A condição física pode impor limites importantes ao
ser humano, mas não determina, por si só, os limites de sua inteligência, de
sua vontade, de sua capacidade de aprender, de amar e de continuar progredindo.
A medicina, a reabilitação e os recursos naturais do organismo são
fundamentais, mas a visão espírita amplia essa compreensão ao considerar também
a ação do Espírito, os fluidos, a força moral, a fé e a assistência espiritual.
1. Quando o corpo impõe limites
O corpo
humano possui possibilidades extraordinárias, mas também está sujeito ao
desgaste, às enfermidades, aos acidentes e às limitações próprias da existência
corporal.
Um
acidente pode alterar movimentos. Uma doença pode comprometer a fala, a visão
ou a coordenação. Uma lesão neurológica pode modificar temporária ou
permanentemente determinadas funções. O envelhecimento pode reduzir capacidades
que anteriormente pareciam naturais.
Diante
dessas situações, é compreensível que muitas pessoas passem a enxergar o
indivíduo principalmente a partir daquilo que ele perdeu.
Mas
existe uma pergunta mais profunda: até que ponto as limitações do corpo
representam também limitações do Espírito?
A
Doutrina Espírita oferece uma perspectiva diferente da identificação absoluta
entre o ser humano e seu organismo.
O corpo é
instrumento de manifestação do Espírito durante a existência corporal. O
Espírito encarnado utiliza esse instrumento e, por meio do perispírito,
estabelece a ligação com o organismo.
O Livro
dos Espíritos, ao
tratar da constituição do homem, explica que existe entre a alma e o corpo um
laço semimaterial, o perispírito, pelo qual o Espírito atua sobre a matéria e
reciprocamente.
Isso
modifica profundamente a maneira de compreender a existência.
O corpo
pode adoecer.
O corpo
pode sofrer.
O corpo
pode perder determinadas capacidades.
Mas disso
não decorre que o Espírito tenha perdido, na mesma proporção, aquilo que
constitui sua individualidade.
PARTE I —
O CORPO, O ESPÍRITO E O ESFORÇO DE SUPERAÇÃO
2. Recuperar-se não é apenas voltar a ser como
antes
Quando
alguém sofre uma lesão grave, a primeira preocupação naturalmente é recuperar
as funções comprometidas.
É para
isso que existem médicos, medicamentos, cirurgias, fisioterapia,
fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e tantos outros recursos.
A ciência
médica tem papel indispensável.
Não há
razão para colocar a medicina contra a espiritualidade.
Ao
contrário: se determinado tratamento é capaz de auxiliar o organismo,
utilizá-lo é também uma forma racional de valorizar os recursos colocados à
disposição do ser humano.
Mas
recuperação não significa necessariamente retornar exatamente ao estado
anterior.
Às vezes,
o organismo não consegue recuperar integralmente uma função. Em outras
situações, cria caminhos alternativos, desenvolve novas estratégias e aprende a
utilizar de maneira diferente os recursos que permaneceram disponíveis.
É
justamente nesse processo que o esforço pessoal adquire grande importância.
A pessoa
precisa reaprender.
Precisa
insistir.
Precisa
suportar frustrações.
Precisa
tentar novamente aquilo que não conseguiu fazer na primeira tentativa.
Precisa,
muitas vezes, aceitar que o progresso será lento.
E é nesse
ponto que uma realidade frequentemente esquecida aparece: o Espírito não se
manifesta apenas naquilo que o corpo consegue fazer espontaneamente, mas também
no esforço que emprega para superar aquilo que o corpo momentaneamente não
consegue realizar.
3. O obstáculo pode despertar recursos adormecidos
Uma
dificuldade física pode revelar capacidades que permaneciam pouco utilizadas.
Uma
pessoa que perde determinada habilidade pode desenvolver outras.
Quem
precisa reaprender a caminhar passa a valorizar movimentos que antes realizava
automaticamente.
Quem
sofre uma alteração da fala pode desenvolver novas formas de comunicação.
