segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

POLARIZAÇÃO POLÍTICA, CONSCIÊNCIA E LEIS MORAIS
UMA LEITURA ESPÍRITA DO NOSSO TEMPO
- A Era do Espírito -

Introdução

A partir da segunda metade da década de 2010, especialmente no período pré-eleitoral de 2017 em diante, o Brasil passou a vivenciar um processo intenso de polarização política. O debate público foi gradativamente substituído por antagonismos passionais, nos quais “direita” e “esquerda” deixaram de ser posições políticas para se tornarem identidades emocionais. Nesse contexto, líderes políticos passaram a ser idealizados como salvadores, famílias se dividiram, amizades foram rompidas e qualquer apelo ao equilíbrio passou a ser interpretado como ameaça ou traição.

À luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e dos estudos constantes da Revista Espírita, esse fenômeno não pode ser compreendido apenas como crise política, mas como crise moral e de consciência, intimamente ligada ao esquecimento das Leis Morais que regem a vida individual e coletiva.

1. A leitura psicológica do fenômeno: identidade, medo e tribalismo

A psicologia social contemporânea descreve a polarização como um mecanismo de defesa do ego em tempos de incerteza. O indivíduo, inseguro quanto ao futuro, busca pertencimento em grupos ideológicos, passando a definir a própria identidade a partir deles. O “eu” cede lugar ao “nós contra eles”.

Nesse processo, instala-se a dissonância cognitiva: informações que reforçam a crença do grupo são aceitas sem exame crítico, enquanto fatos que a contradizem são rejeitados com hostilidade. As redes sociais, por meio de algoritmos de engajamento, intensificam esse quadro ao criar bolhas de opinião que eliminam o contraditório e transformam o outro em inimigo moral.

2. Economia da atenção e radicalização emocional

Especialistas em comportamento digital apontam que o conflito gera mais visibilidade do que a ponderação. O discurso agressivo circula mais rapidamente, provoca reações emocionais intensas e mantém o indivíduo conectado por mais tempo. A polarização torna-se, assim, economicamente vantajosa para plataformas e meios de comunicação que vivem da atenção contínua do público.

Esse ambiente favorece a radicalização, pois o equilíbrio não engaja, enquanto o escândalo, o medo e a indignação alimentam o ciclo de consumo emocional.

3. A análise espiritual: o esquecimento da consciência

A Doutrina Espírita oferece uma chave mais profunda de compreensão ao afirmar que a Lei de Deus está inscrita na consciência (O Livro dos Espíritos, questão 621). No entanto, as questões seguintes esclarecem que o homem a esquece ou obscurece sob a influência das paixões.

O endeusamento de figuras políticas pode ser compreendido, do ponto de vista espiritual, como uma forma moderna de idolatria: transfere-se a homens falíveis a expectativa de salvação coletiva. Esse deslocamento de responsabilidade fragiliza o senso moral individual e favorece estados de exaltação emocional que muitos estudiosos espíritas identificam como obsessão coletiva, caracterizada pela sintonia com ideias de ódio, divisão e intolerância.

4. A ausência do “meio” e a rejeição do equilíbrio

Em cenários polarizados, a moderação passa a ser vista como ameaça. O “meio” exige nuance, autocrítica e renúncia ao orgulho, elementos incompatíveis com o fanatismo. Por isso, quem apela ao diálogo é frequentemente atacado por ambos os extremos, pois não reforça a lógica binária do conflito.

5. As Leis Morais como instrumentos de saúde mental e equilíbrio familiar

As Leis Morais apresentadas em O Livro dos Espíritos oferecem critérios práticos para atravessar esse período sem adoecer emocionalmente nem destruir vínculos afetivos:

Lei de Sociedade e de Amor
A ruptura de laços familiares por divergência política contraria a lei natural. Quando o debate ameaça o afeto, o silêncio respeitoso é, muitas vezes, a forma mais elevada de caridade.

Lei de Liberdade
A liberdade de consciência é direito inalienável. Ninguém tem a missão de converter o outro à força. Aceitar o livre-arbítrio alheio preserva a própria saúde mental.

Lei de Justiça, Amor e Caridade
Antes de falar ou publicar algo, convém perguntar se gostaríamos de receber o mesmo tratamento. A caridade, aqui, manifesta-se como benevolência e indulgência.

Lei de Perfeição Moral
O verdadeiro progresso não se mede pelo discurso, mas pelo esforço de dominar as más inclinações. A irritação constante é sinal de que o orgulho foi tocado.

6. Por que o conhecimento espírita nem sempre imuniza contra o fanatismo?

A Codificação esclarece que conhecer a lei não significa vivê-la. Há uma diferença essencial entre compreensão intelectual e transformação moral. É possível discorrer com propriedade sobre a Lei de Amor e, ao mesmo tempo, reagir com agressividade diante de opiniões contrárias.

Além disso, o conhecimento doutrinário não funciona como escudo automático contra influências espirituais. O que protege o indivíduo é a sintonia moral. Quando alguém cultiva sarcasmo, ódio ou desejo de humilhar o outro, abre-se às mesmas faixas de pensamento, independentemente do rótulo religioso que adote.

7. Instituições e indivíduos: responsabilidades compartilhadas

As instituições espíritas refletem, em parte, o nível moral de seus membros. Quando priorizam apenas a transmissão teórica, sem promover vivência fraterna real, tornam-se frágeis diante das paixões coletivas. Por outro lado, transferir toda a responsabilidade à instituição é fuga do dever individual.

A Doutrina convida cada consciência ao autoexame contínuo, conforme a questão 919-a de O Livro dos Espíritos, lembrando que o progresso é operacional, não apenas informativo.

8. Um exercício prático de preservação da sintonia

Inspirado no autoexame moral, pode-se adotar três filtros antes de falar ou reagir:

  1. Pausa consciente – interromper o impulso imediato e respirar.
  2. Exame da intenção – perguntar se o objetivo é esclarecer ou vencer.
  3. Filtro da utilidade moral – avaliar se as palavras constroem ou apenas ferem.

Se não houver benevolência, indulgência e respeito, o silêncio costuma ser a opção mais saudável.

Conclusão

A polarização política contemporânea revela menos uma crise de sistemas e mais uma crise de consciência. À luz da Doutrina Espírita, trata-se de um momento de prova coletiva, no qual se avalia a capacidade do indivíduo de permanecer fiel às Leis Morais em meio à exaltação das paixões.

A paz íntima, o equilíbrio familiar e a saúde mental não dependem da vitória de um grupo, mas do esforço diário de cada consciência em colocar o amor acima da ideologia, a fraternidade acima da razão orgulhosa e a confiança nas leis divinas acima do medo do futuro.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris, 1857.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris, 1864.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Paris, 1868.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).

 

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