Introdução
A partir da
segunda metade da década de 2010, especialmente no período pré-eleitoral de
2017 em diante, o Brasil passou a vivenciar um processo intenso de polarização
política. O debate público foi gradativamente substituído por antagonismos
passionais, nos quais “direita” e “esquerda” deixaram de ser posições políticas
para se tornarem identidades emocionais. Nesse contexto, líderes
políticos passaram a ser idealizados como salvadores, famílias se dividiram,
amizades foram rompidas e qualquer apelo ao equilíbrio passou a ser
interpretado como ameaça ou traição.
À luz da
Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e dos estudos constantes da Revista
Espírita, esse fenômeno não pode ser compreendido apenas como crise
política, mas como crise moral e de consciência, intimamente ligada ao
esquecimento das Leis Morais que regem a vida individual e coletiva.
1. A leitura psicológica do fenômeno: identidade, medo e tribalismo
A
psicologia social contemporânea descreve a polarização como um mecanismo de
defesa do ego em tempos de incerteza. O indivíduo, inseguro quanto ao futuro,
busca pertencimento em grupos ideológicos, passando a definir a própria
identidade a partir deles. O “eu” cede lugar ao “nós contra eles”.
Nesse
processo, instala-se a dissonância cognitiva: informações que reforçam a
crença do grupo são aceitas sem exame crítico, enquanto fatos que a contradizem
são rejeitados com hostilidade. As redes sociais, por meio de algoritmos de
engajamento, intensificam esse quadro ao criar bolhas de opinião que eliminam o
contraditório e transformam o outro em inimigo moral.
2. Economia da atenção e radicalização emocional
Especialistas
em comportamento digital apontam que o conflito gera mais visibilidade do que a
ponderação. O discurso agressivo circula mais rapidamente, provoca reações
emocionais intensas e mantém o indivíduo conectado por mais tempo. A
polarização torna-se, assim, economicamente vantajosa para plataformas e meios
de comunicação que vivem da atenção contínua do público.
Esse
ambiente favorece a radicalização, pois o equilíbrio não engaja, enquanto o
escândalo, o medo e a indignação alimentam o ciclo de consumo emocional.
3. A análise espiritual: o esquecimento da consciência
A Doutrina
Espírita oferece uma chave mais profunda de compreensão ao afirmar que a Lei
de Deus está inscrita na consciência (O Livro dos Espíritos, questão
621). No entanto, as questões seguintes esclarecem que o homem a esquece ou
obscurece sob a influência das paixões.
O
endeusamento de figuras políticas pode ser compreendido, do ponto de vista
espiritual, como uma forma moderna de idolatria: transfere-se a homens falíveis
a expectativa de salvação coletiva. Esse deslocamento de responsabilidade
fragiliza o senso moral individual e favorece estados de exaltação emocional
que muitos estudiosos espíritas identificam como obsessão coletiva,
caracterizada pela sintonia com ideias de ódio, divisão e intolerância.
4. A ausência do “meio” e a rejeição do equilíbrio
Em cenários
polarizados, a moderação passa a ser vista como ameaça. O “meio” exige nuance,
autocrítica e renúncia ao orgulho, elementos incompatíveis com o fanatismo. Por
isso, quem apela ao diálogo é frequentemente atacado por ambos os extremos,
pois não reforça a lógica binária do conflito.
5. As Leis Morais como instrumentos de saúde mental e equilíbrio
familiar
As Leis
Morais apresentadas em O Livro dos Espíritos oferecem critérios práticos
para atravessar esse período sem adoecer emocionalmente nem destruir vínculos
afetivos:
Lei de Sociedade e de Amor
A ruptura de laços familiares por divergência política contraria a lei natural.
Quando o debate ameaça o afeto, o silêncio respeitoso é, muitas vezes, a forma
mais elevada de caridade.
Lei de Liberdade
A liberdade de consciência é direito inalienável. Ninguém tem a missão de
converter o outro à força. Aceitar o livre-arbítrio alheio preserva a própria
saúde mental.
Lei de Justiça, Amor e Caridade
Antes de falar ou publicar algo, convém perguntar se gostaríamos de receber o
mesmo tratamento. A caridade, aqui, manifesta-se como benevolência e
indulgência.
Lei de Perfeição Moral
O verdadeiro progresso não se mede pelo discurso, mas pelo esforço de dominar
as más inclinações. A irritação constante é sinal de que o orgulho foi tocado.
6. Por que o conhecimento espírita nem sempre imuniza contra o
fanatismo?
A
Codificação esclarece que conhecer a lei não significa vivê-la. Há uma
diferença essencial entre compreensão intelectual e transformação
moral. É possível discorrer com propriedade sobre a Lei de Amor e, ao mesmo
tempo, reagir com agressividade diante de opiniões contrárias.
Além disso,
o conhecimento doutrinário não funciona como escudo automático contra
influências espirituais. O que protege o indivíduo é a sintonia moral.
Quando alguém cultiva sarcasmo, ódio ou desejo de humilhar o outro, abre-se às
mesmas faixas de pensamento, independentemente do rótulo religioso que adote.
7. Instituições e indivíduos: responsabilidades compartilhadas
As
instituições espíritas refletem, em parte, o nível moral de seus membros.
Quando priorizam apenas a transmissão teórica, sem promover vivência fraterna
real, tornam-se frágeis diante das paixões coletivas. Por outro lado,
transferir toda a responsabilidade à instituição é fuga do dever individual.
A Doutrina
convida cada consciência ao autoexame contínuo, conforme a questão 919-a de O
Livro dos Espíritos, lembrando que o progresso é operacional, não apenas
informativo.
8. Um exercício prático de preservação da sintonia
Inspirado
no autoexame moral, pode-se adotar três filtros antes de falar ou reagir:
- Pausa consciente – interromper o impulso imediato e respirar.
- Exame da intenção – perguntar se o objetivo é esclarecer ou vencer.
- Filtro da utilidade moral – avaliar se as palavras constroem ou apenas ferem.
Se não
houver benevolência, indulgência e respeito, o silêncio costuma ser a opção
mais saudável.
Conclusão
A
polarização política contemporânea revela menos uma crise de sistemas e mais
uma crise de consciência. À luz da Doutrina Espírita, trata-se de um momento de
prova coletiva, no qual se avalia a capacidade do indivíduo de permanecer fiel
às Leis Morais em meio à exaltação das paixões.
A paz
íntima, o equilíbrio familiar e a saúde mental não dependem da vitória de um
grupo, mas do esforço diário de cada consciência em colocar o amor acima da
ideologia, a fraternidade acima da razão orgulhosa e a confiança nas leis
divinas acima do medo do futuro.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
Paris, 1857.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o
Espiritismo. Paris, 1864.
- KARDEC, Allan. A Gênese. Paris,
1868.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita
(1858–1869).
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