Quem
enfrenta limitações motoras pode descobrir recursos intelectuais, afetivos e
criativos que anteriormente não ocupavam posição central em sua vida.
A Revista
Espírita de maio de 1865, no estudo sobre o progresso intelectual,
apresenta justamente a ideia de que os obstáculos podem despertar recursos que
permaneciam adormecidos e estimular a inteligência.
A
dificuldade, portanto, não é necessariamente apenas uma interrupção.
Pode
também tornar-se uma circunstância de desenvolvimento.
Isso não
significa romantizar o sofrimento.
Nem todo
sofrimento precisa ser chamado de “bênção”.
A dor
pode ser dolorosa, injusta aos olhos humanos e profundamente difícil de
suportar.
O
ensinamento espírita não exige que chamemos de agradável aquilo que
efetivamente nos faz sofrer.
O que ele
permite compreender é que mesmo uma situação difícil pode ser utilizada pelo
Espírito como experiência de aprendizado e progresso.
4. A força moral não substitui o tratamento
É
importante estabelecer aqui uma distinção.
Quando
falamos em força do Espírito, não estamos dizendo que basta querer para que
qualquer doença desapareça.
Essa
conclusão não seria racional nem estaria de acordo com a própria experiência
humana.
Existem
enfermidades graves que não desaparecem apesar da fé.
Existem
pessoas profundamente dedicadas ao bem que enfrentam limitações físicas durante
toda a existência.
Existem
situações nas quais a medicina consegue recuperação extraordinária e outras nas
quais, apesar de todos os esforços, determinadas sequelas permanecem.
Portanto,
não devemos transformar a força moral em uma espécie de mecanismo automático de
cura.
A força
moral pode atuar de outra maneira.
Ela pode
ajudar a pessoa a perseverar.
Pode
favorecer sua disposição para o tratamento.
Pode
ajudá-la a enfrentar a dor sem se entregar ao desânimo.
Pode
modificar sua relação com a própria limitação.
Pode
fazê-la encontrar novas possibilidades onde antes enxergava apenas perda.
E, dentro
da perspectiva espírita, pode ainda participar de processos que não se reduzem
aos mecanismos puramente orgânicos.
É nesse
último ponto que a compreensão espírita amplia a discussão.
PARTE II
— QUANDO A VISÃO ESPÍRITA AMPLIA A COMPREENSÃO DA CURA
5. Não precisamos escolher entre medicina e
Espírito
Quando
observamos uma recuperação surpreendente, é comum surgir uma falsa alternativa:foi
a medicina ou foi a força do Espírito?
A
Doutrina Espírita permite uma compreensão mais ampla.
Uma
recuperação pode envolver simultaneamente:
- tratamento médico;
- medicamentos e procedimentos
terapêuticos;
- capacidade de recuperação do
próprio organismo;
- reabilitação;
- esforço pessoal;
- apoio familiar e social;
- condições emocionais e
psicológicas;
- vontade e perseverança;
- ação sobre os fluidos;
- assistência espiritual;
- e outros fatores ainda
desconhecidos.
Não há
contradição necessária entre essas possibilidades.
Se um
medicamento atua sobre o organismo, isso não significa que o Espírito deixou de
existir.
Se uma
pessoa persevera na fisioterapia, isso não significa que a dimensão espiritual
esteja ausente.
Se uma
assistência espiritual ocorre, isso não significa que o tratamento médico tenha
sido inútil.
As
diferentes causas podem participar de um mesmo processo sem que uma elimine a
outra.
Essa
talvez seja uma das contribuições mais importantes da visão espírita:
compreender o ser humano como uma realidade mais ampla do que o corpo físico,
sem negar o funcionamento e as leis próprias do organismo.
6. O perispírito e a ação do Espírito sobre a
matéria
Essa
compreensão encontra fundamento na estrutura apresentada por O Livro dos
Espíritos.
