Introdução
O Livro
Primeiro, capítulo III, de O Livro dos Espíritos, questões 37 a 59,
apresenta uma das exposições mais amplas e racionais sobre a formação do
Universo, dos mundos e dos seres vivos. Longe de uma leitura mítica ou
literalista, a Doutrina Espírita propõe uma visão coerente, progressiva e
compatível com a razão, integrando princípios espirituais às leis naturais
observáveis.
A
Codificação organizada por Allan Kardec não pretendeu substituir a ciência, mas
oferecer um quadro filosófico no qual ciência, fé raciocinada e progresso
espiritual se harmonizam. A criação não é apresentada como evento pontual do
passado, mas como processo contínuo, regido por leis sábias e
universais.
1. O Universo como Obra da Inteligência Suprema
A Doutrina
Espírita ensina que o Universo é composto por todos os mundos visíveis e
invisíveis, por todos os seres — vivos ou inanimados —, pelos astros que se
movem no espaço e pelos fluidos que o preenchem.
A razão
afasta a hipótese do acaso. O Universo não poderia ter-se criado por si mesmo.
Ele é obra de Deus, definido como a inteligência suprema e causa primária de
todas as coisas (O Livro dos Espíritos, q. 1).
Quando o
texto bíblico afirma “Deus disse: faça-se a luz”, não descreve um ato
mágico, mas simboliza a vontade divina em ação, manifestando-se por meio
de leis naturais. A criação, portanto, é racional, ordenada e contínua.
2. A Criação Universal e o Fluido Cósmico
Conforme
ensina A Gênese (cap. VI, itens 17 a 19), antes de tudo existia a matéria
cósmica primitiva, contendo os elementos materiais, fluídicos e vitais do
Universo.
Essa
matéria primitiva — também chamada de fluido cósmico universal — é a substância
original de onde tudo se forma e para onde tudo retorna. Ela se espalha por
todo o espaço e, conforme as condições de tempo e lugar, dá origem a:
- estrelas e sistemas planetários;
- corpos materiais em diferentes estados;
- os princípios da vida orgânica.
A criação
não cessou. Deus cria incessantemente. Mundos se formam, evoluem e se
desagregam, enquanto outros surgem. A natureza é a expressão permanente da
vontade divina.
3. O Mundo Espiritual e a Evolução dos Espíritos
Além do
mundo material, existe o mundo espiritual, igualmente criado por Deus e
regido por leis próprias. Ele não é um lugar sobrenatural, mas uma dimensão da
vida.
A origem
exata dos Espíritos permanece envolta em mistério, como afirmam os próprios
Espíritos superiores. Contudo, sabe-se que o Espírito progride gradualmente,
passando por estágios inferiores até adquirir consciência de si,
responsabilidade moral e missão espiritual.
O ser
humano não nasce pronto: constrói-se ao longo do tempo, por meio de múltiplas
experiências, tanto no plano material quanto no espiritual.
4. A Terra no Processo Criador
A Terra não
é estática em seu destino. Ela já atravessou diferentes fases evolutivas e
continuará avançando, tanto no aspecto físico quanto moral e intelectual.
Segundo a
Doutrina Espírita, os Espíritos que não acompanham o progresso de um mundo são
conduzidos a outros, compatíveis com seu grau evolutivo, onde encontram novas
oportunidades de aprendizado. Trata-se de pedagogia divina, não de punição.
Esse
princípio oferece leitura ética e racional das desigualdades aparentes da vida
e da diversidade das condições humanas.
5. Deus e a Ciência: Harmonia, não Conflito
Do ponto de
vista espírita, Deus não é um ser antropomórfico, restrito à Terra ou a um
povo. Ele é a inteligência suprema que governa o Universo por meio de leis
imutáveis.
A formação
dos mundos ocorre pela condensação da matéria espalhada no espaço,
processo natural ainda observado pela ciência moderna. Estudos atuais em
astrofísica confirmam que sistemas planetários continuam a se formar a partir
de nuvens de poeira e gás cósmico, reforçando a ideia de criação contínua.
Corpos
celestes surgem, transformam-se e desaparecem, assim como ocorre com os seres
vivos. Tudo no Universo é renovação.
6. A Formação dos Seres Vivos
No início,
a Terra apresentava condições caóticas. Com o resfriamento do planeta e a
organização progressiva dos elementos, surgiram as primeiras formas de vida,
adequadas ao meio.
A Doutrina
Espírita ensina que a Terra já continha os germens da vida, que
permaneceram latentes até que as condições ambientais permitissem seu
desenvolvimento. A vida não surgiu ao acaso, mas segundo leis precisas.
A espécie
humana apareceu quando o planeta se tornou apto a recebê-la. A expressão
bíblica de que o homem foi feito do “limo da terra” simboliza a origem
material do corpo, não da alma.
7. Geração Espontânea e Progresso do Conhecimento
A chamada
geração espontânea foi amplamente debatida no século XIX. Kardec, com prudência
metodológica, reconheceu que a ciência ainda investigava se formas simples de
vida poderiam surgir da combinação direta dos elementos.
Hoje, a
ciência avançou significativamente, compreendendo melhor os processos químicos
e biológicos envolvidos na origem da vida. Ainda assim, permanece aberta a
investigação sobre como a vida emergiu inicialmente, o que confirma a postura
espírita: nem afirmação dogmática, nem negação precipitada.
O
Espiritismo admite que, se ocorrer, a geração espontânea se restringe a formas
extremamente simples, jamais a organismos complexos.
8. A Espécie Humana, Adão e as Raças
A
humanidade não descende de um único indivíduo. A figura de Adão representa
simbolicamente um tronco racial ou uma humanidade sobrevivente a grandes
transformações do planeta.
As
diferentes raças humanas explicam-se pela adaptação aos climas, ambientes e
costumes. Apesar das diferenças físicas, todos pertencem à mesma família
espiritual e compartilham o mesmo destino: o progresso.
9. A Pluralidade dos Mundos Habitados
A Doutrina
Espírita ensina que todos os mundos são habitados, cada qual conforme
seu grau de evolução. Limitar a vida inteligente à Terra seria restringir o
poder criador de Deus.
Os seres
que habitam outros mundos possuem corpos apropriados às condições desses
planetas, assim como os peixes são adaptados à água e as aves ao ar. As fontes
de luz e calor podem variar, não se restringindo necessariamente ao Sol.
Essa
pluralidade amplia o horizonte espiritual do ser humano e dissolve concepções
exclusivistas.
Conclusão
A formação
dos mundos e da vida, conforme apresentada no O Livro dos Espíritos,
revela um Universo dinâmico, racional e profundamente moral. Nada é fruto do
acaso; tudo obedece a leis sábias que expressam a vontade divina.
A criação é
contínua, os mundos evoluem, os Espíritos progridem e a vida se renova
incessantemente. Estudar esses princípios é libertar o pensamento de visões
estreitas e compreender que o ser humano é parte ativa de um plano universal em
permanente construção.
A Doutrina
Espírita, ao integrar razão, ciência e espiritualidade, convida-nos a
contemplar a criação não com temor, mas com responsabilidade e reverência.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos,
Livro Primeiro, cap. III, questões 37 a 59.
- Allan Kardec. A Gênese, cap. VI e
X.
- Allan Kardec. Revista Espírita.
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