Do impulso humano à participação consciente na Lei de Amor
Uma reflexão sobre o amor-sentimento, a caridade e o Amor-Força
Introdução
Amor, paixão e caridade são palavras tão
presentes em nossa linguagem que, muitas vezes, acabam sendo utilizadas como se
expressassem a mesma realidade.
Dizemos que alguém ama porque está apaixonado.
Chamamos de amor uma forte atração, um grande entusiasmo ou uma intensa
dedicação. E, no campo religioso, encontramos a palavra caridade sendo
substituída, em diversas traduções do Novo Testamento, pela palavra amor.
Mas seriam realmente sinônimos?
A questão merece reflexão porque existe uma
diferença importante entre sentir, agir e compreender.
A paixão pode ser um impulso intenso que nos
conduz em determinada direção. O amor-sentimento, entretanto, não nasce
necessariamente pronto: ele se desenvolve gradualmente no Espírito, à medida
que aprendemos a ultrapassar o interesse exclusivamente pessoal.
A caridade, por sua vez, representa o amor
colocado em ação. É quando o Espírito começa conscientemente a participar da
solidariedade que existe na Natureza.
E acima dessas experiências humanas podemos
considerar o Amor-Força: o Amor entendido como princípio universal, cuja
expressão máxima ultrapassa aquilo que ainda somos capazes de compreender
plenamente.
Talvez, ao distinguirmos essas três
realidades, possamos compreender melhor não apenas a diferença entre paixão,
amor e caridade, mas também o profundo significado da expressão:
“Fora da caridade não há salvação.”
1. A
paixão: o impulso que precisa ser educado
A paixão não se limita às relações afetivas.
Podemos apaixonar-nos por uma pessoa, por uma
profissão, por uma atividade, por uma ideia, por uma causa, por um objeto ou
por qualquer coisa que desperte em nós intenso interesse.
Ela é uma força de impulso.
Por isso, o princípio das paixões não é mau em
si mesmo. Em O Livro dos Espíritos, nas questões 907 a 912, os Espíritos
esclarecem que as paixões podem servir de estímulo para grandes realizações. O
problema está no abuso e no excesso, quando o indivíduo deixa de governá-las e
passa a ser governado por elas.
A comparação apresentada pelos Espíritos é
bastante expressiva: as paixões podem ser comparadas a um cavalo. Enquanto o
homem o governa, o animal lhe é útil; quando o cavalo passa a governá-lo,
torna-se perigoso.
O princípio continua perfeitamente atual.
Hoje, podemos reconhecer a mesma situação em
nossa relação com determinados objetos e tecnologias. Um automóvel, por
exemplo, pode ser um instrumento útil de locomoção. Mas, se a paixão pelo
veículo fizer com que o indivíduo passe a viver em função dele, sacrificando
outras necessidades, comprometendo seus recursos ou colocando sua própria vida
e a de outros em risco para satisfazer esse desejo, já não é o objeto que está
sob seu governo.
É a paixão pelo objeto que passou a
governá-lo.
O mesmo pode ocorrer com dinheiro, trabalho,
reconhecimento social, tecnologia, entretenimento, relacionamentos ou qualquer
outro interesse.
Portanto, o problema não está necessariamente
naquilo que desperta nossa paixão.
Está na perda do governo de nós mesmos.
A razão e a vontade têm justamente a função de
educar essa força.
Quando direcionada para o bem, a paixão pode
transformar-se em energia para grandes realizações. Quando submetida ao egoísmo
e ao excesso, pode produzir sofrimento.
Nas relações entre as pessoas, esse princípio
aparece com frequência.
A voz agrada. O sorriso chama atenção. A
presença desperta curiosidade. As diferenças podem parecer fascinantes. Os
pequenos defeitos são facilmente desculpados.
É o encantamento inicial.
O senso comum costuma chamar isso de amor.
Talvez seja paixão.
E a diferença é importante.
2. O
amor-sentimento: uma construção gradual
A paixão pode aproximar.
Mas aproximar-se não significa ainda amar.
Quando a novidade diminui e a realidade
substitui a idealização, começa uma nova etapa: conhecer verdadeiramente o
outro.
É nesse espaço que o amor-sentimento pode
começar a construir-se.
Ele não precisa nascer pronto.
Pode desenvolver-se gradualmente à medida que
aprendemos a conhecer, compreender, respeitar, cuidar e considerar o outro.
No início, muitas vezes queremos aquilo que
nos agrada.
Depois, aprendemos a considerar também aquilo
que o outro necessita.