A questão
135 explica que o homem é constituído pelo corpo, pela alma — o Espírito
encarnado — e pelo princípio intermediário, ou perispírito, que liga a alma ao
corpo.
É por
esse vínculo que o Espírito atua sobre a matéria e que a matéria também
repercute sobre o Espírito.
Essa
relação ajuda a compreender por que a existência corporal não deve ser
analisada apenas pelo aspecto físico.
O
Espírito não é o corpo.
Mas,
enquanto encarnado, encontra-se profundamente ligado a ele.
Por isso,
alterações orgânicas podem repercutir sobre a manifestação do Espírito, sem que
isso signifique necessariamente que a capacidade espiritual tenha sido
destruída.
Uma lesão
cerebral pode dificultar a expressão da inteligência, da memória ou da fala.
Isso não
significa necessariamente que a inteligência ou a individualidade do Espírito
tenham sido eliminadas.
É
semelhante ao que acontece quando um instrumento apresenta defeito.
A
dificuldade de manifestação pode estar no instrumento, e não necessariamente
naquilo que o utiliza.
Essa
comparação deve ser empregada com prudência, mas ajuda a compreender a
distinção fundamental entre o ser espiritual e o instrumento corporal por
meio do qual ele se manifesta durante a encarnação.
7. Os fluidos e a ação do pensamento e da vontade
É aqui
que a perspectiva espírita acrescenta um elemento que não deve ser simplesmente
omitido quando analisamos fenômenos de recuperação ou de cura.
Em A
Gênese, capítulo XIV, a Doutrina Espírita apresenta os fluidos como
elementos intermediários nos fenômenos espirituais e explica a ação dos
Espíritos sobre eles por meio do pensamento e da vontade.
O
pensamento, nessa perspectiva, não é considerado uma atividade absolutamente
sem efeitos além do cérebro.
O
Espírito pode agir sobre os fluidos, imprimindo-lhes determinadas
características e direções.
Essa
concepção abre uma dimensão adicional para compreender a influência espiritual
sobre o organismo.
Não
significa, entretanto, que todo pensamento positivo produza cura, nem que toda
doença seja consequência de pensamento negativo.
Seria uma
simplificação indevida.
A
Doutrina Espírita não autoriza a culpabilização do doente.
A
existência corporal é muito mais complexa do que isso.
O que se
pode afirmar, dentro da concepção espírita, é que pensamento, vontade,
sentimentos e condições espirituais podem participar de processos fluídicos e,
por consequência, influenciar o ser encarnado.
A
extensão dessa influência em cada caso particular não deve ser presumida sem
elementos suficientes.
8. A assistência espiritual
A mesma
compreensão permite considerar a assistência dos Espíritos.
A
Doutrina Espírita apresenta o intercâmbio entre os dois mundos como uma
realidade natural e admite a influência dos Espíritos sobre os encarnados.
Essa
assistência pode assumir diferentes formas.
Pode
ocorrer pelo amparo moral.
Pode
favorecer pensamentos mais equilibrados.
Pode
estimular a coragem.
Pode
inspirar decisões.
Pode
auxiliar alguém a encontrar forças para continuar.
E,
segundo os princípios relativos à ação fluídica, pode também envolver recursos
espirituais capazes de atuar sobre o campo fluídico.
Isso não
significa que todo acontecimento favorável seja provocado por um Espírito
desencarnado.
Nem
significa que toda enfermidade possa ser tratada espiritualmente.
A
prudência continua necessária.
Reconhecer
a possibilidade da assistência espiritual não significa enxergá-la em tudo.
A
Doutrina Espírita ensina a raciocinar, observar e distinguir.
Por isso,
diante de uma recuperação, podemos admitir a possibilidade de assistência
espiritual sem afirmar, sem provas, que determinada equipe espiritual foi
responsável por determinado resultado.
9. E os chamados milagres de Jesus?
Aqui
chegamos a um ponto que não poderia faltar em uma análise espírita sobre cura.
Os
Evangelhos registram numerosas curas realizadas por Jesus.
