que a
contém do que àquilo sobre o qual é derramada” — expressa, em linguagem
simples, uma verdade profundamente analisada pela Doutrina Espírita: as emoções
desordenadas afetam primeiramente aquele que as cultiva.
Em tempos recentes,
tornou-se comum afirmar que a raiva pode ser “transmutada em alta frequência”,
associando emoções a conceitos de vibração e energia. Embora essas expressões
pertençam ao vocabulário contemporâneo, é legítimo perguntar como a Doutrina Espírita
compreende, com precisão conceitual, o papel das emoções, do pensamento e da
vontade na vida moral e espiritual do ser humano.
Para responder a essa
questão, é necessário recorrer à Codificação Espírita e à coleção da Revista
Espírita, respeitando o método racional adotado por Allan Kardec e evitando
interpretações místicas ou simbólicas que extrapolem os princípios
doutrinários.
A
raiva sob a ótica espírita: emoção, reação e responsabilidade
A raiva, em si mesma,
não é apresentada pela Doutrina Espírita como uma “energia” abstrata, mas como
uma manifestação do Espírito, resultante de pensamentos, sentimentos e
disposições morais ainda imperfeitas.
Em O Livro dos
Espíritos, aprende-se que o Espírito progride pelo esforço consciente de
domínio de suas más inclinações, substituindo-as por sentimentos mais elevados.
A raiva, quando não educada, conduz à perturbação íntima, desequilibra o
perispírito e favorece influências espirituais compatíveis com esse estado
moral.
Kardec não propõe a
repressão mecânica das emoções, mas sua educação pela razão e pela vontade.
Reprimir sem compreender pode gerar conflitos interiores; compreender e
transformar conduz ao progresso.
Pensamento
como força ativa e modificadora dos fluidos
Um dos pilares da
Doutrina Espírita é a compreensão do pensamento como força real e eficaz.
Kardec afirma que o pensamento atua sobre os fluidos espirituais,
imprimindo-lhes direção e qualidade.
Na Revista Espírita,
encontram-se inúmeras referências à ação do pensamento como verdadeiro agente
modificador do meio espiritual. Assim, uma emoção como a raiva não permanece
confinada ao foro íntimo: ela produz alterações fluídicas no perispírito e no
ambiente espiritual imediato do indivíduo.
Nesse sentido, a raiva
persistente não prejudica apenas as relações humanas, mas compromete o
equilíbrio espiritual daquele que a alimenta, confirmando, sob outra linguagem,
a intuição expressa na reflexão atribuída a Mark Twain.
Transformação
moral: da reação impulsiva à ação consciente
A Doutrina Espírita não
ensina que a raiva deva ser “queimada” ou convertida em alguma forma de
“frequência elevada”, mas que ela seja transformada moralmente. Essa
transformação ocorre quando o Espírito deixa de reagir impulsivamente aos
estímulos externos e passa a agir de forma consciente, orientado pela razão e
pelos princípios morais.
O que alguns sistemas
modernos chamam de “transmutar a raiva em determinação”, o Espiritismo
compreende como educar a vontade, canalizando a energia emocional para
ações úteis, justas e construtivas. Não se trata de negar o sentimento inicial,
mas de impedir que ele governe o comportamento.
Essa mudança marca a
passagem da reação instintiva para a ação responsável, característica do
Espírito em processo de amadurecimento moral.
Afinidade
espiritual e sintonia moral
A comunicação entre
Espíritos — encarnados ou desencarnados — não ocorre ao acaso. Allan Kardec
explica que ela se estabelece por afinidade, isto é, pela semelhança de
pensamentos, sentimentos e disposições morais. Essa afinidade, frequentemente
denominada “simpatia fluídica”, constitui o fundamento das influências
espirituais e da mediunidade.
Como analogia didática,
pode-se comparar esse fenômeno ao funcionamento das emissoras de rádio ou
televisão. As estações transmitem continuamente seus sinais, mas apenas
alcançam aqueles que se sintonizam com elas. O conteúdo não se ajusta ao
receptor; é o receptor que, ao ajustar seu aparelho, passa a receber aquilo que
corresponde à sintonia escolhida.
De modo semelhante, o
mundo espiritual está em permanente intercâmbio. Cada Espírito se conecta
naturalmente com inteligências e ambientes compatíveis com seu padrão íntimo.
Estados emocionais como a raiva, quando reiterados, favorecem a aproximação de
Espíritos em condição semelhante, enquanto sentimentos de equilíbrio,
serenidade e boa vontade favorecem a sintonia com Espíritos mais adiantados.
Vibração:
linguagem moderna e conceito espírita
O termo “vibração”, tão
utilizado atualmente, não aparece com esse destaque nas obras de Kardec.
Contudo, o conceito que ele procura expressar está amplamente presente na
Doutrina Espírita por meio das noções de fluido, perispírito, pensamento e
afinidade moral.
Kardec preferiu a
linguagem dos fluidos por fidelidade ao conhecimento científico de seu tempo.
Hoje, pode-se empregar a palavra “vibração” como recurso pedagógico, desde que
se compreenda que, para o Espiritismo, o fator determinante não é uma
frequência física mensurável, mas o estado moral do Espírito.
Elevar a chamada
“vibração” significa, em termos espíritas, educar o pensamento, disciplinar
as emoções e alinhar-se às Leis Morais.
Considerações
finais
A raiva não é uma força
a ser cultuada nem uma energia a ser simplesmente reprimida. Ela é um sinal de
imperfeição moral ainda presente, oferecendo ao Espírito a oportunidade de
autoconhecimento e progresso.
A Doutrina Espírita
ensina que a verdadeira transformação não ocorre por técnicas emocionais ou
conceitos simbólicos, mas pelo esforço contínuo de renovação interior. Pensar
melhor, sentir melhor e agir melhor é o caminho seguro para a harmonização do
períspirito, a melhoria das influências espirituais e o avanço do Espírito em
sua jornada evolutiva.
Assim, mais do que
“elevar frequências”, o Espiritismo convida à transformação íntima,
silenciosa e perseverante, que faz do ser humano um agente consciente do bem,
em sintonia com as Leis Divinas.
Referências
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 27, 94, 257, 459.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda Parte.
- KARDEC,
Allan. A Gênese. Capítulos I e XIV (edição de 1868).
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita. Coleção completa (1858–1869).
- XAVIER,
Francisco C. (Espíritos Emmanuel e André Luiz). Obras complementares de
caráter doutrinário.
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