Essa transformação é fundamental.
A paixão procura aquilo que a atrai; o
amor-sentimento começa a desejar também o bem daquele que ama.
Por isso, o amor-sentimento não pode ser
confundido com uma emoção permanente.
Sentimentos humanos podem oscilar. Podemos
sentir simpatia por determinadas pessoas e dificuldade em relação a outras.
O desenvolvimento do amor ocorre justamente
quando conseguimos ultrapassar essas limitações naturais e orientar nossas
atitudes para o bem.
É por isso que o ensinamento de Jesus sobre
amar os inimigos possui significado tão profundo.
Na questão 887 de O Livro dos Espíritos,
esclarece-se que amar os inimigos não significa sentir por eles um amor terno e
apaixonado. Significa perdoá-los e pagar-lhes o mal com o bem.
Aqui encontramos uma diferença decisiva: amor
não é paixão.
Podemos não sentir afeição espontânea por
alguém e, ainda assim, escolher não lhe fazer mal.
Podemos não gostar de determinada pessoa e,
mesmo assim, desejar que ela encontre o caminho do bem.
É nesse momento que o amor começa a
ultrapassar o campo do sentimento espontâneo e entra no campo da conquista
moral.
O Espírito começa a aprender a amar.
3. O
amor-sentimento e a construção do Espírito
Se o Amor-Força já existe, não somos nós que o
estamos construindo.
Somos nós que estamos construindo em nós a
capacidade de amar.
O amor-sentimento desenvolve-se conforme o
Espírito supera gradualmente o egoísmo, amplia sua compreensão e reconhece nos
outros seres que também participam do processo evolutivo.
Por isso, amar é uma aprendizagem.
Aprendemos a amar quando conseguimos
compreender antes de julgar.
Aprendemos a amar quando perdoamos em vez de
revidar.
Aprendemos a amar quando respeitamos mesmo
diante da diferença.
Aprendemos a amar quando o bem do outro começa
a ter importância para nós.
Nesse sentido, o amor-sentimento não é apenas
aquilo que sentimos.
Ele também é aquilo que aprendemos a
realizar.
E é justamente aqui que a caridade começa a
aparecer.
4. A
caridade: o amor em ação
Na questão 886 de O Livro dos Espíritos,
encontramos uma das definições mais importantes para esta reflexão:
“Benevolência para com todos, indulgência para
com as imperfeições alheias, perdão das ofensas.”
A definição é simples, mas suas consequências
são profundas.
A caridade não se restringe à esmola.
Ela abrange nossas relações com os
semelhantes.
Ser benevolente é agir com disposição para o
bem.
Ser indulgente é compreender as imperfeições
alheias sem deixar de reconhecer o erro.
Perdoar é não responder ao mal com outro mal.
Por isso, podemos compreender a caridade como o
amor em ação.
Não como simples sentimento, mas como
manifestação concreta do bem nas relações humanas.
A caridade começa quando o Espírito deixa de
participar apenas inconscientemente da solidariedade universal e passa a
participar dela conscientemente.
Nesse momento, fazer o bem deixa de ser apenas
uma reação ocasional.
Passa a ser uma escolha.
5. A
caridade transforma aquele que a pratica
Existe, porém, uma consequência ainda mais
profunda.
A caridade não transforma apenas aquele que
recebe.
Transforma também aquele que pratica.
Ao exercermos a benevolência, desenvolvemos a
benevolência.
Ao exercermos a indulgência, tornamo-nos menos
intolerantes.
Ao perdoarmos, diminuímos em nós o desejo de
vingança.
Ao fazermos o bem, enfraquecemos
progressivamente o egoísmo.
Assim, a caridade não é apenas consequência do
amor-sentimento.
Ela também participa da construção desse amor.
O indivíduo pode inicialmente praticar o bem
por esforço consciente. Com a repetição, porém, a ação modifica suas
disposições interiores.
O que antes exigia esforço pode tornar-se mais
natural.
E aquilo que era apenas uma ação externa
começa a transformar-se em sentimento.
Por isso, podemos perceber um movimento
contínuo:
caridade → transformação moral →
desenvolvimento do amor-sentimento → maior capacidade de praticar a caridade.
A caridade é, portanto, simultaneamente manifestação
e instrumento de desenvolvimento do amor.
6. “A
caridade cobre a multidão de pecados”
Essa compreensão permite retornar a uma
passagem particularmente significativa do Novo Testamento:
“Mas sobretudo tende ardente caridade uns para
com os outros porque a caridade cobre a multidão de pecados.”
