Introdução
“A todo momento Deus proporciona um minuto, uma
hora, um dia maravilhoso pleno de oportunidades e cheinho de bênçãos; somos nós
que devemos aproveitar cada oportunidade para merecer Suas bênçãos.”
Como compreender essa
afirmação à luz da Doutrina Espírita?
Longe de propor uma
visão mística ou fatalista, a Doutrina codificada por Allan Kardec apresenta
uma concepção racional da relação entre Deus e o ser humano. Deus, inteligência
suprema e causa primária de todas as coisas (cf. O Livro dos Espíritos,
questão 1), estabelece leis sábias e justas que regem o universo. O Espírito,
por sua vez, é chamado a progredir mediante o uso consciente do livre-arbítrio.
A frase em análise
traduz, em linguagem simples, um princípio profundo: a corresponsabilidade
entre a Providência Divina e a ação humana.
1. A
Abundância como Estado das Leis Divinas
Na visão espírita, Deus
não distribui favores arbitrariamente. Ele instituiu leis universais que operam
com regularidade e justiça. Entre elas, destaca-se a Lei de Progresso, que
garante a todos os Espíritos oportunidades contínuas de crescimento intelectual
e moral.
Em A Gênese,
Kardec demonstra que a criação não é estática; ela evolui. A Terra passa por
transformações físicas e morais. A humanidade, por sua vez, atravessa períodos
de transição. Mesmo diante das crises contemporâneas — conflitos armados,
desafios ambientais, polarizações sociais — observamos avanços significativos
na ciência, nos direitos humanos e na consciência coletiva.
Esses contrastes indicam
que as oportunidades não cessam. Elas se renovam conforme as necessidades
evolutivas. A abundância divina não é ausência de dificuldades, mas oferta
permanente de meios para superá-las.
Na Revista Espírita
(1858–1869), Kardec frequentemente destacou que as provas e expiações são
instrumentos de progresso. Assim, aquilo que à primeira vista parece escassez
pode ser, na realidade, recurso educativo.
2. O
Papel da Percepção: Ver as Bênçãos nas Leis Naturais
A Doutrina Espírita
ensina que o Espírito encarnado encontra-se sob influência da matéria, o que
pode obscurecer sua visão espiritual. O apego ao imediato, ao material e ao ego
pode dificultar a percepção das oportunidades que se apresentam.
Em O Evangelho
Segundo o Espiritismo, ao comentar “Buscai e achareis”, Kardec explica que
o esforço e a vigilância são condições essenciais para a conquista do bem. A
bênção, muitas vezes, já está presente — na saúde relativa, na possibilidade de
trabalho, na convivência familiar, na chance de reparar erros do passado — mas
passa despercebida por falta de reflexão.
Perceber é um ato moral.
A gratidão amplia a consciência; a queixa constante a estreita. Assim, a
percepção não cria a bênção, mas permite reconhecê-la e utilizá-la.
3.
Merecimento como Alinhamento às Leis
O termo “merecer” pode
sugerir uma troca comercial com o divino, como se Deus recompensasse
caprichosamente alguns e negasse a outros. A Doutrina Espírita rejeita essa
ideia.
Deus não privilegia nem
pune arbitrariamente. O que existe é a ação das leis naturais. Quando o
Espírito age em conformidade com a Lei de Justiça, Amor e Caridade, ele se
harmoniza com essas leis e colhe seus efeitos naturais.
Em O Livro dos
Espíritos (questões 258 e seguintes), os Espíritos ensinam que escolhemos,
antes de reencarnar, determinadas provas necessárias ao nosso adiantamento. O
“merecimento”, portanto, não é prêmio externo, mas resultado do esforço
interior.
A bênção não é favor: é
consequência. O sofrimento não é castigo: é efeito educativo ou reparador.
Assim, “merecer”
significa tornar-se receptivo, moralmente apto a usufruir das oportunidades
oferecidas.
4.
Protagonismo Espiritual e Livre-Arbítrio
A frase analisada
enfatiza: “somos nós que devemos
aproveitar”. Aqui reside um ponto central da Doutrina Espírita: o
protagonismo do Espírito.
O livre-arbítrio é
condição essencial do progresso. Sem liberdade de escolha, não haveria
responsabilidade moral. Kardec demonstra, na Revista Espírita, que mesmo
sob influências espirituais, o ser humano conserva a capacidade de decidir.
Não se trata de esperar
milagres externos. A transformação íntima — expressão mais adequada do que
“reforma”, pois implica mudança de forma moral mantendo a essência espiritual —
exige ação contínua: vigilância sobre pensamentos, disciplina nas atitudes,
cultivo da caridade.
Deus concede o tempo. O
Espírito decide como utilizá-lo.
Cada minuto pode ser
oportunidade de crescimento ou de estagnação. A diferença está na escolha
consciente.
5.
Oportunidade como Lei de Progresso
Vivemos, segundo os
ensinamentos espíritas, um período de transição planetária. As crises atuais
não anulam a ação da Providência; antes, revelam a necessidade de
amadurecimento coletivo.
A Lei de Progresso atua
tanto no indivíduo quanto na sociedade. Avanços científicos ampliam a
comunicação global; desafios ambientais despertam consciência ecológica;
tensões sociais exigem diálogo e responsabilidade.
Sob essa perspectiva,
cada circunstância histórica contém oportunidades educativas. A bênção pode
estar oculta na própria dificuldade, convidando ao desenvolvimento da
tolerância, da solidariedade e do senso de justiça.
Conclusão
A frase inicial
sintetiza, de modo simples, um princípio profundo da Doutrina Espírita:
- Deus
estabelece leis perfeitas e oferece continuamente oportunidades de
progresso.
- O
Espírito, dotado de livre-arbítrio, escolhe aproveitá-las ou não.
- O
merecimento não é privilégio, mas consequência natural da harmonização com
as leis divinas.
- A
bênção é permanente; o aproveitamento depende de nós.
A oportunidade é o dom constante da Providência. O aproveitamento é a resposta consciente
do Espírito.
Entre ambos, constrói-se a evolução.
Referências
- O
Livro dos Espíritos – Allan Kardec.
- O
Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec.
- A
Gênese – Allan Kardec.
- Revista
Espírita – Direção de Allan Kardec.
- A
Caminho da Luz – Emmanuel (psicografia de Francisco Cândido Xavier).
- Evolução
em Dois Mundos – André Luiz (psicografia de Francisco Cândido Xavier).
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