Em uma época marcada
pela aceleração tecnológica, pela competitividade profissional e pela constante
pressão por resultados, a Humanidade parece viver sob o império da urgência. A
busca por estabilidade financeira, reconhecimento social e segurança material
tornou-se prioridade para muitos. Entretanto, ao lado desse esforço legítimo,
observa-se um fenômeno preocupante: o esquecimento do presente.
A conhecida reflexão
atribuída ao Dalai Lama — título tradicional dos líderes espirituais do budismo
tibetano, cujo significado remete a “oceano de sabedoria” — resume, em poucas
palavras, uma verdade profunda: o ser humano frequentemente perde a saúde para
ganhar dinheiro e depois perde o dinheiro para recuperar a saúde; vive ansioso
pelo futuro, negligencia o presente e, ao final, parte da vida como se não a
tivesse realmente vivido.
À luz da Doutrina
Espírita codificada por Allan Kardec, essa reflexão encontra sólido fundamento
nas leis morais que regem a existência.
A Vida
Corporal e Sua Finalidade
Em O Livro dos
Espíritos, os Espíritos ensinam que a vida corporal é uma etapa necessária
ao progresso do Espírito (questões 132 e seguintes). A existência na Terra não
é um fim em si mesma, mas um meio de aperfeiçoamento intelectual e moral.
O trabalho é apresentado
como lei natural (questão 674). Trabalhar é dever, é instrumento de
desenvolvimento, é cooperação com o progresso coletivo. Contudo, o excesso, o
desequilíbrio e a inversão de valores não fazem parte da Lei Divina.
A obsessão pelo acúmulo
material revela, muitas vezes, insegurança espiritual. Quando o indivíduo
acredita que sua segurança reside exclusivamente nos bens transitórios, acaba
subordinando a saúde, a família e a própria paz interior a objetivos que não o
acompanharão além do túmulo.
A Doutrina Espírita é
clara ao afirmar que o Espírito nada leva da Terra senão as qualidades morais
que adquiriu (questão 1018). O que permanece não é o patrimônio, mas o caráter.
Ansiedade
pelo Futuro e Esquecimento do Presente
A reflexão atribuída ao
Dalai Lama toca em outro ponto essencial: a ansiedade constante em relação ao
futuro.
Em O Evangelho
segundo o Espiritismo, no capítulo que trata das preocupações excessivas,
encontramos a orientação para confiar na Providência Divina, sem, contudo,
abandonar o dever. A prudência é virtude; a inquietação permanente é
desequilíbrio.
A coleção da Revista Espírita apresenta diversos
relatos em que os Espíritos advertiam sobre os perigos do apego exagerado às
questões materiais. A inquietação constante enfraquece o corpo, perturba a
mente e dificulta o discernimento moral.
Dados atuais da
Organização Mundial da Saúde indicam crescimento significativo de transtornos
relacionados ao estresse, ansiedade e doenças cardiovasculares associadas a
estilos de vida desequilibrados. A ciência confirma, sob o prisma biológico,
aquilo que a lei moral já ensinava: o abuso cobra seu preço.
O corpo físico é
instrumento temporário do Espírito. Desprezá-lo é comprometer a própria tarefa
reencarnatória.
A
Família como Campo de Progresso
Muitos adultos dedicam
anos intensos à construção profissional, imaginando assegurar o futuro dos
filhos, mas acabam ausentes nos momentos mais significativos da infância deles.
Quando percebem, os filhos cresceram, os pais envelheceram, e o tempo de convivência
diminuiu.
Segundo O Livro dos
Espíritos (questões 205 e seguintes), os laços de família são oportunidades
de reajuste e aperfeiçoamento. A convivência familiar não é casual; decorre de
compromissos assumidos antes da reencarnação.
Negligenciar esse campo
de experiências é desperdiçar oportunidade de crescimento moral. A verdadeira
herança que se transmite aos filhos não é apenas material, mas sobretudo ética
e afetiva.
Saúde,
Consciência e Transformação Íntima
O texto-base menciona
que o corpo dá sinais. Alterações orgânicas e enfermidades surgem após anos de
desgaste. Sob o ponto de vista espírita, não se trata de punição, mas de
consequência natural.
A lei de causa e efeito
atua tanto no plano moral quanto no físico. O abuso reiterado, o estresse
contínuo, o sono negligenciado e a ausência de lazer comprometem o equilíbrio
orgânico.
Mais importante, porém,
é compreender que a transformação íntima — e não mera reforma superficial —
constitui o verdadeiro caminho de reajuste. Transformar-se é modificar hábitos,
prioridades e atitudes, mantendo a essência espiritual, mas elevando-a.
Em A Gênese,
Kardec esclarece que o progresso moral acompanha o intelectual, ainda que nem
sempre no mesmo ritmo. O avanço tecnológico da sociedade contemporânea exige
correspondente amadurecimento moral, sob pena de ampliarmos apenas as
inquietações.
Equilíbrio:
Lei Natural e Caminho Seguro
Não se trata de condenar
o trabalho ou a legítima busca por estabilidade. O Espiritismo não prega o
abandono das responsabilidades materiais. Pelo contrário: ensina a cumprir o
dever com consciência.
O que se propõe é
equilíbrio.
Equilíbrio entre esforço
e descanso.
Entre ambição saudável e apego excessivo.
Entre planejamento e confiança.
Entre produção e convivência.
A vida corporal é
transitória. Em O Céu e o Inferno, observa-se que, após a desencarnação,
muitos Espíritos lamentam não as oportunidades de enriquecimento material
perdidas, mas os afetos negligenciados e o bem que deixaram de praticar.
Conclusão
A reflexão atribuída ao
Dalai Lama ecoa como advertência oportuna para o homem contemporâneo. Viver
como se nunca fôssemos partir é ilusão; morrer como se nunca tivéssemos vivido
é desperdício.
À luz da Doutrina
Espírita, compreendemos que o verdadeiro êxito consiste em aproveitar a
existência terrena como escola de aperfeiçoamento. Trabalhar, sim. Planejar,
sim. Construir, sim. Mas sem esquecer que o presente é o único tempo
efetivamente disponível para amar, servir e crescer.
Quando chegar o momento
do retorno à pátria espiritual, não nos acompanharão os títulos, as contas
bancárias ou os aplausos sociais. Permanecerão as experiências vividas com
consciência, o bem realizado e os laços de afeto cultivados.
O oceano de sabedoria
não está apenas em palavras inspiradas, mas na aplicação prática das leis
divinas no cotidiano.
Viver em plenitude é
viver com equilíbrio.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo.
- Allan Kardec. A Gênese.
- Allan Kardec. O Céu e o Inferno.
- Revista Espírita (1858–1869).
- Momento Espírita. Oceano de sabedoria. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=3645&stat=0.
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