1 Pedro 4:8
Em diversas traduções mais recentes,
encontramos a palavra amor em lugar de caridade.
Não é necessário transformar essa diferença em
uma disputa sobre qual tradução estaria certa ou errada.
Ela pode, entretanto, oferecer uma
oportunidade para perceber algo importante.
Quando lemos amor, podemos pensar
inicialmente em um sentimento.
Quando lemos caridade, somos conduzidos
mais imediatamente à ideia de ação.
E a passagem de Pedro pode ser compreendida
justamente nessa dimensão prática.
Como a caridade poderia “cobrir a multidão de
pecados”?
Não parece razoável entender que uma boa ação
simplesmente apague as faltas anteriormente cometidas. O erro não deixa de ter
existido e suas consequências não são magicamente anuladas.
Mas a caridade pode transformar aquele que
errou.
Quem desenvolve a benevolência tende a
tornar-se menos indiferente.
Quem desenvolve a indulgência aprende a julgar
menos.
Quem aprende a perdoar diminui a disposição
para revidar.
Quem se acostuma a fazer o bem passa a criar,
dentro de si, condições para errar menos.
E, ao reconhecer os erros já cometidos, começa
também a compreender a necessidade de repará-los.
Assim, a caridade não esconde o erro.
Ela modifica aquele que errou.
Nesse sentido, “cobrir a multidão de pecados”
pode ser compreendido como um processo de transformação pelo qual o bem vai
ocupando progressivamente o lugar que antes era ocupado pelo egoísmo, pela
intolerância, pela vingança e pela indiferença.
O passado não é apagado.
Mas o Espírito pode tornar-se outro diante
dele.
Pode reparar.
Pode aprender.
Pode deixar de repetir.
Pode transformar a experiência do erro em
oportunidade de progresso.
E então temos uma sequência particularmente
significativa:
prática da caridade → transformação moral →
diminuição dos erros → reparação do passado → desenvolvimento do
amor-sentimento.
A palavra tradicional caridade
evidencia, nesse contexto, algo que a palavra amor pode deixar menos explícito
quando entendida apenas como sentimento: o amor precisa encontrar expressão
na maneira como vivemos.
7. A
solidariedade universal
A caridade, entretanto, não surgiu
isoladamente.
Ela encontra fundamento em uma realidade muito
mais ampla: a solidariedade e o encadeamento existentes na própria Natureza.
Na questão 540 de O Livro dos Espíritos,
os Espíritos explicam que mesmo os Espíritos mais atrasados são úteis ao
conjunto. Inicialmente agem sobre certos fenômenos sem plena consciência de
seus atos; posteriormente, à medida que desenvolvem sua inteligência, passam a
comandar e dirigir aspectos do mundo material e, mais tarde, podem participar
das coisas do mundo moral.
E concluem:
“É assim que tudo serve, tudo se encadeia na
Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo
átomo.”
É uma visão extraordinariamente ampla.
A solidariedade não começa nas relações
humanas.
Existe um encadeamento universal no
qual cada ser participa, segundo suas possibilidades e seu grau de
desenvolvimento.
O que nos parece pequeno pode cumprir uma
função no conjunto.
O ser que hoje recebe também poderá amanhã
oferecer.
O que hoje aprende poderá amanhã ensinar.
Nada disso significa que todos ocupem a mesma
posição. Significa que todos participam de um processo no qual há relações,
funções, aprendizado e contribuição.
Essa ideia encontra correspondência na questão
888a, na orientação de São Vicente de Paulo:
“O Espírito, qualquer que seja o seu grau de
adiantamento (...) está sempre colocado entre um superior que o guia e
aperfeiçoa e um inferior perante o qual tem deveres iguais a cumprir.”
As duas orientações se completam.
A questão 540 apresenta o encadeamento
universal.
A questão 888a mostra como esse princípio se
manifesta nas relações entre os Espíritos.
Estamos sempre aprendendo e, ao mesmo tempo,
tendo oportunidades de ensinar.
Recebemos e oferecemos.
Somos auxiliados e auxiliamos.
Ninguém evolui sozinho.
8. A
caridade como participação consciente na solidariedade universal
Se tudo se encadeia, podemos compreender
melhor o papel da caridade.
Nos estágios iniciais da evolução, o Espírito
participa do conjunto sem compreender plenamente o significado de sua
participação.
À medida que desenvolve inteligência,
livre-arbítrio e consciência moral, começa a perceber que não vive
isoladamente.
Descobre que recebe dos outros e que também
possui algo a oferecer.