Durante
muito tempo, esses acontecimentos foram classificados como milagres, entendidos
como intervenções sobrenaturais que suspendiam as leis naturais.
A
explicação espírita segue outro caminho.
Em A
Gênese, ao analisar os chamados milagres do Evangelho, a Doutrina Espírita
procura demonstrar que muitos desses fenômenos podem ser compreendidos por meio
das leis naturais, particularmente pelas leis relativas aos fluidos e à ação
espiritual.
Isso não
diminui Jesus.
Ao
contrário.
Retira-se
do fenômeno a necessidade do sobrenatural para reconhecer nele a manifestação
de leis ainda pouco conhecidas.
Nesse
sentido, o extraordinário não precisa ser contrário à natureza.
Pode
simplesmente revelar uma dimensão da natureza que ainda não compreendemos
suficientemente.
10. “A tua fé te salvou”
Um dos
episódios analisados em A Gênese é o da mulher que sofria de uma
hemorragia e que, ao tocar as vestes de Jesus, sentiu-se curada.
O texto
evangélico registra a afirmação de Jesus:
“Minha
filha, tua fé te salvou; vai em paz e fica curada da tua enfermidade.”
A
interpretação espírita apresentada em A Gênese é particularmente
interessante.
A fé,
nesse contexto, não é apresentada simplesmente como uma crença abstrata.
É
relacionada a uma ação fluídica.
O estudo
considera a possibilidade de que a irradiação fluídica de Jesus tenha produzido
efeito sobre a enferma e que a confiança intensa desta tenha favorecido a ação.
A
explicação é importante porque mostra que, na perspectiva espírita, a fé
pode possuir uma dimensão dinâmica, relacionada à vontade, ao pensamento e
à disposição do indivíduo.
Isso não
significa que a fé seja uma garantia de cura.
A própria
análise permite compreender que pessoas submetidas às mesmas condições podem
apresentar resultados diferentes.
Portanto,
não se deve transformar “fé” em uma fórmula simplista:
“Se você
tiver fé suficiente, ficará curado.”
Essa
interpretação seria justamente o contrário da prudência que a Doutrina Espírita
recomenda.
11. Jesus e a naturalidade dos fenômenos
extraordinários
Existe
ainda uma consequência filosófica importante.
Se os
fenômenos realizados por Jesus fossem necessariamente violações das leis
naturais, não poderiam ser estudados racionalmente.
Mas, para
a Doutrina Espírita, justamente por serem naturais, ainda que extraordinários
em relação ao conhecimento humano de determinada época, eles podem ser objeto
de investigação.
A Gênese afirma que o Espiritismo procura
explicar naturalmente grande parte dos fatos atribuídos a Jesus,
relacionando-os às leis fluídicas e comparando-os com fenômenos semelhantes
observados posteriormente.
Essa
perspectiva é coerente com o princípio geral do Espiritismo: o
desconhecimento de uma lei não transforma automaticamente seus efeitos em
sobrenaturais.
A
história da humanidade demonstra repetidamente que aquilo que parecia
inexplicável em determinada época pode tornar-se compreensível quando novos
conhecimentos são adquiridos.
12. Isso significa que toda recuperação
extraordinária seja espiritual?
Não.
E essa
conclusão é tão importante quanto a anterior.
Se alguém
se recupera de uma doença grave, não podemos afirmar automaticamente:
“Foi um
milagre.”
Mas
também não precisamos concluir:
“Foi
apenas o organismo.”
A atitude
racional é investigar.
Que
tratamento foi realizado?
Como
respondeu o organismo?
Houve
reabilitação?
Houve
fatores psicológicos relevantes?
Houve
circunstâncias ainda desconhecidas?
Há
elementos que permitam considerar uma influência espiritual?
Existe
alguma evidência suficientemente consistente para sustentar essa conclusão?
São
perguntas diferentes.
E devem
permanecer diferentes.
