Introdução
Ainda é comum ouvirmos — e até
repetirmos — a afirmação: “Muitas vezes os bons se calam porque não há quem
os ouça.”
À primeira vista, a frase
exprime desalento moral diante de um mundo ruidoso, onde vozes agressivas se
impõem e atitudes levianas parecem conquistar espaço. Contudo, à luz da
Doutrina Espírita — codificada por Allan Kardec e desenvolvida nas obras fundamentais e
na Revista
Espírita — essa
constatação não deve conduzir à resignação passiva, mas a uma reflexão
consciente sobre responsabilidade individual e solidariedade coletiva.
O silêncio dos bons é sempre
virtude? Ou poderá, em determinadas circunstâncias, converter-se em forma sutil
de omissão? A questão é profunda e exige discernimento, pois entre a prudência
e a indiferença há uma linha tênue que apenas a consciência reta consegue
distinguir.
1. A “Fraqueza dos Bons” – Uma Advertência Atual
Em O
Livro dos Espíritos, questão 932, Kardec pergunta por que o mal parece
prevalecer na Terra. A resposta é direta: pela fraqueza dos bons.
Os
Espíritos esclarecem que os maus são audaciosos e ativos, enquanto os bons,
muitas vezes, hesitam. Essa hesitação pode nascer:
- do receio de exposição;
- do medo de críticas;
- da falsa modéstia;
- da crença de que “não adianta falar”.
A
advertência é clara: quando os bons quiserem, prevalecerão.
Essa
observação conserva plena atualidade. Em tempos de comunicação instantânea e
polarizações intensas, as vozes mais estridentes tendem a dominar os espaços
públicos. O silêncio dos ponderados pode parecer irrelevância — mas pode também
significar abdicação de responsabilidade.
A Doutrina
não estimula o confronto agressivo, mas tampouco legitima a indiferença moral.
2. O Silêncio que Educa e o Silêncio que Omit e
É preciso
distinguir dois tipos de silêncio.
2.1 O silêncio prudente
Há momentos em que calar é sabedoria. A Revista Espírita registra
diversas orientações quanto à inutilidade de debates estéreis. Falar a quem não
deseja ouvir pode gerar apenas antagonismo.
O silêncio, nesses casos, é:
·
caridade moral;
·
respeito ao livre-arbítrio;
·
preservação da harmonia.
Nem toda verdade deve ser dita a qualquer momento. A palavra, para ser
útil, exige oportunidade e receptividade.
2.2 O silêncio omisso
Entretanto, há situações em que o silêncio permite que a injustiça
avance. Quando a consciência reconhece o dever de agir e escolhe a inércia por
comodidade ou temor, não se trata de prudência, mas de omissão.
A Doutrina Espírita ensina que somos solidários. A responsabilidade não
é apenas individual, mas coletiva. A omissão diante do mal contribui para sua
permanência.
Assim, o critério é o discernimento:
·
Silenciar por prudência é virtude.
·
Silenciar por medo é fraqueza.
3. O Poder do Exemplo Silencioso
Há, porém,
uma forma superior de expressão: o exemplo.
Em O
Evangelho segundo o Espiritismo, a moral ensinada não é apenas discursiva;
é prática. A caridade não se limita à palavra; manifesta-se na atitude.
3.1 A autoridade do ato
A palavra pode ser contestada; o ato é difícil de refutar.
No campo espiritual, o pensamento e a ação irradiam influência. O
exemplo sincero atua além das barreiras do orgulho, porque não acusa nem impõe
— inspira.
A psicologia contemporânea confirma que o comportamento observável é
mais influente do que o discurso moralizante. Crianças, por exemplo, tendem a
reproduzir atitudes, não sermões. Grupos sociais se organizam em torno de
modelos práticos, não apenas de ideias abstratas.
3.2 O magnetismo moral
A Doutrina ensina que somos centros emissores e receptores de
influências. O equilíbrio interior cria campo de serenidade ao redor.
Num ambiente tenso, a presença de alguém equilibrado pode reorganizar o
clima coletivo sem pronunciar uma palavra de repreensão.
Esse fenômeno não é místico no sentido supersticioso; é consequência
natural da influência moral. O Espírito, ao agir com retidão, comunica
segurança e coerência.
3.3 Lei de sintonia
A palavra pode gerar debate; o exemplo gera sintonia.
O ensinamento do Cristo não se limitou ao discurso. Quando lavou os pés
dos discípulos, ensinou humildade por meio do gesto. O ato encerrou qualquer
argumentação.
O exemplo silencioso é pedagogia do ser. Ele não exige que o outro
esteja pronto para ouvir; planta semente que germinará quando o terreno
interior se tornar fértil.
4. A Atualidade da Questão
Em um mundo
hiperconectado, onde opiniões são emitidas a todo instante, talvez nunca se
tenha falado tanto — e escutado tão pouco.
Nesse
contexto, o “silêncio dos bons” pode assumir duas formas:
- recuo prudente diante do tumulto;
- retraimento excessivo que deixa espaço
para distorções.
O desafio
contemporâneo é encontrar o equilíbrio entre:
- falar quando necessário;
- agir sempre;
- silenciar quando a palavra não edifica.
A Doutrina
Espírita não convida à passividade, mas à ação moral contínua. Se não houver
ouvidos atentos às palavras, que haja olhos atentos às atitudes.
Conclusão
“Muitas vezes os bons se calam porque não há quem os ouça.”
A frase
expressa uma realidade, mas não deve ser justificativa para inércia.
A
verdadeira força do bem não reside no volume da voz, mas na coerência da vida.
O progresso
da humanidade depende menos de discursos eloquentes e mais de consciências
ativas. Quando os bons deixam de agir, o mal avança. Quando os bons agem, ainda
que em silêncio, o bem se estabelece.
No mundo
espiritual, o “fazer” é linguagem mais elevada que o “dizer”. A palavra
esclarece a inteligência. O exemplo transforma o sentimento.
E é pelo
sentimento transformado que a humanidade progride.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. O Evangelho segundo o
Espiritismo.
- Allan Kardec. Revista Espírita
(1858–1869).
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