sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

OPORTUNIDADE E MERECIMENTO
A CORRESPONSABILIDADE ENTRE DEUS E O ESPÍRITO
- A Era do Espírito -

Introdução

“A todo momento Deus proporciona um minuto, uma hora, um dia maravilhoso pleno de oportunidades e cheinho de bênçãos; somos nós que devemos aproveitar cada oportunidade para merecer Suas bênçãos.”

Como compreender essa afirmação à luz da Doutrina Espírita?

Longe de propor uma visão mística ou fatalista, a Doutrina codificada por Allan Kardec apresenta uma concepção racional da relação entre Deus e o ser humano. Deus, inteligência suprema e causa primária de todas as coisas (cf. O Livro dos Espíritos, questão 1), estabelece leis sábias e justas que regem o universo. O Espírito, por sua vez, é chamado a progredir mediante o uso consciente do livre-arbítrio.

A frase em análise traduz, em linguagem simples, um princípio profundo: a corresponsabilidade entre a Providência Divina e a ação humana.

1. A Abundância como Estado das Leis Divinas

Na visão espírita, Deus não distribui favores arbitrariamente. Ele instituiu leis universais que operam com regularidade e justiça. Entre elas, destaca-se a Lei de Progresso, que garante a todos os Espíritos oportunidades contínuas de crescimento intelectual e moral.

Em A Gênese, Kardec demonstra que a criação não é estática; ela evolui. A Terra passa por transformações físicas e morais. A humanidade, por sua vez, atravessa períodos de transição. Mesmo diante das crises contemporâneas — conflitos armados, desafios ambientais, polarizações sociais — observamos avanços significativos na ciência, nos direitos humanos e na consciência coletiva.

Esses contrastes indicam que as oportunidades não cessam. Elas se renovam conforme as necessidades evolutivas. A abundância divina não é ausência de dificuldades, mas oferta permanente de meios para superá-las.

Na Revista Espírita (1858–1869), Kardec frequentemente destacou que as provas e expiações são instrumentos de progresso. Assim, aquilo que à primeira vista parece escassez pode ser, na realidade, recurso educativo.

2. O Papel da Percepção: Ver as Bênçãos nas Leis Naturais

A Doutrina Espírita ensina que o Espírito encarnado encontra-se sob influência da matéria, o que pode obscurecer sua visão espiritual. O apego ao imediato, ao material e ao ego pode dificultar a percepção das oportunidades que se apresentam.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ao comentar “Buscai e achareis”, Kardec explica que o esforço e a vigilância são condições essenciais para a conquista do bem. A bênção, muitas vezes, já está presente — na saúde relativa, na possibilidade de trabalho, na convivência familiar, na chance de reparar erros do passado — mas passa despercebida por falta de reflexão.

Perceber é um ato moral. A gratidão amplia a consciência; a queixa constante a estreita. Assim, a percepção não cria a bênção, mas permite reconhecê-la e utilizá-la.

3. Merecimento como Alinhamento às Leis

O termo “merecer” pode sugerir uma troca comercial com o divino, como se Deus recompensasse caprichosamente alguns e negasse a outros. A Doutrina Espírita rejeita essa ideia.

Deus não privilegia nem pune arbitrariamente. O que existe é a ação das leis naturais. Quando o Espírito age em conformidade com a Lei de Justiça, Amor e Caridade, ele se harmoniza com essas leis e colhe seus efeitos naturais.

Em O Livro dos Espíritos (questões 258 e seguintes), os Espíritos ensinam que escolhemos, antes de reencarnar, determinadas provas necessárias ao nosso adiantamento. O “merecimento”, portanto, não é prêmio externo, mas resultado do esforço interior.

A bênção não é favor: é consequência. O sofrimento não é castigo: é efeito educativo ou reparador.

Assim, “merecer” significa tornar-se receptivo, moralmente apto a usufruir das oportunidades oferecidas.

4. Protagonismo Espiritual e Livre-Arbítrio

A frase analisada enfatiza: “somos nós que devemos aproveitar”. Aqui reside um ponto central da Doutrina Espírita: o protagonismo do Espírito.

O livre-arbítrio é condição essencial do progresso. Sem liberdade de escolha, não haveria responsabilidade moral. Kardec demonstra, na Revista Espírita, que mesmo sob influências espirituais, o ser humano conserva a capacidade de decidir.

Não se trata de esperar milagres externos. A transformação íntima — expressão mais adequada do que “reforma”, pois implica mudança de forma moral mantendo a essência espiritual — exige ação contínua: vigilância sobre pensamentos, disciplina nas atitudes, cultivo da caridade.

Deus concede o tempo. O Espírito decide como utilizá-lo.

Cada minuto pode ser oportunidade de crescimento ou de estagnação. A diferença está na escolha consciente.

5. Oportunidade como Lei de Progresso

Vivemos, segundo os ensinamentos espíritas, um período de transição planetária. As crises atuais não anulam a ação da Providência; antes, revelam a necessidade de amadurecimento coletivo.

A Lei de Progresso atua tanto no indivíduo quanto na sociedade. Avanços científicos ampliam a comunicação global; desafios ambientais despertam consciência ecológica; tensões sociais exigem diálogo e responsabilidade.

Sob essa perspectiva, cada circunstância histórica contém oportunidades educativas. A bênção pode estar oculta na própria dificuldade, convidando ao desenvolvimento da tolerância, da solidariedade e do senso de justiça.

Conclusão

A frase inicial sintetiza, de modo simples, um princípio profundo da Doutrina Espírita:

  • Deus estabelece leis perfeitas e oferece continuamente oportunidades de progresso.
  • O Espírito, dotado de livre-arbítrio, escolhe aproveitá-las ou não.
  • O merecimento não é privilégio, mas consequência natural da harmonização com as leis divinas.
  • A bênção é permanente; o aproveitamento depende de nós.

A oportunidade é o dom constante da Providência. O aproveitamento é a resposta consciente do Espírito.

Entre ambos, constrói-se a evolução.

Referências

  • O Livro dos Espíritos – Allan Kardec.
  • O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec.
  • A Gênese – Allan Kardec.
  • Revista Espírita – Direção de Allan Kardec.
  • A Caminho da Luz – Emmanuel (psicografia de Francisco Cândido Xavier).
  • Evolução em Dois Mundos – André Luiz (psicografia de Francisco Cândido Xavier).

 

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