A
prudência espírita não consiste em negar o espiritual, mas em não atribuir ao
espiritual aquilo que não sabemos se pertence ao espiritual.
Essa
distinção protege a Doutrina tanto do materialismo reducionista quanto da
credulidade.
13. O caso de uma grande superação
É nesse
contexto que a história de uma pessoa que enfrenta uma grave limitação física
pode adquirir significado especial.
Não
porque devamos transformar sua trajetória em prova de um fenômeno espiritual
específico.
Nem
porque devamos afirmar que sua recuperação foi produzida por uma causa
invisível que não podemos demonstrar.
O valor
está em outro lugar.
Está em
observar como o ser humano pode responder diante de uma circunstância que
ameaça limitar profundamente sua existência.
Quando
alguém, depois de uma grave enfermidade ou acidente, trabalha para recuperar
movimentos, reaprender a falar, reorganizar sua rotina e voltar a participar da
vida social, existe ali algo que merece atenção.
O corpo
está envolvido.
A
medicina está envolvida.
A
reabilitação está envolvida.
Mas
existe também uma pessoa que decide continuar.
E essa
decisão pertence ao campo do Espírito.
14. A superação não precisa ser espetacular
Existe
uma tendência humana de considerar extraordinária apenas a recuperação
completa.
Mas a
perspectiva espiritual permite ampliar essa compreensão.
Às vezes,
a grande vitória não é voltar a andar como antes.
É
conseguir levantar-se da cama.
Não é
recuperar integralmente a fala.
É
conseguir comunicar novamente um pensamento.
Não é
recuperar a antiga autonomia.
É
aprender a viver dignamente com uma nova condição.
Não é
eliminar toda a dor.
É não
permitir que a dor destrua a esperança.
Não é
voltar a ser exatamente quem se era.
É
tornar-se alguém capaz de continuar aprendendo diante daquilo que aconteceu.
Por isso,
a verdadeira superação não pode ser medida exclusivamente por parâmetros
físicos.
Existe
uma dimensão moral da superação.
15. O sofrimento não é uma sentença espiritual
Também é
necessário afastar uma interpretação perigosa.
Não
devemos olhar para uma pessoa doente e concluir que sua enfermidade é
necessariamente consequência de algum erro cometido em uma existência anterior.
A
Doutrina Espírita admite a lei de causa e efeito e explica que determinadas
provas e expiações podem guardar relação com experiências anteriores.
Mas isso
não nos autoriza a identificar a causa espiritual de uma enfermidade individual
sem conhecimento suficiente.
Fazer
isso seria substituir investigação por julgamento.
E seria
ainda mais grave atribuir culpa a quem já está enfrentando sofrimento.
O papel
da compreensão espírita deve ser outro: oferecer sentido, esperança e
responsabilidade sem transformar a dor em instrumento de acusação.
16. Entre a ciência e a
espiritualidade, a razão
A ciência
procura compreender os mecanismos do organismo.
A
Doutrina Espírita procura compreender o ser humano em uma perspectiva mais
ampla, incluindo sua dimensão espiritual.
Uma não
precisa destruir a outra.
Quando a
medicina encontra uma explicação para determinado fenômeno, devemos
reconhecê-la.
Quando os
conhecimentos científicos ainda não explicam completamente determinado
acontecimento, isso também não autoriza preencher automaticamente a lacuna com
uma explicação espiritual.
Mas o
inverso também é verdadeiro.
O fato de
a medicina explicar um mecanismo orgânico não significa que todas as dimensões
da existência tenham sido explicadas.
A razão
pode reconhecer simultaneamente: há o que já conhecemos; há o que ainda
investigamos; e há possibilidades que a Doutrina Espírita apresenta como
princípios a serem compreendidos.
Essa
atitude é mais segura do que transformar qualquer lado em resposta definitiva
para tudo.
17. A vida continua sendo
uma experiência do Espírito
Talvez
essa seja a principal reflexão que uma história de superação física possa nos
oferecer.
O corpo
possui limites.
