Introdução
No estudo
racional da Doutrina Espírita, uma das questões que mais exigem precisão
conceitual diz respeito à natureza espiritual de Jesus e ao significado de sua
encarnação. Se, conforme a escala espírita apresentada em O Livro dos
Espíritos (questões 100 a 113), os Espíritos Puros não têm mais
necessidades evolutivas, por que Jesus teria assumido um corpo de carne?
Haveria nisso contradição com as leis do progresso, aproximação indevida com a
metempsicose ou simples dificuldade de compreensão humana diante da missão do
Cristo?
À luz da
Codificação Espírita e da coleção da Revista Espírita, verifica-se que o
problema não está na Doutrina, mas na confusão entre necessidade evolutiva
e necessidade missionária. A encarnação de Jesus não se explica por
carência pessoal, mas pela pedagogia divina aplicada a uma Humanidade que, em
determinado momento histórico, havia se afastado da lei moral inscrita na
própria consciência.
1. Espírito Puro e encarnação: necessidade ou missão?
A
Codificação ensina que os Espíritos Puros já percorreram todos os graus da
escala espírita, não possuindo mais imperfeições a depurar. Para os Espíritos
em evolução, a encarnação é meio de aprendizado, prova ou expiação; para um
Espírito Puro, quando ocorre, é ato voluntário de condescendência,
jamais imposição.
O próprio O
Livro dos Espíritos admite que Espíritos dessa ordem podem encarnar para
cumprir missões de alta relevância junto à Humanidade. Assim, a vinda de Jesus
não se deu por necessidade pessoal, mas porque os homens, conforme indicam as
questões 621 a 625, haviam deixado de ouvir a lei divina em sua consciência.
Quando o princípio abstrato deixa de ser compreendido, o método educativo exige
o exemplo vivo.
2. Metempsicose e reencarnação: distinção doutrinária essencial
A
metempsicose, entendida como regressão da alma a corpos inferiores, é
incompatível com o Espiritismo, que afirma a lei do progresso contínuo, sem
retrocessos. A encarnação de Jesus não representa queda espiritual nem punição,
mas adaptação funcional às condições da matéria terrestre para fins de
ensino moral.
Não há,
portanto, regressão do Espírito, mas restrição temporária de sua manifestação,
necessária para que sua ação pedagógica se tornasse acessível aos sentidos
humanos.
3. A solidariedade universal e a missão do Cristo
A noção de
solidariedade do Universo, expressa por Vicente de Paulo, segundo a qual
sempre há um superior disposto a amparar e um inferior a quem servir, não
exclui a missão de Jesus; ao contrário, esclarece-a. Se a caridade é a lei
fundamental do Universo, os Espíritos mais elevados não permanecem isolados em
contemplação, mas cooperam ativamente na elevação dos mundos menos adiantados.
A Terra,
classificada como mundo de expiações e provas, encontrava-se moralmente incapaz
de progredir apenas pela inspiração indireta. A solidariedade universal exigiu,
então, a presença direta do seu Governador espiritual no campo da experiência
humana.
4. O chamado “rebaixamento vibratório” na linguagem da Codificação
A expressão
“rebaixamento vibratório” não pertence ao vocabulário de Allan Kardec, mas o
fenômeno que ela procura descrever está claramente exposto na Codificação,
especialmente em A Gênese. O Espírito não atua diretamente sobre a
matéria sem um intermediário: o perispírito, envoltório semimaterial extraído
do fluido do mundo onde se encontra.
Quanto mais
elevado o Espírito, mais eterizado é o seu perispírito. Para atuar na matéria
densa da Terra, um Espírito Puro precisa assimilar fluidos mais grosseiros,
compatíveis com o ambiente planetário. Trata-se de uma densificação
perispiritual, não de perda de pureza ou de posição na escala evolutiva.
Na
linguagem da Codificação, esse processo corresponde à adaptação do envoltório
fluídico às condições do mundo material, permitindo que o Espírito se torne
visível e atuante entre os homens.
5. O caráter sacrificial da encarnação missionária
Para
Espíritos comuns, a encarnação é oportunidade de progresso; para um Espírito
Puro, ela constitui verdadeira restrição de faculdades. A limitação dos
sentidos espirituais, o contato com uma psicosfera moralmente pesada e a
submissão às leis biológicas da matéria caracterizam o que a Codificação
descreve como exílio voluntário.
Nesse
sentido, a missão de Jesus representa o mais alto grau de renúncia consciente
em favor do progresso coletivo, expressão máxima da solidariedade universal.
6. A preparação milenar da vinda de Jesus: lógica doutrinária
Embora a
Codificação não apresente uma cronologia detalhada sobre o tempo de preparação
da encarnação de Jesus, estabelece princípios claros: no Universo não há
improviso, e tudo obedece às leis de ordem e progresso. Sendo Jesus o
Governador espiritual da Terra, sua vinda não poderia ser um acontecimento
fortuito, mas o ápice de um processo educativo prolongado.
A ideia de
uma preparação milenar não é dogma, mas dedução lógica coerente com a grandeza
da missão. Grandes transformações morais e culturais exigem tempos longos de
maturação, compatíveis com a evolução coletiva da Humanidade.
7. Governança espiritual sem misticismo
A direção
de Jesus sobre a Terra não deve ser entendida em termos fantásticos ou
sobrenaturais. A Doutrina Espírita ensina que os Espíritos superiores governam
por influência moral, indução mental e hierarquia de competências,
sempre respeitando o livre-arbítrio humano.
Assim,
grandes pensadores da Antiguidade, como Sócrates, Platão e Moisés,
podem ser compreendidos como inteligências sintonizadas com correntes
superiores de pensamento, captando intuições compatíveis com o estágio
preparatório da Humanidade para a mensagem do Cristo.
8. Houve substituição no governo espiritual da Terra durante a
encarnação?
Na lógica
da administração espiritual, não há vácuo de poder. A encarnação de Jesus não
significou afastamento absoluto da governança do planeta. A Codificação
esclarece que o Espírito não se encerra no corpo como em um compartimento
fechado; ele irradia.
Além disso,
o governo da Terra não é exercício solitário, mas colegiado, sustentado
por uma hierarquia de Espíritos Superiores que executam as leis já
estabelecidas. Durante a encarnação, essa equipe manteve a administração
espiritual, sem ruptura de diretrizes.
Pode-se
dizer que Jesus não se ausentou da governança, mas mudou de posto de atuação:
da direção indireta no plano espiritual para a ação direta no plano físico,
assumindo a linha de frente da pedagogia divina.
Conclusão
Não há
contradição na afirmação de que Jesus é um Espírito Puro e, ao mesmo tempo,
encarnado por missão. A dificuldade surge quando se confunde necessidade
evolutiva com necessidade pedagógica. À luz da Doutrina Espírita, a encarnação
do Cristo não representa retrocesso, mas a mais alta expressão da lei de amor e
solidariedade universal.
Jesus é o
Espírito Puro na essência, o Governador na função e o Modelo e Guia na forma.
Sua vinda à Terra foi a resposta educativa a uma Humanidade que havia se
afastado da própria consciência moral. Assim compreendida, sua missão deixa o
campo do misticismo e se insere plenamente na lógica das leis naturais que
regem a vida espiritual.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
Paris, 1857.
- KARDEC, Allan. A Gênese. Paris,
1868.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o
Espiritismo. Paris, 1864.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita
(1858–1869).
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