Introdução
A ideia de
progresso acompanha a humanidade desde seus primeiros agrupamentos sociais.
Contudo, o significado atribuído a esse termo variou ao longo do tempo. Aquilo
que o senso comum entende como progresso nem sempre coincide com o que a
ciência compreende, tampouco com o que a Doutrina Espírita ensina à luz das
leis naturais.
A partir da
Codificação Espírita organizada por Allan Kardec e dos estudos publicados na Revista
Espírita, o progresso deixa de ser apenas um acúmulo de bens, técnicas ou
informações. Ele passa a ser compreendido como uma lei universal que impulsiona
simultaneamente o desenvolvimento intelectual e o aperfeiçoamento moral dos
Espíritos, tanto na vida corporal quanto na erraticidade.
Este artigo
propõe uma análise comparativa entre o progresso segundo o senso comum, a
ciência convencional, a ciência moderna e a visão espírita, destacando o papel
central do trabalho coletivo como engrenagem da Lei de Progresso.
1. O Progresso Segundo o Senso Comum: O “Mais” e o “Melhor” Aparente
No
entendimento popular, progresso costuma ser associado à melhoria material
visível e mensurável. Novas tecnologias, maior velocidade de comunicação,
aumento da expectativa de vida e crescimento econômico são frequentemente
tomados como sinais inequívocos de avanço.
Indicadores
como consumo, Produto Interno Bruto e inovação tecnológica sustentam essa visão
linear, segundo a qual o presente é sempre superior ao passado. Entretanto,
essa leitura ignora uma questão essencial: nem toda novidade representa, de
fato, um avanço para o equilíbrio individual e coletivo. O conforto material,
quando desvinculado de valores éticos, pode coexistir com desigualdades,
conflitos e sofrimento moral.
2. A Ciência Convencional: Ordem, Previsibilidade e Domínio
A ciência
clássica, desenvolvida entre os séculos XVII e XIX, concebia o progresso como
resultado do domínio racional da natureza. O universo era comparado a uma
máquina cujas engrenagens poderiam ser compreendidas, previstas e controladas.
Nessa
perspectiva, o progresso científico seria linear e cumulativo: cada descoberta
aproximaria o ser humano de uma verdade absoluta. O objetivo central era
transformar o desconhecido em leis fixas, permitindo o uso sistemático dos
recursos naturais.
Embora esse
modelo tenha impulsionado avanços significativos, ele também favoreceu uma
relação utilitarista com o planeta, cujas consequências ambientais e sociais se
tornaram evidentes no mundo contemporâneo.
3. A Ciência Moderna: Complexidade, Limites e Responsabilidade
A ciência
contemporânea, influenciada pela física relativística, quântica e pela teoria
dos sistemas complexos, introduziu uma mudança profunda na noção de progresso.
Hoje, reconhece-se que nem todo avanço técnico é progresso real, sobretudo
quando compromete os sistemas que sustentam a vida.
O progresso
passa a ser entendido como adaptação, equilíbrio e sustentabilidade. Na
biologia evolutiva, por exemplo, evoluir não significa tornar-se mais complexo,
mas mais apto a responder às mudanças do meio.
Além disso,
a ciência atual incorpora o debate ético: não basta perguntar “podemos fazer?”,
mas “devemos fazer?”. Questões como inteligência artificial, biotecnologia e
engenharia genética evidenciam que o progresso exige responsabilidade moral.
4. O Progresso na Visão Espírita: Lei Natural e Dupla Face
A Doutrina
Espírita apresenta o progresso como uma lei natural, inevitável e contínua.
Conforme ensina O Livro dos Espíritos, o Espírito progride sempre, ainda
que possa estacionar temporariamente por negligência moral.
Esse
progresso se manifesta em duas dimensões complementares:
- Progresso Intelectual: desenvolvimento da inteligência, da ciência e do conhecimento das
leis naturais. Ele ocorre primeiro, pois é necessário compreender o bem
para escolhê-lo conscientemente.