O
Espírito, porém, encontra-se em processo permanente de desenvolvimento.
A
existência corporal oferece oportunidades de aprendizagem, trabalho,
relacionamento, provas e transformação.
Uma
limitação física pode modificar o caminho, mas não precisa significar o fim do
caminho.
Uma
enfermidade pode retirar determinadas possibilidades e abrir outras.
Um
acidente pode mudar planos.
O
envelhecimento pode modificar capacidades.
Mas
nenhuma dessas situações, por si só, determina o valor espiritual de uma
existência.
O
Espírito continua sendo responsável pelo modo como utiliza as circunstâncias
que lhe são apresentadas.
E é
justamente aí que a liberdade se manifesta.
REFLEXÃO
FINAL
Quando
observamos alguém superar uma grave limitação física, talvez devêssemos evitar
duas conclusões igualmente precipitadas.
A
primeira seria dizer:
“Foi
apenas o corpo.”
A segunda
seria afirmar:
“Foi um
milagre.”
A
realidade pode ser muito mais ampla.
Pode
haver medicina.
Pode
haver ciência.
Pode
haver mecanismos naturais de recuperação.
Pode
haver reabilitação.
Pode
haver apoio familiar.
Pode
haver vontade.
Pode
haver perseverança.
Pode
haver fé.
Pode
haver ação sobre os fluidos.
Pode
haver assistência espiritual.
E pode
haver fatores que ainda desconhecemos.
A
Doutrina Espírita não nos obriga a escolher entre a razão e a espiritualidade.
Ela nos
convida a ampliar a razão.
Os
chamados milagres de Jesus, nessa perspectiva, não precisam representar
exceções arbitrárias às leis naturais. Podem ser manifestações de leis que
ainda não compreendemos integralmente.
A força
do Espírito também não precisa ser colocada contra a medicina.
Pode
manifestar-se justamente na disposição de buscar tratamento, enfrentar a
reabilitação, persistir diante das dificuldades e utilizar da melhor maneira
possível os recursos disponíveis.
E, quando
houver ação espiritual, ela também não precisa ser imaginada como uma ruptura
das leis da natureza.
Pode ser
uma manifestação de leis ainda pouco conhecidas.
Talvez
seja essa uma das grandes lições de uma existência marcada por limitações
físicas: o corpo pode estabelecer fronteiras para a manifestação do
Espírito, mas não define sozinho aquilo que o Espírito é nem aquilo que ele
pode aprender, conquistar e transformar.
A
verdadeira superação talvez não esteja somente em recuperar aquilo que foi
perdido.
Pode
estar também em descobrir, dentro de si, recursos que antes permaneciam
adormecidos.
E, nesse
sentido, cada esforço para continuar vivendo, aprendendo, trabalhando, amando e
servindo representa uma afirmação silenciosa da própria imortalidade.
REFERÊNCIAS
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O
Livro dos Espíritos. Questões 23, 76, 93 a 95, 135 e 344.
- KARDEC,
Allan. A
Gênese — Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Capítulos XIV — “Os fluidos” e XV — “Os milagres do Evangelho”, especialmente
as partes relativas às curas, à ação fluídica, à fé e aos chamados milagres.
- KARDEC,
Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos relativos à fé, à caridade, às aflições e à consolação.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC,
Allan. O que
é o Espiritismo. - Considerações sobre a natureza do Espiritismo e sua relação com os fenômenos
espirituais.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC,
Allan. Revista
Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, maio de 1865. - “Progresso intelectual.”
4. Passagens bíblicas
- Marcos, 5:25–34.
- Cura da mulher que sofria de hemorragia e a afirmação de Jesus: “Tua fé te salvou.”
- Mateus, 4:23–24.
- Referência às numerosas curas realizadas por Jesus.
5. Fontes Externas Utilizadas
- Fontes médicas e históricas utilizadas apenas para contextualização da recuperação física e da trajetória apresentada no artigo, sem transformá-las em fundamento doutrinário.
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