É nesse momento que a caridade assume um
significado mais profundo.
A caridade é o amor em ação desde o momento em
que o Espírito começa a participar conscientemente da solidariedade universal.
Não estamos criando a solidariedade.
Estamos tomando consciência dela.
Não estamos criando o Amor.
Estamos aprendendo a deixar que ele se
manifeste através de nossas ações.
Por isso, a caridade pode ser compreendida
como uma participação consciente na lei de solidariedade que já existe na
Natureza.
O egoísmo procura separar.
A caridade aproxima.
O egoísmo pergunta:
“O que posso receber?”
A caridade pergunta:
“O que posso fazer?”
Quando essa transformação acontece, o Espírito
começa a sair do centro exclusivo de suas próprias necessidades e passa a
considerar o conjunto.
É um dos movimentos fundamentais do progresso
moral.
9. Por
que “fora da caridade não há salvação”?
Agora podemos retornar à expressão que resume
uma parte essencial de nossa reflexão:
“Fora da caridade não há salvação.”
Ela não precisa ser compreendida como ameaça,
condenação ou privilégio concedido a quem cumpre determinada obrigação.
Pode ser compreendida como uma consequência do
próprio processo evolutivo.
Se o Espírito precisa superar o egoísmo,
desenvolver o amor e participar conscientemente da solidariedade universal, não
pode realizar esse desenvolvimento isolando-se dos demais.
A caridade é precisamente uma das formas pelas
quais aprendemos a sair de nós mesmos.
Praticando-a, fazemos o bem ao próximo.
Mas, simultaneamente, fazemos algo em nós.
Transformamo-nos.
Erramos menos.
Reparamos o que pudermos reparar.
Desenvolvemos o amor-sentimento.
A expressão “salvação”, portanto, pode ser
entendida aqui como progresso espiritual.
Fora da caridade, não há esse exercício
consciente da solidariedade.
E, sem esse exercício, o Espírito retarda o
desenvolvimento que precisa realizar.
Não se trata de Deus deixar de amar aquele que
erra.
O Amor não abandona ninguém.
Quem se afasta é o Espírito, quando escolhe
temporariamente o egoísmo e se coloca contra o movimento de solidariedade.
As consequências pertencem às próprias
escolhas.
Quando reconhece o caminho equivocado, pode
retornar.
A parábola do Filho Pródigo oferece uma imagem
particularmente expressiva desse processo.
O filho afasta-se, experimenta as
consequências de suas escolhas e, finalmente, decide retornar.
O Pai não precisou deixar de amá-lo para que
ele aprendesse.
Quem precisou mudar foi o filho.
10. O
Amor-Força
Chegamos, então, ao ponto mais elevado desta
reflexão.
Podemos falar de amor como sentimento humano.
Podemos falar de amor como uma construção
gradual no Espírito.
Podemos falar de caridade como o amor em ação.
Mas existe ainda uma realidade maior: o Amor-Força.
Aqui não estamos falando de uma emoção humana.
Estamos considerando o Amor como princípio
universal, relacionado à Inteligência Suprema, causa primeira de todas as
coisas, e à ordem e harmonia que regem o Universo.
É nesse sentido que podemos compreender a
antiga ideia de que o Amor é a força que rege o Universo.
O amor-sentimento está em construção.
O Amor-Força não.
Ele já existe.
Nós é que estamos aprendendo a compreendê-lo e
manifestá-lo.
Quando praticamos a caridade, permitimos que
esse Amor encontre expressão em nossas relações, dentro das possibilidades de
nosso atual grau de desenvolvimento.
E, ao mesmo tempo, aquilo que fazemos
transforma-nos.
A caridade nos torna progressivamente mais
capazes de amar.
Por isso, não construímos o Amor.
Construímos em nós a capacidade de participar
conscientemente dele.
11. Um
caminho de evolução
Podemos agora reunir os principais elementos
desta reflexão.
A paixão é uma força natural que
impulsiona.
A razão e a vontade educam essa força.
O amor-sentimento desenvolve-se
gradualmente no Espírito.
A caridade coloca o amor em ação.
A prática da caridade transforma o Espírito.
Essa transformação conduz à reparação dos
erros e à diminuição progressiva de suas causas.
A consciência da solidariedade universal
mostra que ninguém evolui isoladamente.
E, ao participar conscientemente dessa
solidariedade, o Espírito aproxima-se cada vez mais do Amor-Força.
Podemos, então, representar esse movimento
assim:
Paixão → educação → amor-sentimento → caridade
→ transformação moral → solidariedade consciente → progresso espiritual →
aproximação do Amor-Força.