- Progresso Moral: aplicação do conhecimento à prática do bem, com a superação do
egoísmo e do orgulho, considerados por Kardec os maiores entraves à
evolução espiritual.
A história
humana demonstra que essas duas dimensões nem sempre avançam juntas. O grande
desafio da atualidade é harmonizá-las.
5. O Trabalho Coletivo como Expressão da Lei de Progresso
Tanto a
sociologia moderna quanto a filosofia espírita reconhecem no trabalho coletivo
um dos sinais mais claros de progresso real. Cooperar implica sair do
isolamento, renunciar ao egoísmo e reconhecer a interdependência das faculdades
humanas.
Em pequenos
grupos, o progresso se manifesta no aprendizado moral: paciência, tolerância,
escuta e humildade. Em grandes coletividades, ele se traduz em obras
civilizatórias impossíveis de serem realizadas por indivíduos isolados.
A Doutrina
Espírita ensina que a vida em sociedade é uma lei da natureza. O isolamento
conduz à estagnação; o convívio, embora desafiador, impulsiona o
desenvolvimento do senso de justiça, dever e solidariedade.
6. Tecnologia, Conectividade e Desafios Morais
A
tecnologia ampliou enormemente as possibilidades de colaboração humana.
Projetos científicos globais, plataformas de conhecimento aberto e redes de
pesquisa demonstram o potencial da inteligência coletiva.
Entretanto,
esse mesmo ambiente tecnológico revela paradoxos: desumanização das relações,
conflitos exacerbados, formação de bolhas ideológicas e fortalecimento do ego.
A conectividade técnica nem sempre resulta em comunhão moral.
Sob a ótica
espírita, isso evidencia um descompasso: o progresso intelectual avança
rapidamente, enquanto o progresso moral luta para acompanhá-lo.
7. A Codificação Espírita como Modelo de Trabalho Coletivo
O próprio
processo de elaboração da Doutrina Espírita é um exemplo notável de trabalho
coletivo organizado. Kardec adotou o chamado controle universal do ensino dos
Espíritos, evitando a centralização em indivíduos ou grupos isolados.
Perguntas
eram submetidas a diversos médiuns, em diferentes lugares, e as respostas
comparadas sob o crivo da razão, da lógica e da concordância geral. Esse método
reduziu a influência de egos individuais e de opiniões particulares,
priorizando o conteúdo universal e coerente.
Conflitos e
críticas existiram, como se observa nas páginas da Revista Espírita, mas
foram enfrentados pelo debate racional e pelo apelo à caridade, não pela
exclusão ou imposição de autoridade pessoal.
8. A Dinâmica da Lei de Progresso e o Trabalho Solidário
A máxima
atribuída a São Vicente de Paulo — segundo a qual todo Espírito está sempre
entre um superior que o orienta e um inferior perante o qual tem deveres —
sintetiza a dinâmica do progresso espiritual.
Ela revela
que:
- Ninguém progride sozinho.
- A hierarquia espiritual é de
responsabilidade, não de privilégio.
- Sempre aprendemos e sempre ensinamos.
- O progresso individual se realiza no
serviço ao coletivo.
Essa
engrenagem solidária expressa a lei de justiça, amor e caridade, fundamento
moral da evolução.
Conclusão
À luz da
Doutrina Espírita, progresso não é sinônimo de crescimento material ilimitado
nem de simples avanço tecnológico. Ele é o desenvolvimento gradual das
potências da alma, transformando inteligência em sabedoria e instinto em amor.
O
verdadeiro progresso se consolida quando o avanço intelectual se alia ao
progresso moral, quando a tecnologia serve ao humano e quando o trabalho
coletivo se orienta por finalidades éticas superiores.
Assim
compreendido, o progresso deixa de ser uma corrida individual e se torna uma
ascensão conjunta, em conformidade com as leis naturais que regem a vida
material e espiritual.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. O Evangelho Segundo o
Espiritismo.
- Allan Kardec. Revista Espírita.
- São Vicente de Paulo. Mensagens
constantes em O Evangelho Segundo o Espiritismo.
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