Introdução
“Não foi Moisés que vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o
verdadeiro pão do céu.” (João 6:31-32)
A afirmação
do Cristo convida à reflexão sobre a origem da vida e das forças que a
sustentam. Se o pão material alimenta o corpo, há um princípio mais profundo
que sustenta a existência: a lei divina que rege o Espírito e a matéria.
Segundo os
ensinos superiores organizados por Allan Kardec, o universo compõe-se de três
elementos fundamentais: Deus, inteligência suprema e causa primária de todas as
coisas; o Espírito, princípio inteligente; e a matéria, elemento passivo sobre
o qual o Espírito atua (O Livro dos Espíritos, q. 1 e 27).
Entre o
Espírito e a matéria existe um elemento intermediário — o fluido universal —
cuja compreensão ilumina os fenômenos da vida, da mediunidade e da própria
organização dos mundos. Longe de ser hipótese mística, trata-se de princípio
racional, que dialoga com a observação e com os avanços científicos atuais,
ainda que sob linguagens diferentes.
1. O Fluido Universal: elo entre o Espírito e a matéria
Na questão
27 de O Livro dos Espíritos, o fluido universal é apresentado como
elemento primitivo do qual derivam as múltiplas formas da matéria. Não é
matéria grosseira, mas substância sutil, presente em toda parte e sujeita a
inúmeras modificações.
A Revista
Espírita (junho de 1858) afirma que esse fluido é o princípio sem o qual a
matéria permaneceria em estado de divisão indefinida. Ele constitui:
- o agente pelo qual o Espírito atua sobre
a matéria;
- o veículo do pensamento;
- a base do perispírito, envoltório
semimaterial do Espírito;
- o elemento que interpenetra os corpos e
os mundos.
Em
linguagem contemporânea, a ciência reconhece que a matéria, em seu nível mais
profundo, é constituída por campos e energias organizadas. A física moderna
descreve um universo permeado por campos fundamentais; a biologia identifica
interações elétricas e bioquímicas que sustentam a vida. Embora não empregue o
vocabulário espírita, a investigação atual confirma que a realidade não se
limita ao visível e ao tangível.
A Doutrina
não antecipa teorias científicas específicas, mas afirma um princípio: há uma
substância sutil que serve de intermediária entre pensamento e forma.
2. O Fluido Vital: modificação para a vida orgânica
Entre as
modificações do fluido universal está o fluido vital, também chamado de fluido
elétrico animalizado (O Livro dos Espíritos, q. 65). Ele é o agente que
anima os corpos orgânicos.
Suas
características principais:
- Está presente em todos os seres vivos —
plantas, animais e seres humanos;
- Pode ser transmitido de um organismo a
outro;
- Varia em quantidade e qualidade conforme
a espécie e o indivíduo;
- Pode esgotar-se, sendo renovado pela
alimentação, respiração e repouso.
A vida
orgânica depende de delicado equilíbrio energético. A medicina atual reconhece
que processos elétricos e bioquímicos sustentam a atividade celular; alterações
nesses processos resultam em enfermidade. Sob a ótica espírita, tais
manifestações correspondem à ação e à circulação do fluido vital nos
organismos.
3. O Princípio Vital: a força motriz
Importa
distinguir o fluido vital do princípio vital. Este último é a força motriz que
anima a matéria organizada. Sem ele, não há vida. “Sem o princípio vital,
nada viveria” (O Livro dos Espíritos, q. 70).
Kardec
compara o corpo a uma máquina:
- O corpo é o mecanismo;
- O princípio vital é a força que o põe em
funcionamento;
- O Espírito é o ser pensante que dirige
esse mecanismo.
Uma planta
possui princípio vital — está viva — mas não possui Espírito individualizado
como o ser humano. O princípio vital não pensa; ele apenas anima os corpos, que
funcionam como instrumentos de ação material do princípio inteligente.
Com a
morte, quando os órgãos deixam de assimilar e distribuir o fluido vital, a
força motriz cessa e o corpo retorna ao estado inerte. O princípio vital
reintegra-se à massa universal de onde fora extraído.
4. Transmissão fluídica e magnetismo
Os estudos
publicados na Revista Espírita em 1858 estabeleceram as bases racionais
do magnetismo. O fluido vital pode ser transmitido por um indivíduo a outro,
mediante a vontade.
O mecanismo
envolve:
- Um doador, que projeta seu fluido;
- Um receptor, que apresenta carência ou
desarmonia;
- A vontade, que impulsiona e direciona o
fluido;
- O perispírito, que serve de condutor.
A
transmissão pode ocorrer sob três formas, conforme descrito em A Gênese:
- Magnetismo humano – uso do próprio fluido vital;
- Magnetismo espiritual – ação direta dos Espíritos;
- Magnetismo misto – cooperação entre encarnado e desencarnado.
O chamado
passe espiritual enquadra-se geralmente na terceira categoria. A vontade reta e
o sentimento elevado qualificam o fluido, pois o pensamento lhe imprime direção
e natureza.
Não se
trata de milagre, mas de aplicação de leis naturais ainda pouco compreendidas
em sua totalidade.
5. Atualidade do estudo dos fluidos
Vivemos uma
época em que a ciência investiga profundamente os campos bioelétricos do
organismo, a influência do estado mental na saúde e as interações mente-corpo.
Estudos em neurociência e psiconeuroimunologia demonstram que pensamentos e
emoções afetam diretamente o funcionamento orgânico.
Embora
esses campos utilizem metodologia própria, a convergência é evidente: a vida
não é mero fenômeno mecânico isolado; há interações sutis entre energia,
organização biológica e atividade mental.
A Doutrina
Espírita acrescenta que o pensamento é força real, atuando sobre o fluido
universal e repercutindo no organismo e no meio ambiente. Assim se compreende
por que a educação moral é também medida de saúde individual e coletiva.
6. O verdadeiro pão do céu
Se o fluido
vital sustenta o corpo, o ensinamento moral sustenta o Espírito. O “pão do céu”
ao qual o Cristo se refere não é apenas alimento físico, mas a verdade que
esclarece e fortalece interiormente.
O estudo
das leis fluídicas demonstra que:
- A vida é solidariedade universal;
- O Espírito age sobre a matéria por
intermédio de leis precisas;
- A vontade e o pensamento são forças
atuantes;
- A caridade é aplicação consciente dessas
leis.
Compreender
os fluidos não é curiosidade teórica, mas convite à responsabilidade. Cada
pensamento modifica o ambiente fluídico que nos envolve. Cada ato interfere na
harmonia geral.
Conclusão
A análise
do fluido universal, do fluido vital e do princípio vital revela a unidade das
leis que regem o universo. Espírito e matéria não são domínios isolados;
interagem por intermédio de elemento comum, obedecendo à ordem divina.
O
verdadeiro alimento espiritual consiste no conhecimento dessas leis e na sua
aplicação moral. Quando o ser humano aprende a agir em harmonia com elas,
compreende que a vida não é acaso, mas expressão de inteligência superior.
Estudar
esses princípios é aprofundar a compreensão da criação e assumir, com lucidez,
o dever de cooperar com ela.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. A Gênese.
- Allan Kardec. Revista Espírita.
- Bíblia — Evangelho de João, cap. 6, versículos 31–32.
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