Introdução
Uma das
questões que naturalmente surgem quando estudamos a vida espiritual é esta: os
Espíritos trabalham no mundo invisível? E, trabalhando, cansam-se como quando
estavam encarnados?
A resposta,
à luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e desenvolvida nas obras
fundamentais e na Revista Espírita, exige distinções importantes.
Os
Espíritos trabalham, sim. O trabalho é lei universal. Entretanto, o que
chamamos de “cansaço” precisa ser compreendido por analogia, pois a linguagem
humana é insuficiente para traduzir, com exatidão, os estados da vida
espiritual.
Este estudo
propõe analisar a questão com base na Codificação Espírita, especialmente em O
Livro dos Espíritos, e nos ensinamentos constantes da coleção da Revista
Espírita (1858–1869), preservando o método racional e progressivo que
caracteriza a Doutrina.
1. O Trabalho como Lei Universal
Em O
Livro dos Espíritos, a Lei do Trabalho é apresentada como uma das leis
morais da vida. Não se trata apenas de atividade física, mas de toda ocupação
útil ao progresso próprio e coletivo.
Na questão
558, os Espíritos ensinam:
“A ocupação dos Espíritos é incessante? — Sim, se entenderdes que o
seu pensamento está sempre em atividade...”
Portanto,
no mundo espiritual não há ociosidade contemplativa no sentido humano. A
atividade é constante, mas não compulsória. Os Espíritos se ocupam:
- no auxílio aos encarnados;
- na instrução e no aprendizado;
- na execução de missões;
- na organização e administração de tarefas
coletivas;
- no estudo das leis divinas.
A Revista
Espírita apresenta numerosos relatos de Espíritos que descrevem suas
ocupações após a desencarnação, evidenciando que a vida espiritual é dinâmica,
organizada e regida por hierarquias de responsabilidade.
O trabalho,
assim, não é castigo nem necessidade biológica: é condição natural da
inteligência em evolução.
2. O Espírito Sente “Cansaço”?
Aqui é
preciso distinguir cuidadosamente.
O Espírito,
enquanto ser imaterial, não possui organismo físico. Logo, não experimenta
fadiga muscular, desgaste orgânico ou necessidade de sono reparador como o
corpo encarnado.
Entretanto,
a Doutrina mostra que:
- o Espírito atua por meio do pensamento;
- o pensamento movimenta fluidos;
- a ação continuada implica dispêndio de
energia fluídica.
Assim, o
que chamamos de “cansaço” é, em realidade, uma forma de esgotamento relativo
das energias fluídicas ou da intensidade da concentração mental.
Espíritos menos adiantados
Os Espíritos ainda fortemente vinculados às impressões materiais podem
experimentar sensações muito semelhantes ao cansaço físico. Isso ocorre porque:
·
conservam hábitos mentais da vida corporal;
·
mantêm forte ligação com o perispírito;
·
projetam, pela imaginação, estados que
reproduzem antigas sensações.
A Revista Espírita registra comunicações em que Espíritos
descrevem necessidade de repouso, abatimento ou enfraquecimento, revelando
ainda apego às condições da vida material.
Espíritos mais elevados
À medida que o Espírito se depura:
·
diminui a influência da matéria;
·
amplia-se a capacidade de ação mental;
·
a atividade torna-se espontânea e prazerosa.
Para esses, não há propriamente “exaustão”, mas apenas alternância de
estados vibratórios. A energia lhes vem da harmonia com as leis divinas e
da comunhão com planos superiores.
O trabalho, nesse nível, não é peso, mas expansão natural da própria
vida.
3. O Repouso do Espírito
A palavra
“repouso” também precisa ser entendida por analogia.
O Espírito
não dorme como o encarnado. O repouso espiritual consiste em:
- mudança de atividade;
- recolhimento reflexivo;
- elevação do pensamento;
- absorção de fluidos mais sutis.
Kardec
observa, em diferentes passagens, que os Espíritos explicam a limitação da
linguagem humana para descrever suas sensações. Falta-nos vocabulário
apropriado para estados que não dependem de órgãos materiais.
Assim,
quando os Espíritos falam em “descanso”, referem-se muitas vezes a:
- suspensão de tarefa penosa;
- afastamento de ambientes vibratórios
densos;
- reconcentração da vontade.
Não se
trata de inércia, mas de renovação por harmonização.
4. A Limitação da Linguagem Humana
É muito
pertinente a observação de que talvez não seja próprio usar as palavras
“cansaço” ou “exaustão”, exceto por analogia — sobretudo quando nos referimos a
Espíritos elevados.
A Doutrina
mostra que:
- nossa linguagem foi formada para
descrever fenômenos corporais;
- aplicamos termos físicos a realidades
espirituais por aproximação;
- certas experiências superiores escapam ao
nosso vocabulário.
Por isso,
falar em “cansaço espiritual” é recurso didático. O que realmente ocorre é:
- diminuição temporária da intensidade da
ação;
- necessidade de recomposição fluídica;
- mudança de foco mental.
Nos planos
superiores, não há monotonia, pois a compreensão ampliada revela sempre novas
dimensões em cada tarefa. O trabalho é vivido como alegria de servir.
5. Síntese Doutrinária
À luz da
Codificação Espírita e da Revista Espírita, podemos concluir:
- O trabalho é lei universal, válida para encarnados e desencarnados.
- O Espírito não experimenta fadiga orgânica.
- Pode haver esgotamento relativo de energias fluídicas, sobretudo nos Espíritos menos adiantados.
- O repouso espiritual é renovação vibratória, não inatividade.
- Quanto mais elevado o Espírito, menos se pode falar em “cansaço”; sua atividade é harmônica e prazerosa.
Em última
análise, o trabalho, no mundo espiritual, é a própria expressão da vida
inteligente.
Se para nós
o esforço pode ser peso, para o Espírito esclarecido é expansão.
Se para nós o descanso é cessação, para ele é harmonização.
E quanto
mais evolui, mais o servir se torna alegria.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. Revista Espírita
(1858–1869).
- Allan Kardec. O Livro dos Médiuns.
- Allan Kardec. A Gênese.
Nenhum comentário:
Postar um comentário