domingo, 15 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO DOS MUNDOS E DA VIDA
- A Era do Espírito -

Introdução

O Livro Primeiro, capítulo III, de O Livro dos Espíritos, questões 37 a 59, apresenta uma das exposições mais amplas e racionais sobre a formação do Universo, dos mundos e dos seres vivos. Longe de uma leitura mítica ou literalista, a Doutrina Espírita propõe uma visão coerente, progressiva e compatível com a razão, integrando princípios espirituais às leis naturais observáveis.

A Codificação organizada por Allan Kardec não pretendeu substituir a ciência, mas oferecer um quadro filosófico no qual ciência, fé raciocinada e progresso espiritual se harmonizam. A criação não é apresentada como evento pontual do passado, mas como processo contínuo, regido por leis sábias e universais.

1. O Universo como Obra da Inteligência Suprema

A Doutrina Espírita ensina que o Universo é composto por todos os mundos visíveis e invisíveis, por todos os seres — vivos ou inanimados —, pelos astros que se movem no espaço e pelos fluidos que o preenchem.

A razão afasta a hipótese do acaso. O Universo não poderia ter-se criado por si mesmo. Ele é obra de Deus, definido como a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas (O Livro dos Espíritos, q. 1).

Quando o texto bíblico afirma “Deus disse: faça-se a luz”, não descreve um ato mágico, mas simboliza a vontade divina em ação, manifestando-se por meio de leis naturais. A criação, portanto, é racional, ordenada e contínua.

2. A Criação Universal e o Fluido Cósmico

Conforme ensina A Gênese (cap. VI, itens 17 a 19), antes de tudo existia a matéria cósmica primitiva, contendo os elementos materiais, fluídicos e vitais do Universo.

Essa matéria primitiva — também chamada de fluido cósmico universal — é a substância original de onde tudo se forma e para onde tudo retorna. Ela se espalha por todo o espaço e, conforme as condições de tempo e lugar, dá origem a:

  • estrelas e sistemas planetários;
  • corpos materiais em diferentes estados;
  • os princípios da vida orgânica.

A criação não cessou. Deus cria incessantemente. Mundos se formam, evoluem e se desagregam, enquanto outros surgem. A natureza é a expressão permanente da vontade divina.

3. O Mundo Espiritual e a Evolução dos Espíritos

Além do mundo material, existe o mundo espiritual, igualmente criado por Deus e regido por leis próprias. Ele não é um lugar sobrenatural, mas uma dimensão da vida.

A origem exata dos Espíritos permanece envolta em mistério, como afirmam os próprios Espíritos superiores. Contudo, sabe-se que o Espírito progride gradualmente, passando por estágios inferiores até adquirir consciência de si, responsabilidade moral e missão espiritual.

O ser humano não nasce pronto: constrói-se ao longo do tempo, por meio de múltiplas experiências, tanto no plano material quanto no espiritual.

4. A Terra no Processo Criador

A Terra não é estática em seu destino. Ela já atravessou diferentes fases evolutivas e continuará avançando, tanto no aspecto físico quanto moral e intelectual.

Segundo a Doutrina Espírita, os Espíritos que não acompanham o progresso de um mundo são conduzidos a outros, compatíveis com seu grau evolutivo, onde encontram novas oportunidades de aprendizado. Trata-se de pedagogia divina, não de punição.

Esse princípio oferece leitura ética e racional das desigualdades aparentes da vida e da diversidade das condições humanas.

5. Deus e a Ciência: Harmonia, não Conflito

Do ponto de vista espírita, Deus não é um ser antropomórfico, restrito à Terra ou a um povo. Ele é a inteligência suprema que governa o Universo por meio de leis imutáveis.

A formação dos mundos ocorre pela condensação da matéria espalhada no espaço, processo natural ainda observado pela ciência moderna. Estudos atuais em astrofísica confirmam que sistemas planetários continuam a se formar a partir de nuvens de poeira e gás cósmico, reforçando a ideia de criação contínua.

Corpos celestes surgem, transformam-se e desaparecem, assim como ocorre com os seres vivos. Tudo no Universo é renovação.

6. A Formação dos Seres Vivos

No início, a Terra apresentava condições caóticas. Com o resfriamento do planeta e a organização progressiva dos elementos, surgiram as primeiras formas de vida, adequadas ao meio.

A Doutrina Espírita ensina que a Terra já continha os germens da vida, que permaneceram latentes até que as condições ambientais permitissem seu desenvolvimento. A vida não surgiu ao acaso, mas segundo leis precisas.

A espécie humana apareceu quando o planeta se tornou apto a recebê-la. A expressão bíblica de que o homem foi feito do “limo da terra” simboliza a origem material do corpo, não da alma.

7. Geração Espontânea e Progresso do Conhecimento

A chamada geração espontânea foi amplamente debatida no século XIX. Kardec, com prudência metodológica, reconheceu que a ciência ainda investigava se formas simples de vida poderiam surgir da combinação direta dos elementos.

Hoje, a ciência avançou significativamente, compreendendo melhor os processos químicos e biológicos envolvidos na origem da vida. Ainda assim, permanece aberta a investigação sobre como a vida emergiu inicialmente, o que confirma a postura espírita: nem afirmação dogmática, nem negação precipitada.

O Espiritismo admite que, se ocorrer, a geração espontânea se restringe a formas extremamente simples, jamais a organismos complexos.

8. A Espécie Humana, Adão e as Raças

A humanidade não descende de um único indivíduo. A figura de Adão representa simbolicamente um tronco racial ou uma humanidade sobrevivente a grandes transformações do planeta.

As diferentes raças humanas explicam-se pela adaptação aos climas, ambientes e costumes. Apesar das diferenças físicas, todos pertencem à mesma família espiritual e compartilham o mesmo destino: o progresso.

9. A Pluralidade dos Mundos Habitados

A Doutrina Espírita ensina que todos os mundos são habitados, cada qual conforme seu grau de evolução. Limitar a vida inteligente à Terra seria restringir o poder criador de Deus.

Os seres que habitam outros mundos possuem corpos apropriados às condições desses planetas, assim como os peixes são adaptados à água e as aves ao ar. As fontes de luz e calor podem variar, não se restringindo necessariamente ao Sol.

Essa pluralidade amplia o horizonte espiritual do ser humano e dissolve concepções exclusivistas.

Conclusão

A formação dos mundos e da vida, conforme apresentada no O Livro dos Espíritos, revela um Universo dinâmico, racional e profundamente moral. Nada é fruto do acaso; tudo obedece a leis sábias que expressam a vontade divina.

A criação é contínua, os mundos evoluem, os Espíritos progridem e a vida se renova incessantemente. Estudar esses princípios é libertar o pensamento de visões estreitas e compreender que o ser humano é parte ativa de um plano universal em permanente construção.

A Doutrina Espírita, ao integrar razão, ciência e espiritualidade, convida-nos a contemplar a criação não com temor, mas com responsabilidade e reverência.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, Livro Primeiro, cap. III, questões 37 a 59.
  • Allan Kardec. A Gênese, cap. VI e X.
  • Allan Kardec. Revista Espírita.

 

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