domingo, 22 de fevereiro de 2026

QUANDO OS BONS SE CALAM
SILÊNCIO, RESPONSABILIDADE E EXEMPLO
- A Era do Espírito -

Introdução

Ainda é comum ouvirmos — e até repetirmos — a afirmação: “Muitas vezes os bons se calam porque não há quem os ouça.”

À primeira vista, a frase exprime desalento moral diante de um mundo ruidoso, onde vozes agressivas se impõem e atitudes levianas parecem conquistar espaço. Contudo, à luz da Doutrina Espírita — codificada por Allan Kardec e desenvolvida nas obras fundamentais e na Revista Espírita — essa constatação não deve conduzir à resignação passiva, mas a uma reflexão consciente sobre responsabilidade individual e solidariedade coletiva.

O silêncio dos bons é sempre virtude? Ou poderá, em determinadas circunstâncias, converter-se em forma sutil de omissão? A questão é profunda e exige discernimento, pois entre a prudência e a indiferença há uma linha tênue que apenas a consciência reta consegue distinguir.

1. A “Fraqueza dos Bons” – Uma Advertência Atual

Em O Livro dos Espíritos, questão 932, Kardec pergunta por que o mal parece prevalecer na Terra. A resposta é direta: pela fraqueza dos bons.

Os Espíritos esclarecem que os maus são audaciosos e ativos, enquanto os bons, muitas vezes, hesitam. Essa hesitação pode nascer:

  • do receio de exposição;
  • do medo de críticas;
  • da falsa modéstia;
  • da crença de que “não adianta falar”.

A advertência é clara: quando os bons quiserem, prevalecerão.

Essa observação conserva plena atualidade. Em tempos de comunicação instantânea e polarizações intensas, as vozes mais estridentes tendem a dominar os espaços públicos. O silêncio dos ponderados pode parecer irrelevância — mas pode também significar abdicação de responsabilidade.

A Doutrina não estimula o confronto agressivo, mas tampouco legitima a indiferença moral.

2. O Silêncio que Educa e o Silêncio que Omit e

É preciso distinguir dois tipos de silêncio.

2.1 O silêncio prudente

Há momentos em que calar é sabedoria. A Revista Espírita registra diversas orientações quanto à inutilidade de debates estéreis. Falar a quem não deseja ouvir pode gerar apenas antagonismo.

O silêncio, nesses casos, é:

·         caridade moral;

·         respeito ao livre-arbítrio;

·         preservação da harmonia.

Nem toda verdade deve ser dita a qualquer momento. A palavra, para ser útil, exige oportunidade e receptividade.

2.2 O silêncio omisso

Entretanto, há situações em que o silêncio permite que a injustiça avance. Quando a consciência reconhece o dever de agir e escolhe a inércia por comodidade ou temor, não se trata de prudência, mas de omissão.

A Doutrina Espírita ensina que somos solidários. A responsabilidade não é apenas individual, mas coletiva. A omissão diante do mal contribui para sua permanência.

Assim, o critério é o discernimento:

·         Silenciar por prudência é virtude.

·         Silenciar por medo é fraqueza.

3. O Poder do Exemplo Silencioso

Há, porém, uma forma superior de expressão: o exemplo.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, a moral ensinada não é apenas discursiva; é prática. A caridade não se limita à palavra; manifesta-se na atitude.

3.1 A autoridade do ato

A palavra pode ser contestada; o ato é difícil de refutar.

No campo espiritual, o pensamento e a ação irradiam influência. O exemplo sincero atua além das barreiras do orgulho, porque não acusa nem impõe — inspira.

A psicologia contemporânea confirma que o comportamento observável é mais influente do que o discurso moralizante. Crianças, por exemplo, tendem a reproduzir atitudes, não sermões. Grupos sociais se organizam em torno de modelos práticos, não apenas de ideias abstratas.

3.2 O magnetismo moral

A Doutrina ensina que somos centros emissores e receptores de influências. O equilíbrio interior cria campo de serenidade ao redor.

Num ambiente tenso, a presença de alguém equilibrado pode reorganizar o clima coletivo sem pronunciar uma palavra de repreensão.

Esse fenômeno não é místico no sentido supersticioso; é consequência natural da influência moral. O Espírito, ao agir com retidão, comunica segurança e coerência.

3.3 Lei de sintonia

A palavra pode gerar debate; o exemplo gera sintonia.

O ensinamento do Cristo não se limitou ao discurso. Quando lavou os pés dos discípulos, ensinou humildade por meio do gesto. O ato encerrou qualquer argumentação.

O exemplo silencioso é pedagogia do ser. Ele não exige que o outro esteja pronto para ouvir; planta semente que germinará quando o terreno interior se tornar fértil.

4. A Atualidade da Questão

Em um mundo hiperconectado, onde opiniões são emitidas a todo instante, talvez nunca se tenha falado tanto — e escutado tão pouco.

Nesse contexto, o “silêncio dos bons” pode assumir duas formas:

  • recuo prudente diante do tumulto;
  • retraimento excessivo que deixa espaço para distorções.

O desafio contemporâneo é encontrar o equilíbrio entre:

  • falar quando necessário;
  • agir sempre;
  • silenciar quando a palavra não edifica.

A Doutrina Espírita não convida à passividade, mas à ação moral contínua. Se não houver ouvidos atentos às palavras, que haja olhos atentos às atitudes.

Conclusão

“Muitas vezes os bons se calam porque não há quem os ouça.”

A frase expressa uma realidade, mas não deve ser justificativa para inércia.

A verdadeira força do bem não reside no volume da voz, mas na coerência da vida.

O progresso da humanidade depende menos de discursos eloquentes e mais de consciências ativas. Quando os bons deixam de agir, o mal avança. Quando os bons agem, ainda que em silêncio, o bem se estabelece.

No mundo espiritual, o “fazer” é linguagem mais elevada que o “dizer”. A palavra esclarece a inteligência. O exemplo transforma o sentimento.

E é pelo sentimento transformado que a humanidade progride.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
  • Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • Allan Kardec. Revista Espírita (1858–1869).

 

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