Não se trata de uma sequência rígida.
São movimentos que se influenciam mutuamente.
A caridade desenvolve o amor.
O amor desenvolvido torna a caridade mais
natural.
A consciência da solidariedade estimula a
caridade.
A caridade amplia a consciência da
solidariedade.
E o Espírito, através dessas experiências,
transforma-se.
REFLEXÃO FINAL
Talvez o maior equívoco em torno do amor
esteja em imaginar que amar seja apenas sentir.
Podemos sentir intensamente e ainda agir de
maneira egoísta.
Podemos estar apaixonados e ainda não
compreender verdadeiramente aquele que julgamos amar.
Podemos dizer que amamos, mas são nossas
atitudes que revelam quanto desse amor já conseguimos desenvolver.
A paixão, portanto, não precisa ser condenada.
Precisa ser educada.
O amor-sentimento não precisa ser considerado
pronto.
Precisa ser construído.
A caridade não deve ser reduzida à esmola.
É o amor em ação.
E essa ação não transforma apenas aquele que a
recebe.
Transforma também aquele que a pratica.
Ao praticarmos a caridade, participamos
conscientemente da solidariedade universal, fazemos o bem, aprendemos a
perdoar, tornamo-nos mais indulgentes, erramos menos e, quando reconhecemos
nossas faltas, somos conduzidos à reparação.
É nesse sentido que a expressão de Pedro — “a
caridade cobre a multidão de pecados” — pode adquirir uma dimensão
profunda.
O erro não é escondido.
O Espírito é transformado.
E é também nesse sentido que podemos
compreender “fora da caridade não há salvação”.
Não porque o Amor imponha uma condição para
nos aceitar, mas porque não há verdadeiro progresso espiritual sem a
superação gradual do egoísmo e sem a participação consciente na solidariedade
que envolve toda a criação.
Desde o átomo primitivo até o arcanjo, tudo
serve e tudo se encadeia.
Nós também fazemos parte desse encadeamento.
A diferença é que, à medida que nossa
consciência se desenvolve, podemos deixar de participar dele apenas de maneira
inconsciente e começar a fazê-lo voluntariamente.
Então a caridade deixa de ser apenas uma
obrigação.
Torna-se escolha.
E, pela escolha repetida do bem, o
amor-sentimento vai sendo construído.
Talvez possamos resumir todo esse caminho em
uma única ideia:
A paixão impulsiona; a razão educa; o
amor-sentimento se constrói; a caridade coloca o amor em ação; a solidariedade
universal nos integra ao conjunto; e o Espírito, transformando-se pela prática
do bem, aproxima-se progressivamente do Amor-Força que rege o Universo.
No final, descobrimos que não somos nós que
estamos construindo o Amor.
Somos nós que estamos aprendendo a amar.
E quanto mais aprendemos, mais naturalmente
compreendemos que amar é também agir, que a caridade é o amor em ação
e que, pela prática perseverante do bem, podemos permitir que o Amor que rege o
Universo encontre, cada vez mais, expressão através de nós.
Referências
1. Obras
Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Leis
Morais. Cap. XI — Lei de Justiça, Amor e Caridade. Questões 886, 887 e
888a.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Leis
Morais. Cap. XII — Da Perfeição Moral. Questões 907 a 912 — As Paixões.
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XI —
Amar o Próximo como a Si Mesmo.
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XV —
Fora da Caridade Não Há Salvação.
2. Obras
Complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1868 — Sessão
Anual Comemorativa dos Mortos.
3. Obras
Complementares Históricas
- Bíblia Sagrada. Novo Testamento.
Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo 13.
- Bíblia Sagrada. Novo Testamento.
Primeira Epístola de Pedro, capítulo 4, versículo 8.
- Bíblia Sagrada. Novo Testamento.
Evangelho segundo Lucas, capítulo 15.
4. Obras
Subsidiárias
- MOLLO, Elio. Amor e Caridade — É Bom Saber Quem É Quem.
Ensaio elaborado em 2012, atualizado em 27/09/2012.
5.
Passagens bíblicas
- Mateus 5:44 — Amar os inimigos.
- Lucas 6:27-28 — Fazer o bem aos que nos fazem mal.
- Lucas 15:11-32 — Parábola do Filho Pródigo.
- João 13:34-35 — O mandamento do amor.
- 1 Coríntios 13:1-13 — Amor/caridade.
- 1 Pedro 4:8 — Amor/caridade e perdão.
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