Introdução
Vivemos
numa época em que o valor das ações costuma ser medido pela quantidade, pela
visibilidade e pelo impacto imediato. Entretanto, a experiência moral da
humanidade demonstra que nem sempre o “muito” é sinônimo de grandeza, assim
como o “pouco” não significa insignificância.
À luz da
Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, aprendemos que o valor real das
ações humanas está na intenção, no esforço e na renúncia que as acompanham. A
medida moral não é exterior, mas interior. É nesse contexto que se pode
compreender a profunda lição do Evangelho: o pouco, quando oferecido com amor e
boa vontade, pode tornar-se muito diante das Leis Divinas.
O muito com negligência × o pouco com boa vontade
O mundo
valoriza o muito: muitos recursos, muito tempo, muitas palavras, muitos gestos
grandiosos. Porém, quando tais recursos são empregados com negligência, orgulho
ou indiferença, perdem seu valor espiritual.
Quantas
vezes alguém dispõe de abundância material, intelectual ou afetiva e, no
entanto, oferece apenas o supérfluo — aquilo que não lhe exige esforço, nem
sacrifício?
Em
contraste, há quem possua pouco: pouco dinheiro, pouco tempo, pouca instrução,
pouca saúde. Ainda assim, entrega o que tem com sinceridade e dedicação. Esse
gesto, aparentemente pequeno, adquire proporções espirituais imensas.
No capítulo
XIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Que a mão esquerda não
saiba o que faz a direita”, Kardec analisa o verdadeiro sentido da
caridade. Não é o valor material da oferta que pesa na balança divina, mas a
intenção e o sacrifício. Dar do que sobra é fácil; dar do que faz falta é
grandeza moral.
“Ela deu do que lhe faz falta”
A lição
evangélica da viúva pobre sintetiza essa verdade:
“Ela deu do que lhe faz falta, deu mesmo tudo que tinha.”
O ensino
evoca também a sabedoria antiga:
“Melhor é o pouco com justiça do que grandes rendas com injustiça.”
(Provérbios 16:8)
O pouco com
retidão, esforço e pureza de intenção vale mais que o muito desprovido de
sentimento.
A Doutrina
Espírita esclarece que Deus não avalia as aparências, mas as disposições
íntimas do Espírito. A viúva não ofereceu apenas moedas; ofereceu confiança,
desapego e fé. Seu gesto foi total dentro de suas possibilidades.
Valorizar os recursos disponíveis
Frequentemente
adiamos o bem sob o pretexto de que “ainda não temos o suficiente”:
- Quando eu tiver mais tempo, ajudarei.
- Quando eu tiver mais dinheiro,
colaborarei.
- Quando eu souber mais, ensinarei.
Entretanto,
a Lei do Progresso nos convida a agir com os recursos atuais. O pouco de hoje,
aplicado com boa vontade, prepara o muito de amanhã.
O Espírito
Emmanuel, na lição “Coisas mínimas”, recorda que são os pequenos deveres
diários que sustentam as grandes realizações. O esforço perseverante transforma
recursos modestos em instrumentos de crescimento.
A própria
história do Cristianismo é testemunho disso. Jesus, com reduzido tempo de
ministério público — cerca de três anos —, sem poder político ou recursos
materiais, lançou as bases de uma transformação moral que atravessa séculos. O
que possuía? Palavra, exemplo e amor. O pouco, humanamente falando; o infinito,
espiritualmente considerado.
O prêmio ao sacrifício
Na obra Alvorada
Cristã, o Espírito Neio Lúcio apresenta a tocante narrativa “Prêmio ao
sacrifício”, na qual o gesto humilde e aparentemente insignificante revela-se
precioso aos olhos do Alto. A história demonstra que o sacrifício sincero nunca
passa despercebido.
Segundo
ensina a Codificação, toda renúncia realizada com desinteresse é crédito moral
acumulado. A Lei Divina registra não o montante exterior, mas o grau de
desprendimento.
Assim, o
pouco oferecido com amor pode equivaler a um tesouro espiritual.
O muito que nada constrói
Por outro
lado, o muito com negligência pode nada produzir. Recursos abundantes, quando
mal empregados, convertem-se em desperdício moral.
A Doutrina
Espírita ensina que todos somos administradores dos bens que recebemos — sejam
materiais, intelectuais ou afetivos. A responsabilidade cresce com a
capacidade. O muito exige vigilância; o pouco exige coragem.
Se
negligenciamos o muito, comprometemos nossa própria evolução. Se valorizamos o
pouco, ampliamos nossas possibilidades futuras.
Comece hoje
A vida
espiritual não se constrói em saltos espetaculares, mas em passos constantes.
Pequenos atos repetidos moldam o caráter.
Um gesto de
paciência.
Uma palavra de incentivo.
Uma moeda partilhada.
Um momento de escuta.
São
sementes discretas que, sob a Lei de Causa e Efeito, frutificam no tempo
oportuno.
A Revista
Espírita, ao longo de sua publicação (1858–1869), reiterou que a verdadeira
transformação do mundo começa na transformação moral do indivíduo. E essa
transformação inicia-se com o aproveitamento fiel das oportunidades simples.
Conclusão
Quando o
pouco é oferecido com boa vontade, torna-se muito perante as Leis Divinas.
Quando o muito é dado com negligência, torna-se pouco ou nada.
A grandeza
espiritual não está na quantidade do que fazemos, mas na qualidade moral que
imprimimos às nossas ações.
Cada um de
nós possui algo a oferecer — ainda que modesto. Se aplicado com amor, interesse
e esforço sincero, esse “pouco” pode contribuir para a renovação pessoal e
coletiva.
Assim, não
esperemos circunstâncias ideais. Comecemos hoje, com o que temos, onde estamos.
Porque, na
economia divina, o pouco com boa vontade é sempre muito.
Referências
- Bíblia Sagrada. Provérbios 16:8.
- O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Capítulo XIII, itens 5 e 6.
- Allan Kardec. Revista Espírita
(1858–1869).
- Caminho, Verdade e Vida. Lição “Coisas
mínimas”.
- Alvorada Cristã. “Prêmio ao sacrifício”.
- Emmanuel. Instrumentos do Tempo.
- Espíritos diversos. Caridade.
- Kelvin Van Dine. Técnica de viver.
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